Sejamos claros: a não aplicação de uma multa a Portugal
retira uma pedra do caminho, mas deixa o essencial dos problemas por resolver.
A Comissão Europeia e o Ecofin assumiram formalmente que Portugal e
Espanha não tomaram as medidas necessárias para cumprir as regras
europeias. Ou seja, apesar dos cinco anos de austeridade destruidora, apesar da
co-responsabilidade das instituições europeias pelo
falhanço dessa estratégia (que, como os próprios vieram
agora reconhecer, não permitiu que as metas fossem alcançadas,
depois de toda a sucessão de aumentos de impostos e cortes na despesa),
as instituições europeias decidiram que os países em causa
não cumpriram as regras e que são culpados por isso. A
decisão de não avançar com uma multa não anula
aqueles pressupostos.
A decisão hoje tomada será utilizada para reforçar o
nível de pressão sobre o governo português. A narrativa
é fácil de perceber. Estão a dizer-nos: vocês
são irresponsáveis, vocês não fizeram o que deviam;
resolvemos dar-vos mais uma hipótese, mas é bom que façam
tudo o que vos dissermos daqui para a frente. E o poder de chantagem
continua bem presente, como fica claro das declarações que vamos
ouvindo.
Entretanto, os problemas fundamentais continuam por resolver. As regras da
União Europeia e da zona euro continuam a assumir que um país que
se encontre em crise nada pode fazer que não seja acentuar a
degradação da actividade económica e dos direitos sociais
e laborais. Não havendo solução à vista que
dê resposta às enormes diferenças nas estruturas
económicas dos países participantes na UE, as economias mais
frágeis continuarão a enfrentar condições de
financiamento muito mais desfavoráveis, tornando-as vulneráveis
aos humores dos mercados financeiros internacionais e, por conseguinte, ao
poder de chantagem de quem na UE está numa posição
financeira vantajosa.
Em suma, a decisão da Comissão Europeia dá com uma
mão o que sabe que pode tirar com a outra. Esta decisão
não torna menos premente a necessidade de questionar as regras europeias
nem de nos prepararmos de todas as formas para fazermos valer as nossas
posições. Por outras palavras, as mensagens do vídeo
abaixo continuam tão válidas como antes.