Pico petrolífero
O boom do shale não pode perdurar por longo tempo

– As previsões mirabolantes da US Energy Information Administration

por Nick Cunningham

A produção a partir do [de petróleo e gás natural ] xisto (shale) nos EUA cresce a uma velocidade fantástica, mas será que a indústria do shale existirá por um longo período de tempo? Um novo estudo põe em causa as estonteantes projecções para o petróleo e gás a partir do xisto, argumentando que as expectativas de enormes níveis de produção nas próximas décadas estão baseadas em suposições duvidosas.

Um relatório do Post Carbon Institute argumenta que a Agência Internacional de Energia (EIA, na sigla em inglês) está a superestimar o potencial do xisto dos EUA, considerando as projecções "de altamente a extremamente optimistas e, portanto, de realização muito improvável".

O relatório argumenta que apesar de a produção petrolífera ter duplicado em relação aos níveis de 2005, e a de gás do xisto também ter explodido no mesmo período, há problemas subjacentes que atormentam sempre a produção a partir do xisto. Exemplo: os furos do xisto tipicamente vêm a produção esgotar-se em 70 a 90 por cento nos primeiros três anos, ao passo que os campos assistem a uma queda da produção em cerca de 20 a 40 por cento por cano sem novas perfurações.

Isto significa que a indústria tem constantemente de arranjar mais dinheiro para aplicar outra vez na produção, simplesmente para manter o output constante.

Ao mesmo tempo, nem todo o furo de xisto é igual. As áreas núcleo, ou "pontos favoráveis", tipicamente constituem apenas 20 por cento de uma dada operação de xisto. Quando as perfuratrizes de xisto são movidas para além do núcleo, elas tendem a apresentar números de produção menos impressionantes.

O chocante reforço da produção ao longo da última década verificou-se principalmente nestes "pontos favoráveis", uma tendência que se acentuou durante a baixa do mercado principiada em 2014.

Até agora, amplas melhorias na tecnologia de perfuração mais do que compensaram o esgotamento. Os perfuradores de xisto podem ter acesso a uma maior porção de um reservatório do que há apenas alguns anos atrás. Se bem que os furos de xisto sempre tenham sofrido declínios agudos nos seus perfis de produção, a produção geral tendeu a subir ao longo dos últimos anos, exceptuando a queda após o colapso do mercado em 2014.

Mais crescimento está pela frente. A EIA vê os EUA a atingirem um topo de 11 milhões de barris por dia no fim de 2019, o que significa um acréscimo de mais 1 milhão de b/d em relação aos níveis de hoje. É difícil exagerar a significância disto e os ganhos de produção poderiam ainda levar a outra queda de preços.

Mas o longo prazo é outra questão. O Post Carbon Institute diz que a suposição da EIA de forte crescimento durante as próximas várias décadas assume que a indústria produzirá todas as reservas provadas de petróleo e gás, "mais uma alta percentagem dos recursos não provados – em alguns casos mais de 100% – em 2050". A produção do petróleo de xisto dos EUA, de acordo com o 2017 Annual Energy Outlook (AEO2017) da EIA, não atingirá o pico até a década de 2040.

O relatório afirma que este cenário é extremamente optimista e, como tal, provavelmente não acontecerá. O relatório decompõe as principais operações de xisto para explicar o porque. O [campo] Bakken, por exemplo, já está a mostrar alguns sinais de desgaste. "As melhorias na produtividade não aumentaram ou diminuíram de todo excepto em dois municípios, o que indica que localizações disponíveis para furos estão a esgotar-se", argumenta o relatório do Post Carbon Institute.

O [campo] Eagle Ford também está no limite. O relatório diz que a EIA está a superestimar o seu potencial, com altas taxas de densidade de furos e de esgotamento provavelmente a limitar a capacidade da região para manter a produção elevada até a década de 2040. "A EIA tem subestimado a área operacional em 65% quando comparada à actual área perfurada em perspectiva", diz o relatório.

Apesar de o Permiano ser prolífico, o relatório afirma que as suposições a longo prazo da EIA para o Wolfcamp, por exemplo, repousam sobre "vastos recursos adicionais" a serem recuperados.

Por outras palavras, as técnicas de perfuração continuam a melhorar, mas pode simplesmente tornar-se demasiado custoso produzir tanto petróleo quanto o que a EIA supõe que será produzido. Quando a indústria diz que pode produzir um bocado mais de óleo de um furo xisto médio (produtividade do furo mais elevada), isso pode ser verdadeiro, mas não significa necessariamente que o volume total de petróleo e gás que é finalmente recuperado seja maior. As empresas de xisto podem simplesmente acabar por extrair o mesmo volume de recursos de menos furos.

As implicações disto, se verdadeiras, são profundas. "As projecções muito altas e extremamente optimistas do AEO2017 da EIA transmitem um injustificado nível de conforto para a sustentabilidade energética a longo prazo", escreveu o Post Carbon Institute. "Quando os pontos favoráveis estiverem exauridos, é provável que a realidade sejam custos muito mais altos e mais elevadas taxas de perfuração para manter a produção e/ou deter declínios".

Finalmente, argumenta o relatório, previsões róseas reduzem a urgência para o investimento em energias renováveis, pois os decisores políticos mantêm uma visão claramente confiante quanto à situação energética do país. A administração Trump descartou apelos à "independência energética" em favor da "dominância energética". Esta espécie de triunfalismo é perversa e mal informada, de acordo com o relatório do Post Carbon Institute.

07/Fevereiro/2018

[*] Colaborador de Oil Price .

O original encontra-se em http://peakoil.com/production/the-shale-boom-might-not-last-long


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
08/Fev/18