Gravidez & Aborto
Histórias da Santa Madre
O perigoso sémen do marquês
Todos os dias se interrompe voluntariamente a gravidez sob o olhar desatento
das feras judiciais e sob a complacência das esferas sobrenaturais. A
questão não assume, porém, foros e desaforos de gravidade
e de calamidade só porque com o delito não causa demasiado alarme
social. A questão alcança inquietante nível no
âmbito da saúde pública, o que também não
perturba as entidades que citam exemplos europeus, sempre que convenientes e
que recolhem o livrinho das citações do Bom Tsé Tung da
UE, vulgo Durão Barroso, sempre que as sentenças não
são inspiradas pelos grupos económicos ou pelos agrupamentos
espirituais.
Por entre as falsas partidas de retoma do debate da IVG, será de situar
historicamente esta complexada causa nacional, cujos protagonistas são
conhecidos, uns pelo apelo ao realismo e ao humanismo, outros pelo apego a
venerandas e coléricas abstracções. Todavia, as grandes
abstracções não podem invocar coerência tradicional.
Os defensores da tímida liberalização alvo do referendo
não passam de anjinhos comparados com o espírito de
tolerância da Igreja Católica que, durante séculos,
integrou, na sua estratégia de prudente silêncio, o
infanticídio e a roda. Os cintos e os votos de castidade jamais
conseguiram bloquear os desvarios da Mãe-Pátria.
Sucede que, na actualidade, a Igreja, afoitamente na vanguarda da
oposição à IVG, não logra disfarçar as
incongruências científicas e as inconsistências pastorais.
Com efeito, sendo adversária da Interrupção
Voluntária da Gravidez, mostra-se conformada com a
Interrupção Voluntária da Esterilidade. Deixa-se resvalar
para o contra-senso: por um lado, avaliza actos correctivos da obra do Criador;
por outra parte, consente que a relação de um casal, nimbada por
um sacramento indissolúvel e pelo pacto de
uma só carne,
sofra a intromissão e a fecundação de sémen
estranho. Um dador anónimo acaba por violar e promiscuizar o sacro
reduto do matrimónio, pondo em xeque, no plano objectivo e, por muito
que custe admitir, no plano subjectivo, o solene juramento de fidelidade
conjugal e a verdade biológica.
Quem garantirá a qualquer bispo de Roma ou bispo de Província que
tal esperma não provenha de um herege ou de um violador em série
ou de um parente de José Estaline ou do Marquês de Pombal ou do
profeta Maomé?
A Igreja sempre detestou perguntas. No entanto, faria bem em ponderar os reais
e profundos fundamentos que levam a maioria dos chamados católicos a
distanciar-se da linha oficial, autonomizando as suas opiniões sempre
que não são atendidas as mais íntimas
jurisprudências. Os católicos encontraram uma fórmula
sacramental para se distanciarem dos furores normativos:
eu cá tenho a minha religião.
Esperemos que, no referendo da despenalização, os
católicos sensatos e informados do drama em causa defendam a
saúde pública, a livre consciência da mulher e a
decência política e cultural na sociedade portuguesa. É, de
facto, necessário o voto dos católicos do séc. XXI para
que Portugal vença mais um fantasma na sua lenta e penosa
emancipação da Idade das Trevas.
[*]
Escritor, jornalista
Este artigo encontra-se em
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