Gravidez & Aborto
Histórias da Santa Madre

O perigoso sémen do marquês

por César Príncipe [*]

. Todos os dias se interrompe voluntariamente a gravidez sob o olhar desatento das feras judiciais e sob a complacência das esferas sobrenaturais. A questão não assume, porém, foros e desaforos de gravidade e de calamidade só porque com o delito não causa demasiado alarme social. A questão alcança inquietante nível no âmbito da saúde pública, o que também não perturba as entidades que citam exemplos europeus, sempre que convenientes e que recolhem o livrinho das citações do Bom Tsé Tung da UE, vulgo Durão Barroso, sempre que as sentenças não são inspiradas pelos grupos económicos ou pelos agrupamentos espirituais.

Por entre as falsas partidas de retoma do debate da IVG, será de situar historicamente esta complexada causa nacional, cujos protagonistas são conhecidos, uns pelo apelo ao realismo e ao humanismo, outros pelo apego a venerandas e coléricas abstracções. Todavia, as grandes abstracções não podem invocar coerência tradicional. Os defensores da tímida liberalização alvo do referendo não passam de anjinhos comparados com o espírito de tolerância da Igreja Católica que, durante séculos, integrou, na sua estratégia de prudente silêncio, o infanticídio e a roda. Os cintos e os votos de castidade jamais conseguiram bloquear os desvarios da Mãe-Pátria.

Sucede que, na actualidade, a Igreja, afoitamente na vanguarda da oposição à IVG, não logra disfarçar as incongruências científicas e as inconsistências pastorais. Com efeito, sendo adversária da Interrupção Voluntária da Gravidez, mostra-se conformada com a Interrupção Voluntária da Esterilidade. Deixa-se resvalar para o contra-senso: por um lado, avaliza actos correctivos da obra do Criador; por outra parte, consente que a relação de um casal, nimbada por um sacramento indissolúvel e pelo pacto de uma só carne, sofra a intromissão e a fecundação de sémen estranho. Um dador anónimo acaba por violar e promiscuizar o sacro reduto do matrimónio, pondo em xeque, no plano objectivo e, por muito que custe admitir, no plano subjectivo, o solene juramento de fidelidade conjugal e a verdade biológica.

Quem garantirá a qualquer bispo de Roma ou bispo de Província que tal esperma não provenha de um herege ou de um violador em série ou de um parente de José Estaline ou do Marquês de Pombal ou do profeta Maomé?

A Igreja sempre detestou perguntas. No entanto, faria bem em ponderar os reais e profundos fundamentos que levam a maioria dos chamados católicos a distanciar-se da linha oficial, autonomizando as suas opiniões sempre que não são atendidas as mais íntimas jurisprudências. Os católicos encontraram uma fórmula sacramental para se distanciarem dos furores normativos: eu cá tenho a minha religião.

Esperemos que, no referendo da despenalização, os católicos sensatos e informados do drama em causa defendam a saúde pública, a livre consciência da mulher e a decência política e cultural na sociedade portuguesa. É, de facto, necessário o voto dos católicos do séc. XXI para que Portugal vença mais um fantasma na sua lenta e penosa emancipação da Idade das Trevas.


[*] Escritor, jornalista

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03Fev/07