O neoliberalismo não é compatível com a democracia
por António Avelãs Nunes
[*]
1.
Na tentativa de esconder a existência do
estado capitalista
enquanto
estado de classe,
enquanto
ditadura da burguesia,
o discurso dominante insiste na tese de que o neoliberalismo é
um sistema libertário, que dispensa o estado.
A social-democracia europeia reconhece hoje que "mudou radicalmente de
atitude face ao estado", ao longo do século XX: em 1.º lugar,
porque abandonou a "posição libertária de querer
destruí-lo [ao estado capitalista], como dominação e
factor de dominação burguesa"; em 2.º lugar, porque
houve uma mudança no que toca à "arquitectura institucional
do estado." Em Portugal, Augusto Santos Silva apresenta o
estado capitalista
como um "espaço de integração social e
intervenção política para as organizações
vinculadas ao movimento operário", como "expressão da
comunidade política nacional", como "espaço de
pertença de toda a colectividade", como
"representação política de toda a sociedade".
Num tempo em que "as eleições são obscenamente
caras", o direito a participar no estado transformou-se num 'bem' que tem
de se 'comprar' no mercado, e este 'mercado', como todos os outros, é
controlado pelo grande capital: a
soberania do cidadão
(como a
soberania do consumidor
) é pura fantasia. Quem tem dinheiro, ganha as eleições. E
todos sabemos que não há almoços grátis
Como
sublinha Stiglitz, "os mercados são modelados pela
política", porque "as políticas determinam as regras do
jogo económico", sendo certo que "o campo do jogo está
inclinado para os 1% do topo", porque "as regras do jogo
político também são moldadas por esses 1%."
Não quero chamar
corporativistas
aos que defendem estas concepções. Mas a
identificação do estado como "representação
política de toda a sociedade" implica a
negação da existência de classes sociais
com
interesses antagónicos,
e implica a defesa da
colaboração de classes
no seio de um estado que se diz
representar toda a sociedade,
um estado
acima das classes
e dos
interesses de classe.
O
estado capitalista
'desaparece' enquanto
estado de classe
e 'desaparecem' também as
classes sociais,
substituídas pelos
parceiros sociais,
que, em vez de alimentarem a
luta de classes,
praticam o
diálogo social,
buscando o
bem comum
em conjunto (o capital e o trabalho) no seio dos organismos de
concertação social,
sob a arbitragem do estado, que se afirma como uma entidade
neutra, acima das classes.
É uma concepção insustentável, sobretudo num tempo
em que a actuação do
estado capitalista
como
estado de classe
se afirma, todos os dias, em políticas que sacrificam não
só os direitos que os trabalhadores foram conquistando ao longo de
séculos de lutas, mas também os interesses de grandes camadas da
pequena e média burguesia ligada às actividades produtivas. O
estado capitalista é hoje, claramente, a
ditadura do grande capital financeiro.
2.
O
estado capitalista
já foi
estado liberal,
um estado que proibiu e criminalizou, durante longo tempo, a
organização dos trabalhadores em sindicatos, que impediu,
enquanto teve força para tanto, o sufrágio universal, e que o
suspendeu recorrentemente sempre que a burguesia dominante entendeu que era
preciso "afirmar contra a vontade do povo (
) a vitória
conseguida até aí pela vontade do povo." Foi mais tarde
estado fascista
(um estado violenta e assumidamente anti-trabalhadores); e foi depois
estado social
(
solução de compromisso
que as circunstâncias recomendaram ou exigiram), tal como agora é
estado regulador
ou
estado garantidor,
que asfixia o
estado social
para garantir ao grande capital a absorção por inteiro dos
ganhos da produtividade.
3.
Deslumbrados com os 'êxitos' dos chamados
trinta anos gloriosos
que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, alguns acreditaram que o
keynesianismo tinha descoberto a cura para as doenças congénitas
do capitalismo e tinha tornado obsoleto o marxismo. Mas o optimismo esmoreceu
rapidamente a partir do início da década de 1970. Em Agosto/1971,
os EUA romperam unilateralmente o compromisso assumido em Bretton Woods de
garantir a conversão do dólar em ouro a uma certa paridade. As
taxas de câmbio escapam ao controlo das autoridades nacionais ou de uma
agência da ONU (papel que cabia ao FMI), ficam na inteira
dependência dos 'mercados' (ou seja, dos
especuladores profissionais
). Começa então, na prática, a
contra-revolução monetarista
e o reinado do
neoliberalismo.
