Cambodja: uma vítima da 'ajuda'
por John Pilger
Visto do ar, parecia não estar ninguém ali, nenhum movimento, nem
mesmo um animal, como se a imensa população asiática
houvesse parado no rio Mekong. Mesmo a colcha de retalhos dos campos de arroz
era quase indiscernível; nada parecia ter sido plantado ou estar a
crescer, excepto a floresta e linhas de altas ervas selvagens. À beira
de aldeias desertas, muitas vezes seguindo um padrão de crateras de
bombas, a erva seguia linhas rectas; fertilizada por composto humano, pelos
remanescentes de milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, ela
marcou sepulturas comuns num país em que até dois milhões
de pessoas, ou seja, entre um terço e um quarto da
população, estão "faltando".
Este foi o Cambodja que encontrei há 26 anos atrás, no rastro do
Khmer Rouge, cujo domínio assassino foi seguido por um inferno de bombas
americanas. Pouco tempo depois, Jim Howard, engenheiro senior e bombeiro da
entidade de beneficência britânica Oxfam, chegou e enviou o seu
primeiro telegrama: "Cinquenta a oitenta por cento de
destruição material e humana é a realidade
terrível. Cem toneladas de leite por semana necessárias, por ar
e mar, durante os próximos dois meses a começar já,
repito, já".
Então começou uma das mais arrojadas operações de
ajuda do século XX, a qual ultrapassou um embargo americano e
britânico destinado a punir o libertador do Cambodja, o Vietnam.
Através da fina engenhosidade e visão política das suas
acções e campanhas internas, o Oxfam salvou e recuperou
incontáveis pessoas. Posteriormente, ao exigir que o ocidente parasse
de apoiar o Khmer Rouge no exílio, a Oxfam incorreu na hostilidade dos
governos Thatcher e Reagan e foi ameaçada com a perda do seu estatuto de
entidade caritativa isenta de impostos. Isto era claramente destinado a servir
de advertência às organizações de ajuda
independentes, ou "ONGs", para que não se tornassem demasiado
"radicais". Muitas desde então abraçaram uma
versão de corporativo e uma aproximação ao governo
britânico, cujas políticas comerciais neoliberais continuam a ser
uma fonte de grande parte da pobreza do mundo.
Em 27 de Maio, a organização de vigilância ActionAid
publicou
um extraordinário relatório de condenação, RealAid
: uma agenda para fazer a ajuda funcionar. Com a reunião do G8 em
Gleneagles, na Escócia, em Julho, e o governo Blair (e outros governos
europeus) a propagarem o disparate de que está ao lado dos pobres, o
relatório revela que o governo está a inflar em um terço o
valor da sua ajuda que já é mínima aos países
pobres. E acrescenta que a maior parte de toda a ajuda ocidental é
realmente "ajuda fantasma", o que significa que nada tem a ver com a
redução da pobreza.
O estudo Action Aid descreve um regabofe de "assistência
técnica" e "consultorias" com preços
exagerados, de carreirismo e contabilização deficiente. Os
britânicos frequentemente exageram os seus números da ajuda (com a
inclusão de reduções na dívida); e os EUA atam a
sua ajuda ao comércio e ideologia aos seus "interesses". A
ajuda real, de facto, representa apenas 0,1 por cento do rendimento nacional
combinado dos países ricos. Comparado ao "objectivo"
mínimo das Nações Unidas de 0,7 por cento, isto mal chega
a umas migalhas.
O Cambodja é um exemplo excelente. Apesar de ser um dos países
mais pobres do mundo, nunca foi permitido ao Cambodja que se recuperasse do
trauma infligido por Richard Nixon, Henry Kissinger e Pol Pot. Durante a
década de 1980, depois de Pol Pot ser expulso pelos vietnamitas, um
embargo americano e britânico tornaram a reconstrução quase
impossível. Ao invés disso, foi inventada uma
"resistência" pelos americanos, com a SAS britânica
contratada para treinar os Khmer Rouge em campos secretos na Tailândia e
na Malásia. Em 1990, quando as Nações Unidas finalmente
chegaram aos Cambodja para organizar a "democracia", isto trouxe
corrupção numa escala sem precedentes, bem como SIDA e
"ajuda". Isto foi deturpado como um "triunfo" da
"comunidade internacional".
O Cambodja hoje é uma vítima desta "ajuda". Tal como
em África, os "doadores" (o ocidente e o Japão)
perpetuaram os mitos de um "caso perdido": que os cambodjanos
não podem fazer nada por si próprios e que ajuda genuína
ao desenvolvimento e capitalismo predador são compatíveis.
Não há símbolo mais adequado para o Cambodja do que as
florescentes oficinas de exploração
(sweatshops)
que fabricam bens por uma fracção do seu preço de retalho
no ocidente, fazendo vista grossa a lugares onde crianças brincam junto a
esgotos a ceu aberto transmissores de malária.
