A rota da grande dissidente
por José Manuel Jara
Se o galo eriça as penas,
é mais fácil depená-lo.
(Provérbio tibetano)
Foi dado à estampa um livro da autoria da actual vice-presidente do
Grupo parlamentar do PSD, Zita Seabra, cujo título,
"Foi Assim"
, (O "F" carcomido dá a ideia de uma foice
destruída
), sobressai a vermelho numa capa impressa com o jornal
Avante!
esbatido.
No topo, a autora, proprietária da editora da sua obra,
aparece numa fotografia, com o ar aguerrido da juventude, de punho erguido, e
uma auréola com a foice e o martelo.
Uma capa enganadora, como
aliás toda a sua personagem, que se vai retratar num livro de
recordações ao sabor de intenções inconfessadas,
cujo percurso acaba em 1989, quando se fina a sua identidade comunista e
começa outra, antagónica da primeira.
O lançamento da obra decorreu, com um evidente simbolismo, no Quartel do
Carmo, com a presença de importantes personalidades, entre outras,
Mário Soares e Maria Barroso, J. Pacheco Pereira, Carlos Gaspar, Marques
Mendes, César das Neves, Vasco G. Moura, Bagão Félix e
Santana Lopes. Teceram-se os maiores encómios à obra
(Público,
6 de Julho). Que é um livro de uma verdade absoluta e transparente, diz
Mário Soares. Que nas memórias da amiga "não
há uma gota de culpa", diz Pacheco Pereira, em
relação à "instituição", para
não soletrar "PCP". Gaspar, pelo seu lado, fala que "a
menina romântica com péssimas leituras" (Marx, Lenine, Engels
e outros autores subversivos, proibidos pelo fascismo?) conta no livro "a
história de uma ruptura, tanto mais dura e brutal, por ser
solitária", destacando "a coragem como fio condutor da
obra".
E ela, Zita, rodeada de ilustres, com os pés enfiados nuns bonitos
sapatos vermelhos, relíquia colorida da anterior
encarnação, agradece a todos e apenas lamenta, em patético
acto de contrição, o sofrimento que deu aos seus pais, desventura
do seu inconsequente roteiro comunista. Regressada à classe burguesa de
origem, convertida em professa anticomunista, está à vontade
entre os seus.
Por sua vez, Vasco Pulido Valente, o conselheiro redactorial e revisor de
provas, presente espiritualmente, oferece na contracapa, "à sempre
cândida" Zita Seabra, o seguinte laudo lapidar: "É o
livro que faltava para perceber a grande tragédia do comunismo
português".
Dizemos nós, em contraponto, desde já: a afronta odiosa que
"Foi Assim" transporta contra o Partido Comunista é de tal
monta que os antigos inquilinos do Carmo, depostos no 25 de Abril, teriam
gostado muitíssimo, se ainda cá estivessem, de marcar o evento
com a sua presença!
O mínimo que se poderá dizer de Zita Seabra é que é
uma personalidade contraditória. Onde está a verdade da pessoa, o
seu valor real, cara ou coroa? No período de 22 anos em que assume uma
militância comunista, desde a adolescência sacrificada até
aos 39 anos de idade, dirigente ainda do PCP? Ou na pessoa que vai nascer em
1989, e diz a si própria e aos outros, como uma revelação:
"não sou comunista". A sua cotação real
estará no valor facial ou no valor da troca, ao afirmar-se como
anticomunista, como dirigente política de direita? "Foi assim"
é, contra as aparências de um depoimento realista, um texto
basicamente de ficção: a narradora conta o seu passado para o
reinventar, desacreditando-o. É uma caricatura grotesca e
anedótica da clandestinidade como clausura contrariada, a
deturpação política intencional da vida partidária
e do papel do PCP na Revolução de Abril, etc.. Filhas e genros,
diz Zita nos "Agradecimentos", "foram ouvindo (estas)
histórias e rindo delas"
Eis a seriedade postiça
exibida num descuido. O maior erro na apreciação que se poderia
fazer do livro de Zita é considerá-lo o testemunho objectivo da
sua vida no Partido Comunista, ou o acto sincero de uma ajuste de contas com o
passado, ou a narrativa factual de acontecimentos políticos em que
participou, ou o ajuizar isento sobre pessoas com quem partilhou a
militância comunista. Nada de mais falso. Logicamente, é o que
tentam os seus amigos políticos, ao elogiar a peça e a
personalidade
O sujeito narrador do texto aparece numa entremeada confusa de enunciados em
que alterna o sintagma nominal "nós comunistas" com o
verdadeiro "eu" da pessoa, o qual se distancia, contraria, deturpa e
renega a anterior ideologia e fidelidade. A primeira personagem, a Zita que
milita no Partido, objecto da novela, está morta há quase vinte
anos; a segunda, a Zita do PSD, verdadeira narradora, está bem viva e
activa, posicionada no jet set da classe política, utilizando o know how
do seu passado de militante de esquerda para agir como militante da direita. A
reconversão passa pela ideologia e pela orientação
política, mas a técnica é transferível com
adaptações. O maior mérito de um dissidente é
continuar a valer longamente como dissidente: o valor real como valor da troca.