As
chamadas crises do petróleo
(1973-75 e 1978-80) trouxeram um fenómeno novo, a
estagflação,
caracterizada pela coexistência de recessão e de desemprego (por
vezes acentuados) e inflação com taxas elevadas e crescentes.
Ficaram à vista as limitações das políticas
keynesianas. Como Marx e o marxismo sempre defenderam, nas economias
capitalistas os desequilíbrios, a instabilidade e a incerteza são
a regra, não a excepção.
A direita neoliberal (Hayek, Milton Friedman) aproveitou a onda para decretar a
"morte de Keynes", desacreditar as políticas de pleno emprego,
fazer guerra aberta ao movimento sindical e atacar o estado social. Com o apoio
de uma campanha de propaganda ideológica nunca antes vista, o
neoliberalismo impõe-se como a ideologia do
império
e do
pensamento único
, uma espécie de 'religião', para cuja "única
fé verdadeira" se diz que
não há alternativa.
Escreve Paul Krugman: chegou-se à "idade das trevas da
macroeconomia."
Num quadro caracterizado pela
supremacia do capital financeiro sobre o capital produtivo
e pela
tendência para a baixa da taxa média de lucro nos sectores
produtivos,
a salvaguarda das margens de lucro exigia um reforço da
exploração capitalista, com sacrifício dos rendimentos e
dos direitos dos trabalhadores. E os dirigentes do mundo capitalista (na
economia e na política) entenderam que a correlação de
forças lhes permitia ignorar o
compromisso keynesiano:
o
Consenso Keynesiano
foi substituído pelo chamado
Consenso de Washington,
uma espécie de 'código' do neoliberalismo mais radical.
A
ideologia neoliberal
não ataca apenas as políticas de matriz keynesiana que apontavam
no sentido de uma
democracia económica e social
que ganhou foros de constitucionalidade em bom número de países.
Vai mais longe, classificando como
inimigos internos
"os homens de boas intenções que (
) desejam
transformar a sociedade", através de
políticas públicas
. Desde cedo o neoliberalismo revela a sua vocação
totalitária, bem patente na guerra contra os sindicatos, considerados
"incompatíveis com a economia de livre mercado."
4.
Nos anos 1950, o argentino Raúl Prebisch compreendeu que o liberalismo
(então imposto pelo FMI aos países com dificuldades financeiras)
só poderia ser levado à prática
pela força das armas.
Num livro (1994) em que analisa a experiência do
thatcherismo,
Andrew Gamble conclui que o projecto político da Nova Direita exige um
estado forte,
capaz de combater os
inimigos externos
e os
inimigos internos.
A experiência dos últimos anos mostra que o
neoliberalismo
(e as
políticas violentas
que o caracterizam) tem exigido a presença activa de um
estado forte,
com o objectivo de
transferir para o capital os ganhos da produtividade
(como reconhecem a OIT, a OCDE e até o FMI, a produtividade tem
aumentado consideravelmente, enquanto o poder de compra dos salários tem
diminuído assustadoramente). A violência traduz-se na guerra
contra os sindicatos, na desregulamentação das
relações laborais, no esvaziamento da
contratação colectiva,
nas políticas de 'confisco' dos salários, dos direitos e da
dignidade dos trabalhadores, no desmantelamento do
estado social.
Só um
estado forte
poderia impor a
liberdade absoluta de circulação de capitais;
a desregulação de todos os mercados, em especial os mercados
financeiros, entregues ao "dinheiro organizado"; a
'privatização' dos estados nacionais, que a 'regra' da
independência dos bancos centrais
tornou dependentes dos 'mercados' para o financiamento das políticas
públicas); a criação das estruturas em que assenta o
capitalismo do crime sistémico
dos nossos dias, que garante a impunidade aos agentes do
crime sistémico,
nomeadamente aos bancos e aos banqueiros que não são apenas
too big to fail,
são também
too big to jail.
O poder económico (liderado pelo grande capital financeiro)
identifica-se cada vez mais com o poder político, e este novo
Leviathan
é a
ditadura do grande capital financeiro.