Naturalmente, ajuda falsificada ou "fantasma" e capitalismo rapinante
são compatíveis. O ActionAid menciona citações de
Brad Adams do Human Rights Watch: "Na década de 1980, havia ali
uma T-shirt popular que satirizava os anúncios de recrutamento do US
Army com o slogan, 'Aliste-se no exército. Viaje para terras
exóticas e distantes. Encontre pessoas estimulantes e inabituais. E
mate-as'. Neste novo milénio, isto podia ser reformulado: 'Aliste-se
na comunidade de ajuda. Viaje para terras exóticas e distantes.
Encontre pessoas estimulantes e inabituais. E ganhe uma fortuna' ".
Cerca da metade de toda a ajuda ao Cambodja é gasta em
"assistência técnica", ou AT. Entre 1999 e 2003 esta
montou a 1,2 mil milhões de dólares. O que é AT?
É uma invasão de "conselheiros internacionais" com os
quais foram gastos mais de 70 milhões de dólares só em
2003. Some-os aos "consultores internacionais", cada um dos quais
custam mais de 159 mil dólares. Em contraste, o custo de um trabalhador
genuíno em ajuda externa numa ONG verdadeiramente independente é
menos de 45 mil dólares, e o custo de recrutar um perito cambodjano
é um oitavo disto.
Mais de 740 conselheiros e peritos estrangeiros ganham aproximadamente tanto
quanto 160 mil funcionários civis cambodjanos, os quais recebem
tão pouco como 25 dólares por mês. Em muitos
ministérios, o pagamento de conselheiros estrangeiros excede todo o
orçamento anual. É mais do que o dobro do orçamento do
Ministério da Agricultura e quatro vezes aquele do Ministério da
Justiça.
Os trabalhadores estrangeiros da ajuda queixam-se constantemente acerca da
corrupção local, muitas vezes com razão. Mas eles
raramente identificam e medem a sua própria corrupção
legitimizada. "Não tem havido qualquer análise
sistemática da efectividade da AT no Cambodja", afirma a ActionAid.
"Responsáveis do governo do Cambodja sugeriram que isto é
porque os doadores não querem reconhecer a ineficácia da sua
ajuda". O Conselho para o Desenvolvimento do Cambodja diz que os
estrangeiros criam sistemas paralelos ao governo. Eles não transferem
capacidade. Os peritos apenas fazem relatórios que ninguém
lê... os doadores queixam-se sempre acerca da falta de recursos humanos
[mas] os cambodjanos são seres humanos..."
O relatório cita um esquema para proteger aldeões de
inundações no qual está envolvido o Departamento de
Desenvolvimento Internacional britânico. Apesar de ser promovido como
"baseado na comunidade", três quartos do orçamento
está a ser gasto com consultores estrangeiros, gabinetes e
administração. O Cambodja tem três planos
económicos nacionais distintos, cada um deles concebido por uma
agência estrangeira diferente. Um dos maiores doadores é a
agência USAID do governo americano, notória pelas suas sangrentas
intervenções políticas por todo o mundo. A USAID financia
grupos cambodjanos de oposição, "conselheiros de direitos
humanos" e jornais que estão alinhados à ideia de Bush de
"boa governação". Mesmo a ajuda humanitária
mais básica está ligada aos negócios americanos. Os sais
de rehidratação oral, por exemplo, que nos trópicos
são essenciais, devem ser comprados nos Estados Unidos a um preço
cinco vezes maior do que o do mesmo produto fabricado no Cambodja.
Há pessoas boas nas ONGs estrangeiras no Cambodja, e há um certo
número de esquema efectivos. Mas "partenariado" com pessoas
locais é uma palavra que tanto os governos como as agências de
ajuda abusam. Os cambodjanos obtêm o que lhes é dado, tal como
"empréstimos" do Banco Mundial e do FMI com a espécie
de condições ultrajantes que prejudicaram países como a
Zâmbia.
Mais de 600 mil cambodjanos foram mortos por bombas americanas na década
de 1970. Como admitiu posteriormente a CIA, a devastação
proporcionou um catalisador para o horror do Khmer Rouge. Milhares de mortes
de crianças foram provocadas posteriormente por um bloqueio
económico apoiado pelo governo britânico.
Vejo que Tony Blair, assim como locutores e outras celebridades, tem estado a
usar a faixa da moda "Tornar a pobreza história". É
perverso. Tal como aqueles países na África, Ásia e
América Latina há muito pilhados em nome dos
"interesses" ocidentais, o Cambodja tem direito a
reparações incondicionais a fim de poder atender às
necessidades urgentes do seu povo, não às exigências
daqueles que
dizem ajudar.
O original encontra-se em
http://pilger.carlton.com/print
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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