A grande crise financeira
Todos os grandes analistas financeiros afirmam que a crise financeira em
andamento e aprofundar-se é em grande parte o resultado da incerteza do
investidor. Esta verifica-se porque os bancos de investimento, derivativos e
hedge funds colocaram hipotecas sub-primes e títulos lixo
(junk bonds)
de alto risco, bem como outros documentos de dívida mais
confiáveis, em pacotes e venderam-nos a banqueiros institucionais e
privados que por sua vez venderam-nos 'a retalho' por todo o mundo.
As agências de classificação
(rating agencies),
que
são pagas pelos vendedores, deram todas avisos top (AA, AAA) a estes
títulos híbridos, hipotecas e títulos lixo, encorajando
conselheiros de investimentos a empurrarem-nos para clientes com aversão
ao risco à procura de retornos mais elevados do que os Títulos do
Tesouro. A maior parte dos investidores não sabe de quem são e
que papéis eles possuem, nem quanto os seus hedge funds estão a
perder ou já perderam. Aqueles que puderam, caíram fora. Os
bancos estão reticentes em emprestar a qualquer solicitante.
Alavancagem de fundos é uma expressão suja entre prestamistas.
Hedge funds são tanto activos vendidos para pagar empréstimos ou
para não contar o que eles possuem ou possuíram. Os derivativos
foram deflorados. Bancos Centrais nos EUA, Japão e União
Europeia despejaram (e continuam a despejar) mais de US$250 mil milhões
nos bancos privados com a esperança de criar liquidez mas os bancos
não emprestam porque, como me disse um eminente banqueiro em Palm
Springs, "Ninguém sabe que merda recebe (investimentos sem valor)
na sua carteira".
Enquanto isso, a Meanwhile, Goldman Sach, Bear Stearns e Lehman Brothers
estão todos a fechar fundos de investimento em bancarrota ou a tentar
escorá-los. O Fed sustenta todos os piores especuladores em nome da
'salvação do sistema financeiro' de um modo que jamais
sustentaria o fracassado sistema americano de saúde. O sistema
financeiro que tem as 'diarréias' e infusões de fundos do Fed
fracassou em bloquear a 'corrida pela cobertura'.
MOLAS NOS NARIZES
"Cada um por si e não olhe para trás", é a
palavra de ordem dos principais banqueiros de equity. Os Democratas
estão a clamar pelas habituais audiências inconsequentes do
Congresso quanto ao que foi errado. Os deputados Levin e Barney Frank
perguntaram as questões erradas às pessoas erradas
correndo atrás dos sujeitos caídos mais fracos (as agências
de classificação) por sobrevalorizar os negócios
fraudulentos, não os próprios negociantes. As 'merdas' nas
carteiras são grandes e fedorentas, mas ninguém sabe quão
grandes são: US$ 250 mil milhões ou US$ 500 mil milhões.
Há um bocado de banqueiros e hedge funds bilionários a passearem
por aí com molas de roupa invisíveis nos seus narizes.
Onde está Greenspan, que começou toda a fraude com os seus
mercados financeiros de baixos juros e desregulados? O herói grosseiro
de todos os burlões financeiros dos hedge-derivativos-inovativos
sancionou, aprovou e promoveu a pirâmide de enganos. Ele está
fora, a aconselhar o Deutsch Bank e a enganar os banqueiros internacional em
troca de pagamentos de US$ 100 mil pelas suas fracassadas receitas financeiras.
Mas para aqueles especuladores que fizeram uma fortuna e saíram,
Greenspan não faz parte da emergente cultura merdosa. Para eles ele
ainda é o génio financeiro que fez as suas fortunas.
Assim, a menos que os directores de fundos actuem com lisura, esvaziem as suas
carteiras e abram os seus balanços não saberemos quem está
a carregar as merdas. Os grandes desconhecidos incluem os títulos
irredimíveis (unredeemable bonds), as hipotecas sem valor e os hedge
funds sem liquidez. Sem se conhecer a dimensão e o âmbito das
merdas, a grande incerteza congelou a maior parte dos investimentos e
empréstimos o que está a paralisar o sistema financeiro.
Mesmo a Fannie Mae
[1]
e o Freddie Mac
[2]
(a companhias de hipotecas financiadas pelo governo federal) não podem
chegar e comprar as 'merdas' (também conhecidas como 'dívidas
más'), não importa quantas centenas de milhares de milhões
do dinheiro dos contribuintes americanos eles estejam dispostos a gastar.
Todos os magos financeiros, os super-inteligentes conselheiros
científicos e matemáticos que garantiam investimentos a 30% ao
ano tem menos credibilidade do que um sujeito da esquina. Os especuladores
mais arrogantes, pretensiosos e científicos foram humilhados,
especialmente aqueles oráculos que praticavam aquilo que entre os
iniciados é denominado como 'Investimento quantitativo'
('Quantitative
investiment').
