República do betão
Os verdadeiros órgãos de soberania
A Constituição confia a quatro entidades a
representação da soberania nacional: Assembleia da
República, Presidência da República, Governo, Tribunais. Na
prática, o poder legislativo e executivo foi entregue a quatro
banqueiros e a quatro empreiteiros. O sector do EuroBetão determina a
maioria das candidaturas, dos cargos e das opções do poder
representativo. Também se encarrega de financiar e superpromover as
máquinas e os agentes de legitimação e despacho dos seus
interesses. Após a Revolução dos Cravos ou da
Aliança Povo/MFA, os partidos do presente Arco do Poder (PS/PSD/CDS)
tudo fizeram para acelerar
o regresso dos militares aos quartéis.
Brandiam, então, a bandeira da submissão das Forças
Armadas aos órgãos civis eleitos. Proclamavam tal directiva como
um princípio basilar do Estado de Direito e uma prova inequívoca
do real funcionamento das instituições democráticas. Mas o
que eles, de facto, não desejavam e verdadeiramente temiam é que
o Povo contasse com um tão forte aliado. Os mesmos que pressurosamente
empurraram os militares revolucionários para as casernas não
tiveram o mínimo pejo em tornar-se servidores dos grupos
económicos de antes e pós-25 de Abril, nacionais e estrangeiros.
Os partidos do Arco do Poder, alapados à mesa do Orçamento
(Público e Privado), não passam, desde 1976, de plataformas
logísticas do capitalismo indígena e nómada. Como
comparsas e comissionistas do poder económico não ousam mandar os
empresários para as empresas. Tudo fazem para que o Grande capital
privatize o Estado, se entronize e eternize e adopte, já sem rodeios, os
resplendores do Rei-Sol:
L'État c'est moi.
A Constituição da República Portuguesa, periodicamente
revista ao sabor do EuroBetão, é encarada pelos rotativistas como
um mausoléu que é necessário limpar de referências
libertadoras e igualitárias. As Quatro Colunas que sustentam o
edifício constitucional (Democracia Política, Democracia
Económica, Democracia Social, Democracia Cultural) estão abaladas
por sucessivas usurpações da soberania popular. Da arquitectura
constitucional resta-e cada vez mais minada-uma coluna: a Democracia
Política. Falta saber por quanto tempo se manterá de pé um
edifício que nasceu suportado por quatro colunas e perdeu três.
Até onde resistirá uma Democracia Política sujeita a uma
Ditadura Económica? O processo subversivo em curso encetou a sua Longa
Marcha e o seu Salto em Frente. A agressividade dos gestores de turno do
EuroBetão reflecte, não apenas a sua natureza classista rapace,
mas também o receio dos movimentos sociais de protesto e as vagas de
desilusão.
Os governos do situacionismo declaram-se fascinados pelo
choque tecnológico.
Mas o capitalismo selvagem está mais perto do choque
sociológico. E que dizer aos inconformados depois de tantos anos de
debandada cívica e de incumprimento dos contratos eleitorais? E que
fazer neste quadro de agudização das condições de
vida e de vassalagem dos partidos do EuroBetão, que atraiçoam os
votantes e desvirtuam os seus programas e os desígnios republicanos? Os
expropriadores de direitos, liberdades e garantias estão cada vez mais
insolentes e organizados. Os defensores da Ordem Constitucional só
têm uma atitude consentânea a assumir: a resistência activa e
colectiva.
Prevista na Constituição da nossa República.
Ainda.
[*]
Escritor, jornalista.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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