Há uma carreira de dissidente a título póstumo, como
troféu, como exemplo para outros, como sinal que visa enfraquecer o
adversário. Os antigos inimigos que acolhem o dissidente exibem-no como
o bom exemplo a seguir, o representante da sensatez, do que deve ser: a
moralidade pedagógica do regresso de um filho pródigo, a ovelha
tresmalhada que volta ao redil, a conversão de uma infiel.
"Foi assim" é um texto de confronto político
actualizado, um instrumento de propaganda contra o PCP e a ideologia comunista,
um meio de alicerçar a sua carreira de militante da direita, de
reforçar o seu prestígio no meio em que se situa. A autora age
como inimiga do Partido, num posto ficcionalmente interior ao Partido,
utilizando factos vividos e argumentos, num estilo que parece ser
genuíno e natural, mas que é deliberadamente o do confronto
politizado. Fim estratégico: desvalorizar, estigmatizar, ridicularizar e
denegrir o PCP. Táctica: denunciar, expor pormenores, deturpar,
caricaturar, montar cenários, desinformar, difamar, mentir. Principal
ingrediente: a pessoa, a figura da arrependida, a pecadora que se confessa,
servida por uma claque burguesa.
A autora está consciente deste truque e tenta controlar a
informação. Quando a jornalista Fernanda Câncio (DN,
8/07/07), que a critica por assumir no presente a luta contra causas que eram
suas, como o aborto, lhe faz a última pergunta, ("Nos
agradecimentos do livro está um monsenhor, o mote é uma frase
bíblica, apesar de se dizer ateia de formação. Descobriu
Deus, entretanto?"), a resposta é espantosa: "Sobre a minha
vida depois de 1989 não quero falar".
Façamos a vontade a Zita Seabra. Vamos extrair conclusões da
análise do processo que decorre em 1988 e culmina no seu afastamento do
PCP.
Revisitar o "processo de afastamento" de Zita Seabra do PCP
O correspondente em Lisboa da revista americana
Newsweek
dá conta, numa edição dos começos de 1989, do
"processo Zita Seabra", numa notícia intitulada
"Portugal: reform may be impossible". Aí se fala do livro,
"O Nome das Coisas" de ZS (1.ª edição, Novembro de
1988), como um best-seller onde é revelado o carácter grotesco do
seu julgamento secreto e expulsão ("The grotesqueries of her secret
trial and expulsion"). A nossa fonte é o próprio livro de
Zita, que inclui uma fotografia da página da revista. Serve este exemplo
para dar expressão à ampla informação à roda
da pessoa, promovida em campanha como a grande vítima de uma
espécie de saneamento interno cuja causa, a mais injusta, seria ter Zita
desejado renovar, democratizar, revitalizar e modernizar o PCP. Ironia do
destino, afinal a personagem viria a ser, já em 1989, uma inimiga feroz
não só do Partido, mas de toda e qualquer versão da
ideologia comunista, à qual faz um voluntarioso certificado de
óbito, legitimando, a posteriori, todos os procedimentos que levaram
à sua exclusão do PCP.
