Os inquietantes mistérios do voo TP173 para Caracas
Por muito que o Chefe de Estado, ministros, TAP e a comunicação
social corporativa tentem compor uma imagem de vitimização,
própria de quem pretende desviar o assunto da sua essência, a
verdade é que existiram anomalias graves, e que estão a
necessitar de explicações sérias, relacionadas com o voo
TP173 de Lisboa para Caracas, no dia 13 de Fevereiro.
O ministro da Administração Interna prometeu uma
investigação às ocorrências. Apesar de não
ter sido concluída pelo menos os seus resultados não foram
divulgados a quem tem mais direito de conhecê-los, os portugueses
o Chefe de Estado acha que as decisões da Venezuela anunciadas na
sequência do comportamento da TAP no citado voo são "injustas
e inaceitáveis"; o ministro dos Estrangeiros, o mesmo que se
preocupa com o racismo sobretudo porque "dá má imagem de
Portugal no estrangeiro", entende que as atitudes de Caracas são
"inamistosas e injustificadas"; e a companhia aérea considera,
mesmo sem dar explicações oficiais sobre o ocorrido, que a
suspensão de voos para a capital venezuelana durante 90 dias imposta por
Caracas é uma "medida gravosa que prejudica os nossos
passageiros".
Ao Chefe de Estado teria sido melhor esperar pelo apuramento dos factos porque
a Pátria não está acima de qualquer suspeita e alguns
dados que circulam exigem aprofundamento e o correspondente esclarecimento; ao
chefe das Necessidades poderá perguntar-se, já que fala de
amizade, se não será "inamistoso" para os venezuelanos
o "reconhecimento político" atribuído a um
indivíduo que não participou em eleições
presidenciais e que corre mundo a pedir aos governos que aprofundem
sanções contra o seu povo; e à TAP será oportuno
lembrar que deveria ter pensado nos passageiros logo na altura em que tornou
possível a existência de ocorrências que estão na
base das acusações venezuelanas.
O estranho caso do senhor António Márquez
Enunciando os factos que correm mundo desde o dia 13 de Fevereiro não
será difícil perceber que é necessário
investigá-los com profundidade e apurar responsabilidades. Fazer
antecipadamente de vítima, porém, é um mau
prenúncio quanto à disponibilidade das autoridades portuguesas
para actuarem com transparência.
No voo TP173 de Lisboa para Caracas embarcou Juan Guaidó, cidadão
venezuelano que há um ano se autoproclamou presidente do país sem
ter concorrido ao cargo e que recentemente teve de provocar uma secessão
na Assembleia Nacional para continuar a afirmar-se "presidente" deste
órgão, sendo-o apenas de uma facção dissidente. De
Guaidó, um instrumento nas mãos de Donald Trump, conhecem-se
igualmente práticas terroristas, golpistas e a apropriação
a título pessoal de bens enviados para o país a título
"humanitário".
O nome de Juan Guaidó não figurou, no entanto, na lista de
passageiros do voo TP173. Terá o "interino" viajado
clandestinamente? Nem tanto: fê-lo disfarçadamente: tornou-se
"António Márquez" recorrendo a outra
combinação de nomes presentes na sua identificação.
Isto é, por alguma razão que ele, a TAP, provavelmente o ministro
Santos Silva e o Departamento de Estado norte-americano saberão, o
"presidente" e também golpista de 30 de Abril de 2019 quis
passar despercebido num voo da TAP que o levou de regresso à
Pátria depois de ter andado a pedir a alguns dos principais dirigentes
do mundo que contribuam com novas sanções para a fome dos seus
compatriotas.
Fome? Exagero? Definitivamente não. Eis como em 12 de Outubro de 2018 o
embaixador dos Estados Unidos em Caracas, William Brownfield, definiu as
sanções contra a Venezuela:
"Devemos tratá-las como uma agonia, uma tragédia continuada
até que chegue a um final (
) e se pudermos fazer alguma coisa para
acelerá-la devemos fazê-la, mas devemos fazê-la percebendo
que irá ter um impacto negativo em milhões de pessoas que
já estão com dificuldades em encontrar alimentos e medicamentos
(
) o fim desejado justifica este severo castigo".
Foi em nome deste "fim" que Juan Guaidó fez o recente
périplo pela Europa e pelos Estados Unidos até entrar como
António Márquez no avião da TAP que o devolveu a Caracas.
