Interpelação ao Governo nº13
Injustiças sociais, emprego e direitos dos trabalhadores
O Partido Comunista Português traz hoje a debate na Assembleia da
República a profunda preocupação com o continuado
agravamento das injustiças sociais e a situação
insustentável que está a ser criada aos trabalhadores e ao povo
português.
Dois anos de Governo PS, de aprofundamento da política de direita,
traindo expectativas e esperanças, conduziram a uma
situação que tem que ser consciencializada e impõe uma
urgente mudança de rumo.
O desemprego atingiu o mais elevado valor das últimas duas
décadas. No final de Março deste ano a taxa de desemprego subiu
para 8,4% e o numero de desempregados ultrapassou os 469 mil, com o desemprego
de longa duração a atingir os 50% e o número de jovens com
menos de 25 anos desempregados a chegar perto dos 100 mil.
Isto não acontece por acaso, é em primeiro lugar
consequência duma política económica subordinada ao pacto
de estabilidade e ao défice claramente oposta aos interesses nacionais.
Até há pouco tempo o Governo procurava disfarçar a
gravidade do problema do desemprego com a criação liquida de
postos de trabalho. Agora já nem isso pode dizer, há dois
trimestres consecutivos que o número de postos de trabalho
destruídos é maior que o número dos que são
criados, está a haver destruição líquida de
emprego.
Esta situação precisa de ser enfrentada, mas em vez de medidas
com esse objectivo o Governo desdobra-se em explicações.
O ministro da Economia vem falar de modernização da economia com
a substituição de emprego pouco qualificado por emprego mais
qualificado, aproximando-se daqueles que dizem tratar-se de um desemprego
virtuoso.
O Ministério do Trabalho procura escamotear a realidade, invocando os
números do IEFP, que são fruto de uma judiciosa gestão
administrativa e de soluções criativas de
combinação com a segurança social e programas ocupacionais.
Globalmente o Governo revela uma cruel insensibilidade face à
situação de centenas de milhares de famílias, aos seus
problemas e angústias, que vêem reduzido o tempo de
duração e o valor do subsidio de desemprego, não restando
para muitos outro caminho que não seja a emigração cada
vez mais em condições deploráveis.
Em vez de mudar o rumo da política económica para garantir um
real crescimento e criação de emprego, contenta-se com uma
estatística imediata que aponta um crescimento de 2,1%, para uma
média da União Europeia superior a 3%, o que significa festejar,
como se de um êxito se tratasse, o facto de Portugal ter cada vez maior
atraso em relação ao nível de desenvolvimento dos outros
países da Europa.
E, enquanto o Governo canta e se encanta com a sua própria propaganda e
com ela procura iludir o povo português, as empresas vão
encerrando. No primeiro trimestre deste ano a industria transformadora perdeu
mais de 20 mil trabalhadores e a semana passada a Delphi da Guarda anunciou o
despedimento de metade dos seus efectivos, associando-se a uma longa lista
negra de empresas e sectores.
Também aqui se revela a ausência de uma política do Governo
e a sua atrapalhação, bem visível na
precipitação com que o ministro Manuel Pinho anunciava como
solução para os trabalhadores da Guarda postos de trabalho, na
Delphi de Castelo Branco que afinal já estavam ocupados há meses.
Em qualquer caso é necessário encontrar soluções
numa região perto da fronteira onde a política económica
do Governo com o IVA e a diferença de preços em
relação a Espanha está a ser uma autêntica bomba de
neutrões sobre a actividade económica.
É hoje evidente que a promessa da criação dos 150 mil
postos de trabalho fica cada vez mais para a história das expectativas
desfeitas.
A situação social revela também que este Governo passou a
deter o recorde da precariedade nas relações de trabalho. Mais de
1 milhão e 200 mil trabalhadores, na sua maioria jovens, têm
vínculos precários. Com contratos a termo, trabalho
temporário, sistemas de bolsas, falsos recibos verdes, entre outras
situações, são o maior número de sempre,
representam 23,5% da população empregada, quase um quarto dos
trabalhadores. Só no último ano o número de trabalhadores
com contratos precários aumentou 12,6%. Em vez da
qualificação e da elevação do perfil produtivo,
temos a aposta na instabilidade, na lógica do curto prazo, na
precariedade da vida de gerações inteiras, na
violação de direitos e condições de trabalho.
