A «sociedade civil» e os seus equívocos
A chamada «sociedade civil», tenha ela expressão no
«Compromisso Portugal»
ou na
«Sedes»
, não sossega nem dá sossego. É tempo dela e do seu
trasbordante activismo.
Mediatizados encontros de reflexão e manifestos recheados de
patrióticos conselhos preenchem um dos lados da vida do país.
Assim é, sempre que em tempos de incerteza sobre o rumo político,
de pressentido perigo para os interesses instalados ou recomendável
necessidade de sinalizar o desejado caminho para a política
económica. E é tempo deles, os que dão a cara pela dita
«sociedade civil», distintos homens da finança,
empresários de sucesso, figuras dos principais grupos económicos,
gestores privados e felizes herdeiros da propriedade pública. Tudo gente
bem avisada, de apurado sentido de sobrevivência, sempre prontos a
transitar de armas e bagagens de um para outro dos partidos dominantes do
sistema. E patriotas convictos acima de qualquer suspeita (que uma quantas
deslocalizações, exportações de lucros ou fuga ao
fisco de modo algum mancham) capazes de interromper por momentos a exigente
tarefa de tratar da sua vida e negócios para, com comovente
desinteresse, darem indicações precisas sobre as políticas
económicas e financeiras que ao País interessam.
Porque a azáfama tem sido grande, e o deslumbramento perante a coisa
não menor, justifica-se desfazer, ainda que sujeitos à
acusação de heresia, três equívocos que acompanham
esta «desinteressada» e «genuína» expressão
vinda das profundezas do nosso viver colectivo.
O primeiro deles quanto ao alegado caracter inovador e sinal de modernidade que
o emergir da coisa representaria. Não, a «sociedade civil» que
agora se agita não constitui qualquer expressão inovadora nem uma
criação lusitana ditada pelos tempos de crise. É coisa
velha de quase dois séculos. A «sociedade civil», tal como
Marx evidenciou, só se desenvolve com a emergência da burguesia e
é dela expressão, tendo a origem do termo marcado presença
na polémica ideológica entre marxistas e não marxistas
desde o fim do século XIX. O conceito de «sociedade civil», e
o termo que o acompanha, corresponde a uma relação material entre
indivíduos numa determinada etapa de desenvolvimento das forças
produtivas e sobretudo, como afirmava Marx, ao facto de a burguesia
«já como uma classe, e não só uma ordem social»
ter sido «obrigada a dar ao seu interesse médio uma forma
geral».
O CADERNO DE ENCARGOS DA «SOCIEDADE CIVIL»
O segundo equívoco é o que resulta de se querer fazer crer que a
chamada «sociedade civil» seria algo exterior ao poder, distinto do
Estado e dele completamente separado. Bastaria olhar para a fusão
crescente do poder político e do poder económico e para a
dependência daquele por este nas sociedades capitalistas, para dispensar
de demonstração o que Marx revelou com notável clareza:
que o Estado político em capitalismo é «expressão
oficial da sociedade civil» e que «o Estado é a forma em que
os indivíduos de uma classe dominante fazem valer os seus interesses
comuns e se condensa toda a sociedade civil de uma
época». Ouvindo e lendo as vozes forte da «coisa», a
começar pelo denominado «Compromisso Portugal», bem se
percebem os objectivos e o caderno de encargos apresentado: a modesta
pretensão de assumirem «um papel preponderante nas escolhas futuras
para o País» e o livro de receitas para um
«Estado-minímo» em direitos, socialmente falando, e um Estado
forte e activo na promoção das políticas destinadas a
assegurar a apropriação privada do bem público e a
acelerar a concentração do capital.
O terceiro, e último equívoco, é o que é alimentado
pela tentativa de identificar a «sociedade civil» com os interesses
gerais dos trabalhadores e da população, um género de
«procurador» desses interesses gerais face a um Estado, vendido como
entidade asséptica e neutral. Um equívoco testemunhado pela
natureza dos interesses e das políticas reclamadas pelos representantes
daquela «sociedade civil», claramente centradas na exigência de
aprofundamento das orientações neoliberais e dos critérios
monetaristas do Pacto de Estabilidade, de prosseguimento das
privatizações e de desmantelamento das funções
sociais do Estados, de flexibilização da legislação
laboral e de redução dos direitos dos trabalhadores.
Não de fora, mas bem no centro das decisões e da
condução das políticas nacionais, as mais das vezes
sentada à mesa dos Conselhos de Ministros, a «sociedade civil»
navega no mar do bloco central de interesses umas vezes a bordo do PSD outras
do PS. Sempre ciosa por se apresentar como apartidária. Afirmando-se
como equidistante entre aqueles dois partidos, observando com tranquilidade as
proposta de uns e outros, enaltecendo o sentido patriótico das
opções neoliberais de uns e outros, sublinhando a
semelhança que os une em questões essenciais. Eis a
«sociedade civil» no seu melhor e o País no seu pior.
10/Mar/05
[*]
Da Comissão Política do PCP.
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=8758&area=23
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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