Declaração de candidatura às eleições para
Presidente da República
por João Ferreira
I
Num mundo onde se tenha acabado a esperança, como o retratou Saramago no
seu Ensaio sobre a cegueira, deixamos de olhar para o futuro,
deixamos de o ver. A cegueira também é isto, dizia.
Recordando Castrim, esperança: é a maneira como o futuro
fala ao nosso ouvido. Num tempo em que tantos não veem nem ouvem o
futuro falar-lhes ao ouvido, mais necessário se torna saber organizar e
abrir esse futuro. Transformar inquietação em luta, converter o
desassossego em confiança. Confiança num futuro construído
à medida dos sonhos e projectos a que temos direito e de que não
queremos desistir. De que não vamos desistir.
A candidatura que assumo, e hoje aqui apresento, a Presidente da
República é e será um espaço de luta comum
da juventude, dos trabalhadores, do povo. É minha e é vossa.
É nossa. Assumo-a com honra, com determinação, com a
consciência da responsabilidade e do dever. É uma candidatura a um
órgão de soberania unipessoal, apoiada num grande, generoso e
combativo colectivo, o Partido Comunista Português. O meu Partido, a quem
agradeço a confiança demonstrada.
Nesta eleição dirijo-me a todos e a cada um, independentemente
das escolhas eleitorais que fizeram no passado. A todos apelo:
Aos que vivem do seu trabalho, e que sentem que, com o seu empenhado
esforço, poderiam viver melhor, se fosse outra, mais justa, a
repartição da riqueza que criam.
Às mulheres, penalizadas por múltiplas desigualdades,
discriminações e violências, no trabalho, na família
e na sociedade.
Aos jovens, que não abdicam do direito a serem felizes.
Aos reformados e idosos, que aspiram a uma vivência gratificante no plano
pessoal e social depois de uma vida de trabalho.
Esta candidatura apela à força que há em todos, em cada um
de nós. Assumam-na como vossa. Confiem-lhe, mais do que o vosso apoio, a
vossa energia criadora, transformadora. Façamos desta candidatura parte
da luta pela mudança que desejamos para as nossas vidas, da
mudança que Portugal precisa.
II
Em Portugal e no mundo, vivemos um tempo invulgar, complexo e exigente.
A irrupção da Covid-19, além de nos confrontar com
questões novas, agravou consideravelmente velhos problemas.
Os efeitos da pandemia são inseparáveis da formação
socioeconómica em que se produzem. No capitalismo, que tudo
mercantiliza, incluindo a saúde e a doença, milhões de
seres humanos são empurrados para uma situação de
vulnerabilidade extrema.
As dificuldades são instrumentalizadas para atacar direitos e impor
retrocessos. Aí temos, em tantos lados, o crescimento do desemprego a
ser usado como chantagem para aumentar a exploração, a
precariedade laboral, o ataque aos salários, a
desregulação dos horários, o incremento dos ritmos e a
degradação das condições de trabalho, o aumento da
idade de reforma, o desinvestimento nos serviços públicos.
O medo é exacerbado e manipulado para restringir direitos e liberdades.
A pretexto do combate ao vírus e da garantia de uma alegada
segurança, impuseram-nos estados de emergência que
nada tinham a ver com a observância de normas que a
população já cumpria (e continuou a cumprir depois de
abandonados), mas que visavam restringir o protesto e a luta, contra os abusos,
os aproveitamentos, o oportunismo dos que querem continuar a enriquecer
à custa da exploração dos trabalhadores e do saque dos
recursos do Estado.
A crise aumenta a violência do sistema. Instigam-se divisões e
conflitos no seio da população, voltando trabalhadores contra
trabalhadores, cidadãos contra cidadãos. O racismo, a xenofobia,
a extrema-direita e o fascismo são normalizados e mesmo abertamente
promovidos, a partir de alguns dos principais centros de poder económico
e seus prolongamentos políticos e mediáticos.
A forma dominante de organização da economia e da sociedade
confronta-se com os limites dos recursos do Planeta, agride a Natureza e
ameaça os equilíbrios ecológicos.
III
Portugal carrega sérios problemas estruturais, consequência de
décadas de política de direita, que a situação
actual expõe com grande nitidez.
