O eticismo de Bernardino Machado

por Manuel Machado Sá Marques [*]

Bernardino Machado, caricaturado por Jorge Barradas. Quando da entrevista que me foi feita, em Julho passado, por uma equipa do Museu Bernardino Machado, depois de falar sobre as recordações de infância e do posterior convívio com meu Avô após o seu regresso do exílio, quer em Mantelães, quer na Senhora da Hora, o interlocutor perguntou-me: "Tem falado como neto, mas o que pensa de Bernardino Machado como figura histórica?" De repente fiquei surpreso, porque a imagem do Avô não se me poderia separar daquela que guardo, cada vez mais intensamente do Cidadão, do seu amor pela Liberdade e do seu grande respeito pelo Povo.

Bernardino Machado viveu toda uma longa vida para harmonizar estes dois sentimentos.

  • "Duas forças sobretudo dominam o mundo, maiores que todas as outras, a liberdade, que é a maior força singular, e a sociabilidade, que é a maior força colectiva. Harmonizá-las, eis o problema. Unidas, dão a prosperidade e a grandeza das nações e da humanidade; separadas, em conflito, a sua decadência e ruína. E tão condenável é a selvajaria licenciosa que atente contra os laços sociais, como a escravatura corporativa que sufoque as livres aspirações das almas".

  • "Onde o único soberano é o povo, só se governa com ele".

  • " A grande massa trabalhadora reclama da justiça social o bem que lhe é devido, mas não lhe é indiferente alcançá-lo de direito ou recebê-lo de esmola. Repele o caldo da portaria do convento".

  • "A revolução só o povo tem o direito de a decretar".

    A sua figura de cidadão no alto sentido moral, corresponde a todas as épocas. Bernardino Machado viveu durante a metade do século XIX e os primeiros 40 anos do século XX, sempre actuando conforme o seu pensamento. Tinha a força do exemplo quando combatia a corrupção, a prepotência, as clientelas.

  • "As clientelas não têm dono certo, pertencem ao Poder".

  • "Para um governo de privilégios não há problemas nacionais, porque o mal estar geral não é nada, enquanto não afecte a sorte dos poderosos. Nos momentos críticos vêm então em nome da ordem falar ao sentimento público, como se não fosse ele o principal fautor da desordem, ele, que, para viver, cultiva todas as desgraças, a ignorância, a miséria e o vício. Com um governo assim, os cidadãos dividem-se em exploradores e explorados, e quase todos os que ascendem na escala social, abismam-se na corrupção".

    Homem que sacrificou a sua vida e a da família (a sua segunda república), com tolerância para com as pessoas, mas altivamente intransigente nos princípios, batalhando por eles destemidamentemente, cerradamente, sem o mínimo desfalecimento, hoje mais que nunca, tem que ser lembrado como símbolo do político digno.

    Recordamos que em 1934, já com 83 anos, editou um opúsculo apelando à unidade na luta antifascista, onde escreveu:

  • "Não é a paixão comunista, do bem comum, que rompe os laços íntimos de coesão da sociedade. Seria paradoxal. Rompe-os a desalmada reacção. Mas cabem enormes responsabilidades aos egoístas pusilânimes de todos os que, tudo devendo à democracia, que os criou, os instruiu e os levou a postos dirigentes, devendo ser os seus poderosos esteios, ao contrário, renegando-se, abdicando da indeclinável missão social que lhes compete, se convertem, por medo ou ignávia, em aliados dos seus inimigos. Eis o que faz com que o povo, isolado, só, em frente das prepotências flagelantes da reacção, se arregimente em classe. É ele então ainda, honra lhe seja! quem defende a vida e os foros do terceiro Estado, que, em tantas procelas perigosas, foi desde os inícios da nossa nacionalidade a alma ardente da nossa autonomia. Ditadura por ditadura, prefere a sua. Nem o bem se deve impor, é certo. Mas de quem sobretudo a culpa?"

    Todas as citações referidas exprimem bem o pensamento activo de um político sempre actual – Bernardino Machado.

    Lisboa/Setembro/2005

    [*] Ex-membro do Conselho Geral da Ordem dos Médicos de Portugal e primeiro presidente do Sindicato dos Médicos.

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