Os "aristocratas" da Autoeuropa
Os trabalhadores da Autoeuropa fizeram a sua primeira greve e isso bastou para
que fossem "metralhados" em praça pública. Por
comentadores e políticos. A senhora secretária-geral adjunta do
Partido Socialista (PS) e Miguel Sousa Tavares (MST) foram dois dos
"notáveis" que deram ao gatilho. MST foi mesmo ao ponto de
dizer que eles constituem "a aristocracia operária." O
comentador tem razão: "Um operador de linha traz 800 euros para
casa, um técnico um pouco mais, um engenheiro cerca de 1100."
Tão altos salários garantem aos trabalhadores da Autoeuropa todas
as mordomias...
Mas se as declarações do sábio MST valem o que valem, o
que foi dito pela senhora secretária-geral adjunta do PS é bem
mais grave. A dita ameaçou os trabalhadores da Autoeuropa com a
deslocalização da fábrica e fez estalar o chicote do
terror do desemprego. Isto é, esqueceu-se de que é o
braço-direito do secretário-geral do partido que tem a
missão de governar o país e a quem cumpre dizer aos accionistas
da Autoeuropa que são obrigados a dar condições de vida
digna ao seus trabalhadores. E a respeitar as leis vigentes no país.
Para a secretária-geral adjunta do PS, MST e todos os outros opinadores,
mesmo aqueles que são tão "aristocratas" como os
trabalhadores da Autoeuropa, a greve foi uma "brutalidade" cometida
contra aqueles que fazem o "favor" de dar emprego e que para tal
foram alvo dos maiores apoios, benefícios e isenções do
Estado português, isto é, de todos nós.
Acresce: a greve resultou da falta de sensibilidade e de maleabilidade da
administração da Autoeuropa para, ao longo dos tempos, ir ao
encontro dos alertas e propostas dos trabalhadores e das suas
organizações sindicais. Mais: a greve foi decidida pelos
trabalhadores da Autoeuropa e esse é um direito que está
consignado na Constituição da República. Quer a
administração da VW Autoeuropa, a senhora secretária-geral
adjunta do PS e o comentador MST, e todos os outros sábios, queiram ou
não.
Termino estes "sinais" de hoje com o texto-denúncia assinado
por Tiago Franco, antigo engenheiro no Departamento de Engenharia de Qualidade
da Autoeuropa, hoje a trabalhar na Volvo sueca. É um texto a
preto-e-branco sobre uma empresa que sempre foi vendida a cores e como o
exemplo perfeito do paraíso a que só alguns escolhidos têm
direito:
"Interessa-me mais abordar o linchamento público dos
funcionários
da Autoeuropa e como a ignorância nos prejudica enquanto povo.
Compreendo que a informação que circula não vem carregada
de detalhes e para a opinião pública passa a parangona de que os
funcionários não querem mais dinheiro para trabalhar aos
sábados. São uns calões e ganham balúrdios. Ponto
final. É isto que chove nas redes. Não sei porque insisto em ler
comentários de notícias mas vou assumir, para me sentir melhor,
que é uma espécie de guilty pleasure da azeitonice.
Li coisas como: "não querem trabalhar aos sábados?
Então devíamos fechar os hospitais ao fim-de-semana para os gajos
da Autoeuropa!" ou "mas quando querem pão fresco ao
sábado o padeiro não diz que não, seus chulos!".
Entre outras pérolas dignas de qualquer boca numa taberna da Madragoa,
como se bens alimentares ou cuidados de saúde se pudessem escolher no
calendário. Ou como se uma fábrica fosse um serviço aberto
ao público e dependente de horários melhores para visita.
Compreendo que exista míngua de emprego no nosso país e que
muitas pessoas se esfolem para aguentar cada mês, mas isso não nos
pode retirar a lucidez de entendermos o que é a luta dos trabalhadores
pelos seus direitos. Se os funcionários da AE cederem sempre a
pressões, naquela que é a empresa modelo do país, o que
acontecerá a cada um de vocês que trabalha em micro-empresas onde
os trabalhadores nem piam?
A conversa de "se não aceitarem a produção do modelo
X vai para a fábrica Y" é mais velha que o obrar de
cócoras e é usada desde sempre. Ouvi isso há 12 anos na
altura do modelo EOS e depois com o Scirocco. Agora ouvem com o T-roc ou
lá como se chama a lata nova.
Em cada negociação lá se trocava trabalho extra por
férias ou dias por aumentos congelados e por aí fora. As greves
foram sempre evitadas e a produção sempre a crescer com novos
modelos. Mas até quando? Até quando se dá asas à
imaginação para aceitar mais trabalho sem dinheiro que se veja?
Quem agora chama nomes aos funcionários da AE já trabalhou numa
linha de montagem? Já teve duas pausas de 7 minutos por dia para mijar?
Já passou 20 anos todo dobrado a fazer os mesmos movimentos? Se acham
que é tudo fácil e maravilhoso, porque não vão para
lá? Entre 2000 ou 3000 que lá trabalham deve haver espaço
para os génios do comentário no FB.
O que é que acham que um operador de linha, um técnico ou um
engenheiro ganham na AE? Eu respondo: uma merda. Ganham uma merda. Ganham
aquilo que alemão algum aceita na casa mãe, com
condições que sindicato nenhum permite no desterro de Wolfsburgo.
O governo português deu incentivos por mais de uma década para a
VW ter a fábrica ali. Depois tiveram mais uma década de
salários baixos, aumentos miseráveis e down days. Em 4,5 anos a
trabalhar ali, o meu salário aumentou 15 euros líquidos. Um
operador de linha trazia 800 euros para casa, um técnico um pouco mais,
um engenheiro cerca de 1100. Depois criaram uma empresa de trabalho externo
(Autovision) para reduzirem ainda mais os custos com os contratados e terem
menos responsabilidades sociais.
Portanto
se 10 anos volvidos a técnica é a mesma e continuam
a querer apertar quem trabalha, eu acho muito bem que não aceitem
sábados obrigatórios e muito menos se não forem pagos como
trabalho extraordinário."
[*]
Jornalista,
searadeletras@sapo.pt
Ver também:
Désenchantement européen en Slovaquie Victoire ouvrière chez Volkswagen
www.ofaisca.pcp.pt
Autoeuropa: ver os filhos crescer é um direito
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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