Eleições legislativas 2015
Ciência e tecnologia nos programas eleitorais
Nas notas que se seguem procurou-se dar particular atenção a
questões que têm condicionado a vida das
instituições, unidades e centros de investigação
que integram o Sistema Científico e Técnico nacional, e,
naturalmente, a vida e condições de trabalho dos trabalhadores
científicos, sejam eles docentes-investigadores, investigadores
não docentes ou técnicos de investigação.
Julgamos
que importa ter, nesta altura, um conhecimento mínimo sobre a forma como
as principais forças políticas concorrentes ao acto eleitoral de
4 de Outubro próximo, se posicionam perante questões que
têm agitado e preocupado a comunidade científica e que, num breve
enunciado, ordenamos como segue: política científica; montantes e
mecanismos de financiamento; recursos humanos e combate à precariedade;
missão dos laboratórios do Estado; investigação no
Ensino Superior e no sector privado, nomeadamente, nas chamadas IPsFL ou
"instituições privadas sem fins lucrativos".
São
conhecidas as posições que a
OTC
tem defendido sobre todas ou quase todas estas questões; importa
então tomar conhecimento de como essas questões são
tratadas nos programas eleitorais daquelas forças políticas.
Coligação PSD-CDS: "Portugal à Frente"
REFORÇAR A APOSTA NA CIÊNCIA, NA TECNOLOGIA E NA
INOVAÇÃO (p. 23 a 25 do Programa)
A abrir a Secção é afirmado:
"No decurso da presente legislatura e em condições
especialmente
difíceis, foi possível assegurar a sustentabilidade do Sistema
Nacional de Ciência e Tecnologia e, até, interromper um ciclo de
redução que se vinha observando desde 2010".
Trata-se de uma afirmação que não tem
correspondência nos índices que habitualmente são usados
para caracterizar a situação e a evolução do
Sistema Científico e Técnico (SCT) nacional e também
não têm correspondência na percepção
pública, no seio da comunidade científica, da
evolução do SCT nos últimos quatro anos. Entre 2011 e
2013, a DIDE nacional em percentagem do PIB, desceu de 1,50 para 1,34 (os
resultados provisórios de 2014 ainda não foram divulgados). Para
encontrar um valor inferior a 1,34 é preciso recuar até ao ano de
2007. A irregularidade dos concursos para projectos; a falta de
transparência dos critérios e processos de avaliação
das unidades de I&D e das candidaturas a projectos e a bolsas, e os resultados
desastrosos a que conduziram, fizeram subir a contestação
à actuação da FCT e da respectiva tutela a níveis
que há muito não se verificavam. O continuado processo de
desmantelamento dos laboratórios do Estado quer no que se refere a meios
humanos e financeiros quer no plano da sua estabilidade estrutural e
institucional, reflectiu-se na capacidade dos laboratórios para
desempenhar as missões que o País deles deve esperar. A
precariedade laboral dos jovens investigadores acentuou-se fazendo aparecer a
emigração dos mais qualificados como triste recurso para evitar o
abandono da profissão. O bloqueio ao recrutamento e progressão
nas carreiras técnicas e de investigação manteve-se e
agravou-se.
A afirmação atrás citada em itálico é
contrária aos factos. Se ela traduz o pensamento dos agentes
políticos que a subscrevem então não há que esperar
deles reconhecimento dos erros do passado nem medidas de saneamento da
situação actual do SCT nacional.
Antes de propor as
linhas estratégicas
que orientariam a política do futuro governo na área de que
nos ocupamos aqui, surgem ainda algumas frases "lapidares" cujo
conteúdo oscila entre a trivialidade e o mau improviso. Eis algumas das
passagens que são oferecidas ao leitor (N.B. em todo o presente artigo
os
"negritos"
são nossos):
"(
) o sistema nacional de I&D é qualitativamente mais robusto
e internacionalmente mais competitivo do que em 2011. Importa agora consolidar
esta
senda de progresso
(
)
" Não há país avançado em que
o ensino ou a modernização da economia
surjam à margem de uma grande qualidade e competitividade da
investigação científica."
Vejamos então o essencial das
linhas estratégicas.
