Prós & Contras
O poder é um fingidor
A Organização Partidária do Estado baseia-se no modelo de
domínio anglo-saxónico: dois partidos alternam-se no poder,
fingindo-se populares na Oposição e tornando-se impopulares no
Governo. Socorrem-se do clássico guarda-roupa do Rotativismo: usam ganga
na Oposição e fraque no Governo. As roupagens e linguagens de
Esquerda visam esbater/equivocar/mimetizar o espaço de descontentamento
e dar algum pretexto colaboracionista a dinamizadores culturais do
Neoliberalismo Globalizante. Os partidos rotacionais nutrem-se do confusionismo
sócio-eleitoral e da intimidade com os grupos
económico-financeiros. A fim de não perderem o controlo da
opinião pública, montam um simulacro de contraditório,
elevando o tom de voz no que toca à Agenda do Pormenor, na medida em que
estão de acordo com a Agenda do Essencial. Assim, embora nenhum dos
partidos do Bloco Central seja da Oposição, ocupam tal bancada
para administrar o Espaço de Cidadania, dificultando ao máximo as
migrações eleitorais e desautorizando as forças de
Esquerda como representativos da Oposição.
Esta contracenação tem logrado os objectivos, dispondo de
pródigos financiamentos de imagem e de orquestração
mediática. Tornou-se matéria assente que o segundo partido da
Situação é o maior partido da Oposição. A
Comunicação Social desempenha, neste registo cenográfico,
um papel escolarizante e escrutinador, agindo como repetidor/consagrador de tal
concepção através de milhares de noticiários e
comentários. O programa da RTP
Prós & Contras
é bem um Espelho da Ideologia situacionista/rotativista. A farsa
alternadeira não é inocente. Tem sido, sem dúvida,
proveitosa: os partidos do Centrão continuam a fixar um núcleo
determinante de eleitorado, que lhes tem servido de apólice para manter
a alternância e bloquear a alternativa. É certo que uma larga
faixa de abstencionistas enegrece os gráficos da República. Este
afastamento não preocupa os rotativistas. A Filosofia do Alterne
funda-se num pressuposto cínico e pragmático: é excelente
que votem em nós mas não deixa de ser útil que o
eleitorado desiludido com a nossa política opte pela
abstenção em vez de guinar à Esquerda.
Deste modo, os desiludidos que se excluem dos processos eleitorais continuam
reféns da Situação. É um clássico da
Psicologia da Dependência e do Pânico da Mudança: o
refém-amigo do sequestrador. Este público-alvo é decisivo
e não é deixado sem enquadramento. Não vá ele
deixar-se mobilizar por causas e coisas que perturbem o Rotativismo Estabular.
Observa-se um notório Investimento na Ignorância como linha
defensiva do poder estabelecido. Assim se compreende que se desenvolva uma
Psicologia Paralisante: entre outras técnicas de condicionamento, os
desiludidos são levados a crer que
os partidos são todos iguais.
Fomenta-se a aversão à ruptura de paradigma. Portanto, os
desenganados do Bloco Central não têm escapatória: ou
voltam a apostar em que os decepcionou ou ficam em casa quietinhos, entre
telenovelas sexo-lacrimosas, relatos de futebol
valente e imortal
e concursos de electrodomésticos e viagens tropicais. É a
cidadania de sofá. É a cultura da impotência nacional e da
descrença no género humano. Porque, neste quadro de êxito
dos mais mafiosos e dos mais manhosos e neste labirinto de falsas
saídas, a Oposição aconselhável é sempre
à Direita quando o PS está no Governo e sempre no PS quando a
Direita está no Governo. E como o PS normalmente governa mais à
Direita do que a Direita, o regime democrático sofre de rotineirismo
clientelar e défice de credibilidade.
Estado mórbido que não inquieta os Senhores dos
Euromilhões ou o seu funcionalismo-delegado. Os senhores apoiaram (sem
sombra de vergonha ou arrependimento) a ditadura fascista mais longa da Europa
e os seus novos aparelhistas institucionais sempre preferirão um regime
autoritário ao serviço dos ricos a um regime de democracia
participada em prol das
classes mais desfavorecidas.
É o que se tem comprovado desde 1976, desde que a Roda da
História alterou o seu percurso e os seus
compagnons de route.
Para tão clamorosa realidade, não há perfume rosa nem
detergente laranja suficientemente activos para eternamente glamourizarem e
branquearem o Estado da Nação. O derrotativismo está a
ganhar contornos em todo o mundo.
Em Portugal as multidões também se exercitam.
[*]
Escritor, jornalista.
Este artigo encontra-se em
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