O Orçamento do Estado para 2006
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Em 2006, o investimento público feito através do PIDDAC
diminuirá, relativamente ao de 2005, em -27,8% mesmo em valores
nominais, pois a preços constantes de 2005 a redução
é muito superior. Para além disso, se a análise for feita
por distritos conclui-se que redução é feita de uma forma
muito desigual, atingindo fortemente os distritos menos desenvolvidos do
País. Por ex., a redução no investimento público
num único ano (2005/2006) no distrito de Beja atinge -32,2%; no de
Braga: -39,4%; no de Bragança: -37,5%; no de Évora: -30,4%; no de
Portalegre: -35,3%; no de Viana do Castelo: -35,3%; no de Vila Real: -42,3%; e
no de Viseu: -40,7%; portanto, reduções muito superiores à
redução média registada para todo o País (-27,8%),
o que determinará o agravamento das já graves assimetrias
regionais.
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O Orçamento de Estado é um documento que define as prioridades do
governo e as politicas para implementar essas prioridades. A análise do
OE2006 apresentado pelo governo que o PS acabou de aprovar sozinho na
Assembleia da República estabelece como prioridade absoluta a
redução do défice orçamental de 6,2% do PIB para
4,8% do PIB. E para a cumprir, define politicas que têm como objectivo
fundamental reduzir de uma forma cega as despesas do Estado, como se vai
mostrar. E o chamado Plano de Estabilidade e Crescimento 2, que o governo
acabou de apresentar em Dezembro 2005, corrigiu para pior o apresentado em
Junho anterior, agravando o cenário macroeconómico com base no
qual foi elaborado o OE2006.
O INVESTIMENTO PÚBLICO VAI DIMINUIR EM 2006,
E AS DESIGUALDADES VÃO-SE AGRAVAR
É necessário investir mais, nomeadamente investimentos de
qualidade, para criar riqueza e emprego, e para aumentar a produtividade e a
competitividade da Economia Portuguesa.
Em 2003, o investimento global no País diminuiu em mais de -10%; em 2004
cresceu apenas 1,3%; em 2005, a previsão inicial era um aumento de 5,2%,
mas a ultima estimativa do Banco de Portugal de Novembro de 2005 era já
uma diminuição de -2,8%. Como é evidente, a quebra
continuada no investimento contribui para o agravamento da crise
económica e também social, porque sem investimento o desemprego
vai continuar a aumentar rapidamente. Face a esta situação que
é grave, era necessário que o Estado desse um sinal fortemente
positivo com o objectivo de dinamizar o investimento privado. No entanto,
dominado pela obsessão do défice e portanto com o objectivo de o
reduzir, o governo dá precisamente um sinal contrário daquele que
era necessário que desse, reduzindo significativamente o investimento
público, como mostram os dados do quadro seguinte:
O investimento público realizado através do PIDDAC para 2006
é inferior ao de 2005 em -27,8%. Se a comparação for feita
não com o Orçamento inicial de 2005, como se acabou de fazer, mas
sim com o Orçamento do Estado rectificativo para 2005 (aquele que
já foi elaborado pelo governo de Sócrates), a
diminuição do investimento em 2006 não deixa de ser
significativa. O PIDDAC constantes do Orçamento rectificativo para 2005
previa investimentos no valor de 6.506 milhões de euros, enquanto o de
2006 só prevê um valor de apenas 4.854 milhões de euros,
ou seja, menos 25,4%.
Se compararmos o investimento previsto para 2006 mesmo com o previsto quer para
2001 (governo PS) quer para 2002 (governo PSD/PP), a redução
não deixa de ser grande: em relação ao de 2001: -21,6%;
relativamente ao de 2002: - 26,9%. E esta comparação é
feita em valores nominais, portanto sem entrar em conta com a taxa de
inflação, pois se fosse a preços constantes, em qualquer
um dos casos a diminuição atingiria cerca de um terço.