-
"(
) uma
reforma do regime de emprego
científico e tecnológico que consolide e expanda a sua
qualidade (
)", para "estimular uma maior competitividade
internacional do sistema de C&T" e para que "as
instituições portuguesas possam competir no mundo global e aceder
com sucesso a fontes de financiamento europeias".
Nada sobre carreiras. Nenhuns números sobre financiamento.
-
"Estimular a investigação fundamental e aplicada de muito
elevada qualidade, privilegiando a atribuição de fundos
públicos aos melhores investigadores e às
melhores instituições do país
(
)"
Naturalmente, incluindo, como até aqui, instituições
privadas.
-
"Continuar a estimular
a permanência em Portugal e a atração de
investigadores internacionalmente competitivos, através de concursos
internacionais anuais."
Continuar a estimular?
Continuar
parece estar a mais.
-
"Reduzir as assimetrias regionais nas capacidades de I&D&I, através
de um Programa para a
criação de Centros de I&D&I de excelência nas
regiões do interior de baixa densidade populacional
, alinhados com a RIS3 da respetiva região, com forte
ligação ao tecido empresarial".
As RIS3, que certamente o comum dos mortais eleitores não faz ideia do
que sejam, são as "Estratégias de Inovação
Nacionais/Regionais para a Especialização Inteligente"
assentes em propostas legislativas aprovadas pela Comissão Europeia em
Outubro de 2011, no âmbito da "política de coesão para
2014-2020". Mais se promete sobre os "centros de
excelência" nas "regiões de baixa densidade
populacional", nomeadamente:
-
"Um Centro de Excelência no interior deverá assumir uma
natureza "única" a nível nacional
, ser reconhecido internacionalmente, ter forte potencial inovador e de
geração de emprego qualificado no tecido produtivo, para que se
transforme rapidamente num
polo atrator de talento a nível nacional e internacional".
O desmantelamento dos Laboratórios do Estado, as dificuldades de
subsistência dos centros de investigação que têm o
mérito de já existir, a precariedade do emprego científico
agravada nos últimos anos, torna difícil acreditar que o que aqui
se apresenta como medidas de programa, para mais sem qualquer
quantificação, possam vir a concretizar-se.
A omnipresença de termos como:
estimular, apoiar, incentivar
(sempre sem qualquer quantificação), e, sobretudo,
continuar
, evocam, dada a experiência passada, fundada desconfiança.
"Apoiar a formação pós-graduada de
excelência"
em programas de doutoramento
"de elevada qualidade"
, e
"seleccionados competitivamente"
, acrescenta-se. Parece querer deixar-se claro que há
pós-graduações que não são excelentes,
doutoramentos de baixa qualidade, e deixando a dúvida da
distinção entre uma selecção competitiva e outra
que o não é. Em nosso entender tudo isto não passa de
retórica destinada a persuadir quem já não precisa de ser
persuadido. Adianta-se ainda que tudo isto será
"integrado em projectos (
) adequadamente financiados através
de
concursos competitivos nacionais ou internacionais".
Naturalmente porque deve haver concursos não
competitivos
que é outro dos chavões de que se usa e abusa no programa.
Outra medida que visará sossegar os espíritos mais inquietos,
receosos de experiências passadas, afirma-se que se irá
"avançar com a reforma da Fundação para a
Ciência e
Tecnologia",
não de qualquer forma mas antes
"seguindo os melhores exemplos das agências europeias e
internacionais
congéneres"
o que é evidentemente preferível a seguir os piores
exemplos, vide a FCT que já lá irá. Dela fazendo
"uma agência verdadeiramente independente, com autonomia,
administrativa,
organizativa e financeira, com maior eficácia de gestão, maior
estabilidade de financiamento plurianual e novas condições para
manter relações de proximidade com a comunidade
científica".
Voltamos à retórica.
Finalmente, numa prometedora girândola final, mais susceptível,
dada a experiência passada, de gerar preocupação do que de
alimentar esperança, afirma-se a intenção de
"preparar a avaliação internacional intercalar de 2017 das
unidades de investigação e desenvolvimento, de forma a criar
novas possibilidades para unidades em reestruturação e a
incentivar a adaptação do sistema às exigências de
competitividade europeia e internacional".
