Austrália: o 51º estado dos EUA
por John Pilger
Em Junho deste ano, 26 mil tropas americanas e australianas tomarão
parte no bombardeamento da frágil paisagem da Austrália. Eles
atacarão a Grande Barreira de Corais, acertarão
"terroristas" a tiro e dispararão mísseis guiados por
laser sobre alguns dos mais imaculados territórios sobre a Terra.
Bombardeiros B-1 e B-52 (cada um destes últimos carrega 30 toneladas de
bombas) acabarão o trabalho, juntamente com uma carnificina naval.
Cargas submarinas profundas explodirão onde perigam espécies de
tartarugas nativas. Submarinos nucleares descarregarão seus sonares de
alto nível, os quais destroem a audição de focas e outros
mamíferos marinhos.
Dirigida por satélite a partir da Austrália e do Hawai, a
Operação Talisman Sabre 2007 é a guerra por controle
remoto, concebida para ataques "antecipativos"
("pré-emptive")
a outros países. Os australianos sabem pouco disto. O parlamento
australiano não debateu o assunto, os media não estão
interessados nele. É o resultado de um tratado secreto assinado em 2004
pelo governo John Howard com a administração Bush, o que inclui o
estabelecimento de uma nova e vasta base militar na Austrália Ocidental,
a qual elevará para 738 o total de bases americanas conhecidas no mundo.
Não importa a derrota no Iraque, o império militar americano e
suas ambições estão em crescimento.
A Austrália é importante devido ao notável grau de
servilismo adoptado por Howard, ultrapassando mesmo o de Tony Blair. Já
descrito no
Siydney Bulletin
como o "vice-xerife", Howard não objectou quando Bush, numa
audiência com este, promoveu-o a "xerife do sudeste da
Ásia". Com a aprovação de Washington, ele enviou
tropas australianas e polícia federal para intervir em países
insulares do Pacífico; em 2006 efectuou "mudança de
regime" em Timor Leste, cujo primeiro-ministro Mari Alkatiri, tivera a
coragem de pedir uma participação adequada dos recursos de
petróleo e gás do seu país. A repressão da
Indonésia na Papua Ocidental, onde interesses mineiros americanos
são apresentados como "um grande prémio", é
endossada por Howard.
Este papel sub-imperial tem uma história. Quando seis estados
australianos federaram-se como nação em 1901, "uma
Comunidade
independente e orgulhosa", diziam as manchetes, os
colonos australianos tornaram claro que a independência era a
última coisa que queriam. Eles queriam que a Mãe Inglaterra
fosse mais protectora da sua mais distante colónia a qual, queixavam-se
eles, era ameaçada por uma multidão de demónios, nada
menos que as "hordas asiáticas" que cairiam sobre eles como
que pela força da gravidade. "O enredo total", escreveu o
historiador Manning Clark, "fede nas nossas narinas. Os australianos
outrora rastejaram perante os ingleses. Houve políticos gordos que
ansiavam por um título estrangeiro, assim como suas esposas ansiavam por
um sorriso de reconhecimento da esposa do governador-geral, o qual dizia-se ser
o mais arrogante".
A moderna classe política da Austrália tem a mesma fome de
reconhecimento por parte da grande potência. Na década de 1950, o
primeiro-ministro Robert Menzies permitiu à Grã-Bretanha que
explodisse bombas nucleares na Austrália, enviando nuvens de material
radioactivo entre áreas povoadas. Aos australianos foi contada
só a boa notícia de terem sido escolhidos para esta
privilégio. Um oficial da Royal Air Force foi ameaçado de
processo depois de ter revelado que 400 a 500 aborígenes estavam nas
zonas alvo. "Ocasionalmente nós os levaríamos à
descontaminação", disse ele. "Outras vezes, apenas os
enxotávamos como coelhos". Seguiu-se a cegueira e mortes
inexplicadas. Depois de 17 anos no poder, Menzies foi condecorado pela Rainha
e feito Lord Warden of the Cinque Ports.
Uma máxima não declarada entre os políticos australianos
é de que os primeiros ministros tornam-se "estadistas"
só quando servem interesses imperiais. (Honrosas
excepções tem sido tratadas pela calúnia e
subversão). Na década de 1960, Menzies conluiou-se ao lhe ser
"pedido" para enviar tropas australianos para combaterem pelos
americanos no Vietnam. A China Vermelha estava a vir, disse ele. Howard
é mais extremo; na sua década de poder ele desgastou a
própria base das instituições social-democratas da
Austrália e moldou o seu país como o modelo de uma democracia no
estilo de Washington, onde a única participação popular
é aquela de votar de tantos em tantos anos por dois partidos
"opostos" que partilham quase idênticas políticas
económicas, externa e "culturais".
Por "cultural", leia-se raça, a qual sempre foi importante na
criação de um insidioso estado de medo e submissão. Em
2001 Howard foi reeleito depois de manipular o "assunto das
crianças ao mar", no qual seus conselheiros sénior afirmaram
que refugiados afegãos haviam insensivelmente lançado seus filhos
ao mar a fim de serem resgatados por um vaso naval australiano. Eles
produziram fotografias que se demonstraram falsas, mas só depois de
Howard ter tocado cada nervo xenofóbico do eleitorado branco e que foi
devidamente reeleito. Os dois oficiais que trouxeram a "crise"
à sua inclinação febril foram promovidos depois de um
deles ter admitido que o engano havia "ajudado" o primeiro-ministro.