5.
Num estudo posterior ao de A. Gamble, Wolfgang Streeck, o mais importante
sociólogo alemão da actualidade, mostra que as políticas
neoliberais de reforma das instituições
político-económicas visam impor um conjunto de
regras
às quais os estados se devem vincular,
independentemente dos resultados eleitorais.
Trata-se de um
processo de esvaziamento da democracia
entendida no sentido da
democracia social,
que tem vindo a operar-se "através de uma
reeducação neoliberal dos cidadãos" (promovida pelas
grandes centrais de produção e difusão da ideologia
neoliberal), mas pode vir a ser levada a cabo "através da
abolição da democracia segundo o modelo chileno dos anos
1970" (opção que A. Gamble entende não estar
disponível actualmente).
Estas ameaças são o resultado (antecipado e desejado) das
opções neoliberais
'codificadas' no
Consenso de Washington.
As
políticas neoliberais
não são a
consequência inevitável do desenvolvimento científico e
tecnológico.
São
políticas
que equivalem ao reconhecimento de que
a soberania reside nos mercados,
de que "ninguém pode fazer política contra os
mercados". São
políticas
impostas pelo
grande capital financeiro,
com o objectivo de modificar, em benefício do capital, a
correlação de forças entre o capital e o trabalho. E
nós sabemos que o neoliberalismo não é um elemento
estranho ao capitalismo, não é um fruto espúrio que nasceu
nos terrenos do capitalismo, nem é o produto inventado por uns quantos
'filósofos' que não têm mais nada em que pensar. O
neoliberalismo é o capitalismo puro e duro, mais uma vez convencido da
sua
eternidade,
e convencido de que não tem de suportar o 'preço' de
compromissos sociais
(como o
estado social
) e de que pode permitir ao capital todas as liberdades, incluindo as que matam
as liberdades dos que vivem do rendimento do seu trabalho. O neoliberalismo
é a
ditadura do grande capital financeiro.
Concluo com Streeck: "o neoliberalismo não é
compatível com um estado democrático." Se as
condições o permitirem (ou o impuserem
), as
soluções 'brandas' que vêm sendo adoptadas, apesar de
'musculadas' e até violentas, poderão ser substituídas
pelo "modelo chileno dos anos 1970": o estado capitalista pode
vestir-se e armar-se de novo como
estado fascista,
sem máscaras, deixando para trás o
fascismo de mercado,
o
fascismo amigável
de que falavam Paul Samuelson e Bertram Gross já no início da
década de 1980, hoje bem patente nas nossas sociedades, caracterizadas
pela "assimetria entre poder e legitimidade" de que fala Ulrich Beck
("um grande poder e pouca legitimidade do lado do capital e dos estados,
um pequeno poder e uma elevada legitimidade do lado daqueles que
protestam").
6.
No contexto europeu, o
Tratado Orçamental
(2012) veio garantir ao grande capital financeiro que
as políticas não mudam mesmo quando mudam os governos
(Angela Merkel). Por isso Habermas entende que "os governos nacionais
são apenas actores no palco europeu" e que os parlamentos nacionais
"se limitam a aprovar obedientemente as decisões já tomadas
noutro lugar". E Felipe González defende que "os
cidadãos pensam, com razão, que os governantes obedecem a
interesses diferentes, impostos por poderes estranhos e superiores, a que
chamamos mercados financeiros e/ou Europa." É isto mesmo: as
regras alemãs
da
Europa do capital
(impostas por
poderes estranhos e superiores,
os
mercados financeiros
e/ou a
'Europa'
) estão a matar a
Europa social,
estão a 'matar' a
democracia,
mesmo a tão decantada
democracia representativa,
porque
as eleições não podem mudar as políticas.
As
políticas neoliberais
conduziram a "um dos piores desastres económicos auto-infligidos
jamais observados"; elas vêm condenando os países devedores
("a nova classe baixa da UE") a sofrer "perdas de soberania e
ofensas à sua dignidade nacional" (Ulrich Beck); exigem às
suas vítimas (os pobres dos países mais pobres)
"sacrifícios humanos em honra de deuses invisíveis"
(Paul Krugman); constituem
pecados contra a dignidade dos povos
(Jean-Claude Juncker), i.é, constituem verdadeiros
crimes contra a Humanidade.