A frivolidade e o egocentrismo de ZS transparecem na sua inconstância de
propósitos e inconsistência de argumentos. O leitor pode avaliar
num relance o que aqui fica escrito. A propósito do trabalho na
Comissão Política do CC do PCP onde é, diga-se, membro
suplente, desde 1983, comenta com genuína franqueza: "Não
conseguia continuar na Comissão Política, não me integrava
nela e não queria lá estar (
), acumulava essa tensão
com dúvidas seríssimas sobre a orientação do
Partido, e o resultado foi que adoeci gravemente"("Foi assim",
p. 382). Esta referência merece um reparo pela ignorância crassa
que revela na atribuição da etiologia da tuberculose à
vida na Comissão Política
Mas esta mesma pessoa que estava
farta e saturada, descontente, descrente, desmotivada, não considera a
possibilidade de pura e simplesmente aceitar funções mais
modestas e consentâneas. Por teimosia e espírito de
contradição, sem verdadeira convicção, mas como
reacção de orgulho diz: "Não cedi, eu era membro da
direcção, da comissão política do Comité
Central, tinha portanto direito de me bater pelas mudanças que achava
necessárias no Partido" ("Foi assim", p. 389).
Todas estas discordâncias transpiravam nos órgãos de
informação, em grande profusão, ainda antes da
edição do livro "O nome das coisas". Faça-se
justiça, ZS reconhece agora, no seu "Foi assim", que agia
à revelia da direcção e dos estatutos do PCP. Diz:
"Vital Moreira jantava todas as quartas-feiras em minha casa. Todas as
semanas, passávamos em revista a vida política nacional e a vida
partidária. Conspirávamos efectivamente em minha casa, mas
não em segredo". Do mesmo teor é o seu depoimento na Grande
Entrevista da RTP 1, a Judite de Sousa: "Estava em plena
dissidência, jantava tudo lá em casa". Em casa da
"grande líder divergente", dizemos nós. Acrescente-se,
cujo secretário-geral provisório e guia espiritual passou a ser
Vital Moreira, sem dúvida
E dizia à Zita, imagine-se:
"És a nossa Passionária!" (p. 395). Será
possível?!
Depois de uma zanga com Álvaro Cunhal em que é criticada pelo seu
nítido afastamento da linha e das normas estatutárias do PCP, ao
ser confrontada com a sua mudança de gabinete (estava antes no 6.º
andar na sede da Soeiro Pereira Gomes, em frente ao gabinete do
Secretário Geral), reage com raiva incontida, que revela no livro:
"Foi nesse dia que começou o meu processo. Para mim iniciou-se
nesse dia uma dissidência com dois objectivos: democratizar o partido e
mudar a sua linha política; acabar com PREC". Seria para
reconquistar o gabinete do 6.º andar?! Diz depois Zita, para tirar
dúvidas: "Continuava, porém, absolutamente fiel aos ideais,
que tinha abraçado desde sempre, os ideais comunistas" ("Foi
Assim", p.388).
O processo do afastamento de Zita Seabra do PCP decorre por etapas. Um primeiro
procedimento em reunião plenária do Comité Central
afasta-a da função de suplente da Comissão
Política, em Abril de 1988. Zita Seabra, ainda membro do Comité
Central, publica a sua defesa no "Nome das Coisas" (Editorial
Inquérito, 1988), num tom pateticamente revolucionário, como quem
detém a chave da salvação, in extremis, do PCP:
"É por confiar no Partido, nos seus militantes e na nossa ideologia
que hoje aqui, no Comité Central, que analisa o caso "Zita
Seabra", eu quero dizer-vos, camaradas, que me seria bem mais penoso estar
aqui, dentro de algum (pouco) tempo, a ser julgada por ter assistido
passivamente ao declínio sem remédio do PCP".