Em toda a Secção que vimos examinando, nada sobre recrutamento de
pessoal técnico de investigação; nada sobre recrutamento
para lugares permanentes de qualquer natureza; nada sobre a
substituição de "bolsas" por contractos de trabalho;
nada que especificamente contemple laboratórios do Estado.
Partido Socialista (pp.73-75 e p.57)
A Secção 14 (pp. 73-75) intitula-se: "REFORÇAR O
INVESTIMENTO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA, DEMOCRATIZANDO A
INOVAÇÃO". Depois de louvar os grandes progressos registados
ao longo de 25 anos e de criticar "os resultados das políticas dos
quatro" últimos, escreve-se o seguinte: "É agora
fundamental recuperar a confiança no sistema de ciência e
tecnologia e assegurar a previsibilidade dos incentivos públicos,
garantindo um planeamento adequado das instituições e a
gestão de carreiras, assim como o restabelecimento de clareza,
transparência e regularidade no funcionamento dos agentes de
política científica. Este objetivo é prioritário,
juntamente com a garantia de que a ciência é considerada um
direito inalienável de todos os portugueses."
O texto que se segue, até final desta Secção 14, é
pouco elucidativo quanto às medidas que permitiriam atingir tal
"objetivo prioritário". Nas passagens do texto em que se pode
encontrar algo de concreto, o que é proposto não parece de molde
a alterar significativamente a situação actual do Sistema
Científico e Técnico nacional.
Assim, na subsecção
"Reforçar o sistema científico e tecnológico nacional
e contrariar a precariedade dos seus investigadores"
Fala-se em
"aumentar as oportunidades de emprego para os jovens doutorados".
Para tal, seria "relançado" (?)
"um novo programa de apoio a cátedras de investigação
para
docentes dos quadros das universidades públicas, com financiamento
público ate a reforma ou jubilação daqueles que as
ocupem".
Tal programa afirma-se facilitaria
"a abertura de vagas para novos professores auxiliares de carreira".
Conduziria também a fomentar
"o desenvolvimento de projetos de investigação de longa
duração dirigidos por investigadores seniores"
a
"renovar a docência no ensino superior"
a dar
"a investigadores mais jovens a oportunidade de terem carreiras de
docência universitária em Portugal",
evitando
"a emigração forçada dos mais qualificados, o
abandono das
carreiras de investigação e dedicação à
ciência, o emprego cientifico precário ou, simplesmente, o
desemprego".
Ter-se-á em vista transformar os docentes das categorias mais
altas em "investigadores (catedráticos) seniores" e
transformar investigadores mais jovens em docentes de carreira? E que carreiras
se tem em mente? E quem asseguraria os projectos de investigação
de longa duração (admitindo que terão financiamento
adequado)? Seriam os jovens investigadores-docentes supervisados pelos
titulares das novas cátedras de investigação?
Talvez acabem por ser "bolseiros" já que a respeito de
"bolsas" o que se propõe é substituir "
progressivamente
a atribuição de bolsas de pos-doutoramento anuais ao longo de
seis anos (?) pela criação, para investigadores doutorados, de um
muito maior número de novos contratos de Investigador
". De seguida, afirma-se ter em vista que
"as bolsas de pos-doutoramento dev(a)m passar a ter durações
mais
curtas e servir de estímulo para o desenvolvimento de carreiras de
investigação".
Não é claro o que isto ao certo significa.
Numa girândola final afirma-se o propósito de
"reforçar o programa do potencial humano e de formação
avançada, em todas as áreas do conhecimento, de um modo a dar a
todos a quem seja reconhecido mérito absoluto oportunidade de estudar e
de se doutorar em Portugal".
Para além da dúvida sobre o que se entende por
"mérito absoluto" naturalmente por comparação
com mérito relativo, importa dizer que as medidas (?) propostas
dificilmente contrariarão a realidade de uma vaga de
emigração dos mais qualificados se não forem
substancialmente aumentados os meios financeiros a afectar à I&D e ao
Ensino Superior. A este respeito, falando-se embora na intenção
de
"reforçar e dar estabilidade ao financiamento de projetos e
atividade de I&D"
nada de mais concreto se adianta.
