Processos de intenção
A bela burguesia intelectual e intelectualóide nos seus pretensos
debates de ideias, mesas redondas e bicudas, televisões e
gulbenkiões, costuma apresentar-se na figura de tolerantes polemistas de
esmerada educação, incapazes de pôr em dúvida, de
questionarem as impolutas intenções dos interlocutores. Com
efeito! Pois se todos pertencem ao mesmo clube! Entre eles nunca existem
divergências sérias. Nem de interesses, nem quanto às
intenções. Em termos de maior realismo semântico, dir-se-ia
que é tudo gente da mesma seita, uma espécie de récua de
mulas a puxarem para o mesmo lado. Nas raras ocasiões em que a
distorção do argumento
pro domo sua
se revela por demais flagrante, é de etiqueta usar o seguinte
obsequioso chavão : "Não pretendendo incorrer em processo de
intenção, quanto ao que V. Exa. afirma ou fez... ou decretou...,
etc". Gente fina é outra loiça.
Entre eles, portanto, o código que rege as relações de
classe subentende a renúncia ao tropo retórico conhecido como
"processo de intenção". Seria supérfluo,
aliás. Qualquer associação de interesses pressupõe
intenções comuns. Seja a Máfia ou a Opus Dei (exemplos
avulsos, podem crer... Não houve processo de intenção).
Seja ainda a burguesia capitalista (a seita dos ricos), na presente fase em que
domina os negócios do Mundo.
Penso ter ficado estabelecido, de Adam Smith a Karl Marx, que a
intenção do capitalismo é a obtenção do
máximo lucro, sem grandes escrúpulos quanto aos meios utilizados
par atingir esse fim. Lembremos, nos últimos 150 anos, o infame
tráfico de escravos negros de África para as Américas, o
genocídio ameríndio, a exploração até aos
limites da sobrevivência das enormes massas de trabalhadores europeus
triturados na chamada Revolução Industrial. Face a este medonho
historial, e derivantes modernas também sub-humanas, compreendem-se as
razões que levam a classe dominante a neutralizar qualquer processo
mesmo somente de simples intenção que ponha a
descoberto, que denuncie as reais intenções de poder
despótico e absoluto que orientam as sua políticas, a
nível imperialista ou apenas local. Infelizmente, o capitalismo
burguês vai obtendo êxito no campo da desinformação e
no da inculcação do seu modelo económico, político,
social e até cultural. Sem dúvida, devido ao poder
hegemónico, por enquanto indisputado, que exerce globalmente; mas
também beneficiando de uma certa capitulação da esquerda
ideológica, designadamente do sector dito intelectual, onde se verifica
uma deserção maciça para o campo inimigo. (No caso
português este movimento foi precoce, começou com a
contra-revolução em 1975).
Nestas circunstâncias, cabe-nos a todos que ocupam o campo da
esquerda ideológica pela igualdade cívica e justiça
social, a todos que somos acusadores e inimigos do sistema neoliberal
capitalista e da classe que o representa, a todos que somos críticos e
juízes da corrupção ética, dos valores e costumes
que esse sistema gera compete-nos, repito, a denúncia permanente
do "Império do Mal", dos seus agentes e cúmplices
político/doutrinários.
Noutros termos: compete-nos abrir
processos de intenção
(no sentido corrente de "processos de suspeição") em
relação a todo e qualquer projecto, medida, plano ou reforma,
etc, anunciada ou decretada pelos governos e agentes partidários da
burguesia capitalista (incluindo, está bem de ver, os representantes do
partido político que usa a máscara carnavalesca de Socialista).
Aqui chegados, a minha proposta de acção a qual,
verdadeiramente, é mais uma proposta de atitude pode parecer
muito modesta. Talvez. Contudo, em diversas ocasiões, tenho constatado
que os sofismas dos políticos burgueses são discutidos e
comentados como de coisa séria e bem intencionada se tratasse. Como se
visassem o bem comum. Numa determinada perspectiva tratar-se-á apenas de
ir ao jogo. Mas para a massa dos espectadores/eleitores, o batoteiro que
não é rudemente desmascarado ganha a partida. Veja-se o que se
passou agora na Itália, onde o milionário trapaceiro Berlusconi,
com provas dadas de desonestidade em cinco anos de governança, ainda
recolheu a preferência de metade do eleitorado! O palhaço prometeu
um salário mínimo de 800 euros; isenção de impostos
para reformados, transportes e espectáculos gratuitos; empregos aos
milhares (excepto para comunistas); etc, etc.
Espera aí: mas eu já ouvi isto, há pouco tempo, cá
na santa terrinha. Pois foi. Foi o "camarada socialista"
Sócrates, também especialista em batotas eleitorais, mestre no
ilusionismo das miragens de bem-estar, progresso e empregos aos milhares
lá para um futuro sem data, num horizonte de 80 a 100 anos. Nenhum de
nós já cá estará. Pode prometer à vontade.
De boas intenções como se sabe está o
inferno cheio. Uma das mais badaladas diz respeito à necessidade
imperiosa de conter o défice das contas do Estado, atribuído ao
despesismo da administração pública; com a concomitante
urgência em manter a sustentabilidade financeira do sistema de
Segurança Social. Ora, como vem sendo anunciado, o défice baixou
apenas umas miseráveis décimas (está em 6%, muito longe dos
2% europeus); a despesa do Estado aumentou largos milhões; a Caixa Geral
de Aposentações pagou mais 416 milhões de euros de
pensões em 2005.