Para além disso, se se analisar a repartição por distritos
conclui-se que a diminuição é muito desigual, sendo
distritos pouco desenvolvidos os mais atingidos, o que só
agravará as assimetrias (desigualdades) regionais. Por exemplo, entre
2001 e 2006, o investimento público realizado através do PIDDAC,
em valores nominais diminui -42,9% em Beja, -61,1% em Braga, -61,1% em
Bragança, -50,6% em Viana do Castelo: 67,8%; em Vila Real: -53,6%; em
Viseu: -54,5%; quando a redução a nivelo do País foi de
-21,6%.
PORTUGAL É O PAÍS DA UNIÃO EUROPEIA COM MAIS BAIXA
ESCOLARIDADE E ONDE O ABANDONO ESCOLAR É MAIOR
Uma das causas estruturais da grave crise económica e social que o
País enfrenta é precisamente a baixa escolaridade da
população portuguesa. Enquanto este problema estrutural
não for resolvido, Portugal terá muitas dificuldades de sair do
estado de atraso em que se encontra.
O quadro seguinte mostra a gravidade da situação portuguesa
quando a compararmos com a dos países da União Europeia.
Quando compararmos com base na linguagem fria dos números a
situação portuguesa com a dos outros países da
União Europeia, nomeadamente com o nível de escolaridade dos 10
países que entraram para a U.E. em Março de 2004, que são
os principais concorrentes dentro da União Europeia com o nosso
País, a conclusão é extremamente preocupante. Por ex., a
população com o ensino secundário, que é o
mínimo necessário actualmente, a percentagem portuguesa é
cerca de 3,8 vezes inferior à média da União Europeia, e a
do ensino superior é 2,3 vezes inferior.
E se juntarmos a isto um outro dado recente divulgado pelo Eurostat, o alarme
é ainda maior. Em 2004, a percentagem de jovens com idade entre os 20 e
24 anos, com o secundário completo atingia em média nos 25
países da União Europeia 76,7%, enquanto em Portugal era apenas
49%; por outras palavras, no nosso País apenas 49 em cada 100 jovens com
idade compreendida entre os 20 e 24 anos têm o ensino secundário
completo. E o secundário está actualmente como a 4ª classe
estava há 50 anos. O secundário completo é a base
mínima necessária para Portugal poder passar de um modelo de
crescimento baseado no trabalho pouco qualificado e mal remunerado, que
é o actual e está esgotado, para um modelo assente em trabalho
qualificado e de salários europeus.
AS DESPESAS COM O ENSINO BÁSICO E SECUNDÁRIO E COM ENSINO
SUPERIOR VÃO DIMINUIR NO ANO 2006 EM PORTUGAL
Face a esta situação alarmante e estrutural que o País
enfrenta, seria de esperar que o Estado fizesse um grande esforço para
resolver este gravíssimo problema, que levará certamente muitos
anos, mas que era urgente não perder mais tempo. No entanto, a
obsessão do défice também dominou neste campo, e o
Orçamento do Estado para 2006 reduz, relativamente a 2005, os valores
orçamentados quer para o "Ensino básico e
secundário" quer para o "Ensino superior" (Universidades
e Institutos Politécnicos) , como mostram os dados do quadros seguinte.
Entre 2005 e 2006 as despesas com o "ensino básico e
secundário" assim como com o ensino superior, incluindo as despesas
com a acção social, ou seja, de apoio aos estudantes,
registarão um redução importante que, em valores nominais,
atinge -0,5% e -2,5%, mas que em valores reais, isto é , deduzindo o
efeito do aumento de preços, alcança um valor muito elevado.
E tudo isto sucede, quando uma das causas da baixa competitividade da Economia
Portuguesa é precisamente o baixíssimo nível de
escolaridade e de qualificação da população
empregada, e quando os especialistas que têm visitado o nosso País
têm afirmado que Portugal, para poder ultrapassar rapidamente o grave
atraso em que se encontra neste campo, terá de investir mais neste
campo, e nunca reduzir o esforço financeiro como acontecerá em
2006 com o Orçamento do governo que foi aprovado.
