Gravidez & Aborto
Histórias da Santa Madre
Cheias de graça
Comecemos por Portugal, terrinha fértil em coisas do etéreo.
Reinava D. João V e a Fidelíssima Esposa, Mariana de
Áustria, não denunciava prenhez, não tranquilizava os
cortesãos. Um rei sem filhos deixa a Nação à
mercê de cobiças: uns ovários de rainha valem mais do que
milhares de espadas e milhentas cruzes. E quando os canhões d'El-Rei
não resolvem as necessidades da rainha, eis que intervém a Ordem
Celestial. No caso, a Ordem de S. Francisco, com ênfase para frei
António de S. José. O arrábido propôs um
negócio ao monarca: o útero real seria tocado pela
Anunciação se finalmente se comprometesse a erigir um convento em
Mafra.
O rei
fez votos
e Mariana ficou cheia. Deste primeiro parto nasceu Maria Bárbara. Ano
após ano, de autêntica rajada, vieram à superfície
do solo pátrio mais cinco rebentos. D. João V foi, de facto,
oportunamente assessorado por um exímio traficante de influências
do séc. XVIII, faltando somente apurar um pormenor que, para a Grande
História, pouco contará: se o fransciscano assessorou
também a rainha. O certo é que o convento de Mafra redundou no
nosso mais majestoso monumento à fertilidade. Que, na altura, não
era
in vitro,
mas
in granito.
Teve, portanto, Mariana uma princesa que, por consórcio, se
alçou a rainha espanhola.
Ora, nem queiram saber, o que de Espanha nos vem: nem bom vento nem bom
exemplo. Uma bela e prendada senhora de Mogúncia, que aos vinte anos
restou viúva por passamento de Seu Nobre Senhor, foi presa de dois
milagres: o primeiro, já que engravidou ao pisar uma
erva ruim,
calcamento testemunhado por uma donzela (ontem, como hoje, há sempre
uma virgem a abonar a conduta de uma mais afoita); o segundo, já que a
viúva, com a barriga cada vez mais cheia, confessou a um frade,
também franciscano, a sua desdita e a sua vergonha. O monge
recomendou-lhe que, de imediato, peregrinasse até Compostela, visto que,
com tal adianto, só Santiago era tido por competente. Partiu de
Mogúncia, navegou no Reno, repousou em Aix-la-Chapelle. Fez escala em
Paris.
Em Setembro, apeava-se em Compostela e defrontava Santiago em pranto, rogando
que reparasse o percalço, o embaraço, aquele incauto pisar da
erva em Abril. E a viúva, naquela mesma noite, viu-se aliviada do
indesejado inchaço. Regressou a Mogúncia e, de gratidão
rendida, levantou ao apóstolo uma igreja em São Goar.
Afinal, sempre resta um santo advogado da Interrupção
Voluntária da Gravidez. Temos muito que aprender com os
caminhos de Santiago.
[*]
Escritor, jornalista
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|