Não há uma palavra sobre os Laboratórios de Estado, em
estado calamitoso, nem sobre a sua especificidade e importância como um
pilar fundamental do Sistema Científico e Técnico nacional.
No que toca a pessoal técnico de apoio à
investigação, de que há extrema carência, a
referência que é feita é a transcrita a seguir:
"Formar técnicos de apoio a I&D, em estágios de
formação em laboratórios públicos, seguidos de
estágios de inserção em laboratórios
empresariais".
Não se vê como e por quem será dada a
formação que aqui se refere, e logo em laboratórios
públicos onde aliás a escassez de pessoal técnico é
preocupante. O problema não se resolve com estágios seguidos de
outros estágios.
É positivo que se considere para além do apoio a projectos de I&D
e da garantia
"da periodicidade e previsibilidade das avaliações
(embora o sentido de "previsibilidade das avaliações"
levante dúvidas)
e a diversidade da tipologia de concursos".
é positivo, dizia-se, que se considere o estímulo a
"programas mobilizadores temáticos de grande escala, orientados
para a
solução de desafios da sociedade e economia".
Seria apropriado no caso destes programas fazer uma referência
explícita à intervenção dos laboratórios de
Estado na sua concepção e execução para que
não restassem dúvidas sobre o entendimento que os autores do
texto programático que é dado a conhecer aos eleitores
terão do papel instrumental que deve caber aos laboratórios
públicos na concretização das políticas
governamentais nas várias áreas da vida económica e
social. Essa referência não é feita.
Entretanto, são tímidas as propostas que aparecem relativamente
à FCT e à sua intervenção.
Defende-se, é certo, sem entrar em detalhes, a criação de
um novo programa de avaliação cientifica, com revisão de
processos e metodologias, Não parece reconhecer-se que a FCT tendo sido
nos últimos anos o
braço armado
de políticas e concepções profundamente erradas e
desenvolvendo uma acção com efeitos perversos sobre a
configuração e a própria integridade do sistema
público de I&D, deve ser objecto de uma reforma de fundo na sua
estrutura e nos seus métodos, sujeita a auditorias regulares e dotada de
gestores com competência reconhecida pela comunidade científica.
Nada disto transparece da proposta de Programa eleitoral do PS. Há uma
vaga referência a "um novo Regime jurídico das
instituições de ciência e tecnologia" que não
parece ser algo de primeira necessidade, tendo em conta que continua em vigor a
Lei-Quadro das Instituições de I&D (D.-L.125/99 de 20 de Abril)
que não tem suscitado grandes reparos. Estamos habituados a que um novo
governo se apresse a fazer novas leis mesmo quando não fazem falta, ao
mesmo tempo protelando a feitura de outras que vão ao encontro de
interesses gerais e reivindicações expressas pelas comunidades a
que respeitam.
Não há uma palavra sobre o Estatuto da Carreira de
Investigação Científica, sua aplicação
efectiva e sua reconfiguração no que respeita às
categorias de entrada (Estagiário e Assistente de
Investigação) que permitiriam, substituindo "bolsas"
por contratos, um combate efectivo à situação
precária de milhares de jovens investigadores em princípio de
carreira.
Finalmente, nada se diz de concreto nesta Secção, sobre o aumento
da despesa em I&D no sector público, em valores absolutos,
questão essencial para colocar o País, no contexto europeu, em
lugar mais próximo da média da despesa
per capita
de investigador que é hoje próxima de um terço da
média dos países da UE a 28.
Numa outra Secção do Programa "MAR-UMA APOSTA NO
FUTURO" (p.57) são apresentadas várias propostas que
envolvem a investigação científica e tecnológica
num quadro de
"desenvolvimento da economia do mar",
Nesse sentido propõe-se a criação de um
"Fundo Azul"
que proporcionaria os meios financeiros adequados para
"a investigação científica e a proteção
e
monitorização do meio marinho".
