O eticismo de Bernardino Machado
por Manuel Machado Sá Marques
[*]
"Duas forças sobretudo dominam o mundo, maiores que todas as
outras, a liberdade, que é a maior força singular, e a
sociabilidade, que é a maior força colectiva.
Harmonizá-las, eis o problema. Unidas, dão a prosperidade e a
grandeza das nações e da humanidade; separadas, em conflito, a
sua decadência e ruína. E tão condenável é a
selvajaria licenciosa que atente contra os laços sociais, como a
escravatura corporativa que sufoque as livres aspirações das
almas".
"Onde o único soberano é o povo, só se governa com
ele".
" A grande massa trabalhadora reclama da justiça social o bem que
lhe é devido, mas não lhe é indiferente
alcançá-lo de direito ou recebê-lo de esmola. Repele o
caldo da portaria do convento".
"A revolução só o povo tem o direito de a decretar".
A sua figura de cidadão no alto sentido moral, corresponde a todas as
épocas. Bernardino Machado viveu durante a metade do século XIX e
os primeiros 40 anos do século XX, sempre actuando conforme o seu
pensamento. Tinha a força do exemplo quando combatia a
corrupção, a prepotência, as clientelas.
"As clientelas não têm dono certo, pertencem ao
Poder".
"Para um governo de privilégios não há problemas nacionais, porque o mal estar geral não é nada, enquanto não afecte a sorte dos poderosos. Nos momentos críticos vêm então em nome da ordem falar ao sentimento público, como se não fosse ele o principal fautor da desordem, ele, que, para viver, cultiva todas as desgraças, a ignorância, a miséria e o vício. Com um governo assim, os cidadãos dividem-se em exploradores e explorados, e quase todos os que ascendem na escala social, abismam-se na corrupção".
Homem que sacrificou a sua vida e a da família (a sua segunda
república), com tolerância para com as pessoas, mas altivamente
intransigente nos princípios, batalhando por eles destemidamentemente,
cerradamente, sem o mínimo desfalecimento, hoje mais que nunca, tem que
ser lembrado como símbolo do político digno.
"Não é a paixão comunista, do bem comum, que rompe os laços íntimos de coesão da sociedade. Seria paradoxal. Rompe-os a desalmada reacção. Mas cabem enormes responsabilidades aos egoístas pusilânimes de todos os que, tudo devendo à democracia, que os criou, os instruiu e os levou a postos dirigentes, devendo ser os seus poderosos esteios, ao contrário, renegando-se, abdicando da indeclinável missão social que lhes compete, se convertem, por medo ou ignávia, em aliados dos seus inimigos. Eis o que faz com que o povo, isolado, só, em frente das prepotências flagelantes da reacção, se arregimente em classe. É ele então ainda, honra lhe seja! quem defende a vida e os foros do terceiro Estado, que, em tantas procelas perigosas, foi desde os inícios da nossa nacionalidade a alma ardente da nossa autonomia. Ditadura por ditadura, prefere a sua. Nem o bem se deve impor, é certo. Mas de quem sobretudo a culpa?"
Todas as citações referidas exprimem bem o
pensamento activo
de um político sempre actual
Bernardino Machado.
Lisboa/Setembro/2005
[*] Ex-membro do Conselho Geral da Ordem dos Médicos de Portugal e primeiro presidente do Sindicato dos Médicos. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |