Um semanário académico ao serviço do capital
O fosso entre o que diz a Constituição da República
Portuguesa e a realidade do nosso país é o mesmo fosso que
separa as necessidades do nosso povo e os interesses do capital. Quando, em
1974, o povo tomou as avenidas e ruas de Portugal, as forças
políticas, ao lado do capital, fragilizadas, não tiveram outro
remédio senão aprovar a carta magna mais progressista da Europa
Ocidental desde a Comuna de Paris.
Frente à ignorância que verga os povos aos pés dos
poderosos, a revolução de Abril resgatou o nosso povo do
analfabetismo crónico. Deu-lhe instrumentos para acabar com a
elitização do conhecimento e para democratizar o ensino. Na
Constituição da República Portuguesa, há um artigo
relativo ao ensino que estabelece que "todos têm direito ao ensino
com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e
êxito escolar" e que indica, de seguida, que "na
realização da política de ensino incumbe ao Estado: (...)
estabelecer progressivamente a gratuitidade de todos os graus de ensino".
No final dos anos 80, depois da recuperação, por parte do
capital, do poder económico e político, surgem as ideias sobre a
possibilidade de se cobrarem propinas. Cavaco Silva, então
primeiro-ministro, tenta calar os estudantes à bastonada e fracassa.
António Guterres, que na campanha eleitoral afirma estar contra as
propinas, acaba por vencer. Na primeira oportunidade, apresentou e aprovou a
lei que regulamenta a existência de propinas no ensino superior. Depois
foi o que se viu, as propinas viram sucessivos aumentos e o investimento
estatal no ensino viu sucessivas reduções.
Desde então, a condição de classe voltou a ser uma
barreira no acesso ao ensino superior. O ingresso numa universidade ou num
instituto politécnico passou a depender do peso dos bolsos dos nossos
pais. Como antigamente. Milhares de estudantes abandonam o ensino superior e
outros tantos nem se dão ao trabalho de se candidatarem. É que
mesmo a acção social, usada pelos defensores das propinas como
argumento de que há um instrumento que ajuda os estudantes mais
carenciados, tem sido alvo de sucessivos desinvestimentos.
Mas agora há uma novidade. O governo decidiu importar da Alemanha uma
medida que vai revolucionar o ensino superior. E não, não se
trata do valor do salário mínimo alemão. Tratam-se dos
empréstimos bancários a estudantes. De uma cajadada só,
matam-se dois coelhos. Por um lado, pode acabar-se com a acção
social e, por outro, abre-se caminho aos bancos para um grande negócio.
Ou seja, os licenciados com carências económicas entram
directamente para o mundo do desemprego pela porta grande. Não só
desempregados mas também já endividados.
E, compreenda-se lá, há estudantes que defendem esta medida. Faz
lembrar as manifestações na Índia, em que os membros das
castas superiores contestavam a democratização do ensino superior
porque entendiam que os membros das castas inferiores não deveriam ter
direito a frequenta-lo. Na verdade, a elitização encaminha-nos
nesse sentido. Não é por acaso que esta mentalidade se alastra
pelo movimento associativo estudantil. Mas, como no passado, o ensino superior
é um viveiro de contradições. E há quem resista.
Não é o caso do
Semanário Académico de Lisboa
(
SAL
). Há uns meses, faziam uma espécie de roteiro do Processo
de Bolonha, onde havia lugar para todos os elogios. Não foram muito
originais porque destacaram a mesma mentira que todos os outros: de que agora
é possível estudarmos em qualquer lugar da Europa sem os entraves
de um ensino superior europeu diferenciado. Pois. Mas, como todos os outros,
esqueceram-se de referir que só os ricos o podem fazer.
Se há coisa de que não se pode acusar o SAL é a de
esconder a sua orientação política. Pela sua frontalidade,
merece o elogio de todos os estudantes. Ao contrário da maioria da
comunicação social portuguesa, o SAL marca a diferença e
indica o caminho. Onde os outros mascaram a objectividade e a imparcialidade, o
SAL, despe-se, sem sombra de pudor, e dá-se a conhecer como é:
um jornal formado pela Associação Académica de Lisboa, que
poucas vezes esteve ao lado dos interesses dos estudantes; um jornal conduzido
por um dirigente associativo, Ricardo Florêncio, que nunca correspondeu
ao papel histórico do movimento associativo estudantil; um jornal que
é o porta-voz da quinta coluna do poder no mundo académico de
Lisboa.
Na sua edição de 13 de Novembro, o SAL anunciava "Santander
Totta com primeiros contratos para empréstimos para estudantes". Na
mesma notícia, debaixo do título, o logotipo do Grupo Santander
surgia bem maior do que o tamanho do próprio artigo. Será
desnecessário dizer-se que em momento algum se lê a opinião
de alguém com uma opinião critica sobre o assunto e que o que
sobra para a história são os sucessivos elogios do jornalista e
das fontes. Uma forma sóbria e rigorosa de se fazer publicidade a uma
empresa e a uma medida política.
Na semana seguinte, o SAL faz sair o seu 8º número e
lança-se no desafio de ultrapassar as fronteiras da arte de fazer
propaganda. E foram bem sucedidos. Na capa, surge um mealheiro, provavelmente,
numa referência ao dinheiro que os bancos irão amealhar, e o
título "Empréstimos para o superior/O SALx faz as
comparações". Logo na segunda página, um artigo a
abrir que refere que "os empréstimos oferecem ainda mais duas
vantagens para os estudantes". E, de seguida, uma entrevista ao Millenium
BCP, na qual o banco explana a sua missão de ajudar os jovens "nas
necessidades e nos sonhos que eles têm".
Mas eis que aparece numa caixa o seguinte inquérito:
"Dá-nos a tua opinião. Consideras útil a
existência deste crédito?/Os teus comentários também
contam!" Para além de explicar que podemos enviar uma mensagem
escrita para o número indicado, Ricardo Florêncio e companhia
dão-nos o exemplo de como pode ser a opinião. "SALx,
não só concordo como acredito que é um enorme passo para o
Ensino Superior...etc...etc".
A página seguinte repete a entrevista a bancos. Neste caso, ao Grupo
Santander e à Caixa Geral de Depósitos. Ambos discorrem sobre a
natureza humana das suas acções de apoio aos estudantes. O Grupo
Santander um pouco mais porque tem mais espaço de propaganda que os dois
outros bancos. Sinceramente, talvez por ingenuidade, não se percebia o
porquê desta obstinação com o Grupo Santander, até
que li a contra-capa. E em toda a largura da folha, lá estava:
"Pensa no curso e deixa as notas connosco SantanderTotta, o valor
das ideias".
[*]
Estudante de jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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