Não são os 89.000 km2 que nos tornam pequeninos

por José Paulo Gascão

Manifestação em Salamanca. Não se pode compreender, em toda a sua dimensão, a gravidade da reserva dos representantes portugueses ao texto da Resolução da Cimeira Ibero-Americana de Salamanca contra o bloqueio norte-americano a Cuba, sem conhecer, mesmo que em traços largos, a história desse mesmo bloqueio.

Com o triunfo da Revolução Cubana a 1 de Janeiro de 1959, os EUA, de imediato, reconheceram o novo regime e trocaram o embaixador, um próspero homem de negócios próximo de Fulgêncio Batista, por um diplomata de carreira com fama de liberal, Philip Bonsal. Em 23 de Abril, funcionários dos EUA informam o presidente Eisenhower que Fidel "é sem dúvida uma personalidade forte e um líder nato, de grande valor e convicções pessoais." Inspira-o um sentido messiânico de missão em benefício do seu povo."

Roy Rubottom, secretário adjunto para os assuntos inter-americanos, em reunião do Conselho de Segurança Nacional, a 14 de Janeiro de 1960, já distingue as seguintes fases no relacionamento EUA/Cuba:

  • Até Março de 1959 foi um período de boas relações, "de lua de mel", diz ele;
  • Em Abril, já os EUA tinham esfriado as suas relações com Cuba;
  • "Em Junho tínhamos chegado à decisão de que não era possível alcançar os nossos objectivos com Castro no poder", pelo que se devia adoptar o plano de Livingston Merchant, subsecretário de Estado: o "objectivo é[ra] ajustar todas as nossas acções de maneira que se acelere o desenvolvimento de uma oposição em Cuba que dê origem… a um novo governo favorável aos interesses estadunidenses".
  • "Em Julho e Agosto atarefámo-nos na elaboração do programa para substituir Castro". Nessa altura, "algumas empresas estadunidenses informaram-nos que estavam tendo algum progresso nas negociações que tinham com o governo cubano, o que nos levou a diminuir o ritmo na implementação do plano."
  • "Outubro foi o período de clarificação… A 31 de Outubro, o Departamento de Estado, de acordo com a CIA, recomendou ao presidente a aprovação de um plano". "O programa aprovado autorizou-nos a prestar apoio aos elementos que se opunham ao governo de Castro dentro de Cuba, para fazer crer que a sua queda era o resultado dos seus próprios erros".

No poder desde Abril de 1960, Kennedy aprovou a invasão da Baía dos Porcos por mercenários financiados e armados pelos EUA.

Apesar de tudo, no prosseguimento da sua política de bom relacionamento com todos os povos e países (Cuba sempre teve relações diplomáticas com os regimes fascistas de Portugal e Espanha), em 17 de Agosto de 1961, aproveitando a Conferência Inter-Americana de Punta del Este, Che Guevara reuniu-se com o assessor de John Kennedy, Richard Goodwin, que no seu memorando ao presidente escreve: "Os cubanos não desejam um entendimento com os EUA, porque sabem que é impossível. Desejam um modus vivendi, ou pelo menos um modus vivendi temporal… Disse [Guevara] que não estava em discussão qualquer fórmula que significasse a renúncia ao tipo de sociedade a que se consagram". Ainda de acordo com o memorando, Guevara mostrou abertura para "falar das actividades da revolução cubana noutros países".

John Kennedy, que tantos, distorcendo os factos históricos, tentam apresentar como um modelo de democrata – a sua acção contra Cuba, e não só, prova o contrário –, recusou qualquer tipo de modus vivendi com Cuba. Além disso, os EUA tinham outro problema: um crescente surto revolucionário na América Latina, animado com o exemplo de Cuba libertada:

  • Como alternativa à sua rejeição de um modus vivendi, Kennedy decidiu a invasão de Cuba, seguindo o exemplo de Eisenhower, na Guatemala em 1954, quando derrubou o governo legítimo e democrático de Jacobo Arbenz, com o sabido genocídio que se lhe seguiu;
  • Para o conjunto da América Latina, utilizou a Aliança para o Progresso, programa dito de reformas sociais, económicas e políticas, que teve como única consequência a modernização e fortalecimento dos exércitos das ditaduras da região.

Desconfiando da eficácia da CIA desde o fracasso da Baía dos Porcos, ordenou a Richard Bissel, director adjunto CIA para as operações encobertas (eufemismo para designar a intervenção dos EUA em terceiros países ou sua actividade terrorista) que "nada [fizesse] para acabar com Castro e o seu regime". Ao mesmo tempo, nomeava seu irmão Bob Kennedy, secretário de Estado da Justiça, como supervisor e o general Edward Landale como responsável da "Operação Mangosta" – um plano assente em dois pressupostos:

  • O reconhecimento de que o êxito da operação requeria uma intervenção dos EUA;
  • A participação de cubanos apenas serviria para apoiar e justificar a intervenção dos EUA.