É a desvalorização do trabalho e dos trabalhadores, dos
seus salários e dos seus direitos.
São as acentuadas desigualdades na distribuição da
riqueza, em particular na distribuição do rendimento nacional
entre capital e trabalho.
É a prolongada fragilização dos sectores produtivos
nacionais; os persistentes défices alimentar, energético,
tecnológico e demográfico; o desaproveitamento de amplas
potencialidades e recursos do País.
É o continuado desinvestimento nas funções sociais do
Estado, em confronto aberto com a Constituição que as determina.
A falta de investimento no Serviço Nacional de Saúde e o desvio
de recursos públicos para sustentar os grupos económicos privados
que lucram com a doença; a falta de investimento na escola
pública, em todos os graus de ensino, que é tão
visível neste regresso às aulas marcado por compreensíveis
preocupações.
É a desvalorização da cultura, da ciência, das
artes, do património, do conhecimento e do saber no desenvolvimento
integral do ser humano e da sociedade.
São os crescentes desequilíbrios territoriais, o abandono
à sua sorte de extensas regiões do País e das
populações que resistem e insistem em habitá-las e lhes
dar vida.
É a promiscuidade entre o poder político e o poder
económico, que alimenta a corrupção e coloca os
instrumentos do poder político ao serviço de uma minoria
privilegiada.
São os problemas da justiça, a desvalorização da
segurança dos cidadãos e a perversão da missão
constitucional das Forças Armadas.
É a submissão do País a políticas e decisões
da União Europeia contrárias ao interesse nacional, determinadas
pelos interesses das principais potências europeias, agravando
desigualdades e assimetrias, promovendo a divergência, em lugar da
prometida convergência, económica e social.
IV
Vivemos, há demasiado tempo, num conflito entre o carácter
progressista e avançado do regime democrático constitucionalmente
consagrado e a acção deliberada de sucessivos governos com vista
à sua amputação e desfiguramento. Perante a cumplicidade
dos que, nas mais altas funções do Estado, juraram defender,
cumprir e fazer cumprir a Constituição; na verdade violando,
tantas vezes de forma ostensiva, esse juramento.
O problema não é, nunca foi, esse carácter progressista e
avançado do regime democrático que emergiu da
Revolução de Abril. O problema é, e tem sido sempre, a
acção e omissão de governos e Presidentes da
República, incluindo os actuais, convergindo no bloqueio da plena
concretização do projecto vertido no texto constitucional.
Um projecto que considera inseparáveis as vertentes política,
económica, social e cultural da democracia, aliadas aos desígnios
da soberania e independência nacionais.
Um projecto que inscreve os direitos dos trabalhadores como intrínsecos
à democracia; que reconhece às mulheres o direito à
igualdade no trabalho, na família e na sociedade; que consagra
importantes direitos das crianças e dos jovens, dos reformados, dos
cidadãos com deficiência; que proíbe as
discriminações, as exclusões e combate as
injustiças sociais; que reclama para os milhões dos nossos
emigrantes, bem como as centenas de milhar de imigrantes no nosso País,
o acolhimento e a dignidade devida a todo o ser humano. Que consagra o direito
de resistência à ofensa dos direitos, das liberdades e das
garantias dos cidadãos; que protege o exercício da actividade
sindical e política, o activismo social.
Um projecto que preconiza a subordinação do poder
económico ao poder político.
É este projecto que urge defender e concretizar!
Esta minha e vossa esta nossa candidatura assume, sem rodeios,
esse objectivo fundamental. Defender, aprofundar e ampliar o regime
democrático consagrado na Constituição. Fortalecer as suas
raízes na sociedade portuguesa.
Esta é uma questão central do tempo que vivemos. Também
por isto a próxima eleição do Presidente da
República se reveste de óbvia importância.
É notório que o actual Presidente da República está
empenhado numa rearrumação de forças políticas,
assente no branqueamento da política de direita e dos seus executores,
promovendo a sua reabilitação, na forma da chamada
política de bloco central, formal ou informalmente assumida,
que marcou o País nas últimas décadas.