Em plena crise grega, o ministro Varoufakis, cansado de tanta
humilhação, não se conteve e disse alto e bom som: "o
que estão a fazer à Grécia tem um nome: terrorismo".
Terrorismo de estado,
imposto por
poderes estranhos e superiores,
pelos
mercados financeiros
, pela
'Europa'
(com socialistas e conservadores de braço dado).
Como é bem sabido, o nazi-fascismo dos anos 1920-1945 costuma
caracterizar-se como a
ditadura terrorista
ao serviço dos interesses dos latifundiários e do grande capital
financeiro e industrial. E, pelos vistos, a natureza
terrorista
continua a caracterizar a actual
ditadura do grande capital financeiro,
especializada na
especulação contra a vida de milhões de pessoas.
Mas a realidade é diferente.
O
estado fascista
dos anos 1930/1940 foi anti-liberal, anti-democrata e anti-socialista. Assumiu
a economia como uma questão de estado e foi proteccionista. Porque este
era, nas condições da época, o perfil adequado para que o
estado capitalista
pudesse desempenhar a sua função, de acordo com os interesses
das
burguesias nacionais,
que, na Alemanha, na Itália e no Japão, aspiravam também
a conquistar um quinhão numa nova partilha dos territórios
colonizados ou a colonizar.
Nos nossos dias, os interesses do capital são os interesses do
grande capital financeiro,
e este não tem pátria e não conhece fronteiras, defende
o livre-cambismo e as políticas neoliberais. A sobrevivência deste
capitalismo de casino
pode exigir o regresso do terror à Europa e ao mundo. A
repressão e a violência poderão ser até mais brutais
(se tal é possível), mas assumirão novas formas, que
manterão o ADN radicalmente anti-trabalhadores. Estas novas formas de
violência e de barbárie já estão a acontecer:
campanhas de 'diabolização' de dirigentes políticos
incómodos; golpes palacianos; sanções económicas;
sabotagem de estruturas essenciais; bloqueios ilegais para provocar a escassez
artificial de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais
Aqui há tempos, Joschka Fischer escreveu o que segue: "A Alemanha
destruiu-se a si e à ordem europeia duas vezes no
século XX. (
) Seria ao mesmo tempo trágico e irónico
que uma Alemanha restaurada (
) trouxesse a ruína da ordem europeia
pela terceira vez". Dá arrepios ler isto. A História
não se reescreve nem se apaga. Não tenho tanta certeza de que
não se repita. Por isso é que sem nenhuma alegria, mas
não de ânimo leve eu acho que não podemos excluir em
absoluto a possibilidade de a Europa se condenar, mais uma vez, a si
própria e ao mundo, a uma nova era de barbárie. Neste quadro,
é essencial preservar a memória e não esquecer as
lições da História, e é imperioso estudar muito bem
a realidade que nos cerca. Daí a importância do
trabalho teórico
(que nos ajuda a compreender a realidade para melhor intervir sobre ela de
acordo com as leis históricas da sua
transformação
) e da
luta ideológica
(que nos ajuda a combater os interesses estabelecidos e as ideias feitas),
sendo que a
luta ideológica
é, hoje mais do que nunca, um factor essencial da luta política
e da luta social (da
luta de classes,
que faz mover o mundo).
Quem conhece um pouco de História sabe que a democracia não pode
considerar-se nunca uma conquista definitiva. É preciso, por isso, lutar
por ela todos os dias, combatendo os dogmas e as estruturas neoliberais
próprios do capitalismo dos nossos dias, apoiando os que protestam,
com elevada legitimidade,
contra o grande capital (que tem
pouca legitimidade,
apesar de ter
grande poder
). Esta é uma luta inadiável, e é uma luta de todos,
porque ela é, essencialmente, um combate pela democracia.
7.
