Coluna vertebral precisa-se
Portugal é um país sem coluna vertebral, rastejando atrás
de interesses alheios e contrários aos da esmagadora maioria dos
portugueses, quantos deles obscuros e perigosos, por exemplo os que ressaltam
da cavalgada provocatória da NATO, dos aterradores bastidores da
administração Trump, das manobras federalistas e de casino da
União Europeia. Arrasta-se como os humilhados, sem voz própria,
num murmúrio débil cuidando que é sonante, imitando uma
personalidade que não passa de ficção, pois há
muito se dissolveu no magma apodrecido do neoliberalismo.
Há mais de quatro décadas que o degradante caminho vem
sendo percorrido, desde que o dr. [Mário] Soares transformou o 25 de
Novembro num instrumento para tentar eliminar tudo o que tornava Portugal
diferente, autónomo, solidário, independente, verdadeiramente
multilateralista como agora se usa dizer. Tudo o que fora herdado de 25 de
Abril de 1974, significativamente definido como movimento emancipador porque
devolveu ao país a capacidade de ser ele próprio.
Próprio, atrevido, incómodo para aqueles que entendem parcerias e
alianças como veículos de humilhação, de
subalternidade, de submissão. Por isso o dr. Soares e os seus imitadores
de direita correram a chamar o FMI, a enfiar-nos a todo o custo na "Europa
connosco" aquela onde se entra mas de onde se não sai, o
Reino Unido que o diga a realinhar-se, obedientes, na cadeia de comando
dos generais norte-americanos da NATO.
À revelia da opinião pública
Um caminho degradante e percorrido à revelia da opinião
pública. Porque ninguém pode afiançar, com absoluta
segurança, que os portugueses quiseram entrar na Comunidade
Económica Europeia, ou no euro, ou ser "ajudados" pelo FMI, ou
ser "salvos" pela troika.
Há quem garanta que sim, que saiba como pensam os portugueses sobre
essas matérias em relação às quais ninguém
os esclareceu nem consultou. O esclarecimento é perigoso para quem
transformou a política numa ciência de enganos; e a consulta
poderia trazer resultados duvidosos. É certo que, fazendo referendo
atrás de referendo, eleições atrás de
eleições, se alcançam os resultados pretendidos e
por aí seguirá o Reino Unido, como anteriormente foram a Irlanda,
a Holanda, a França. E se exige à Venezuela independente.
A opção imposta aos portugueses foi mais simples e pronta: nada
de consultas. Para intuir a vontade dos cidadãos basta a opinião
publicada, porque o saber de jornalistas bem aconselhados, publicistas,
politólogos, gurus palradores e académicos sebenteiros dispensa
bem a contagem de uns milhões de votos. Poupa-se tempo, dinheiro, papel
e desgaste da massa cinzenta dos eleitores.
Garantiu-se assim, liminarmente, a legitimidade para o dr. Soares pedir
"ajuda" ao FMI, coisa que Fundo não enjeitou; e assim
começaram, já lá vão quatro décadas, as
sagas da "liberalização laboral", das
privatizações, da dívida incobrável, da
obsessão do défice, enfim das receitas neoliberais que trazem com
elas, por inerência, a verdadeira liberdade, a democracia como deve ser,
os autênticos motores da economia, a imprescindível
desregulação do mundo financeiro. E, com elas, a
extinção da soberania nacional
Pelas mãos do prof. Cavaco vieram, também clandestinamente,
Maastricht e o euro; os seus sucessores permaneceram fiéis ao rumo
traçado e nenhum deixou de cumprir cada passo determinado pela
interminável maratona neoliberal, habilitando-se, como recompensa, a
sonantes cargos nas arenas internacionais, da União Europeia à
ONU. E sempre, é quase inútil realçá-lo, em registo
de subserviência aos interesses pouco recomendáveis que movem o
mundo.
Bater no fundo não chegou
O episódio da troika trouxe a sensação de que o
país bateu no fundo. Deixara de ser apenas mais um anónimo e
"bom aluno" entre os anónimos e "bons alunos".
Depois da entrada na categoria de "PIG", sigla que, para quem a
inventou e espalhou, nunca deixou de ter analogia com "porco", passou
a protectorado, a ser efectivamente governado, e não apenas por
procuração, de Berlim, Bruxelas e Washington.
Quando parecia que pior condição não poderia haver, e numa
altura em que só haveria razões para melhorar, ainda que
poucochinho, eis que uma sucessão de atitudes revela que o trauma deixou
sequelas.