Vital Moreira, em eco, no livro "Reflexões sobre o PCP"
(Editorial Inquérito, 1990), faz a apologia emotiva da alegada
vítima, põe as mãos no fogo pela sua nova pupila e afirma
categórico: "Zita Seabra é a primeira vítima da luta
pela renovação do Partido e pela superação da crise
que, sem aquela, o conduzirá, a breve prazo, a um irreparável
definhamento" (p. 60). O seu empenhamento político e
jurídico na apologia de Zita foi de molde a transformar em
"julgamento" um processo interno de um partido, indo ao extremo de
considerar a acção da direcção do Partido como
"character assassination", o que à vista do
"carácter" revelado de ZS (traduta traditora), foi um erro
crasso de diagnóstico do "advogado de defesa".
Enquanto Vital Moreira pretendeu com grande vitalidade "revitalizar o
PCP" para impedir o seu "definhamento", Zita pretendia
"salvá-lo do declínio". Não fundaram, nem
refundaram nenhum novo partido comunista ou de esquerda. Vital Moreira
contenta-se com os bons ofícios no PS, usando a sua fastidiosa e cerrada
teoria da argumentação para defender as mais impopulares reformas
neoliberais do governo de Sócrates. Zita assumiu-se na sua verdadeira
pele, a nudez branca da verdade, a pele na qual diz sentir-se muito bem,
estereótipo que repete sempre, para confirmar que traja a rigor pela
direita.
Depois do afastamento da Comissão Política em Abril, ocorre em
Novembro de 1988 o afastamento compulsivo do Comité Central (a sua
expulsão do PCP, em Janeiro de 1989), justificado pela
persistência nas mesmas acções anti-estatutárias e a
publicação do livro "O Nome das Coisas", clara
provocação ("O livro era a guerra", diz ela em
"Foi assim"), para obter a sanção como prémio
por mau comportamento. A via da dissidência estava há muito em
marcha, ninguém sabia ainda até que ponto. Todo o teatro sobre
"violência", "perseguição",
"punição", toda a campanha de difamação
do Partido Comunista, visou capitalizar juros políticos para os
adversários do PCP, à custa da pretensa ofendida.
Meditemos, por um instante, na seguinte frase sobre uma desejada
evolução no Partido, pouco antes da muda da pele:
"Eu acreditei que é possível mudar, que é
possível impedir a morte de um projecto colectivo e
revolucionário de sociedade que foi e é o nosso sonho, tão
grande que alguns lhe dedicámos não uma parte da vida, mas a
"nossa vida""( "Nome das Coisas" p. 45 ).
Sabendo como todos sabemos do amplo apoio de que Zita beneficiou, do Grupo dos
Seis, do INES, do José Milhazes, de Pacheco, de Soares e dos Media,
espanta-nos sobremaneira a desfaçatez de ZS quando diz a Judite de Sousa
no programa Grande Entrevista, com fingida autocomiseração:
"Saí só, fiz o percurso só, nem terceira, nem quarta
via, um percurso muito sentido, só".
Não foi assim
O capítulo número 7 do livro é sintomático. Zita
Seabra esteve pouco mais de cinco anos na clandestinidade. Destes anos, quatro
anos são exercidos no apoio a casas clandestinas, papel
indispensável na luta política, que ZS considera uma
limitação e uma humilhação para si. Na sua
entrevista no DN, em grandes parangonas, figura o título: "Fui uma
mulher-a-dias do PCP". A menina-bem foi obrigada a aprender as tarefas
domésticas, que agora retrata com o despeito. Ela queria a
função de "revolucionária profissional", a
função de dirigir e organizar, de liderar, primeiro a partir do
aparelho clandestino, depois à luz do dia, em 26 de Abril de 1974.
Quando toma as rédeas da União de Estudantes Comunistas (UEC), em
finais de 1972, põe em evidência o seu estilo muito
próprio, como se sonda nas descrições: "Criei na UEC
uma disciplina de exército..." (
) "Tinha uma enorme
dureza face à hesitação, à dúvida ou ao
medo" ( embora narre a sua experiência de horror quando lhe aparece
um ratinho, não um PIDE, na cozinha da "casa do Partido"
(p.122). (
) "Tinha a frieza de um revolucionário, era muito
dura nas relações humanas (
) "Todos os militantes
falavam de mim obrigatoriamente no "masculino", era "o
camarada", para não se perceber que a "controleira" era
mulher", explica ( p. 187 e 188). Todas estas descrições da
auto-denominada "verdadeira bolchevique" soam muito a "comunismo
de caserna", a uma caricatura pequeno-burguesa do que é uma
verdadeira disciplina, sem tiques autoritários,
manipulações e dirigismos. Diz da "sua" UEC que
"passou a ser uma espécie de tropa de choque do PCP"
E
fica muito contrariada quando a organização é dissolvida e
integrada nas Juventudes Comunistas.
