Gravidez & Aborto
Histórias da Santa Madre
As dietas dos cruzados
Estamos nos últimos dias de campanha para a despenalização
ou não da IVG e os inquisidores caseiros andam de cabeça perdida
a pregar e a praguejar contra as mulheres que também usem a
cabeça para dar à luz. Já todos mais ou menos sentiram as
ondas de choque do tsunami moralista que varre o país desde a Boca do
Inferno a Vilar do Paraíso, desde a Ilha de S. Jorge ao Curral das
Freiras. Para se sondar donde emanará tanta cólera em nome dos
deuses, continuaremos, como nos exercícios espirituais anteriores, a
remeter o discurso para comportamentos de sociedades arcaicas ou de figuras da
Igreja condutas provavelmente inspiradoras de actuais anjos
apocalípticos e de zeladoras do templo que se vestem de virgens para
manter acesos os lampadários.
Não recuaremos ao Velho Testamento, era particularmente sacrificial, em
que se imolavam crianças e virgens, cordeiros e cabritos em
poços, fogueiras e altares para aliviar terrores e remorsos colectivos
ou para aplacar a guerra, a peste e as enfermidades ou para provocar a IDN, a
Interrupção Divina da Natureza: terramotos, trovoadas,
vulcões, ciclones, estiagens, dilúvios, pragas de gafanhotos.
Queremos manter uma postura de tolerância e, nesta linha de perdão
laico, de reconciliação ecuménica e de paciência
evangélica, apenas valorizaremos indicadores a partir do Ano 1000 d. C.,
dando, para os devidos efeitos, por apagados os registos criminais ou as
tentações de profetas e sodomitas. Assim descontaremos dez
séculos ao cristianismo como atenuante para a sua espinhosa
missão de converter gentios e medicar-se dos pecados originais.
Para ilustrar as Histórias da Santa Madre de hoje socorrer-me-ei de uma
bíblia gastronómica de minha autoria (
Ementas do Paraíso,
Campo das Letras
, Porto, 2004), livro que vos recomendo para a prática
das mais viciosas e virtuosas ciências da mesa e da cama, de acordo com
as mais esmeradas tradições papais, episcopais, clericais e
monacais:
Ainda no ano 1000 da Era Cristã não se vacilava perante presas da
nossa espécie: os prisioneiros e os viajantes não inspiravam
grande escrúpulo; as crianças e as virgens eram carne de culto e
de consumo. As crianças constituíam o pitéu mais
disputado
Eram troféus da Dieta Humana. Na conquista de Antioquia
(1098), os cruzados espetavam e grelhavam nas lanças bambinos
árabes e turcos. Parodoxal churrasco numa cidade onde, segundo os actos
dos Apóstolos (11, 25), pela primeira vez, os discípulos do
Divino Mestre foram designados de cristãos.
Dando um salto histórico
para a Colonização Portuguesa a Ocidente, vincaremos a
condenação de idênticos recursos culinários por
parte do padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), fundador da Companhia de
Jesus no Brasil e fundador da Cidade de S. Paulo. Dos seus testemunhos sobre a
melindrosa matéria só restou o título:
Tratado contra a Antropofagia & contra os Cristãos Seculares &
Eclesiásticos que a Fomentam & Consentem
(1559). Não terá sido por desarrumação da
secretária que o conteúdo do Tratado se extraviou.
Dando um salto histórico
para a Colonização Portuguesa a Oriente, citaremos relatos de
antropofagia no séc. XX numa das dependências da
Civilização Cristã, na II Grande Guerra Mundial, conforme
se comprovará no livro
Macau-Dor da Guerra
e em entrevistas do padre Manuel Teixeira (1912-2003):
Havia fome
Um hotel que comprava crianças, engordava-as,
cozinhava-as e oferecia-as aos hóspedes.
Nesta quadra em que se discute
uma alteração da Lei Penal, visando conferir à mulher o
direito de, por sua livre e consciente opção e com aconselhamento
clínico, assumir, em última instância, a IVG em fase
embrionária, obrigando-se o Estado a proporcionar
condições de dignidade biológica, psicológica e
social faz todo o sentido reportar algumas lições da
História riscada do ensino escolar: é que pululam, por este
país transformado em Hipermercado do Embuste Continente & Ilhas,
pregadores de verdades absolutas sobre a vida, esquecendo, por absoluta
incompatibilidade com a Cultura ou por comércio do Obscurantismo, que
todas as suas baterias retóricas encobrem um volumoso cadastro. Em cada
tempo, o fundamentalismo e o relativismo deram e continuam a dar as
mãos, polindo os cutelos e avivando as chamas segundo os cânones
da Administração da Ignorância ou da moral da época.
É absolutamente falso que, em termos religiosos ou legais (mesmo nos
regimes democráticos) a vida tinha sido ou ainda seja respeitada como um
valor intocável e inalienável. Um exemplo: o Catecismo, aprovado
pelo papa João Paulo II, admite a pena de morte. Outro exemplo: o
direito a matar é admitido e até exaltado em legítima
defesa ou em conflito bélico. Mais um exemplo: o nosso Código
Penal já admite a IVG em caso de violação, de perigo de
vida da grávida ou de malformação do feto. Sucede que, nas
primeiras dez semanas, apenas se interrompe um composto semi-orgânico de
três centímetros, isto é, uma das formas mais
primárias do ciclo vital. Interpretando-se coerentemente as palavras de
um conhecido especialista, Albino Aroso (
in
Público, 15/01/07), nada autorizará a Moral e a Religião
a fixarem os critérios da evidência:
Cientistas de todo o mundo civilizado não reconhecem a existência
de vida humana até às dez semanas.
Na realidade, levando-se até ao ovo ou à raiz do problema as
especulações do que será e não será vida,
teríamos de admitir que o nosso corpo é um campo de batalha, onde
se digladiam 600 milhões de microorganismos, a toda a hora disparando as
suas armas e fazendo pilhas e pilhas de mortos. Até os milhares de
espermatozóides que morrem à Portas do Útero, não
conseguindo entrada para o Concerto da Gestação, seriam, nesta
pia concepção, vítimas de algum atentado, talvez
previdente para muitos agnósticos e ateus, talvez providencial para
muitos religiosos. Então, quem determina o holocausto dos regimentos
testiculares? Então, quem senta Darwin ou Deus no banco dos réus?
Então, quem julga quem?
O contraditório e o absurdo prosseguiriam listando-se inúmeros
abortos espontâneos ou provocados no seio da Madre Natureza (animal e
vegetal). Enfim, qualquer massa cinzenta que estime as metodologias do rigor e
as provas dos nove da Vida e da História se dá conta de que
muitos falangistas do
Não,
embora com riqueza de meios para promoverem as suas campanhas, exibem uma
grande pobreza de princípios e fins. A campanha do referendo sobre a IVG
está a trazer ao de cima o que de mais primário e obtuso se
acoita neste Portugal com bastantes séculos de alegada
independência do território mas com poucos anos de
independência de espírito.
Aqui chegados, só
desejaríamos (não será pedir um milagre?) que tudo decorra
mais decentemente até ao dia 11 de Fevereiro, pois, de outro modo, de
furor em fervor, ainda veremos alguns cruzados
a clamar pelo regresso a Antioquia enquanto empunham cartazes
a favor da vida.
[*]
Escritor, jornalista
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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