Um Presidente da República verdadeiramente comprometido com o juramento
que faz de defender, cumprir e fazer cumprir a
Constituição não pode deixar, no âmbito das
suas competências e responsabilidades, de mobilizar o povo
português na construção de um outro caminho de
desenvolvimento.
Um Presidente da República verdadeiramente comprometido com o juramento
que faz está necessariamente comprometido com os interesses dos
trabalhadores, das mulheres, dos jovens, dos reformados e idosos, das pessoas
com deficiência, dos discriminados, dos desprotegidos, dos pequenos e
médios empresários, dos pequenos produtores. Em suma,
comprometido com os interesses do povo e não com os interesses dos
grandes grupos económicos e financeiros que têm determinado, nos
aspectos estruturais, o rumo do País.
Não há diversões mediáticas que iludam as escolhas
feitas, neste domínio, pelo actual Presidente.
V
Esta candidatura que assumo afirma, sem hesitações, que há
um outro rumo e uma outra política capazes de responder aos problemas do
País.
Uma afirmação alicerçada na certeza de que o nosso povo
tem a força bastante para encetar esse novo caminho. Esta candidatura
é também uma manifestação de confiança no
povo português. Confiança na mobilização de energias
e vontades de quantos aspiram e acreditam que é possível uma vida
melhor e mais justa. Podem encontrar nesta candidatura um espaço de
convergência.
Aqui, cada um acrescentará força à força que se
ergue em defesa da valorização do trabalho e dos trabalhadores.
O direito ao trabalho; o pleno emprego; o emprego com direitos; o aumento dos
salários, particularmente do Salário Mínimo Nacional; a
formação e valorização profissional, técnica
e cultural dos trabalhadores; a prestação do trabalho em
condições de higiene e segurança; o direito ao repouso e
ao lazer não podem ser apenas palavras inscritas nas
páginas da Constituição, têm de ser realidade
concreta na vida dos trabalhadores, acompanhar o desenvolvimento das
forças produtivas, do custo de vida, dos padrões recomendados de
bem-estar social.
Aqui, nesta candidatura, cada um acrescentará força à
força que se ergue em defesa do direito à saúde; à
habitação; à educação; à cultura.
A garantia de acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde,
independentemente da sua condição económica; a
protecção específica da infância, da juventude e da
velhice, dos cidadãos com deficiência; o direito de acesso
à habitação e a existência de rendas
compatíveis com o rendimento das famílias; a
democratização do ensino e a igualdade de oportunidades no acesso
e êxito escolar; a democratização da cultura e o acesso de
todos à fruição e criação cultural, a defesa
do património cultural não podem ser apenas palavras
inscritas nas páginas da Constituição, nem
privilégio de uma minoria, tem de ser realidade concreta na vida de
todos os portugueses.
Aqui, cada um acrescentará força à força que se
ergue na luta pela igualdade, contra todas as discriminações, num
País que acolhe, aberto ao mundo.
Ninguém deve ser beneficiado ou prejudicado, privado de qualquer direito
ou isento de qualquer dever em razão do sexo, da cor de pele, da
religião, das convicções políticas, da
situação económica, da condição social ou da
orientação sexual. A igualdade não pode ser apenas uma
palavra inscrita nas páginas da Constituição, tem de ser
realidade vivida no dia a dia de todos, todos os dias.
Aqui, cada um acrescentará força à força que se
ergue em defesa do desenvolvimento económico do País, garante da
efectivação dos direitos e do bem-estar social.
A coesão de todo o território nacional, com a
eliminação progressiva das desigualdades económicas e
sociais; a plena utilização das forças produtivas e a
propriedade pública de meios de produção, de acordo com o
interesse colectivo; o aumento da produção agrícola e
industrial; o estímulo ao associativismo e à propriedade
cooperativa e comunitária; o reforço da inovação
científica e tecnológica não podem ser apenas
palavras inscritas nas páginas da Constituição, tem de ser
a realidade concreta no País.
Aqui, cada um acrescentará força à força que se
ergue em defesa do ambiente, da protecção dos ecossistemas e da
biodiversidade.
A prevenção e controlo da poluição, em todas as
suas formas, com especial atenção sobre as
implicações nas alterações climáticas; o
aproveitamento racional dos recursos naturais, salvaguardando a sua capacidade
de renovação não podem ser apenas palavras nas
páginas da Constituição, têm de ser uma realidade no
nosso País.
