A ascensão do novo inimigo dos EUA
por John Pilger
Caí em Paradiso, a última zona da classe média antes do
bairro La Vega, que escorrega por uma ravina abaixo como se fosse
atraído pela força da gravidade. Previa-se uma tempestade e as
pessoas estavam assustadas, recordando os escorregamentos de lamas que tiraram
a vida a 20 mil pessoas. "Porque é que está aqui?"
perguntou o homem sentado em frente de mim no autocarro-jipe apinhado que
roncava pela colina acima. Como tanta gente na América Latina, tinha ar
de velho, mas não era. Sem esperar pela minha resposta, enumerou porque
é que apoiava o presidente Chavez: escolas, clínicas, comida
acessível, "a nossa constituição, a nossa
democracia" e "pela primeira vez, o dinheiro do petróleo vem
para nós". Perguntei-lhe se ele pertencia ao MRV, o partido de
Chavez. "Não, nunca estive em nenhum partido político;
só lhe posso dizer é como é que a minha vida mudou, como
eu nunca tinha sonhado".
Foram testemunhos simples como este, que ouvi vezes sem conta na Venezuela, que
estão a estilhaçar o espelho dum lado só entre o ocidente
e um continente que se está a erguer. Por erguer, quero referir o
fenómeno de milhões de pessoas que se movimentam de novo,
"como leões depois da sesta / Em número
invencível", escreveu o poeta Shelley em 'The Mask of Anarchy'.
Isto não é sentimental; está a surgir uma epopeia na
América Latina que exige a nossa atenção para além
dos estereótipos e clichés que reduzem sociedades inteiras ao seu
grau de exploração e de dispensabilidade.
Para o homem no autocarro, e para Beatrice cujos filhos estão a ser
vacinados e a aprender história, arte e música pela primeira vez,
e para Celedonia, de setenta anos, que sabe ler e escrever pela primeira vez, e
para Jose cuja vida foi salva por um médico a meio da noite, o primeiro
médico que ele viu na sua vida, Hugo Chavez não é um
"provocador" nem um "autocrata" mas um humanitário e
um democrata que reúne quase dois terços do voto popular,
reconhecido pelas vitórias em nada menos do que nove
eleições. Comparem isto com o quinto do eleitorado
britânico que reinstalou Blair, um autêntico autocrata.
Chavez e o levantamento de movimentos sociais populares, da Colômbia
até à Argentina, representam uma mudança radical, sem
derramamento de sangue por todo o continente, inspirada pelas grandes lutas de
independência que começaram com Simón Bolívar,
nascido na Venezuela e que levou os ideais da Revolução Francesa
para sociedades intimidadas pelo absolutismo espanhol. Bolivar, tal como
Guevara nos anos 60 e Chavez nos dias de hoje, percebeu como era o novo senhor
colonial do norte. "Os EUA", disse em 1819, "parecem destinados
pelos fados a infestar a América com a miséria em nome da
liberdade".
Na Cimeira das Américas em Quebec City em 2001, George W. Bush anunciou
a última miséria em nome da liberdade sob a forma dum acordo da
Área de Comércio Livre das Américas (ALCA). Este
permitiria aos Estados Unidos impor finalmente o seu "mercado"
ideológico, o neoliberalismo, em toda a América Latina. Era o
sucessor natural do Acordo de Comércio Livre Norte-Americano de Bill
Clinton, que transformou o México numa oficina americana de trabalho
escravo. Bush gabou-se de que seria lei em 2005.
Em 5 de Novembro, Bush chegou à cimeira de 2005 no Mar del Plata,
Argentina, para ouvir dizer que o seu ALCA nem sequer constava na agenda. Entre
os 34 chefes de estado estavam novas caras, rebeldes e por detrás de
todas elas estavam populações que já não
estão dispostas a aceitar as tiranias dos negócios apoiadas pelos
EUA. Nunca antes os governos latino-americanos tiveram que consultar os seus
povos sobre pseudo-acordos deste tipo, mas agora têm.