As
políticas neoliberais
e a
globalização neoliberal
não são o fruto necessário do desenvolvimento
científico e tecnológico, são apenas uma
utilização perversa dele, tal como a bomba atómica
é o resultado da utilização perversa do desenvolvimento
científico na área da Física nuclear. O desenvolvimento
científico e tecnológico do último meio século
permite-me pensar que o direito ao sonho e à utopia tem hoje mais
razão de ser do que nunca. A vida mostra que o homem não deixou
de ser o lobo do homem. Mas, hoje, todos compreendemos que o
desenvolvimento científico e tecnológico
e o
desenvolvimento das forças produtivas
que dele decorre (entre as quais avulta o próprio homem, como criador,
depositário e utilizador do conhecimento) é o
caminho da libertação do homem,
não a origem dos males que hoje afligem a Humanidade, decorrentes da
globalização imperialista
(que a ideologia dominante quer fazer passar como
consequência incontornável
do
desenvolvimento científico e tecnológico
).
O aumento meteórico da produtividade do trabalho humano e da
produção efectiva de bens e serviços criou
condições mais favoráveis à
construção de um mundo capaz de responder satisfatoriamente
às necessidades fundamentais de todos os habitantes do planeta, um mundo
que permita alcançar o que todos buscam: a felicidade. O nível do
desenvolvimento científico e tecnológico realizado nos tempos
recentes (a uma velocidade insuspeitada nas últimas quatro ou cinco
décadas) dá cada vez mais sentido à tese de Marx sobre a
contradição fundamental do capitalismo:
a mais rápida evolução das forças produtivas
acaba por tornar as relações de produção
capitalistas incompatíveis com as forças de
produção hoje disponíveis, constituindo, por isso, um
obstáculo ao desenvolvimento da Humanidade, por não permitirem
extrair, em benefício de todos e de cada um dos homens, todas as
potencialidades que estão ao nosso alcance. Cito o
Manifesto Comunista:
"as relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas
para conterem a riqueza por elas criada."
8.
Alguns parecem aterrados porque as novas tecnologias resultantes do
desenvolvimento científico e tecnológico (nomeadamente a
inteligência artificial
) vão extinguir milhões de postos de trabalho. Pois bem. A
solução está em reduzir o tempo de trabalho (o que
corresponde ao ideal mais profundo dos homens), entregando às
máquinas as tarefas mais duras e menos atraentes e reservando para as
pessoas que trabalham as tarefas mais atraentes e mais criativas, aquelas que
se traduzem na criação dos instrumentos que permitem a
acção da inteligência artificial e aquelas que implicam
contacto humano, mais susceptíveis de valorizar quem as realiza e quem
delas beneficia. Ponto é que estas actividades não sejam
consideradas (como estão a sê-lo) actividades 'menores',
socialmente desqualificadas e pagas com salários muito baixos.
No Livro 3º de
O Capital
escreveu Marx: a liberdade consiste em os homens "colocarem a
Natureza
sob o seu controlo comunitário em vez de serem dominados por ela como
por um poder cego"; a liberdade consiste em desenvolver esta
acção de controlo "com o mínimo emprego de
força e nas condições mais dignas e adequadas à sua
natureza humana. (
) O encurtamento do dia de trabalho é a
condição fundamental." É isto que faz sentido:
encurtar o dia de trabalho
! Aos que nos acusam de nos deixarmos embalar nas miragens da 'utopia
marxista', vale a pena lembrar que, em 1928, Keynes (um economista
assumidamente empenhado em
salvar o capitalismo
) previa que, dentro de cem anos (estamos quase a chegar!), não
precisaríamos de trabalhar mais de 15 horas por semana. E, em 1960, o
economista americano Alvin Hansen defendeu que "a automação
pode conduzir a produção de bens materiais a um ponto em que a
massa da nossa energia produtiva poderá ser consagrada a satisfazer as
necessidades do espírito." Em 1993 o liberal Ralph Dahrendorf falou
da necessidade da "transferência de alguns ganhos de produtividade
para tempo, em vez de dinheiro, para tempo livre, em vez de mais
rendimento."
Esta é se não erro muito uma das questões
nucleares que estão em aberto neste tempo de contradições.
O desenvolvimento da produtividade resultante do progresso científico e
tecnológico permite que se disponha de mais
tempo livre,
de mais tempo para satisfazer as
necessidades do espírito,
para as actividades libertadoras do homem, em vez de o afectar a produzir
cada vez mais bens para ganhar cada vez mais dinheiro para comprar cada vez
mais bens. A passagem do
reino da necessidade
para o
reino da liberdade
só carece de novas relações sociais de
produção, de um novo modo de organizar a economia e a sociedade,
num quadro histórico em que o trabalho, não sendo ainda,
"ele próprio, a primeira necessidade vital", talvez comece a
não ser somente "um meio de viver."