Num caso mais escandaloso, Howard afirmou que o seu departamento da defesa
estiveram inconsciente de uma outra fuga, um barco golpeado cheio de refugiados
iraquianos e afegãos a dirigir-se para a Austrália até que
finalmente afundou. Um almirante mais tarde revelou que isto também era
falso: foi permitido que 353 pessoas se afogassem, incluindo 146
crianças.
Acima de tudo, foi o controle da dissenção que mudou a
Austrália. A influência de Rupert Murdoch foi crítica,
muito mais do que na Grã-Bretanha. Sempre que Howard ou um dos seus
mais estúpidos ministros quer vergar uma instituição ou
difamar um oponente, eles realizam a tarefa em aliança com um conjunto
de comentadores raivosos, sobretudo os de Murdoch. Como descreve Stuard
MacIntyre num novo livro,
Silencing Dissent,
o colunista do Melbourne Herald-Sun, Andrew Bolt, dirigiu uma campanha para
ridicularizar o independente Australian Research Council o qual, afirmava ele,
havia caído nas mãos de "um clube de esquerdistas" cujo
trabalho era "hostil à nossa cultura, história e
instituições", bem como "investigadores fixados sobre
género e raça". O então ministro da
educação, Brendan Nelson, vetou um permissão de projecto
após outra sem explicação.
O Museu Nacional da Austrália, o centro nacional de apoio à
criança, os corpos políticos aborígenes e outras
instituições independentes foram sujeitas a
intimidação semelhante. Um amigo que possuiu um posto
sénior na universidade contou-me: "Você não ousa
falar. Você não ousa opor-se ao governo ou à
Austrália corporativa". Como aumentam os crimes corporativos
embaraçosos, o tesoureiro, Peter Costello, anunciou alegremente uma
proscrição sobre a moral ou boicotes éticos de certos
produtos. Não houve debate; os media simplesmente contaram. Um dos
conselheiros sénior de Costello, David Gazard, recentemente
distinguiu-se num seminário dirigido por americanos em Melbourne,
organizado pelo Public Relations Institute of Australia, aos quais,
àqueles que pagaram A$595, foram ensinados o truques de misturar
activismo com "terrorismo" e "ameaça à
segurança". As sugestões incluíam: "Chamem-nos
bombistas suicidas
façam-nos todos parecer como terroristas
abraçadores de árvores
[1]
, fumadores de droga, sanguinário licenciados pela universidade,
anti-progresso
" Eles receberam conselhos sobre como montar falsos
grupos comunitários e falsificar estatísticas.
Mestres-escola que não arvoram a bandeira ou organizadores de concertos
de música que desencorajam o comparecimento de brutamontes racistas
embrulhados na bandeira correm o risco de uma dose do veneno de Murdoch.
Igualmente, se você revela vergonha pelo papel de vassalo da
Austrália será considerado "anti-australiano"
e, sem ironia, "anti-americano". Poucos australianos estão
conscientes de que Murdoch, que domina a imprensa, abandonou a sua
própria cidadania australiana de modo a que pudesse ter a rede da
Fox TV nos EUA. A Universidade de Sidney está para abrir um Centro de
Estudos dos Estados Unidos, apoiado por Murdoch depois de ele se ter queixado
da incapacidade dos australianos de apreciarem os benefícios do banho de
sangue no Iraque.
Tendo recentemente falado em multitudinárias reuniões
públicas em Brisbane, Sydney e Melbourne, não tenho
dúvidas de que muitos estão profundamente preocupados porque as
liberdades no seu idílico país estão a fugir para longe.
Foi-lhes dado um lembrete vivo disto no outro dia quando o vice-presidente Dick
Cheney veio a Sydney "agradecer" a Howard pelo seu apoio. O governo
do estado de New South Wales apressou-se a aprovar uma lei que permitia aos 70
guardas do serviço secreto de Cheney portarem as suas armas. Com a
polícia, eles ocuparam o centro de Sydney e fecharam a Harbour Bridge e
grande parte da histórica área Rocks. Dezassete filas de
automóveis desfilaram teatralmente por ali, como se Howard estivesse a
gabar-se para Cheney: "Olhem para o meu controle sobre esta sociedade,
olhem para o meu submisso país". Mas o seu visitante e mentor
é um homem que, tendo-se recusado a combater no Vietnam, trouxe a
tortura de volta e mentiu incessantemente acerca do Iraque, que ganhou
milhões em opções de acções com os lucros da
carnificina da sua companhia Haliburton e que vetou a paz com o Irão.
Quase todo o discurso feito por ele inclui uma ameaça.
Por qualquer padrão do direito internacional, Cheney é um grande
criminoso de guerra, mas foi deixado a um pequeno e corajoso grupo de
protestatários sustentar o mito australiano da rebelião com
princípios e enfrentar a polícia. O líder do Partido
Trabalhista da oposição, Kevin Rudd, a
personificação da submissão, chamou-os "feras
violentas". Um dos protestários tinha 70 anos de idade. No dia
seguinte, a manchete no
Sydney Morning Herald
dizia: "Terroristas têm ambições de império,
afirma Cheney". A ironia era excelente, ainda que não intencional.
01/Março/2007
[1] Expressão pejorativa aplicada aos ecologistas.
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=429
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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