Violação dos direitos que continua a ser facilitada com a falta
de meios da Inspecção-Geral do Trabalho que devia ter 600
inspectores e tem apenas 187, carência que a anunciada
contratação de 100 novos inspectores está longe de
resolver.
A acção do Governo de redefinição e desmantelamento
do Estado e em particular das suas funções sociais, com a
privatização, extinção e degradação
de serviços e a criação de novas áreas de
negócio à custa o erário público, dos direitos dos
trabalhadores e dos interesses da população está a
acentuar as desigualdades e injustiças sociais. Um ataque que incorpora
também a aplicação da nova forma de cálculo das
pensões de reforma que levará a uma redução
progressiva do valor das pensões e ao aumento da idade da reforma.
Passados dois anos é patente que o Governo não está a
cumprir os compromissos que assumiu para a alteração dos aspectos
mais negativos do Código do Trabalho, como o tratamento mais
favorável ou a caducidade da contratação colectiva e
dá sinais de novas cedências às confederações
patronais na sua revisão.
É particularmente preocupante que, no momento em que se prepara para
assumir a Presidência da União Europeia, o Governo se esteja a
comprometer com o processo da flexigurança, projecto de
liberalização dos despedimentos individuais sem justa causa
visando colocar todos os trabalhadores portugueses em situação
precária, à mercê do despedimento, de preferência sem
indemnização. Um processo que visa ao mesmo tempo reforçar
a arrogância patronal na fixação de horários,
funções, carreiras, remunerações e
condições de trabalho. É um projecto que o governo quer
apresentar como inevitável dizendo que se não entra pela
porta, acabará por entrar pela janela, mas a gravidade do que
está em causa exige que não entre nem pela porta, nem pela
janela, nem por qualquer postigo. Seria a lei da selva e uma ofensa à
dignidade dos trabalhadores que é de todo inaceitável.
O Governo PS assume uma elevada responsabilidade pelo agravamento das
injustiças sociais e pela maior queda dos salários reais dos
trabalhadores portugueses há 22 anos a esta parte. Em 2006 os
salários dos trabalhadores portugueses, já de si dos mais baixos
da Europa, perderam 0,9% do seu valor. É preciso recuar ao já
longínquo ano de 1984 para ter uma situação
idêntica. Diminuição de salários e
remunerações, baixos aumentos de pensões, brutais aumentos
de preços, endividamento das famílias, subida dos juros criam uma
situação dramática a milhões de portugueses, com a
pobreza a afectar 20% da população mais de 2 milhões de
portugueses. Em Portugal a desigualdade na distribuição dos
rendimentos é a maior da União Europeia, os 20% da
população com rendimentos mais elevados, ganham 8,2 vezes mais do
que os 20% com rendimentos mais baixos.
E, enquanto a situação dos trabalhadores e da maioria da
população se deteriora, os lucros dos grupos económicos e
financeiros aumentam significativamente com sete empresas que incluem os
principais grupos financeiros a obterem de lucro em 2006 mais de 5,3 mil
milhões de euros, numa situação de
ostentação inaceitável. Como é inaceitável a
remuneração dos gestores das empresas cotadas na bolsa que em
média representou 378 mil euros por cada membro de conselho de
administração, isto é 31,5 mil euros/mês. Acresce
que uma grande parte destes administradores teve aumentos entre 2000 e 2005
superiores a 300% e muitos foram aumentadas sessenta vezes mais que um
trabalhador comum.
Comparado com os magros salários dos trabalhadores e baixas
pensões de reforma esta situação é revoltante, e
ainda mais quando se sabe que são alguns destes administradores os
promotores das campanhas dos sacrifícios, da contenção e
redução dos salários e pensões, da
amputação dos direitos laborais e sociais.