Um tio à prova de bala
Com Juan ou António viajou outro Márquez, Juan José, seu
tio, "seu mentor e seu guia que o incentivou a realizar os seus sonhos e
objectivos", como o definiu um velho amigo do próprio, Ángel
Briceño, numa entrevista à BBC.
Juan José Márquez entrou no avião da TAP envergando um
colete à prova de bala, o que é absolutamente vedado pelos
regulamentos da Organização Internacional da
Aviação Civil (OIAC). Desconhece-se a razão de tal
precaução mas, segundo as alegações das
autoridades venezuelanas, a companhia de bandeira portuguesa não tomou
as necessárias medidas para fazer cumprir os regulamentos. Nas bagagens
do tio Márquez viajou ainda um outro colete à prova de bala,
não detectado pelos serviços de segurança do aeroporto.
Nas declarações conhecidas atribuídas à TAP
não surge qualquer alusão ao comprometedor episódio
relacionado com este tipo de vestuário ilegal.
O tio Márquez, ao que dizem as autoridades venezuelanas, era uma
autêntica caixinha de surpresas. À chegada a Caracas os
serviços de segurança apreenderam-lhe materiais explosivos nos
compartimentos para as baterias de duas lanternas eléctricas e em cinco
recargas de perfumes.
Nada disto foi detectado pela segurança do lado de Lisboa. E
tê-lo-ia sido, assegura uma declaração atribuída a
uma fonte da TAP. Porém, há estudos das universidades
norte-americanas de San Diego e John Hopkins segundo os quais os scanners de
segurança de 160 aeroportos, só nos Estados Unidos, não
conseguem detectar o explosivo C4, aquele de que falam os responsáveis
de Caracas.
Haverá outras razões para não ter sido detectada
matéria explosiva? Juan José Márquez, tio de Juan
Guaidó, aliás António Márquez, terá mesmo
viajado com explosivos além dos coletes à prova de bala
a bordo do avião da TAP que fez o voo TP173 para Caracas no dia
13 de Fevereiro? É indispensável que esta situação
seja apurada até às últimas consequências,
exactamente por questões de segurança dos passageiros e da
credibilidade da companhia. A Venezuela foi abrindo caminho entregando provas
do que diz à OIAC.
A gravidade deste caso torna ainda mais difícil de perceber a
minimização do episódio e a imagem de ofendidas assumida
pelas autoridades portuguesas.
Onde entra o embaixador
À chegada a Caracas, muito naturalmente, Juan José Márquez
foi detido devido à posse de explosivos. Assim aconteceria, por exemplo,
na Bélgica, em Portugal, nos Estados Unidos, na Alemanha ou em qualquer
outro país "civilizado". A investigação da sua
bagagem revelou ainda a existência de uma pen com documentos da CIA que
demonstram a ligação operacional entre o explosivo viajante e um
agente identificado como "Charles".
O comportamento dos serviços de segurança venezuelanos,
porém, foi de "intimidação e detenção
arbitrária", segundo o ministro português dos Negócios
Estrangeiros, Santos Silva.
Como estará então o ministro tão seguro da
"arbitrariedade" num caso de detenção por razões
que parecem óbvias? Aqui fica uma hipótese: graças
à opinião transmitida pelo embaixador de Portugal em Caracas,
Carlos Sousa Amaro, de quem as autoridades venezuelanas dizem "ter
interferido nos assuntos internos" do país ao "interceder por
Juan José Márquez" quando este foi detido. Defender assim
tão às cegas um suspeito de transportar explosivos num
avião?
De modo que, seguindo a pista aberta pelas explicações oriundas
da Venezuela, o embaixador de Portugal estaria no aeroporto de Caracas para
receber o avião que transportou Juan Guaidó, aliás
transformado num vulgar António Márquez na lista de passageiros
da TAP. Presumindo-se, da maneira mais elementar, que o pretendido anonimato do
"presidente" venezuelano golpista era do conhecimento de
responsáveis pela diplomacia de Portugal e da sua companhia aérea
de bandeira a TAP.
Pelo caminho mais longo
A somar ao "anonimato" de Guaidó na lista de passageiros, aos
coletes à prova de bala e aos explosivos do tio, às nada
diplomáticas diligências do embaixador de Portugal, a outras
supostas irregularidades de que falam as autoridades venezuelanas há
ainda mais um elemento de mistério: o roteiro da viagem do trumpista
Guaidó.
O que trouxe o "interino" e o tio quase anonimamente até
Lisboa, vindos de Boston, quando poderiam ter ligado o Massachusets à
Venezuela de maneira muito mais célere e sem mudar de continente?