Seja dito que, só em Março de 1960, foram restabelecidas as relações diplomáticas entre Cuba e a URSS.

Depois, foi a sobejamente conhecida "crise dos mísseis", em que se encontrou uma solução que, então, deu algumas garantias da não invasão de Cuba pelos EUA.

Em 3 de Fevereiro de 1962, John Kennedy oficializou o que há muito vinha fazendo: o bloqueio a Cuba, expediente a que recorreu na guerra não declarada que já vinha a fazer contra Cuba. Posteriormente, com a Lei Torricelli (1992) e a Lei Helms-Burton (1996), os EUA pretenderam não só agravar o bloqueio, como dar-lhe um carácter extra-territorial e obrigatório para todos os países.

Daí para cá, foi o recurso ao terrorismo, que ninguém de boa fé pode negar: os EUA promoveram dezenas de atentados contra Fidel Castro, financiaram, treinaram, protegeram, acolheram e acolhem terroristas (Posada Carrilles é mais um), numa política criminosa que tem custado a vida a muitas centenas de inocentes cubanos.

Tudo isto, e seguramente muito mais, sabem os representantes de Portugal na Cimeira Ibero-Americana de Salamanca. Apesar disso, cederam ao diktat dos EUA, e propuseram, na versão em português da Resolução referida, a utilização da palavra "embargo" por "bloqueio". Ao contrário de algumas justificações canhestras (não me refiro a José Sócrates, pois, sem relutância, admito a sua ignorância da história do bloqueio e da diferença conceptual entre os dois termos), bloqueio e embargo não são sinónimos, são conceptualmente diferentes. Bloqueio é um acto de guerra, enquanto embargo é um acto de natureza comercial, não necessariamente bélico.

Que Freitas do Amaral, ministro dos Negócios Estrangeiros num governo de maioria absoluta do PS (não é um governo de coligação!), alinhe com os ataques e calúnias dos EUA a Cuba, é natural.

Está onde sempre esteve desde o tempo das lutas estudantis dos anos 60.

O que espanta, é que este coerente e revanchista representante da direita nas eleições presidenciais de 1986 (que com razão disse em recente entrevista que não mudou, os outros – PS incluído, concluo eu – é que se aproximaram dele), tenha sido escolhido para o importante cargo que desempenha e continue em funções, apesar de, amiúde, desdizer o primeiro-ministro.

Freitas do Amaral está no seu posto, a defender o que sempre o norteou.

Não é o caso de Jorge Sampaio, embora também não nos surpreenda, particularmente, no que a Cuba respeita.

Foi Jorge Sampaio que, na Cimeira do Porto, por pressão dos EUA que não queriam que a Cimeira de 2000 tivesse lugar em Havana, pela única vez na história desta organização internacional, propôs a ratificação do local da Cimeira seguinte, o que já estava decidido desde 1998 – Havana!

Na Cimeira de Havana, ao contrário do rei de Espanha que resistiu às pressões, como então foi sobejamente noticiado, Jorge Sampaio aceitou reunir-se, na Embaixada de Portugal, com um grupo de "dissidentes" cubanos. Posteriormente, com a apresentação das testemunhas nos julgamentos dos 75 "dissidentes", veio a saber-se que, entre os recebidos pelo Presidente da República Portuguesa, estavam agentes da inteligência cubana, infiltrados entre os "dissidentes", o que motiva sorrisos irónicos em meios diplomáticos acreditados em Havana, quando se refere o assunto.

Países como Honduras, Equador, Panamá, Nicarágua, Bolívia e a Colômbia, apesar da dependência que se conhece, não cederam às pressões dos EUA e condenaram o acto de guerra que é o "bloqueio" norte-americano a Cuba, enquanto Portugal pediu a mudança para "embargo", como os EUA desejavam.

Não são os 89.000 km 2 de superfície que nos tornam pequeninos.

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Notas:
Todas as referências entre aspas são retiradas de documentos norte-americanos desclassificados, mencionados por Piero Gleijeses, professor de Política Externa dos EUA e Assuntos Latino-Americanos da Universidade norte-americana de John Hopkins, em Missiones en Conflito, Editorial Ciencias Sociales, La Habana, 2002, 1ª edição, ISBN 959-06-0559-1. Propositadamente, não fazemos uma única citação de documentos cubanos, a que Gleijeses teve todo o acesso que solicitou.  JPG.
Ver também: Livro destaca internacionalismo dos voluntários cubanos em Angola .


O original encontra-se no Jornal do Fundão, edição de 03/Novembro/2005.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
04/Nov/05