As bombas de Londres cabem também ao novo primeiro-ministro

por John Pilger

Cartoon de Latuff. Assim como as bombas de Londres no verão de 2005 foram bombas de Blair, a consequência inevitável do ataque ilegal do seu governo ao Iraque, da mesma forma a bombas potenciais no verão de 2007 são bombas de Brown.

Gordon Brown, o sucessor de Blair como primeiro-ministro, tem sido um indefectível apoiante do banho de sangue não provocado cujas vítimas agora equivalem às do genocídio no Rwanda, segundo o cientista americano do Johns Hopkins School of Public Health que dirigiu o inquérito de 2006 sobre mortes de civis no Iraque. Enquanto Tony Blair procurou desacreditar este estudo, cientistas do governo britânico louvaram-no secretamente como "bem conduzido e testado" e como uma "subestimação da mortalidade". A "subestimação" era de 655 mil homens, mulheres e crianças. Este número aproxima-se agora de um milhão. É o crime do século.

No seu discurso do primeiro dia à porta da Downing Street, 10, e posteriormente perante o Parlamento, Brown nem mesmo prestou uma homenagem verbal àqueles que hoje estariam vivos se o seu governo – e o era seu governo, tanto quanto de Blair – não se houvesse posto a reboque do de Bush numa carnificina justificada com mentiras confirmadas. Não disse nada, nem uma palavra.

Nada disse acerca da acréscimo de milhares de crianças iraquianas mortas por doenças evitáveis – número que duplicou desde a invasão – provocado pela deliberada destruição de instalações de saneamento básico e tratamento de água. Nada disse acerca dos pacientes nos hospitais que morrem todos os dias por precisarem de equipamentos tão básicos como uma seringa. Nada disso acerca do maior êxodo de refugiados desde a Naqba dos palestinos. Nada disse acerca da derrota do seu governo no Afeganistão, e de como o exército britânico e os seus aliados da NATO estão a matar civis, incluindo famílias inteiras. Tipicamente, em 29 de Junho, forças britânicas pediram ataques aéreos sobre uma aldeia, bombardeamento que comprovadamente levou à morte de 45 pessoas inocentes – quase tantas quanto o número de mortos nas bombas de Londres em Julho de 2005. Compare a reacção, ou antes o silêncio. Eles eram apenas muçulmanos. E os muçulmanos são as vítimas mais numerosas de um terrorismo cujas fontes principais são Washington, Tel Aviv e Londres.

E nada disse acerca do papel do seu governo na restabelecimento do Afeganistão como o maior fornecedor de ópio do mundo, resultado directo da invasão de 2001. Qualquer traficante nas ruas de Glascow terá o material, directamente de senhores da guerra pagos pela CIA e em cujo nome soldados britânicos estão a matar e a morrer.

Ele nada disse acerca de parar isto. Nem uma palavra. Nem uma pista.

Será que os mortos riem? Na nova lista de prioridades do primeiro-ministro estava "estender o modo de vida britânico".

O tesoureiro do maior desastre da política externa britânica da era moderna, Brown nem mesmo podia pronunciar o seu nome, não se incomodou em encontrar-se com as famílias de militares que aguardavam para falar com ele. Três soldados britânicos foram mortos no primeiro dia.

Terá havido algo como o tsunami de entusiasmo que cercou a saída de Blair e a elevação de Brown? Sim, houve. Pense numa década atrás. Blair, escreveu Hugo Young do Guardian, "quer criar um mundo que nenhum de nós tenha conhecido, onde as leis da gravidade política sejam derrubadas", um mundo onde "a ideologia tenha-se rendido inteiramente aos 'valores' ". O novo ministro das Finanças, exultou o Observer, "anunciaria o mais radical orçamento de bem estar social desde a Segunda Guerra Mundial".

Os "valores" eram falsificados, assim como a nova política. A um truque administrado pelos media seguia-se outro quando Brown deliciava o mercado de acções e confortava os muito ricos e celebrava o império, e ignorava a nostalgia do eleitorado britânico por uma restauração dos serviços públicos tão gravemente prejudicado por Margaret Thatcher. Uma das primeiras decisões de Harriet Harman, a primeira secretária de Segurança Social de Blair e feminista declarada, foi abolir a ajuda de bem estar (welfare premium) destinada a pais solteiros, apesar da sua promessa perante a Casa dos Comuns de que o Partido Trabalhista se opunha a este empobrecimento através de cortes inspirados pelos Conservadores. Hoje, Harman é a vice-líder do partido e, como todas as "novas caras" na mesa do gabinete, com "planos para curar velhas feridas" (The Guardian), ela votou por uma invasão que destruiu as vidas de dezenas de milhares de mulheres.

Algum feminismo

E quando Blair finalmente saiu, aqueles deputados que o apoiavam e que lhe fizeram uma ovação de pé acabaram por certificar o parlamento como um lugar de mínima consequência para a democracia britânica. Os cortesãos que relataram esta desgraça, com a reverência de Richard Dimbleby usada para a realeza, estão manchados com o sangue derramado por este actor de segunda classe e criminoso de primeira. Eles agora agitam-se quanto ao mais recente comunicado de imprensa da polícia. Que o absurdo da partida de Blair e o silêncio e cumplicidade de Brown – gémeos políticos pouco importando as suas quezílias – possa ter provocado os ataques de Londres e Glascow não tem interesse. Enquanto o crime do século perdurar, quase certamente haverá outros.

Vergonha.

05/Julho/2007
O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=445

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
18/Jul/07