Todos concordaremos com Amartya Sen quando defende que o facto de haver pessoas
que passam fome e que morrem de fome... só pode
explicar-se pela
falta de direitos
e não pela
falta de bens.
O problema fundamental que se nos coloca não é, pois, o da
escassez,
mas o da
organização da sociedade.
Comentando este ponto de vista de Sen, pergunta Ralf Dahrendorf: "Porque
é que os homens, quando está em jogo a sua sobrevivência,
não tomam simplesmente para si aquilo em que supostamente não
devem tocar mas que está ao seu alcance? Como é que o
direito
e a
ordem
podem ser mais fortes que o
ser
ou
não ser
?" Lendo Sen, podemos dizer que a resposta está na
falta de direitos.
Ou na
falta de poder.
Este é o problema decisivo, não o
problema da escassez.
Dahrendorf faz ainda outra pergunta: "o que seria preciso para modificar
as
estruturas de direitos,
de modo a que mais ninguém tivesse fome?" A própria
pergunta parece encerrar a ideia de que é necessário
modificar as estruturas de direitos
(i. é, as
estruturas do poder
). Como o
poder,
as
relações de poder
e as
estruturas do poder
estão fora da análise da
ciência económica dominante,
é necessário que a ciência económica não
continue a adiar a busca de um
outro padrão de racionalidade.
A ciência económica tem de assumir-se de novo como
economia política,
como um
ramo da filosofia social,
porque "a economia contemporânea tem mais necessidade de
filósofos do que de econometristas."
9.
Nos dias de hoje, o capitalismo dominado pelo capital financeiro vem
recorrendo a todos os meios (mesmo se não legítimos) para
salvaguardar as
rendas parasitas
de que se alimenta. E estas são rendas de tipo feudal, que traduzem a
crescente exploração dos trabalhadores,
na tentativa de contrariar a
tendência para a baixa da taxa média de lucro nos sectores
produtivos,
que as chamadas
crises do petróleo
da década de 1970 trouxeram à luz do dia. Também por
isso, este
capitalismo rentista
vem gerando crises cada vez mais frequentes e cada vez mais difíceis de
ultrapassar, indispensáveis para destruir o capital em excesso perante a
escassez da procura global.
Esta situação de crise permanente não pode manter-se por
muito tempo. E o
crime sistémico
(que hoje constitui a essência do capitalismo) não pode continuar
impune indefinidamente. Após um longo período de
degradação, o sistema feudal acabou por ceder o seu lugar
à nova sociedade capitalista, quando as relações de
produção, assentes na
propriedade feudal
da terra e na
servidão pessoal,
deixaram de poder assegurar as rendas, os privilégios e o estatuto dos
senhores feudais, que já não tinham mais margem para novas
exigências aos trabalhadores servos. Pode acontecer que estas crises
recorrentes do capitalismo e esta fúria de tentar resolvê-las, com
tanta violência, à custa dos salários, dos direitos e da
dignidade dos trabalhadores (confirmando a natureza do capitalismo como
civilização das desigualdades
), sejam o prenúncio de que as actuais estruturas capitalistas já
não conseguem, nos quadros da vida democrática, garantir as
rendas
e o estatuto das classes dominantes.
Num livro de 1998, Eric Hobsbawm defendeu que "há sinais, tanto
externamente como internamente, de que chegámos a um ponto de crise
histórica. (
) O nosso mundo corre o risco de explosão e de
implosão. Tem de mudar." E conclui: "O futuro não pode
ser uma continuação do passado." Tudo parece indicar que
estamos próximos (em tempo medido à velocidade da
História, que não da nossa própria vida) deste momento.
Este diagnóstico com mais de vinte anos tem hoje ainda mais razão
de ser, neste tempo da
inteligência artificial.
A razão está do nosso lado. Como costumo dizer, meio a brincar
e muito a sério,
o capitalismo tem os séculos contados.
[*]
Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
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O original encontra-se em
O Militante
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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