Tive a oportunidade de privar mais de perto com ZS no Grupo Parlamentar do PCP,
na primeira legislatura, entre 1976 e 1979. Muitos de nós a
víamos como pessoa autoritária, super-protegida pelo presidente
do Grupo Parlamentar, Carlos Brito, seu marido por muitos anos, pai das duas
filhas, cuja existência como cônjuge é demasiado velada em
"Foi assim". É o único dirigente do Partido que ZS
elogia sistematicamente no livro, em toda a linha e em todos os
parâmetros! Vá-se lá saber porquê, a sua
progressão na carreira foi imparável, apesar do que muitos
apontavam daquele estilo de fugir.
A preocupação em exagerar o seu papel, em atribuir a si
própria feitos que não lhe cabem, é outra
característica que sobressai no capítulo sobre o movimento
estudantil.
A chefia da União de Estudantes Comunistas, após o 25 de Abril,
gera-lhe a fantasia de que é uma grande personalidade: "Ali eu
"era a Camarada". Sabia que quando o diziam era eu". Julga-se
homologada a Álvaro Cunhal, "o Camarada", como uma
espécie de grande guia da UEC, trasvestida como o seu pequeno partido,
numa liderança feita à pressa.
Diz, às tantas, que na Cidade Universitária (de Lisboa)
"não tínhamos militantes". E acrescenta: "Em
Medicina, por exemplo, tínhamos um". Rematadas falsidades,
disfarçadas por não mencionar o ano a que se reporta. Na
Faculdade de Medicina havia uma célula da Organização
Estudantil do PCP, anterior à fundação da UEC, em 1971.
Aliás, é um militante do PCP da Faculdade de Medicina, em
representação de outros, que estará presente na
reunião de fundação da UEC, onde Zita não
irá, com muito pesar seu, como afirma no livro. Noutro passo das suas
divagações totalmente incorrectas e falseadas afirma: "Em
pouco tempo refizemos muito da UEC de Lisboa e ganhámos, entre outras,
as Associações de Estudantes de Medicina, de Letras e de
Direito". Zita nada tem a ver com a conquista dessas
Associações que são prévias à sua chegada em
Dezembro de 1972 à direcção clandestina da UEC de Lisboa.
Eu próprio fui eleito presidente da Direcção da
Associação de Estudantes de Medicina em 1971, bem antes da
chegada da Zita. Será que não se lembra? Ou não resiste a
distorcer a informação para valorizar o seu papel? É mais
provável a segunda hipótese. Este é apenas um exemplo de
muitos que se poderiam extrair por quem viveu esses momentos conturbados que
antecedem o "25 de Abril".
O estilo mentiroso é tão descarado, no modo da
fabulação, que se torna difícil a sua
refutação analítica. Quase tudo é inventado, como
quando conta um pretenso "ataque da UEC ao Técnico", em toda
uma página (p. 245). O que aí se narra, como se pode apurar junto
dos médicos Joaquim Judas (que, ao contrário do que escreve ZS
neste relato, nunca na vida contactou ou foi ao Copcon!) e João
Proença, foi tudo ao contrário. Numa reunião inter
associações (RIA) que decorreu no IST alguns indivíduos de
grupos pseudo radicais agrediram traiçoeiramente e brutalmente
estudantes associativos vinculados à UEC, prática que já
tinham exercitado antes do "25 de Abril" e de que eu próprio
fui vítima em 1972. No dia seguinte, em resposta, muitos estudantes da
UEC dirigiram-se ao IST para protestarem e fazerem uma
demonstração de força, mas não houve qualquer
confronto. ZS não tem peias em deturpar acontecimentos para denegrir a
própria UEC que dirigiu, provavelmente com a finalidade de piscar o olho
aos seus actuais amigos ex-maoistas, como Pacheco Pereira e Carlos Gaspar (este
último, pasme-se, "encarregado da (sua) educação
democrática", p. 397) os quais, como diz na entrevista da RTP,
renunciam mais total e completamente à doença
"comunista" infanto-juvenil do que os que foram do PCP.