O Governo PS fala todos os dias de preocupações sociais,
baptiza-se a si próprio de esquerda moderna, vá-se lá
saber o que é que isso quer dizer, mas uma coisa é certa, na sua
prática destes dois anos concretiza uma política que nada se
diferencia da do PSD e do CDS, e está a disputar com sucesso o
título de campeão dos campeões da política de
direita em Portugal. Ao fim de dois anos de Governo PS a realidade mostra quem
é prejudicado e quem é beneficiado com a sua política: os
trabalhadores, os reformados e pensionistas, os pequenos e médios
empresários, o povo português estão pior, os grupos
económicos e financeiros acumulam cada vez mais lucros e benesses.
É uma situação inaceitável, que desperta a
oposição e o descontentamento dos trabalhadores e das
populações que se têm manifestado por todo o país de
uma forma raramente vista e que terá na Greve Geral convocada pela
CGTP-IN para 30 de Maio um momento marcante, expressão maior da
solidariedade e da luta dos trabalhadores portugueses.
Senhor Presidente,
Senhores membros do Governo,
Senhores deputados,
Como se já não bastasse o ataque aos direitos económicos e
sociais, o Governo tem em curso, a maior ofensiva de limitação do
direito à greve desde o 25 de Abril.
Que outra coisa se pode dizer de um Governo cujo ministro das Finanças
elaborou um despacho fazendo o papel de capataz repressivo para intimidar os
trabalhadores e os responsáveis da administração
pública. É um acto de má consciência por saber que
os trabalhadores da administração pública são dos
mais atingidos nos seus direitos que tem razões fortes para fazer greve.
Não está em causa o registo de quem faz greve para o desconto
respectivo no salário, o que está em causa é o
propósito de um levantamento para identificação
intimidadora a pretexto de balanços estatísticos. O que
está em causa é a ameaça de processos aos
responsáveis dos serviços caso não façam o
levantamento o que configura a tentativa de proibição de
exercício do direito à greve por parte dos trabalhadores que
assumem esses níveis de responsabilidades.
Esta diatribe anti-greve, na sua forma mais absurda e ilegal, está a ser
desenvolvida pelas administrações de empresas tuteladas pelo
governo que aproveitando-se do Código do Trabalho e subvertendo
completamente o conceito de serviços mínimos querem liquidar o
direito à greve nas empresas de transportes. No Metro propuseram o
funcionamento de duas principais linhas com todos os trabalhadores
correspondentes das várias áreas. Na Carris propuseram o
funcionamento de mais de 25% das carreiras, designadamente as que passam junto
dos hospitais, como se os doentes urgentes fossem de autocarro para o hospital,
numa fundamentação tão estafada que fez esquecer que essas
mesmas carreiras consideradas imprescindíveis em dia de greve,
não são asseguradas as 24 horas nos dias normais.
Quem assim age coloca-se à margem da Constituição e da
legalidade democrática.
Do alto da sua arrogância, da sobranceria da sua maioria absoluta o
Governo procura passar a imagem de que pode fazer o que entender por mais
despropositado e injusto que seja. Diz o governo que não ouve a rua, nem
quem grita mais alto. Mas confusão sua, o que apelida de rua são
afinal muitos dos portugueses insatisfeitos que não querem este rumo
para o país, parte dos quais apoiaram o PS nas últimas
eleições e se sentem hoje defraudados.
Os trabalhadores e o povo português precisam de um país de
progresso, de direitos e condições de vida do futuro e não
do regresso ao passado. Precisam de uma nova política que aposte no
aparelho produtivo e na produção nacional, que promova a
criação de emprego, a qualificação e a
elevação do perfil produtivo, que conceba os direitos dos
trabalhadores como objecto e condição do desenvolvimento, que
ataque as injustiças e desigualdades. Decididamente Portugal precisa de
uma ruptura com a política de injustiça social e declínio
nacional que o Governo teima em prosseguir, de um novo rumo, para o país
mais desenvolvido e mais justo a que o povo português tem direito e que
acabará por conseguir.
[*]
Deputado do PCP. Discurso pronunciado em 23/Maio/07 na Assembleia da Republica.
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
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