A ameaça real que enfrentamos é Blair
por John Pilger
Se a alegada conspiração para atacar aviões de carreira
que partiam de Londres fosse verdadeira lembrem as mentiras que levaram
à invasão do Iraque, e o raid a uma "célula
terrorista" em Londres então há uma pessoa que afinal
das contas tem de ser culpada, tal como em 7 de Julho do ano passado.
Então foram as bombas de Blair. Quem não acreditaria que 52
londrinos hoje estariam vivos se o primeiro-ministro tivesse recusado juntar-se
a Bush no seu ataque de pirataria ao Iraque? Um comité parlamentar
disse isso, assim como o MI5, o Foreign Office, Chatham House
[1]
e os inquéritos de opinião.
Um oficial da Polícia Metropolitana, Paul Stephenson, afirma que a
conspiração de Heathrow "pretendia ser assassínio em
massa numa escala inimaginável". Os inquéritos
independentes mais confiáveis colocam as mortes de civis no Iraque,
resultante da invasão por Bush e Blair, acima das 100 mil pessoas. A
diferença entre o susto de Heathrow e o Iraque é que o
assassínio em massa numa escala inimaginável realmente aconteceu
no Iraque.
Por qualquer padrão de direito internacional, desde Nuremberg aos
acordos de Genebra, Blair é um grande criminoso de guerra
prima facie.
As acusações contra ele aumentam. A mais recente é a
sua conivência com o estado israelense nos seus deliberados e criminosos
ataques a civis. Enquanto crianças libanesas estavam a ser enterradas
debaixo de bombas israelenses ele recusou-se a condenar seus assassinos ou
mesmo a apelar para que desistissem. Aquele cessar fogo que foi negociado nada
lhe deve, excepto o seu desgraçado atraso.
Não só é claro que Blair sabia acerca dos planos de Israel
como ele aludiu aprovadoramente ao objectivo final de um ataque ao Irão.
Leiam o seu neurótico discurso em Los Angeles, no qual descreveu um
"leque de extremismos", que se estende desde o Hezbollah ao
Irão. Ele não apresentou nem um indício do leque de
injustiça e ilegalidade da ocupação da Palestina por
Israel e da sua devastação do Líbano. Nem tentou conter a
actual intolerância contra todos os árabes da parte do ocidente e
do regime racista de Tel Aviv. Suas referências a "valores"
são palavras de código para uma cruzada contra o Islão.
O extremismo de Blair, tal como o de Bush, está enraizado na
violência pretensamente virtuosa do poder messiânico desenfreado.
Ela está em conflito total com a Grã-Bretanha moderna,
multi-cultural e secular. Ele envergonha esta sociedade. Nestes dias elas
está mais ultrajada do descrente, pois ele nos põe em perigo e
nos trai na sua vassalagem ao fanático religioso de Washington e aos
limpadores biblo-étnicos de Israel. Ao contrário dele, os
israelenses pelo menos são honestos: "Devemos usar o terror, o
assassínio, a intimidação, o confisco de terras e o corte
de todos os serviços sociais para livrar a Galileia da sua
população árabe" disse o primeiro-ministro fundador
de Israel, David Ben-Gurion. Meio século depois, Ariel Sharon afirmou:
"É dever dos líderes israelenses explicam à
opinião pública ... que não pode haver sionismo,
colonização ou estado judeu sem a remoção
(eviction)
dos árabes e a expropriação das suas terras". O
actual primeiro-ministro, Ehud Olmert, disse ao Congresso dos EUA:
"Acredito no direito eterno e histórico do nosso povo a toda esta
terra [ênfase sua]".
Blair apoiou entusiasticamente esta barbárie. Em 2001, a imprensa
israelense revelou que ele havia dado secretamente "sinal verde"
à sangrenta invasão de Sharon da Cisjordânia (West Bank),
cujos planos foram-lhe mostrados previamente. A Palestina, Iraque,
Líbano serão de admirar os ataques de 7 de Julho e o susto
deste mês em Heathrow? A CIA chama a isto "blowback". Em 12
de Agosto o
Guardian
publicou um editorial ("The challenge for us all"), o qual dizia
asneiras acerca de como "um número significativo de jovens havia
sido alienado da cultura [muçulmana]", mas não disse nem uma
palavra sobre como o desastre do Médio Oriente de Blair foi a fonte da
sua alienação. Uma simulação polida é
sempre de bom tom nas descrições políticas
britânicas, que acenam com expressões como "desviado" e
"inadequado" e suprimem outras como "comportamento
criminoso".
Vá às áreas muçulmanas e ficará
impressionado por um medo que recorda o pesadelo anti-semita dos judeus nos
anos 1930, e por uma cólera gerada quase inteiramente por "um duplo
padrão percebido na política externa dos governos
ocidentais", como admite o Home Office. Isto é sentido
profundamente por muitos jovens asiáticos que, longe de estarem
"alienados da sua cultura", acreditam que estão a defende-la.
Quanto tempo mais estaremos nós preparados para aguentar a ameaça
à nossa segurança que vem de Downing Street? Ou esperamos pelo
"inimaginável"?
21/Agosto/2006
[1] Nome pelo qual é conhecido The Royal Institute of International
Affairs.
O original encontra-se em
http://www.newstatesman.com/200608210022
e é transcrito em
http://www.johnpilger.com
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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