A utopia de Aleksandr Bogdánov: um antídoto a nosso tempo
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Esta é a cor da nossa bandeira socialista eu disse.
Então, devo me acostumar com a natureza socialista de vocês. [1] Aleksander Bogdánov, Estrela vermelha |
Chegamos a um ponto da história humana, neste século que
já caminha para a terceira década, em que as utopias parecem ter
perdido seu lugar. Basta ver o número de criações
artísticas que versam sobre nosso fim: são livros, filmes,
séries televisivas, peças de teatro etc. que ganharam fama em um
gênero denominado "distopia" (ou "antiutopia").
É possível que um suposto
marciano,
se olhasse hoje a Terra, perguntasse o que os
terráqueos
estão querendo dizer de si próprios com tal
produção cultural. Parece que passamos a acreditar mais na
extinção de nossa espécie que na
transformação radical da organização da vida na
Terra; ou, ainda, no abandono de nosso mundo, como sugerem projetos de
escapismo extraterreno de colonização de outros planetas,
especialmente Marte. A facilidade e, por vezes, até o entusiasmo
com que se aceitam as narrativas de fim do mundo é diretamente
proporcional ao ceticismo com que se rejeitam as ideias de um mundo
igualitário e justo.
No momento em que escrevemos este prefácio, nosso planeta passa por uma
pandemia cujo número de vítimas já atinge a casa dos
milhares, além de uma crise orgânica que se aprofunda
gradativamente. O individualismo já radical de nosso tempo tem se
radicalizado ainda mais, favorecendo fobias, aguçando ansiedades,
conduzindo ao isolamento social coercitivo e voluntário; mas há
também exemplos de solidariedade, auto-organização e
gritos de esperança nas janelas, como aquela flor desbotada que rompe o
asfalto. Enquanto algumas trombetas soam o apocalipse e cenas distópicas
surgem como interferências na realidade prática imediata, os mais
preocupados com suas perdas financeiras não sentem constrangimento ao
afirmar que a pandemia pode representar um benefício em longo prazo,
pois livrará o mundo de pessoas supérfluas, em especial, pobres,
fracos e idosos; tampouco se constrangem ao anunciar medidas que consistem,
simplesmente, em deixar morrer os de idade mais avançada. De repente,
surge um debate em que se opõe a economia à vida humana, como se
uma pudesse existir sem a outra, e como se, por "economia", os
parasitas de nosso tempo não quisessem dizer a proteção
dos próprios lucros, de seu acúmulo de capital.
É evidente que se o capitalismo continuar nessa toada, os
cenários, os estados e os saldos de guerra serão cada vez mais
cotidianos, até se tornarem a norma. Também é verdade que,
tal como são usadas hoje, as tecnologias digitais podem representar uma
forma de controle em massa, com efeitos nefastos. E, de fato, enquanto a
humanidade estiver sujeita à irracionalidade do lucro, à
lógica de uma minoria que expropria até os sonhos dos demais,
não faltarão motivações para ela imaginar e
representar o próprio fim, já que é a isso que o
modus operandi
do capitalismo conduz. Hoje, o rio de aço do tráfego, os bondes,
os ônibus e mesmo os negócios à revelia ameaçam
paralisar-se. O temor da burguesia de que na rua nasça uma flor, nutrida
pelas revoltas e pelos exemplos de auto-organização em rede
surgidos em todas as partes do planeta, estampa-se nos jornais. Assim, se
há razões para pensar no triunfo da barbárie sobre a face
da Terra, também há diversos motivos para acreditar (e lutar) por
uma saída coletiva.
Por tudo isso, dizemos que
Estrela vermelha
é um antídoto a nosso tempo, uma época de crises, guerras
e revoluções; na leitura deste romance, vemos emergir outro mundo
possível.
Em sua utopia, Bogdánov nos conduz em viagem pelo universo infinito
até aterrissarmos em Marte, onde não há Estado, a
organização socioeconômica é baseada na propriedade
coletiva dos meios de produção, as decisões são
tomadas por conselhos deliberativos no formato de assembleias e as
relações humanas se desenvolvem de maneira distinta da nossa. A
jornada no planeta vermelho é contada pelo narrador e personagem
principal, um revolucionário russo já experimentado quando se
passa a ação, provavelmente a segunda década do
século XX. Leonid, seu nome terráqueo, ou Lenny, a alcunha
marciana, é um intelectual social-democrata que escreve a seus camaradas
um informe detalhado da tarefa intergaláctica para a qual havia sido
selecionado: servir de elo entre dois mundos, entre duas humanidades. O
interessante documento vem à luz por meio de dr. Werner, médico
psiquiatra a quem o protagonista havia confiado seu manuscrito.
