Perfil Socrático
Última biografia oficial

por César Príncipe [*]

Sempre tive uma grande inclinação pelas coisas políticas e filosóficas,
pelos teóricos da filosofia e pelos teóricos da sociedade.
  Sócrates.
Entrevista a Urbi et orbi – jornal on-line da UBI, da Covilhã, da região centro e do resto, edição nº 80/14 a 20/Ago/2001

Sócrates, 470-399 a.n.e. Sócrates (470-399 a. C.), que era filho do escultor Sofronisco e da parteira Fenareta, professava uma subtil noção do potencial estético e dialéctico da sabedoria, isto é, ensinou os justos a ver nascer a verdade entre especulações e ocultações. Mas o mestre do desconhecido que subjaz em todo o conhecimento foi dado à luz em Atenas, frequentando as universidades da ágora, das oliveiras e dos cárceres. Infelizmente nunca visitou Portugal por uma razão de monta: Portugal não existia e os poucos gregos que bordejavam este extremo ocidental não levavam impressões abonatórias deste futuro reino arrancado aos infiéis pela espada e pela cruz. Tratavam os indígenas, nossos ascendentes, por beócios. Ora os beócios eram habitantes da Beócia, província da Grécia. Os atenienses, urbanos e cosmopolitas, consideravam os beócios porcos e estúpidos ou, na brandura galaico-portuguesa, labregos. Hoje, o antigo território beociano é um primor de limpeza, civilidade e instrução. É ver as Cimenteiras, os Campos de Futebol, o Ministério da Educação. Temos um primeiro-ministro, Sócrates, que não nasceu em Atenas mas que pede meças a qualquer filósofo, no que toca a conceitos, preceitos e preconceitos. O seu prestígio ultrapassa a Meseta Ibérica, as Ilhas Desertas e a Europa Continental. Há quem, além-fronteiras, não vacile em cognominá-lo Tony Blair português.

O nosso prime manifestou-se, de imediato, desvanecido com a controversa honraria ou funesta lápide. Sucede que, sendo o nosso prime uma pessoa obrigatoriamente bem informada, não desconhecerá que, além de outros feitos ou defeitos, Mister Blair conseguiu em dez anos de governação prejudicar a maioria dos britânicos mas triplicar a fortuna dos mil britânicos mais abastados após ser conduzido ao Nº 10 de Downing Street prometendo equidade social. Também não ignorará o nosso prime que diversas instâncias judiciais internacionais não descartam julgar Mister Blair como criminoso de guerra. Não poderá alegar o nosso prime desconhecer que Mister Blair é um mentiroso compulsivo. Também não escapará à constatação do nosso prime que Mister Blair arrastou o seu partido para um ciclo de deserções ministeriais e parlamentares, a que tem correspondido um ciclo de perdas eleitorais, vendo-se coagido a abandonar o barco, empurrado pelas sondagens de impopularidade e pelos correligionários. Sendo tão pouco recomendáveis, para o conjunto dos cidadãos e para a prudência socrática, as qualidades de Mister Blair, o nosso prime, Sócrates, vangloria-se de ser o Tony português. Um dia destes irá frequentar a Universidade de Hyde Park, onde esboçará uma tese de mestrado, que procurará ler a excursionistas de tralhas digitais a tiracolo:

A Terceira Via em Portugal: Aposta na Ignorância Sustentada. Estudo de Largo Fôlego/Remetido à Universidade dos Speakers/Via Fax/Que o Classificou/ Citável Contributo Para a Caracterização Político-Filosófica da Europa Periférica. Obra a Distribuir/Como Encarte/Na Imprensa de Referência/Com o Alto Patrocínio da AFCE/Associação da Finança Contra a Economia & da AERB/Associação Empresarial da República do Betão.