O Chefe de Estado passou a partilhar as reuniões do Conselho de Estado
com algumas das figuras mais inquietantes e mais activas contra a soberania dos
Estados. Veio o presidente da Comissão Europeia de que é
dispensável uma apresentação; veio Mario Draghi, o
dirigente do Goldman Sachs, o "banco que cumpre as funções
de Deus na Terra", segundo o seu presidente, de turno à frente do
Banco Central Europeu; veio Michel Barnier, o executante da política de
humilhação da União Europeia contra um Estado que pretende
negociar a saída, o Reino Unido; e agora os conselheiros receberam a
visita da patroa da troika, a senhora Christine Lagarde, chefe do FMI - e, como
se não bastasse, alguém com quem a justiça francesa tem
contas a ajustar por causa de uns enviesamentos de algumas centenas de
milhões de euros do Estado francês para um nada
recomendável grande "empreendedor".
Para ouvir os "conselhos" que a senhora veio dar ao Chefe do Estado
não era preciso chamá-la. Ela não se poupa a
enviá-los, embora cada um deles saia bem caro aos cidadãos
portugueses. Como exemplo de autoflagelação, subserviência
e falta de respeito para com o país e os cidadãos não
precisava o Chefe de Estado de ir tão longe. Chamando Lagarde ao
Conselho de Estado superou-se a si próprio depois de ter ido participar
na tomada de posse de alguém como o presidente do Brasil, Jaír
Bolsonaro.
Acompanhado na fotografia
Não fica, porém, o chefe de Estado desacompanhado nas tristes
fotos da indignidade. O governo não pretende ficar-lhe atrás, e
não é apenas por manter o país sintonizado com o estado
comatoso em que se encontra a União Europeia, na qual é cada vez
mais difícil saber quem governa: se a corrente neoliberal globalista e,
de facto, unilateralista; se a corrente neoliberal com veia fascista-populista.
No meio do descalabro, o executivo Lisboa insiste em evidenciar-se com a
continuação da asfixia austeritária contra a
população, para passar por "bom aluno" da ditadura do
défice enquanto segue rigorosamente todas as medidas contra a soberania
nacional ordenadas por Bruxelas.
Seria de supor, contudo, que houvesse algum distanciamento em
relação ao consulado de alguém como Donald Trump. Enfim,
tanto ao nível do governo português como de outros executivos da
União Europeia dir-se-ia expectável que, tendo em conta os
floreados verbais, a subserviência ao establishment norte-americano
abrandasse perante os jogos desestabilizadores de Trump, assustadores para o
mundo inteiro.
Mas quando houve que passar das palavras aos actos, a propósito da
Venezuela, eis que o governo de Lisboa se identifica a 100% - não
há nuances semânticas que lhe valham com a política
agressiva e criminosa de Trump contra o povo venezuelano. Se o governo quer
rivalizar com o Chefe de Estado em desrespeito pela soberania nacional
está a conseguir, quiçá, ultrapassá-lo. Seguir
Trump por um caminho que pode acabar num banho de sangue envolvendo
milhões de inocentes que prezam um valor que o actual governo de Lisboa
não pratica a independência nacional é um
comportamento que despreza ostensivamente a Constituição da
República e defende interesses alheios aos dos portugueses.
Já agora a questão do ouro
Vem a propósito deste alinhamento recordar que o secretário de
Tesouro norte-americano afirma que ouviu todos os governos e os bancos centrais
dos Estados membros da União Europeia antes de ordenar, em conjunto com
o governo britânico, o confisco de toneladas de ouro pertencentes ao
Estado venezuelano e depositadas no Banco de Inglaterra.
Seria interessante que o governo português esclarecesse se esse contacto
existiu mesmo e qual a posição que tomou perante a
diligência do membro da Administração Trump. E se o
executivo não o fizer por iniciativa própria, ao menos que outro
órgão de soberania se ainda houver separação
de poderes em Portugal o convide a esclarecer o assunto. Para que os
cidadãos portugueses fiquem a saber se o seu governo é ou
não cúmplice de uma operação internacional de
assalto aos bens de um Estado soberano, membro de um amplo conjunto de
instâncias internacionais, entre elas a ONU.
Ninguém dirá que este é o mesmo governo português
que, para nascer, teve de se confrontar com reparos, advertências e
até ameaças implícitas de amigos e aliados, a
propósito das companhias que lhe garantiram a existência. Avisos
que, por exemplo, a senhora Lagarde continua a proferir, até mesmo como
convidada do Chefe de Estado para a reunião do Conselho de Estado.
Dir-se-á que o executivo depressa se esqueceu dessa onda de
desconfiança, no afã de se mostrar obediente e bem comportado
perante os críticos.
Esta interpretação, contudo, é benigna.
A subserviência e o desrespeito pela dignidade nacional são,
afinal, verdadeiros traços de carácter do governo, que o levam a
colar-se sem qualquer pudor a políticas e comportamentos
ameaçadores para todos os povos do mundo. O governo e o chefe de Estado
não deixam dúvidas quanto ao lado do mundo que escolheram, e esse
lado é o mesmo de uma figura repelente e inquietante como Donald Trump.
05/Março/2019
[*]
Jornalista.
O original encontra-se em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=277
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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