A POLITICA DE PROMOÇÃO DO TRANSPORTE CARO E POLUENTE CONTINUA
Um dos problemas graves que o País tem que contribui também para
a grave crise económica actual é a profunda
distorção de todo o seu sistema de transporte, que assenta
fundamentalmente no transporte rodoviário em prejuízo do
transporte ferroviário, e dentro deste último no transporte
individual em prejuízo do transporte colectivo.
Se compararmos a situação portuguesa neste campo com a da
União Europeia, conclui-se que o transporte ferroviário em
Portugal representa apenas cerca de 6% do transporte interno, ou seja, uma
percentagem que corresponde a um terço da média
comunitária. Por outro lado, nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e
do Porto, entre 1991 e 2001, na deslocação das pessoas,
nomeadamente pendular que abrange diariamente quase um milhão de pessoas
(casa-trabalho-casa), a utilização do transporte individual
duplicou (passou de 22% para 44%), enquanto a utilização do
transporte colectivo praticamente reduziu-se para metade. E como se sabe o
transporte rodoviário, e dentro deste o transporte individual, é
um transporte caro e poluente. É esta uma das causas principais quer da
elevada ineficiência energética que caracteriza a Economia
Portuguesa, quer da grave dependência energética, quer ainda da
pesada factura energética (nos 8 primeiros meses de 2005, o custo das
importações de combustíveis aumentou 40% relativamente a
igual período de 2004.
Apesar de esta ser uma das causas importantes da grave crise que o País
enfrenta, e de ser urgente alterar esta politica assente na
promoção do transporte rodoviário que foi iniciada pelo
governo de Cavaco Silva de investimento fundamentalmente nas infra-estruturas,
ou seja, no "betão" em prejuízo do investimento nas
pessoas (Portugal seguiu um politica radicalmente diferente da Finlândia
que investiu fundamentalmente nas pessoas e na inovação, e que
por isso apresenta elevadas taxas de crescimento económico); repetindo,
apesar de ser urgente modificar esta politica para eliminar uma das causas
estruturais da crise actual, o certo é que o Orçamento do Estado
para 2006, continua a mesma politica. Por exemplo, num conjunto de 20 projecto
autónomos do Ministério das Obras Públicas, Transportes e
Comunicações, que constam da própria Lei do
Orçamento que envolvem despesas que totalizam cerca de 742
milhões de euros, 90% dizem respeito ao transporte rodoviário e
apenas 5% ao transporte ferroviário (CP, Metros de Lisboa, Porto e Sul
do Tejo, e também o TGV). A politica do betão iniciada por
Cavaco Silva continua a ter defensores fortes neste governo.
Interessa ainda referir, porque é também um símbolo desta
politica de desprezo, em actos porque em declarações afirma-se o
contrário pelo transporte colectivo, que na Lei do Orçamento para
2006, na pág. 148, projecto nº 13, no PIDDAC Ministério da
Economia e Inovação estejam inscritos 2.000.000s de euros
destinados à organização do Campeonato do Mundo da Vela;
e na mesma página, projecto nº 14, agora no âmbito do
Ministério das Obras Públicas, Transportes e
Comunicações estejam também inscritos mais 2.000.000 de
euros para idêntico fim. Se juntarmos a estes valores o
orçamentado para o Paris-Dakar obtém-se 7.000.000 de euros. E na
pág. 156, projecto nº 17, no âmbito do Ministério das
Obras Públicas, Transportes e Comunicação estão
orçamentados 5.737.000 euros para o Metropolitano de Lisboa destinados
ao "financiamento de infra-estruturas de longa duração".
Em resumo, para o governo de Sócrates parece ser mais importante o
campeonato mundial de vela e o Paris-Dakar do que o Metro de Lisboa, onde
são cada vez mais frequentes os atrasos por "razões
técnicas" (leia-se deficiências e avarias técnicas). A
confirmar esta conclusão, está o facto de se ter
orçamentado para aqueles dois eventos um valor superior ao que se
destina para o Metro de Lisboa em 2006.