A recusa ao arvorar de bandeiras
por John Pilger
Outro dia foi encerrado um dos meus cinemas favoritos. Os andaimes
levantaram-se em
torno da
art-deco
do Valhalla, em Sydney, um dos melhores do mundo quanto
à apresentação de poderosos documentários
políticos. A ausência de alvoroço quanto a isso poderia
parecer surpreendente numa cidade cuja simbólica Opera House pretende
encarnar o orgulho da Austrália moderna quanto às artes. Mas o
encerramento, ao contrário, reflectiu um abandono generalizado.
O Vallhalla certamente era uma anomalia numa Austrália tão
envolvida no culto do "marketing" que um executivo do
Sydney Morning Herald
chegou a declarar: "a resposta não está em pessoas mais
inteligentes e capazes" e sim em "pessoas que possam executar a sua
estratégia". Em 9 de Fevereiro, a Organização para a
Cooperação e o Desenvolvimento Económico, em Paris,
proclamou a Austrália como a economia menos regulamentada e mais
privatizada do mundo ocidental. Isto é um país possuído e
dirigido por homens de negócios.
O exemplo mais vivo é a imprensa. Rupert Murdoch controla quase 70 por
cento da circulação dos principais jornais. Com a
excepção do multi-étnico Special Broadcasting Service e da
rede de rádio da Australian Broadcasting Corporation, o resto dos media
reflecte o murdoquismo e uma ideologia de mercado importada maciçamente
dos Estados Unidos. As notáveis guerras de cultura do primeiro-ministro
neoconservador, John Howard, exemplificam isto.
Howard acredita que "negócios e esporte" são as
motivações principais da sociedade. Os outrora respeitados
laboratórios de investigação científica do
país, os CSIRO, foram instruídos a adoptarem patrocinadores de
negócios. Quase isolada entre as nações, no ano passado a
Austrália até se absteve de votar uma modesta proposta da
Nações Unidas de que os seus membros deveriam defender a
"diversidade" nas suas próprias culturas contra a
opressão das grandes potências. Quando o principal dramaturgo da
Austrália, David Williamson, comparou a Austrália privatizada dos
sonhos de Howard com um navio de cruzeiro a navegar para o "destino
soberano" de um desastre ambiental, o seu discurso foi criticado pelo
gabinete do primeiro-ministro e na imprensa de Murdoch foi orquestrada uma
campanha odiosa contra ele.
Sem qualquer oposição política a falar dele, as conquistas
de Howard tem sido nos media, com a historiografia a bajular.
Apoiando-se numa imutável clique de comentaristas da extrema-direita,
ele efectivamente asfixiou o debate acerca do sangrento passado colonial da
Austrália enquanto ridiculariza a "teoria do luto da
história": ou seja, a verdade de um racismo genocida que continua a
devastar o povo aborígene. A sua campanha patrioteira do "mostre
mais bandeiras" é puro George W. Bush. Foi ordenado às
escolas que instalassem mastros de bandeiras e, no "Dia da
Austrália", 26 de Janeiro, que "celebra" a
"colonização" do país de um outro povo,
são distribuídas bandeiras e muitas vezes elas são
apresentadas com agressões imbecis.
Isto nunca fez parte da vida australiana. Os americanos embrulham-se nas suas
bandeiras, mas não nós os australianos. Nós encaramos
isto como uma recordação respeitosa daqueles que marcharam para
combater e morrer nas mais catastróficas guerras imperiais da
Austrália, aqueles que "fizeram o seu melhor". O regime
Howard mudou tudo isto. O pequeno líder usa uma bandeira de
plástico na lapela, tal como Bush, e põe a mão sobre o
coração, tal como Bush, e reforça uma sociedade baseada na
raça, tal como Bush. Enquanto a negligência de Nova Orleans
é o símbolo de Bush, o desprezo mostrado em relação
aos primeiros australianos é o de Howard.
No "Dia da Austrália", andei através das bandeiras
até Redfern, uma área aborígene no centro da cidade, e
celebrei o que os australianos negros chamam o Dia da Sobrevivência. O
seu primeiro "Dia de Luto e Protesto" foi realizado em 1938, no
150º aniversário da invasão branca. Mais de um milhar de
homens e mulheres aborígenes compareceram àquela primeira
reunião dos direitos civis, depois de lhes ter sido recusada a
utilização do edifício da municipalidade de Sydney. Uma
longa e penosa campanha pela liberdade e justiça começou, e
perdura, como uma presença invisível.
No Parque Redfern, no Dia da Sobrevivência, as bandeiras eram negras,
vermelhas e douradas: as cores da pele indígena, da terra e do sol. O
único relato que pude encontrar de Redfern nos jornais do dia seguinte
foi uma pequena notícia que sem dúvida foi enviada aos jornais
pela polícia. Se a palavra "aborígene" entrasse na
arena pública ela deveria ser associada a "sem
esperança".
Na Austrália de Howard, o derradeiro "sem esperança"
é um jovem doente, aterrorizado, profundamente perturbado e maltratado
chamado David Hicks. Hicks era um vagabundo, de um tipo australiano outrora
chamado de "andarilho"
("swagman")
e "indisciplinado"
("larrikin")
e enaltecido pelos nossos poetas pastoris e cantores de baladas. Na
década de 1990 Hicks tornou-se muçulmano e vagabundeou pelo
Kosovo, e a seguir no Afeganistão, onde foi sequestrado pelos americanos
e enviado para o seu campo de concentração da Baía de
Guantanamo. Não existe nem uma partícula de prova de que Hicks
tenha combatido pela al-Qaeda, ou de que seja um terrorista. Ele é um
andarilho errante. Mas teve de enfrentar uma das "comissões
militares" de Bush, em que é utilizada tortura para extrair
confissões, e não há direito ao cruzamento de testemunhos,
nem presunção de inocência e nem qualquer padrão de
prova "para além de uma dúvida razoável".
Até três dos seleccionados promotores militares americanos
retiraram-se, argumentando que a comissão não dispõe de
convicções seguras. Muitos dos principais juristas da
Austrália concordam.
Mas o governo de Howard disse, exactamente com estas palavras, que David Hicks
pode apodrecer. Ele é um sem esperança, não americano,
sem aspirações. Ponha mais bandeiras lá para fora.
27/Fevereiro/2006
O original encontra-se em
http://www.newstatesman.com/200602270012
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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