Aqui, cada um acrescentará força à força que se
ergue em defesa do regime democrático, de uma
administração e serviços públicos eficientes
próximos das populações, de uma justiça
desburocratizada e acessível ao serviço do povo, do combate
decidido à corrupção.
Aqui, cada um acrescentará força à força que se
ergue em defesa da soberania e independência nacionais, que rejeita a
submissão do País a imposições contrárias
aos seus interesses, que pugna pela solução pacífica dos
conflitos internacionais e pela cooperação com todos os povos
para a emancipação e o progresso da Humanidade, conforme
preconiza a Constituição da República Portuguesa.
Se houve e há quem queira fazer de tudo isto letra morta nas
páginas da Constituição, é tempo de dizermos que
tudo isto tem de ser mesmo realidade na vida de todos nós.
VI
O Presidente da República não é governo. Mas pode e deve
actuar, no quadro das funções que lhe estão
atribuídas, usando os seus poderes para impulsionar um sentido de
mudança, de desenvolvimento, de progresso e justiça social, no
curso da vida nacional.
O Presidente da República não se pode resignar perante um
País com o futuro comprometido e sem esperança. Não se
pode resignar perante o desaproveitamento das enormes potencialidades
existentes no País, desde logo na sua população,
também no seu território terrestre e marítimo. Portugal
pode ser mais desenvolvido, mais justo e soberano.
Esta candidatura apresenta e protagoniza uma alternativa para o
exercício das funções de Presidente da República.
Tal como uma parte grande da população portuguesa, nasci depois
de 1974. Tal não impediu que o impulso de Abril e a actualidade dos seus
valores se projectasse em todas as lutas que travei, em todas as frentes em que
intervenho. Esta candidatura projecta os valores de Abril no presente e no
futuro de Portugal.
O Presidente da República representa a República Portuguesa,
garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular
funcionamento das instituições democráticas. É, por
inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas.
Quando se refere o Presidente da República, retêm-se em geral os
importantes poderes que lhe permitem demitir o governo e dissolver a Assembleia
da República. Mas esta é apenas uma parte das competências
que lhe estão atribuídas.
Do direito de veto de legislação ao recurso ao Tribunal
Constitucional para apreciação da constitucionalidade de leis; do
direito de enviar mensagens à Assembleia da República e da sua
convocação extraordinária, ao peso das suas tomadas de
posição públicas, os vastos poderes do Presidente da
República podem e devem ser usados para impulsionar
soluções para os problemas que o povo e o País enfrentam.
Isso exige, desde logo, conhecer esses problemas. Exige uma genuína
ligação à vida e não uma falsa empatia que se
esboroa quando os assuntos são tão sérios como a
dificuldade de se viver com os baixos salários, pensões, reformas
e prestações sociais. Exige a vontade e a
determinação inabaláveis de libertar a vida nacional da
dominação dos grandes grupos económicos e financeiros, que
sufocam a democracia e o desenvolvimento.
VII
Sim, vivemos um tempo invulgar, exigente e complexo.
E é perante as dificuldades certas que importa saber com quem podemos
contar.
Nesta candidatura, não procuramos o conforto da ambiguidade. Não
procuramos navegar ao sabor do vento, para onde quer que sopre. Se os ventos
são agrestes e são agrestes por vezes os ventos da
História sabemos que temos de os enfrentar. Esta é a
candidatura inspirada nos que já mostraram que não se escondem,
que não desertam, que não se rendem. Inspirada nos que não
ficam à espera quando os trabalhadores e o povo são atacados nos
seus direitos. Nos que enfrentam a resignação e o medo, real ou
imaginário. São os que lutam, até às últimas
consequências, pela liberdade e pela democracia. Os que acreditam e
afirmam que a actual geração não tem de se habituar a
viver pior do que a geração que a antecedeu. Não é
esse o sentido geral da História. Acertemos então o passo com a
marcha da História. Com coragem, com audácia, com
determinação!
Fixemos no presente e no futuro de Portugal os valores de Abril e o seu
horizonte de fraternidade, liberdade, igualdade e esperança!