E bruscamente se escapulirá, disfarçado de inglês comum para se eximir ao Inglês Técnico e para se prevenir dos apertos multirraciais e dos atentados no underground. Lesto, embora com um pé engessado devido a uma torção por estatelamento numa passagem sem guarda da Terceira Via, saltará para o estribo do mais próximo voo rumo a Atenas, onde, após suada maratona, proferirá uma oração de sapiência no Pártenon, especando os calcorreadores de ruínas com a Apologia do Sócrates Português:

No tempo em que os deuses falavam fui declarado sophos no Oráculo de Delfos. Nunca perverti a juventude. Sempre fui visto nos Banquetes de Platão a conversar sobre a República do Betão sem ofender Atena Poliaia. Não me forcem a beber cicuta, que os mais sábios também conhecem por conicina. Eu não sou beócio. Eu não sou beócio.

E logo, naquele marmóreo panteão de heróis, pítias e actores, irrompeu, das colunas ou dos frisos, um vulto eloquente e temperado, soltando a língua que Hermes lhe confiou, a fim de dizer, com urgência e compreensão geral, o necessário, conforme se requer a quem é acolhido nas mansões da Perfeição:

Zeus e Hera muito apreciam a tua conduta. Não és beócio. És credor de uma estátua de Fídias. A tua terra vai deixar de ter gente. Passará a ser povoada por robôs. Tu, Sócrates, vais perecer como todos os mortais. Porém, não descures o santuário de Almada, onde se ergue o egrégio Cristo-Rei, instituidor do Primeiro Reino do Betão da Lusitânia. Em breve, Fídias ou Lisipo levantarão a tua portentosa efígie, passando os antigos beócios a honrar o Cristo da Microsoft, no Parque das Nações. Frente-a-frente, para a eternidade, dois assombros da mesma matéria farão olvidar todas as vicissitudes. Vai-te e não te dirijas a Epidauro. Tens nas Sete Colinas um presto Serviço Nacional de Saúde. Parte, róseo varão, perpetuador da genealogia de Sofronisco, que desposaste uma generosa ateniense, Xantipa, a quem deste dois protegidos de Asclépio e dos anticiclones da Atlântida.


E num ápice, Sócrates se ausentou na montada cedida por Belerofonte, sendo que, muito depois das Festas de Elêusis, já o sol se tinha mil vezes posto no Peloponeso e nos faróis do Mar de Mil Batalhas, constara, entre os porqueiros da Beócia e as virgens do fogo sagrado, que havia ofegantemente embarcado, saltando do freio mágico de Pégaso para um estribo de prata na Ota, com destino à Cidade Proibida e a outras paragens do Oriente, com o astuto ânimo de vender mão-de-obra barata às multinacionais que rivalizam com o Olimpo.

Na sua pátria, tomada pelos banqueiros, pelos empreiteiros e pelos eucaliptos, chorava-se como já não rezavam as mães desde as partidas dos nautas e dos soldados do Império. O condutor de varas não esmorecia. Sentia-se convocado pela ambição de transformar os antigos beócios num povo lavado, culto e cortês, não se abstendo de adoptar medidas draconianas ou espartanas, prosseguindo a Linha da Globopólis: encerrando campos, fábricas, lojas, escolas, serviços de saúde, tribunais, consulados, desorçamentando a cultura e a recuperação do património e abrindo estradas, aeroportos, estádios, shoppings, campos de golfe, casas de alterne, salas de chuto, centros de desemprego, assessorias e consultorias.

Eis a aura de Sócrates, ditoso bisneto da República, anfitrião de Bill Gates, Pai do Choque Tecnológico, Convidado do Rei de Marrocos, um dos regentes euro-americanos no Magrebe. A sua acção, inspirada e resoluta, fará dos miscigenados e retardatários beócios cidadãos respeitados por gregos e troianos. A Raiada Aurora vela desde o irromper do carro de Apolo pelas suas ponderações e decisões, que ele, Sócrates de Vilar de Maçada, prefere traduzir por dreams, a conselho das nove musas ou muses, filhas do colérico e possessivo Zeus. Ele, Sócrates, declarado nascido em 1957, eleito pela Democracia Bancária-Betoneira, acalenta, deveras, o Sonho do Retorno de Ulisses, navegador @portugalnet: exportar portugueses e importar computadores.

Por isso, os portugueses se vêem cada vez mais gregos.

[*] Escritor, jornalista.

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12/Mai/07