Seria alimentado através de dotações do OE, de
fundos comunitários, e, também, nomeadamente, pela
"afetação de parte das receitas da taxa de
utilização do espaço marítimo".
Anuncia-se também o lançamento de
"um programa dinamizador das Ciências e Tecnologias do Mar, centrado
na recuperação e reforço do investimento em I&D no mar e
na criação de emprego científico e incentivos para a I&D
empresarial".
Finalmente, afirma-se a intenção de
"apostar na criação de um cluster tecnológico e de
investigação aplicada nas áreas dos campos
petrolíferos e minerais digitais (?) e da engenharia naval
offshore
e submarina".
Partido Comunista Português
/Coligação Democrática Unitária (CDU)
(pp.68-69, pp.32 e 33)
A abrir a Secção, com o título SISTEMA CIENTÍFICO E
TÉCNICO NACIONAL (pp. 68-69), é feita uma resenha da
situação em que se encontra o referido Sistema (SCTN) referindo a
fragilização decorrente de
"distorções estruturais e estrangulamentos financeiros,
persistentes e agravados por políticas conduzidas por sucessivos
governos",
onde se enumeram e identificam as políticas e medidas
consideradas responsáveis pela situação que se vive nos
centros e laboratórios de investigação públicos e
pelas condições de trabalho do pessoal que aí trabalha.
Destacam-se, nomeadamente: insuficiência dos meios financeiros e a
necessidade de
"angariação aleatória de receitas, junto de fontes
estrangeiras ou internacionais alheias à realidade nacional"
abusiva
"centralização de poderes"
que
"condicionam o trabalho das unidades de investigação e dos
investigadores";
"burocracia sufocante e discricionariedade de decisão"
com
"total impunidade"
onde se destaca
"por uma actuação autocrática"
a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Refere-se
ainda a orientação política
"seguida nos últimos anos"
que tem conduzido
"ao estrangulamento e extinção de centros de
investigação e Laboratórios do Estado, ao envelhecimento
do pessoal docente, investigador e técnico, à progressiva
volatilidade das condições de trabalho".
Chama-se a atenção para
"o estigma"
da
"precariedade laboral que urge contrariar e resolver de forma
consequente"
Segue-se no texto do Programa, o enunciado de um conjunto de
acções e medidas que se considera serem exigidas para a
"revitalização, fortalecimento e expansão do sistema
científico e técnico nacional".
Destacam-se as seguintes.
-
A definição de uma política de Ciência & Tecnologia
que atenda às necessidades e especificidades da economia nacional e
consagre a intervenção efectiva da Assembleia da República
na elaboração e avaliação das políticas de
Ciência e Tecnologia e no acompanhamento da sua execução.
-
A duplicação até ao final da legislatura, do investimento
por investigador ETI no sector público.
-
No mesmo prazo, no sector público, o recrutamento e
formação de 8500 técnicos e auxiliares de apoio à
investigação.
-
A reestruturação da Fundação para a Ciência e
Tecnologia, incluindo a divulgação pública anual dos
respectivos relatórios e contas.
-
Revitalização e reorganização da rede do sistema de
Laboratórios do Estado: recomposição e alargamento; clara
definição das respectivas missões; adopção
do «contrato-programa» com o Estado como base de financiamento;
autonomia de gestão administrativa e financeira, e de
selecção e recrutamento de pessoal.
-
Revogação do Estatuto do Bolseiro de Investigação e
sua substituição por contractos de trabalho com
valorização salarial.
-
Explicitação da componente I&DE na fórmula de
financiamento do Ensino Superior público e o efectivo respeito da
autonomia científica e financeira das suas instituições na
formulação e execução de projectos.
-
Reintrodução das categorias de Estagiário e Assistente de
Investigação no Estatuto da Carreira de
Investigação Científica como categorias de
formação de pessoal investigador, sujeito a adequada
avaliação com regras bem definidas; criação de
Carreiras Técnicas de Apoio à Investigação, abertas
a candidatos que possuam desde a escolaridade obrigatória até ao
grau de doutor; criação de uma Carreira de Operário
Especializado ou Prototipista.
