Sócrates (470-399 a. C.), que era filho do escultor Sofronisco e da
parteira Fenareta, professava uma subtil noção do potencial
estético e dialéctico da sabedoria, isto é, ensinou os
justos a ver nascer a verdade entre especulações e
ocultações. Mas o mestre do desconhecido que subjaz em todo o
conhecimento foi dado à luz em Atenas, frequentando as universidades da
ágora, das oliveiras e dos cárceres. Infelizmente nunca visitou
Portugal por uma razão de monta: Portugal não existia e os poucos
gregos que bordejavam este extremo ocidental não levavam
impressões abonatórias deste futuro reino arrancado aos
infiéis pela espada e pela cruz. Tratavam os indígenas, nossos
ascendentes, por beócios. Ora os beócios eram habitantes da
Beócia, província da Grécia. Os atenienses, urbanos e
cosmopolitas, consideravam os beócios porcos e estúpidos ou, na
brandura galaico-portuguesa, labregos. Hoje, o antigo território
beociano é um primor de limpeza, civilidade e instrução.
É ver as Cimenteiras, os Campos de Futebol, o Ministério da
Educação. Temos um primeiro-ministro, Sócrates, que
não nasceu em Atenas mas que pede meças a qualquer
filósofo, no que toca a conceitos, preceitos e preconceitos. O seu
prestígio ultrapassa a Meseta Ibérica, as Ilhas Desertas e a
Europa Continental. Há quem, além-fronteiras, não vacile
em cognominá-lo
Tony Blair português.
O nosso
prime
manifestou-se, de imediato, desvanecido com a controversa honraria ou funesta
lápide. Sucede que, sendo o nosso
prime
uma pessoa obrigatoriamente bem informada, não desconhecerá que,
além de outros feitos ou defeitos,
Mister
Blair conseguiu em dez anos de governação prejudicar a maioria
dos britânicos mas triplicar a fortuna dos mil britânicos mais
abastados após ser conduzido ao Nº 10 de Downing Street prometendo
equidade social.
Também não ignorará o nosso
prime
que diversas instâncias judiciais internacionais não descartam
julgar
Mister
Blair como criminoso de guerra. Não poderá alegar o nosso
prime
desconhecer que
Mister
Blair é um mentiroso compulsivo. Também não
escapará à constatação do nosso
prime
que
Mister
Blair arrastou o seu partido para um ciclo de deserções
ministeriais e parlamentares, a que tem correspondido um ciclo de perdas
eleitorais, vendo-se coagido a abandonar o barco, empurrado pelas sondagens de
impopularidade e pelos correligionários. Sendo tão pouco
recomendáveis, para o conjunto dos cidadãos e para a
prudência socrática, as qualidades de
Mister
Blair, o nosso
prime,
Sócrates, vangloria-se de ser o
Tony português.
Um dia destes irá frequentar a Universidade de Hyde Park, onde
esboçará uma tese de mestrado, que procurará ler a
excursionistas de tralhas digitais a tiracolo:
A Terceira Via em Portugal: Aposta na Ignorância Sustentada.
Estudo de Largo Fôlego/Remetido à Universidade dos Speakers/Via
Fax/Que o Classificou/
Citável Contributo Para a Caracterização
Político-Filosófica da Europa Periférica.
Obra a Distribuir/Como Encarte/Na Imprensa de Referência/Com o Alto
Patrocínio da AFCE/Associação da Finança Contra a
Economia & da AERB/Associação Empresarial da República do
Betão.
E bruscamente se escapulirá, disfarçado de inglês comum
para se eximir ao Inglês Técnico e para se prevenir dos apertos
multirraciais e dos atentados no
underground.
Lesto, embora com um pé engessado devido a uma torção
por estatelamento numa passagem sem guarda da Terceira Via, saltará para
o estribo do mais próximo voo rumo a Atenas, onde, após suada
maratona, proferirá uma oração de sapiência no
Pártenon, especando os calcorreadores de ruínas com a Apologia do
Sócrates Português:
No tempo em que os deuses falavam fui declarado sophos no Oráculo de
Delfos. Nunca perverti a juventude. Sempre fui visto nos Banquetes de
Platão a conversar sobre a República do Betão sem ofender
Atena Poliaia. Não me forcem a beber cicuta, que os mais sábios
também conhecem por conicina. Eu não sou beócio. Eu
não sou beócio.