Na vã tentativa de se elevar a si própria e rebaixar
Álvaro Cunhal, que é perseguido em "Foi assim" por um
ódio simétrico à admiração idolátrica
que lhe havia votado, Zita Seabra tenta desvalorizar a obra, "O
Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista" (1970),
considerando-a desactualizada, porque esgrimindo contra os esquerdistas de
Paris, etc.. E diz: "A confusão ideológica que se gerou com
esse livro foi tal que o Carlos Brito me pediu que fizesse um livrinho, um
folheto, na mesma linha (
), mas colocando nele os grupos nacionais"
(p. 165). Espantoso! Nem o livro está fora do país, porque,
diga-se, esses grupos tinham sede em Paris e sucursal em Portugal, nem a
preocupação de Álvaro Cunhal é uma pura
descrição factual, mas a tipificação da ideologia e
acção política, na sua diversidade, convergente
unitariamente no ataque ao Partido. Nunca houve qualquer confusão
ideológica resultante do livro, antes pelo contrário, foi
extremamente útil no combate a esses grupos, cuja acção
iria ser extremamente nefasta na Revolução de Abril. Um pequeno e
significativo pormenor. ZS nunca escreveu nenhum folheto ou livrinho sobre o
tema, mas isso não diz: serviu-se de um texto editado pela
comissão técnica eleitoral do PCP em 1975, intitulado "O
Maoismo em Portugal", que reeditou no jornal da UEC, em 1976, sem
mencionar o autor, que é quem escreve estas linhas.
Deturpação da Revolução de Abril e anti-socialismo
militante
O anticomunismo cego de ZS leva-a a não ver que a sua postura não
é historicamente muito diferente em vários aspectos da que
fundamentou o fascismo português, tanto na versão salazarista como
marcelista. Para o regime fascista, o "comunismo" era o
"mal", para Zita, enquanto militante de causa anticomunista, outro
tanto se pode dizer, por muito estranho que pareça. A luta
anti-fascista, com os sacrifícios que comportou, incluindo a sua
própria pessoa na primeira identidade, parece estranhamente absurda,
quase anedótica, fruto da despersonalização (dupla
identidade) da autora nos seus relatos. Não vemos em "Foi
assim" nenhuma crítica severa ao fascismo e à crueldade dos
seus esbirros, menos ainda à exploração das classes
trabalhadoras e injustiças sociais do regime, baseado no poder de uma
oligarquia capitalista e agrária, cujo poder foi restaurado em muitos
aspectos na contra-revolução pós-Abril.
Zita Seabra, depois da mutação que, como se vê, não
foi só epidérmica até já nem identifica o antigo
regime como fascista. Diz, "o regime ditatorial" (p. 29), "uma
ditadura completamente obsoleta para a Europa" (p.28), "o regime
ditatorial português" (p. 336), e quando escreve "ditadura
fascista", apaga a última palavra, com a explicação:
"como se lhe chamava" (p. 34). Para os seus amigos de hoje é
politicamente mais correcto agir com alguma brandura verbal em
relação ao regime da velha senhora
O discurso político de Zita Seabra pauta-se por um tom categórico
proporcional à sua inconsistência lógica e
ideológica. Quando analisa o período marcelista deturpa
totalmente a táctica do PCP, adulterando por completo o que se disse:
"Quando vim para Lisboa, achávamos que tínhamos
alcançado o primeiro objectivo de todos, impedir que Marcelo Caetano
fizesse uma transição pacífica do regime salazarista para
uma progressiva abertura do regime à democracia." A luta das
forças democráticas e especialmente do PCP contra as
ilusões da demagogia liberalizante marcelista é grosseiramente
invertida. Não ter Marcelo levado por diante a sua pretensa
liberalização foi culpa do PCP. Lê-se e não se
acredita!