-
Valorização da investigação fundamental livre em
qualquer domínio, e das actividades de investigação no
domínio das Ciências Sociais e Humanas, com o reforço dos
meios que lhes são atribuídos.
-
Inclusão nas operações de Inquérito ao Potencial
Científico e Tecnológico Nacional, dos dados relativos às
chamadas «Outras Actividades Científicas e Técnicas»:
despesas e recursos humanos que lhes estão afectos.
-
Adopção de um modelo de selecção isenta e eficaz
dos dirigentes das instituições e unidades públicas de
investigação, que retome o espírito das linhas
orientadoras definidas na Resolução do Conselho de Ministros
n.º 124/2006, de 3 de Outubro.
-
Co-responsabilização, traduzida na obrigatoriedade de parecer,
dos Conselhos Científicos, nas decisões de
afectação de recursos aos objectivos e programas da respectiva
instituição; na aprovação de projectos e
candidaturas a financiamento; e na sua execução orçamental.
-
Criação de um Fundo para a Inovação
Tecnológica empresarial financiado pelas empresas na
proporção de 1% do respectivo VAB acima de 5 milhões de
euros de volume de negócios anual, com co-gestão e
co-financiamento públicos.
-
Criação de uma Agência para o Desenvolvimento e
Transferência de Tecnologias que promova a transferência para o
tecido produtivo das descobertas e inovações dos Centros de
Investigação e a resposta destes às necessidades das
empresas.
-
Criação de um Programa Nacional de parcerias para actividades de
investigação aplicada e de inovação de produtos e
processos a executar por Micro, Pequenas e Médias Empresas, mediante a
negociação de contractos de projecto entre empresas e
instituições públicas de I&DE, com metas e prazos
definidos e com financiamento público a fundo perdido.
-
Fortalecimento do sistema estatístico nacional com a salvaguarda da sua
independência financeira e técnico-científica e o
reforço dos meios humanos e materiais do Instituto Nacional de
Estatística (INE).
Deve notar-se que embora não se exclua o recurso a "bolsas" se
preconiza a introdução do vínculo contratual, sem
excepção, acompanhada de uma valorização salarial.
Simultaneamente é proposta a reintrodução na carreira de
investigação científica das categorias de entrada
(estagiário e assistente) abrindo por essa via o caminho à
superação do sistema de "bolsas" pela
contratação a termo, sujeita a condições de prazos
e avaliação estipulados na lei.
É reconhecida a necessidade da contribuição de pessoal
não-investigador (técnico e operário especializado) para a
"revitalização, fortalecimento e expansão do sistema
científico e técnico nacional",
reconhecimento reflectido em propostas de medidas respeitantes ao
recrutamento e contratação desse pessoal e sua
inserção em carreiras específicas. No conjunto das medidas
propostas é patente a tentativa de quantificação onde ela
se afigura necessária para uma avaliação dos objectivos e
viabilidade de concretização das medidas propostas. São
apresentadas propostas dirigidas no sentido de viabilizar a
ligação das actividades de I&DE e Inovação aos
sectores produtivo e dos serviços; afirma-se a necessidade de revigorar
e expandir o subsistema dos laboratório do Estado, e, em geral de
democratizar e garantir uma gestão eficaz das unidades e centros de
investigação. Aponta-se a necessidade de melhorar o exame pelo
sistema estatístico das actividades de ciência e tecnologia e
alargar o universo das entidades inquiridas no âmbito do Inquérito
ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional estendendo-o
às unidades executoras das chamadas "Outras Actividades
Científicas e Técnicas", definidas no Manual de Frascati.
Em outras secções do Programa, é explicitamente referida
importância da intervenção dos laboratórios do
Estado na definição e execução de políticas
públicas nas várias áreas de intervenção de
interesse geral, como a saúde, a segurança ou a
exploração, defesa e aproveitamento de recursos naturais. Assim,
na p.32, a referência a
"acções de investigação associadas à
produção, particularmente em sectores de forte conteúdo
tecnológico e valor acrescentado, visando a alteração do
actual perfil de especialização da economia"
: na p. 33 (PESCAS) a referência à
"avaliação nacional do estado dos recursos, com
reforço da
acção dos Laboratórios do Estado e de meios para a
investigação".