Este aparente fracasso esconde um real paradoxo. A saber: a avidez
insaciável com que esta gente chupa na teta orçamental torna
impossível qualquer equilíbrio das contas públicas;
converte as badaladas reformas em mero expediente para impor mais taxas e
sacrifícios aos trabalhadores em geral, nomeadamente aos
funcionários públicos. Mas vocês mesmos
estúpidos! sois funcionários do Estado. E bem se
esforçam sofregamente para ficarem a mamar até ao
fim da vida gordas pensões, regalias e privilégios; para sacarem
o mais possível do amado Tesouro do odiado. Estado! Processos de
intenção? Absolutamente. Os exemplos abundam, as provas
não faltam.
Por estes dias a televisão agarrou no assunto das pensões
milionárias (aliás, fazendo eco de manchetes anteriormente
aparecidas na imprensa sensacionalista). Pensões acima dos quatro mil
euros mensais, existiam cerca de 500 em 1997. Hoje são mais de
três mil, sendo várias na ordem dos seis mil. Uma destas de
funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros!
acima dos sete mil (superior ao vencimento do Presidente da
República). Muitas dizem respeito a indivíduos ainda
desempenhando funções públicas! Casos do anterior ministro
da Saúde; de um conhecido magistrado; e do inefável Alberto
João, cacique da Madeira, que leva 4.500/mês a acrescentar ao
vencimento e alcavalas de vice-rei. (Jamais a classe política
portuguesa, incluindo os presidentes, fez tenção de melindrar o
palhaço madeirense com a mínima crítica, não
obstante os insultos periódicos com que é mimoseada. Medo do
homem? Cumplicidade?). Processos de intenção... precisam-se.
Todavia, é a maneira extraordinária como o governo
socrático deu a volta à "revelação" das
pensões milionárias que merece destaque. Merece mesmo o
prémio Bush para manha e malandrice neoliberal.
Atalhando possível repercussão, o ministro da pasta foi à
televisão anunciar inesperada reforma no sistema das pensões.
Falou ele em tecto máximo, em cortes nos montantes imorais e nas
acumulações? Nem pio. O que ele anunciou Ó
céus! Ó deuses da hipocrisia! foi que as baixas
pensões, na ordem dos 800/mês, passam a ficar abrangidas pela
obrigatoriedade de pagar IRS! "Em nome da equidade contributiva",
ouviu-se, e custa acreditar que haja tanta falta de vergonha.
Os cofres do Estado vão assim arrecadar largos milhões. Foi dito
que cerca de novos 800.000 pensionistas/contribuintes serão
acrescentados à cobrança do IRS. Fantástico malabarismo!
Mágica receita da teoria economista. Aliás, já conhecida
dos reis medievais. Nem o Berlusconi se atreveria a tanto. Processos de
intenção? Esperamos ouvi-los. Ou vai uma malandrice deste calibre
passar em claro, como episódio insignificante?
Este caso/escândalo das pensões
milionárias/múltiplas põe novamente em causa a
célebre doutrina neoliberal dos direitos adquiridos. A qual explica aos
trabalhadores, funcionários e restante ralé miúda, que
já lá vai o tempo do posto de trabalho garantido, a pensão
ao fim de 36 anos de labuta e de outros direitos acessórios como a
saúde, a educação, etc. Em nome da modernidade, da
competitividade, da flexibilidade e doutras tretas a que falta acrescentar a
desonestidade. Excepto Ó prodigiosa excepção!
a doutrina não se aplica à seita dos
arrivistas/carreiristas da política partidária burguesa, para os
quais bastam meia-dúzia de anos (ou meses) para adquirirem direitos
vitalícios fabulosos, indemnizações,
reintegrações na vida civil (mete nojo), passeatas pelo Mundo
fora (em 2005, só os parlamentares gastaram quase três
milhões). Um regabofe indecente, sem controlo de custos. (O processo
relativo às viagens/fantasmas dos deputados abusadores foi agora
arquivado sem procedimento).
A propósito: O meu amigo Zé Povinho assistia um destes dias, pela
TV, à partida do eng. Sócrates e seus amigos milionários
para Angola. Às tantas o jornalista anuncia: "Chegou o
primeiro-ministro. Num carro novo, topo de gama, matrícula do mês
passado". Exclama o meu amigo Zé: "Então não
querem ver que estes gajos compram um carro novo todos os meses!" Bem,
confesso, não pretender abrir um processo de intenção:
mas, como é o dinheiro do Estado a correr e até dá gozo a
S. Exas., que andavam de carripana lá na aldeia... uma certa
dúvida fica a pairar.
Para rematar dou notícia de outra enorme golpada em
preparação, de tenebroso significado. Está nas mãos
do ministro da Justiça o projecto do novo Código do Processo
Civil, elaborado por uma especial "unidade de missão" (as
tais, de indefinido estatuto e remunerações, que geralmente
duplicam departamentos públicos. Economias à moda neoliberal). Do
pouco que transpareceu, lê-se na imprensa que... "será criado
um foro especial para titulares de cargos políticos". Uma
espécie de imunidade criminal? Faz-se assim justiça em
tempo útil para Fátima Felgueiras, Isaltino, Valentim
Loureiro, Avelino Torres, Alberto João & compadres, etc. Fora os
restantes presumíveis delinquentes.
Mais o que se segue, sugerido pelo ataque, em curso, do poder político
às estruturas judiciárias. Está no horizonte deste governo
(democrata socialista, em nome) a partidarização da
Justiça? Lá se vai o último pilar (em teoria)
independente, do famoso Estado de Direito!
Processos de intenção?
São absolutamente legítimos,
dado o estado a que isto chegou.
[*]
Coronel reformado
O original encontra-se no semanário Alentejo Portugal,
edição de 27/Abril/2006.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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