E logo, naquele marmóreo panteão de heróis, pítias
e actores, irrompeu, das colunas ou dos frisos, um vulto eloquente e temperado,
soltando a língua que Hermes lhe confiou, a fim de dizer, com
urgência e compreensão geral, o necessário, conforme se
requer a quem é acolhido nas mansões da Perfeição:
Zeus e Hera muito apreciam a tua conduta. Não és beócio.
És credor de uma estátua de Fídias. A tua terra vai deixar
de ter gente. Passará a ser povoada por robôs. Tu,
Sócrates, vais perecer como todos os mortais. Porém, não
descures o santuário de Almada, onde se ergue o egrégio
Cristo-Rei, instituidor do Primeiro Reino do Betão da Lusitânia.
Em breve, Fídias ou Lisipo levantarão a tua portentosa
efígie, passando os antigos beócios a honrar o Cristo da
Microsoft, no Parque das Nações. Frente-a-frente, para a
eternidade, dois assombros da mesma matéria farão olvidar todas
as vicissitudes. Vai-te e não te dirijas a Epidauro. Tens nas Sete
Colinas um presto Serviço Nacional de Saúde. Parte, róseo
varão, perpetuador da genealogia de Sofronisco, que desposaste uma
generosa ateniense, Xantipa, a quem deste dois protegidos de Asclépio e
dos anticiclones da Atlântida.
E num ápice,
Sócrates se ausentou na montada cedida por Belerofonte, sendo que, muito
depois das Festas de Elêusis, já o sol se tinha mil vezes posto no
Peloponeso e nos faróis do Mar de Mil Batalhas, constara, entre os
porqueiros da Beócia e as virgens do fogo sagrado, que havia
ofegantemente embarcado, saltando do freio mágico de Pégaso para
um estribo de prata na Ota, com destino à Cidade Proibida e a outras
paragens do Oriente, com o astuto ânimo de vender mão-de-obra
barata às multinacionais que rivalizam com o Olimpo.
Na sua pátria, tomada
pelos banqueiros, pelos empreiteiros e pelos eucaliptos, chorava-se como
já não rezavam as mães desde as partidas dos nautas e dos
soldados do Império. O condutor de varas não esmorecia. Sentia-se
convocado pela ambição de transformar os antigos beócios
num povo lavado, culto e cortês, não se abstendo de adoptar
medidas draconianas ou espartanas, prosseguindo a Linha da Globopólis:
encerrando
campos, fábricas, lojas, escolas, serviços de saúde,
tribunais, consulados, desorçamentando a cultura e a
recuperação do património e
abrindo
estradas, aeroportos, estádios,
shoppings,
campos de golfe, casas de alterne, salas de chuto, centros de desemprego,
assessorias e consultorias.
Eis a aura de
Sócrates, ditoso bisneto da República, anfitrião de Bill
Gates, Pai do Choque Tecnológico, Convidado do Rei de Marrocos, um dos
regentes euro-americanos no Magrebe. A sua acção, inspirada e
resoluta, fará dos miscigenados e retardatários beócios
cidadãos respeitados por gregos e troianos. A Raiada Aurora vela desde o
irromper do carro de Apolo pelas suas ponderações e
decisões, que ele, Sócrates de Vilar de Maçada, prefere
traduzir por
dreams,
a conselho das nove musas ou
muses,
filhas do colérico e possessivo Zeus. Ele, Sócrates, declarado
nascido em 1957, eleito pela Democracia Bancária-Betoneira, acalenta,
deveras, o Sonho do Retorno de Ulisses,
navegador @portugalnet:
exportar portugueses e importar computadores.
Por isso, os portugueses se vêem cada vez mais gregos.
[*]
Escritor, jornalista.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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