Bloco de Esquerda (págs. 19-21)
A Secção 3.3 do Manifesto Eleitoral do BE tem o título:
ENSINO SUPERIOR E CIÊNCIA. A Ciência e Investigação
não são objecto de análise independente. O texto
está organizado em duas partes: na primeira é descrita e
apreciada a situação em que se encontra o ensino superior e a
investigação científica. Aí são referidas: a
situação das instituições; do pessoal docente e
investigador; a precariedade laboral generalizada (o uso e abuso das
"bolsas"); o regime jurídico das instituições do
ensino superior; a insuficiência das dotações
orçamentais, que obriga a recorrer a fontes de financiamento privadas,
designadamente, as propinas, para cobrir despesas correntes e assegurar um
funcionamento em condições mínimas de viabilidade.
São denunciadas as políticas que conduziram à
situação actual. A denúncia é justa e a
descrição da situação é, no essencial,
correcta, mas peca por ser incompleta: a questão do pessoal
técnico não é referida e não há uma palavra
sobre os laboratórios do Estado.
Segue-se, no Manifesto, uma segunda parte, sobre o tema que tratamos, em que
sob o título "Caminhos" são preconizadas medidas.
Nesta, como na primeira parte, apreciações e propostas são
de natureza qualitativa, não sendo feita qualquer
quantificação onde faria sentido e poderia ser possível
fazê-la.
Destacam-se de seguida os aspectos essenciais das medidas propostas.
-
Financiamento adequado e plurianual das instituições de ensino
superior
-
Revisão do modelo de gestão das universidades e
politécnicos,
no sentido de democratização com reforço da
participação de todos os corpos envolvidos (pessoal docente e
não docente, investigador e discente);
-
Estabilização e renovação do corpo docente do
Ensino Superior;
-
Preconiza-se um
"novo estatuto do investigador científico, com contrato de
trabalho e proteção social
o qual substituiria
"um sistema assente em bolsas de investigação"
acrescentando-se:
"para situações que extravasam a condição e os
momentos de formação".
A formulação não é clara pois poderá
dar a entender que quando não
"extravasem"
essa condição e esses momentos, se admite a
manutenção do sistema de "bolsas". Tanto mais quando
logo a seguir se preconiza a actualização do valor das
"bolsas".
-
Preconiza-se o recrutamento de novos
"cientistas"
para o
"sistema de ensino superior e investigação",
recrutamento esse que se faria
"pela abertura de vagas na carreira de investigação e por
contratos de Investigação para projetos de médio e longo
termo".
De novo uma formulação, na melhor das hipóteses,
pouco cuidada e de sentido indefinido.
A única medida proposta que aparece quantificada é aquela em que
se defende que
"o investimento em ciência e investigação deve atingir
3% do
PIB",
justificando-se este valor por ser aquele que é
"definido em compromissos europeus".
De seguida, indica-se em que moldes deve ser
"retomado"
(?) o financiamento da ciência, assente num
"processo de avaliação de unidades que seja transparente e
claro
nos critérios e nas regras, com painéis de
avaliação sólidos, participação e
auto-regulação dos cientistas".
"Sólidos"
quererá dizer
competentes;
já quanto à participação e, sobretudo, a
"auto-regulação dos cientistas",
subsistem dúvidas que careceriam de alguma
clarificação.
Importar dizer que a meta de 3% do PIB adiantada pela Comissão Europeia,
diz respeito à despesa global com I&D incluindo a despesa do sector
empresarial, pelo que referir essa percentagem no contexto do documento que se
comenta aqui, sem outra explicação, suscita justificadas
dúvidas.
Finalmente: não há uma palavra sobre pessoal técnico de
investigação; nada se diz sobre carreiras novas nem sobre a
conveniência de aperfeiçoar as que existem; não há
qualquer referência aos laboratórios do Estado, ao seu paulatino
definhamento, nem à necessidade da criação de novos
laboratórios.
[*]
Organização dos Trabalhadores Científicos.
O original encontra-se em
www.otc.pt/...
Este documento encontra-se em
http://resistir.info/
.
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