Quando está em preparação a Revolução de
Abril, Zita ensaia pôr em dúvida o papel da direcção
e do próprio PCP. Escreve isto, sem mais nem menos: "Com ou sem PCP
a revolução ia fazer-se. E o certo é que nós, eu
(no sector estudantil) e todo o restante aparelho clandestino que eu conhecia,
nem por um segundo hesitámos e colocámo-nos de imediato ao lado
dos oficiais (
)". Leia-se e releia-se: "eu e todo o restante
aparelho
" A presunção megalómana fica a nu
neste passo descuidado, que não deve ter sido convenientemente corrigido
por Vasco Pulido Valente. A intenção óbvia é
retirar o PCP do 25 de Abril; já agora, porque não, se tudo
é permitido nesta prosa descabelada?
A malévola intriga "zitista" tem incidência especial no
caso do jornal
República
e da Rádio Renascença. Todos sabem que tais incidentes de
carácter nitidamente provocatório, tal como o ataque à
Embaixada de Espanha, foram obra dos grupos "esquerdistas", inimigos
implacáveis do PCP, que consideravam reformista e revisionista. A Zita,
amiga da onça, consegue descobrir na Renascença "um
único militante do PCP", para ajudar à sua missa negra (p.
288).
Zita Seabra tenta desfigurar a ética comunista, treslendo a brochura
"A superioridade moral dos comunistas" (A. Cunhal), numa
óptica de maquiavelismo primário. A moral comunista seria a
imoralidade baseada no princípio de "usar todos os meios para
atingir os seus fins" (p. 76). Em nenhuma parte do texto se diz tal coisa,
nem é princípio do marxismo-leninismo. A partir daí, vai
justificar todas as suas interpretações absurdas e caluniosas,
como, por exemplo o seguinte: "Logo a partir do 1.º de Maio de 1974 o
PCP empenhou-se diariamente a anunciar conspirações, golpes
iminentes, contra-golpes reaccionários, de civis e militares, grandes
perigos para o regime democrático". Para esta senhora, a
revolução de 25 de Abril teria sido uma primavera marcelista se a
esquerda e especialmente o PCP não atrapalhassem o trânsito. Tudo
o resto foram "inventonas". A spinolada não existiu, o
"28 de Setembro" não passou de uma data festiva, o "11 de
Março" foi um festival aéreo, etc., etc.. A autora, faz aqui
o contrário do habitual, em vez de confabular pela positiva, a mitomania
compulsiva, procede por efabulação negativa: o que aconteceu
não foi
Na mesma série, se inclui a insídia de
sugerir que o Partido não pretendia eleições
democráticas, quando esse é uma dos seus pontos
programáticos essenciais da revolução democrática e
nacional, objectivo da longa luta pela liberdade e por um regime
democrático, em que ninguém, nem nenhum partido pode dar
lições ao PCP. Milhares de comunistas perderam a liberdade para
lutar pela Liberdade.
Depois disto tudo passa a fazer a propaganda do "comunismo" por
exagero e excesso, retórica utilizada para assustar os meninos e as
meninas. A nacionalização da Banca e dos Seguros, medidas
anticapitalistas tomadas após o 11 de Março, cuja iniciativa
resulta do processo revolucionário e da movimentação das
massas trabalhadoras, merece uma descrição irónica para
agradar à sua actual plateia: "A economia entrou em
nacionalizações sucessivas (
) e os capitalistas ou fugiram
ou foram presos pelo Copcon, acusados de conspiração. Se
não tinham conspirado, paciência, tivessem-no feito". (p. 261)
Outra falsa teoria de ZS sobre a linha do Partido resulta de imaginar que o
Programa da Revolução Democrática e Nacional, original
concepção do Partido para o derrube do fascismo, seria uma
cópia das obras de Lenine sobre a Revolução Russa, nas
suas duas etapas. Tal resulta da sua incipiente consciência
política teórica no passado, aliada à intencionalidade
perversa da postura actual. É a própria ZS que diz após
transcrever os oito pontos da revolução democrática e
nacional: "todos nós sabíamos de cor esta
enunciação". Mas para saber, não basta decorar
O adversário também pode saber de cor a linguagem marxista, mas
não alcança o marxismo. No caso de Zita, o mais provável
é ter ficado só com a cábula na cabeça.