Na Bolívia, nos últimos cinco anos, os movimentos sociais
têm-se livrado de governos e de corporações estrangeiras,
tais como a tentacular Bechtel, que tentou impor o que as pessoas chamam de
'loucura' capitalista total, a privatização de quase tudo, e em
especial o gás natural e a água. A seguir ao Chile de Pinochet, a
Bolívia iria ser um laboratório neoliberal. Os mais pobres dos
pobres foram sobrecarregados com mais de dois terços das suas
míseras receitas até pela água da chuva.
Quer nas ruas expostas, gélidas, calcetadas de El Alto, a 4 000 metros
de altitude nos Andes, quer nas casas de blocos de cimento de antigos mineiros
e 'campesinos' expulsos das suas terras, tive discussões
políticas dum tipo raras vezes desencadeado na Grã-Bretanha ou
nos EUA. Eram directas e eloquentes. "Porque é que nós
somos tão pobres", dizem, "se o nosso país é
tão rico?" Porque é que os governos nos mentem e
representam poderes exteriores?" Referem-se aos 500 anos de conquista
como se fosse uma presença viva, o que é um facto, se fizermos um
percurso a partir da pilhagem espanhola de Cerro Rico, uma colina de prata
explorada pelo trabalho de escravos indígenas e que o Império
espanhol subscreveu durante três séculos. Quando a prata acabou,
havia o estanho, e quando as minas foram privatizadas nos anos 70 por ordem do
FMI, o estanho entrou em colapso, assim como 30 mil postos de trabalho. Quando
a folha da coca o substituiu na Bolívia, mascar coca mascara a
fome o exército boliviano, forçado pelos EUA,
começou a destruir as plantações de coca e a encher as
prisões.
Em 2000, estourou a rebelião aberta contra os oligarcas de
negócios brancos e contra a embaixada americana cuja fortaleza se ergue
como um Vaticano andino no centro de La Paz. Nunca se tinha visto uma coisa
assim, porque saiu da maioria da população índia
"para proteger a nossa alma indígena". A herança
espanhola é um racismo aberto contra as populações
indígenas por toda a América Latina. Foram desprezados ou
invisíveis, ou vistos como coisas exóticas para turistas: as
mulheres com os seus chapéus de feltro e as suas saias coloridas. Nada
mais. Dirigidas por visionários como Oscar Olivera, as mulheres de
chapéu de feltro e saias coloridas cercaram e fecharam a segunda cidade
do país, Cochabamba, até que a água fosse devolvida
à propriedade pública.
Todos os anos, a partir daí, o povo tem travado uma guerra pela
água ou pelo gás: essencialmente uma guerra contra a
privatização e a pobreza. Depois de expulsar o presidente
Gonzalo Sanchez de Lozada em 2003, os bolivianos votaram num referendo a favor
da democracia real. Por intermédio dos movimentos sociais exigiram uma
assembleia constituinte semelhante à que foi fundada pela
revolução bolivariana de Chavez na Venezuela, conjuntamente com a
rejeição da ALCA e de todos os outros acordos de
"comércio livre", a expulsão das companhias de
água transnacionais e um imposto de 50 por cento sobre a
exploração de todos os recursos energéticos.
Quando o presidente substituto, Carlos Mesa, se recusou a implementar o
programa, foi forçado a resignar. No próximo mês, vai haver
eleições presidenciais e a oposição Movimento para
o Socialismo (MAS) pode vir a derrubar a velha ordem. O líder é
um indígena ex-cultivador de coca, Evo Morales, a quem o embaixador
americano comparou com Osama Bin Laden. Na realidade, é um social
democrata que, para muitos do que fecharam Cochabamba e desfilaram montanha
abaixo desde El Alto, é demasiado moderado.
"Não vai ser fácil", disse-me Abel Mamani, o
presidente indígena das Comissões de Bairros de El Alto. "As
eleições não vão ser uma solução,
mesmo que ganhemos. O que precisamos como garantia é a assembleia
constituinte, onde possamos construir uma democracia baseada não no que
os EUA querem, mas na justiça social". O escritor Pablo Solon,
filho do grande muralista político Walter Solon, disse, "A
história da Bolívia é a história do governo por
detrás do governo. Os EUA podem criar uma crise financeira; mas na
realidade para eles isto é ideológico; dizem que não
aceitarão outro Chavez".