O investimento quantitativo (QI), a utilização de complexos
modelos computacionais para tomar decisões de investimento, foi usado e
promovido por alguns dos mais inteligentes e mais altamente considerados
'gurus' da Wall Street. Durante uma década a complexa
modelação matemática produziu lucros
extraordinários para os fundos Renaissance, Goldman Sachs e numerosos
outros administradores de activos e hedge funds. Com a
liquidação maciça de activos para pagar dívidas e o
impulso desesperado pela liquidez, todas as previsões do QI foram pela
janela abaixo. "O Modelo" não pode computar quaisquer crises
que ponham em causa 'tendências históricas'. Os melhores e mais
brilhantes estão desnorteados. A princípio, os génios do
QI disseram que a crise era um problema localizado entre os especuladores das
camadas inferiores dos sub-primes. Mas quando os seus próprios fundos
mergulharam eles culparam investidores histéricos que super-reagiram.
"Um problema de percepções", psicologizaram eles. Mas
os seus fundos continuaram a declinar: o Mercado não estava a actuar
como o seu 'modelo' ditava. Os boatos vicejavam, os cépticos
agitavam-se.
"Qual é o problema: O Mercado ou o Modelo?", perguntou um
praticante do QI aos seus colegas.
A resposta do Mercado: "É o seu estúpido modelo".
Todos os QI
utilizam modelos históricos que extrapolam padrões passados para
o futuro, como se o capitalismo fosse um sistema livre de crise as quais
alteram-se incrementalmente e nas quais os investidores tomavam emprestado
racionalmente para alavancar compras de acordo com a sua capacidade de
restituir quaisquer perdas. Aqui está o folclore da Main-Street entre
correctores a retalho e as contribuições diárias dos
ideólogos do American Enterprise.
A modelação científico-matemática no Grande Casino,
como era de esperar, revelou-se tão falível quanto a numerologia
fiada dos Shamans para a explicação do ciclo da vida.
BURACO NEGRO MÍSTICO
Ninguém está a atirar-se pela janela dos andares mais altos dos
escritórios nos arranha-céus ainda. O que está a
manter baixa a taxa de suicídio é precisamente aquilo que
mantém os investidores na corrida: ninguém sabe quantas centenas
de milhares de milhões de papeis sem valor estão a ser guardados.
Com o enterro da ciência especulativa da modelação
matemática, entrámos agora no período do Buraco Negro
Místico. As grandes casas de investimento e os hedge funds estão
a reter-se quanto a revelações, na esperança de que a
confiança no investimento retorne se os investidores forem mantidos no
escuro acerca de quanto perderam. Isto está um pouco abaixo da Teoria
Económica do Vudú. Como poderia a confiança dos
investidores retornar se eles não sabem que merdas estão na
carteira do Renaissance Funds, do Goldman Sachs, do First Quadrant ou de
qualquer um ou todos dos mil e um Ali Babá hedge funds?
Deixem-nos perder as suas cuecas, escrevem ortodoxos sábios do Mercado
como Marty Wolf no
Financial Times.
"A fim de avaliarem o risco, eles deveriam perder adequadamente.
Salvá-los", argumentam, "é um azar moral". O que
naturalmente significa que se os especuladores hiper e burlões foram
cobertos por um resgate do Banco Federal, eles nada perderão, e
repetirão a burla no futuro. Os resgates
(bailouts)
são uma fórmula para a reincidência na burla. Estes
são, ai de nós, os conselhos dos ortodoxos peritos do mercado.
Os bancos centrais europeus e o US Federal Reserve sabem que classe
representam: o seu grupo de referência são os jogadores e
especuladores reais que existem, não os empresários de manual que
calculam riscos orientados pelo valor. O risco de permitir que os maus rapazes
afundem é que há demasiados deles, a maior parte a trabalharem
nas mais poderosas casas de investimento, a administrar demasiados fundos, para
os mais poderosos financeiros.
"Não há bons financeiros e maus especuladores", disse
um administrador de fundo com inclinações filosóficas (o
qual provavelmente está a carregar merda na sua carteira).
"Estamos todos juntos nisto, se afundarmos assim o fará todo o
sistema financeiro". Será isto um auto-interessado pedido de
solidariedade financeira, um marxista escondido ou um profeta da
perdição? Ninguém sabe até que investiguemos com
profundidade no interior do Buraco Negro da crise financeira. O que não
acontecerá até que as carteiras sejam abertas.
25-26/Agosto/2007
Notas
[1] Fannie Mae: alcunha do Federal National Mortgage, fundo governamental
criado em 1938 a fim de comprar hipotecas de prestamistas e
revendê-las a investidores.
[2] Freddie Mac: alcunha do Federal Home Loan Mortgage Corporation.
[*]
jpetras@binghamton.edu
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/petras08252007.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|