No prefácio à obra "O caminho para o derrubamento do
fascismo IV Congresso do Partido Comunista Português"
(Edições Avante, 1997), eis como Álvaro Cunhal define as
características identificadoras dos partidos comunistas e do movimento
comunista em geral: "Uma, a completa independência dos interesses,
da política, da ideologia, das pressões, ameaças e medidas
repressivas das força do capital. Outra, a par da luta com objectivos
imediatos, a luta pela transformação revolucionária da
sociedade, pelo socialismo e o comunismo". (p. 48)
Sem perceber nada disto, convertida à classe burguesa de origem,
resta-lhe a magia verbal para apoucar o PC: "é um partido de
pequenas causas", diz na RTP 1. As pequenas causas da luta pela
justiça social, da luta das classes trabalhadoras pelos seus direitos,
da luta por uma sociedade sem exploração do homem pelo homem, uma
sociedade de igualdade e liberdade.
A questão da derrota do sistema socialista na Europa de Leste e na
Rússia parece ter sido a espoleta que levou Zita a virar o bico ao
martelo. Compreende-se que uma transformação histórica de
tal dimensão tenha abalado a consciência política de
muitos. Mas é muito estranho que quem achava ter sido o PCP um
sucedâneo da URSS, como exprime Zita no seu "Foi assim", fique
perturbado pelo facto do Partido continuar a sua existência e luta, sem
esse apoio internacional. Zita Seabra poderia ser, porventura, um bom exemplar
da nomenklatura, na sua expressão mais negativa, daqueles elementos de
uma casta burocrática de alguns partidos comunistas acomodados no poder,
desligados do povo e habituados a soluções administrativas. Na
sequência da perestroika, alguns converteram-se directamente ao
capitalismo e serviram-se de posições para refazer uma classe
exploradora e capitalista.
Convém lembrar que o programa inaugural da perestroika era mais
socialismo e democracia. Temos de admitir que essa possibilidade
histórica existia, embora não se tenha concretizado. Esse
programa foi desvirtuado, gerando-se uma dinâmica de
restauração selvagem do capitalismo e de nacionalismos
reaccionários. Na maioria dos países, passados mais de 15 anos, o
nível de vida do povo ainda não recuperou o do sistema anterior.
A pessoa de convicções não muda de cor devido a uma
derrota. A teoria do materialismo dialéctico e histórico pode
fundamentar modelos e soluções práticas diferentes das que
se concretizaram na Europa no século XX. Reduzir a Teoria ao simplismo
de Zita e consortes quando dizem que "a ideia do comunismo está
errada, não apenas a sua prática", é apenas a
expressão de uma opinião e uma profissão de fé. O
mesmo se poderá dizer do capitalismo, cujo livro negro não tem
mercado livre como as ideias de Zita Seabra. Ideias que são
estranhamente cruéis e ferozmente antidemocráticas, como quando
marca simbolicamente a derrota do socialismo na URSS na seguinte
declaração, dirigida vingativamente a Álvaro Cunhal:
"
foi derrotado
, no dia em que o Parlamento Russo foi cercado
e bombardeado" (p. 401).
Houve quem quisesse decretar o fim da história, após a
desintegração da URSS. Esfumaram-se rapidamente as ilusões
das promessas do sistema capitalista desenvolvido. O imperialismo à
solta, sem contraponto, soltou as garras e multiplicaram-se guerras e
morticínios. O capitalismo prossegue a sua ofensiva contra o trabalho e
os trabalhadores, intensificando à escala mundial a
exploração. A desigualdade social aumenta nos países
capitalistas desenvolvidos, as assimetrias da globalização
são brutais e sem remédio. É assim.
Mas a luta continua, pelo aprofundamento da democracia, e por uma sociedade
socialista aberta ao futuro, ao serviço do Homem.
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=20634&area=19&edicao=1756
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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