O povo, contudo, não aceitará outro traidor
pró-Washington. A lição é o Equador, onde um
helicóptero salvou Lucio Gutierrez quando ele fugiu do palácio
presidencial em Abril passado. Tendo ganho poder com a aliança com o
movimento indígena Pachakutik, foi o "Chavez equatoriano"
até se afogar num escândalo de corrupção. Para os
latino-americanos vulgares, a corrupção do topo já
não tem perdão. Essa é uma das duas razões para o
marcar passo do governo de Lula do Partido dos Trabalhadores, no Brasil; a
outra é a prioridade que ele deu a uma agenda económica do FMI,
em detrimento do seu próprio povo. Na Argentina, os movimentos sociais
afastaram cinco presidentes pró-Washington em 2001 e 2002. No Uruguai,
a Frente Ampla, os herdeiros socialistas dos Tupamaros, os guerrilheiros dos
anos 70 que combateram uma das mais cruéis campanhas terroristas da CIA,
formaram um governo popular no ano passado.
Os movimentos sociais são agora uma força decisiva em todos os
países da América Latina mesmo num estado de medo como
é a Colômbia de Alvaro Uribe Velez, o vassalo mais leal de Bush.
No mês passado, os movimentos indígenas desfilaram por todas as 32
províncias da Colômbia exigindo o fim dum "mal tão
grande como uma espingarda": o neoliberalismo. Por toda a América
Latina, Hugo Chavez é o Bolivar moderno. As pessoas admiram a sua
imaginação política e a sua coragem. Só ele teve a
coragem de descrever os Estados Unidos como uma fonte de terrorismo e Bush como
o 'Señor Peligro'. É muito diferente de Fidel Castro, a quem
respeita. A Venezuela é uma sociedade extraordinariamente aberta com
uma oposição livre que é rica e ainda poderosa.
À esquerda, há os que se opõem ao estado, por
princípio, acham que as suas reformas atingiram o seu limite, e querem
que o poder saia directamente da comunidade. Dizem-no energicamente, mas
apoiam Chavez. Um jovem e fluente anarquista, Marcel, mostrou-me a
clínica onde dois médicos cubanos salvaram a sua namorada. (Num
acordo de permuta, a Venezuela fornece petróleo a Cuba a troco de
médicos).
À entrada de cada 'barrio' há um supermercado estatal, onde tudo,
desde os alimentos essenciais até ao detergente para a loiça
custa menos 40 cêntimos do que nas lojas comerciais. Apesar das
acusações falsas de que o governo instituiu a censura, a maior
parte dos media mantém-se violentamente anti-Chavez: uma grande parte
destes está nas mãos de Gustavo Cisneros, o Murdoch da
América Latina, que apoiou a tentativa fracassada para depor Chavez. O
que é impressionante é a proliferação de
estações de rádio comunitárias cheias de
vitalidade, que desempenharam um papel crítico no salvamento de Chavez
no golpe de Abril de 2002, apelando às pessoas para se manifestarem em
Caracas.
Embora o mundo olhe para o Irão e para a Síria como o
próximo ataque de Bush, os venezuelanos sabem que podem ser eles os
próximos. A 17 de Março, o
Washington Post
noticiou que Feliz Rodríguez, "um ex-operacional da CIA, bem
relacionado com a família Bush" tinha tomado parte no planeamento
do assassinato do presidente da Venezuela. A 16 de Setembro, Chavez disse,
"tenho provas de que há planos para invadir a Venezuela. Mais
ainda, temos documentação: quantos bombardeiros vão
sobrevoar a Venezuela no dia da invasão... os EUA estão a
efectuar manobras na ilha de Curaçao. É a chamada
Operação Balboa". Depois disso, documentos internos do
Pentágono, revelados por fuga de informação, identificavam
a Venezuela como uma "ameaça pós-Iraque" exigindo um
planeamento de "espectro total".
O homem-velho-novo no jipe, Beatrice e os seus filhos saudáveis e
Celedonia com a sua "nova auto-estima", são na verdade uma
ameaça a ameaça dum mundo alternativo, decente que alguns
lamentam já não ser possível. Pois é
possível sim senhor, e merece o nosso apoio.
Publicado pela primeira vez em
www.newstatesman.co.uk
.
O original encontra-se em
http://pilger.carlton.com/print
.
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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