Talvez seja esta mais uma questão do "interesse nacional" de
que os portugueses nada têm de saber pois é sua
obrigação confiar em pessoas como o ministro Santos Silva e os
"segredos" próprios do métier. Mesmo que não
continue a compreender-se o que impeliu o chefe das Necessidades para o
"reconhecimento político" de Guaidó paralelo à
admissão, "de facto", de Nicolás Maduro como presidente.
O "reconhecimento político" do também presidente do
grupo fascista Voluntad Popular deve-se, segundo Santos Silva, à sua
posição "para desencadear eleições livres e
transparentes". O que é extraordinário, porque se trata do
mesmo indivíduo que interpretou pelo menos duas tentativas de golpe de
Estado desde que se proclamou "presidente interino" e que protagoniza
a guerra híbrida montada e desenvolvida em Washington na vigência
dos três últimos presidentes norte-americanos para mudar
antidemocraticamente o regime em Caracas.
As sanções criminosas, asfixiantes e em muitos casos mortais
contra os venezuelanos constituem a frente mais violenta dessa guerra, acima
das quais estará unicamente a intervenção militar, sempre
no horizonte. Como pode um governo, como o de Portugal, que se diz preocupado
com os venezuelanos e a comunidade portuguesa outorgar o seu
"reconhecimento político" a um agente desestabilizador ao
serviço de interesses contrários aos dos venezuelanos e da
comunidade portuguesa - capaz de percorrer o mundo a pedir ainda mais
sanções?
Sanções e quem o diz é o embaixador norte-americano
William Brownfield que
"têm impacto em todo o povo, no cidadão comum e corrente
(
) ainda que isso provoque um período de sofrimento de meses,
talvez de anos".
Ou, como escreveu o almirante norte-americano Kurt Tidd, ainda como chefe do
Comando Sul, nos seus planos da operação "Venezuela Freedom
2":
"É necessário aumentar o processo de
desestabilização e de falta de abastecimentos (
) recorrer
à matriz através da qual a Venezuela entre numa etapa de crise
humanitária por falta de alimentos, água e medicamentos".
Trata-se ainda, diz o almirante Tidd, de
"intensificar a descapitalização do país, a fuga de
capitais, a deterioração da moeda nacional mediante a
aplicação de novas medidas inflacionárias que incrementem
essa deterioração. (
) Obstruir todas as
importações e, ao mesmo tempo, desmotivar os possíveis
investidores estrangeiros".
Juan Guaidó é um instrumento destas malfeitorias. O seu
"reconhecimento político" é um acto que serve
objectivamente os interesses norte-americanos, por muito que o ministro Santos
Silva tente fazer crer o contrário e afirme cingir-se aos
"interesses portugueses". O Departamento de Estado norte-americano
foi muito claro em 9 de Janeiro de 2018: "As sanções
financeiras que temos imposto obrigaram o governo (da Venezuela) a cair em
incumprimento. Estamos a viver um momento de colapso total na Venezuela. Isso
é porque a nossa política funciona, a nossa estratégia
funciona e iremos mantê-la".
É neste cenário abrangente que tem de ser enquadrado o
inquietante imbróglio do voo TP173 e dos seus passageiros da
família Márquez. Não vale a pena o ministro dos
Estrangeiros tentar convencer os portugueses de que a suspensão da TAP
imposta pelo governo legítimo da Venezuela é um "acto de
retaliação" pelo reconhecimento de Juan Guaidó por
Portugal. Nesse caso Caracas teria punido as companhias de bandeira dos mais de
50 países que apostaram no golpismo dirigido por Trump o que
não aconteceu. Ao invés, é a companhia aérea
nacional da Venezuela que sofre e arbitrariamente os efeitos das
sanções ditadas de Washington. Alguma coisa a TAP e a diplomacia
portuguesa fizeram em 13 de Fevereiro; seja o que for, é essencial que
venha a conhecer-se. Bem basta que continuem os silêncios ministeriais
sobre a eventual cumplicidade portuguesa e da União Europeia
na apropriação indevida por Londres e Washington das
toneladas de ouro venezuelano depositadas no Banco de Inglaterra; ou sobre o
congelamento das contas da Venezuela no Novo Banco.
No website da Embaixada portuguesa em Caracas pode ler-se: a Venezuela
"é um dos países da América Latina com o qual
Portugal vem mantendo relações mais próximas".
Estranha diplomacia esta.
19/Fevereiro/2020
[*]
Jornalista.
O original encontra-se em
www.oladooculto.com/noticias.php?id=649
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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