Há quem diga que o romance de Bogdánov é a última
utopia da literatura russa. Antes dele, há
Viagem para a Terra de Ofir
(1783)
[2]
, alguns capítulos de
Viagem de Petersburgo a Moscou
(1790), de Aleksandr Rassíschev, em que a visão utópica
está diretamente relacionada à abolição da
servidão, prometida, porém não cumprida, pela imperatriz
Catarina II
[3]
, e
4338
, romance fantástico que o príncipe Vladímir
Odóievski começou a publicar em fragmentos em 1835
[4]
. Depois dele, diz-se que se instaurou o reino da distopia. Para citar apenas
alguns títulos:
Nós,
de Evguiéni Zamiátin, escrito de 1921 a 1922 e publicado pela
primeira vez em 1924,
Ovos fatais
e
Um coração de cachorro,
ambos de Mikhail Bulgákov, o primeiro de 1924 e o segundo de 1925,
alguns romances de Andrei Platónov,
Moscou-Petuchki
(1973), de Venedikt Erofiéev, e, um exemplo mais recente,
Kys,
de Tatiana Tolstáia, que retrata uma Moscou
pós-apocalíptica.
Bogdánov escreve seu
Estrela vermelha
no início do século XX, e a primeira edição, a qual
usamos de base para a tradução
[5]
, saiu em 1908. A virada do século XIX para o século XX na
Rússia se deu acompanhada de muitas transformações. Com a
morte de Alexandre III, ascende ao trono Nicolau II e, naquele momento, havia
uma classe social urbana emergente, criada pelo processo de
modernização e industrialização do período
anterior: o proletariado, submetido a desumanas condições de
trabalho. Outro efeito desse processo foi a renovação cultural
por que passou o país, com o movimento simbolista trazendo de volta a
poesia ao centro da cena literária. Seria esta mesma poesia a explodir
de vez, ainda na primeira década do século seguinte, com as
famosas vanguardas russas. Não são obra do acaso as
descrições futuristas e o culto à máquina e ao
futuro que aparecem ao longo de toda a narrativa de Bogdánov, bem como
as críticas indiretas à arte moderna feitas pelo narrador, por
exemplo, em sua visita ao museu de arte marciano. Devido, em parte, a esse novo
estado de coisas e, em parte, à radicalização do movimento
narodnista
(ou populista, como também é conhecido)
[6]
que acaba por consumir quase toda a atenção da
polícia repressiva do regime , as ideias socialistas e, em
especial, as marxistas começam a se difundir com relativa liberdade
entre a
intelligentsia
e os trabalhadores do Império Russo. Seriam justamente essas ideias a
ponta de lança das revoltas de 1905 e, posteriormente, das
revoluções de 1917.
A trama de
Estrela vermelha
suscita diversas comparações tanto com a vida do próprio
autor quanto com o momento que vivia o Partido Operário Social-Democrata
Russo (POSDR) naquela virada de século: a companheira terráquea
de Leonid, Anna Nikoláievna, pertencia à ala moderada do partido,
e o rompimento do casal, que acontece já nas primeiras páginas do
romance, embora consequência direta da inusitada tarefa de Leonid,
expressa uma divergência política mais profunda. Em 1903, durante
o II Congresso do POSDR (Bruxelas-Londres), ocorre a cisão do partido
entre bolcheviques e mencheviques, e Bogdánov assim como
acontecera na ficção ao protagonista do romance toma
naquele momento o lado de Vladímir Lênin.
A história das relações entre os dois
revolucionários é tão interessante e tortuosa quanto
é exemplar dos debates no interior do movimento revolucionário
russo daquele período. O autor de
Estrela vermelha
era um "velho marxista". No início de sua
atuação política, Bogdánov ligara-se ao
Naródnaia Vólia motivo pelo qual é expulso da
Universidade de Moscou em 1884. Como era comum a jovens radicais da
intelligentsia
russa e ao movimento dos
naródniki,
aproximou-se das ideias marxistas e ingressou nos círculos
operários, nos quais dedicava-se ao ensino de economia política.
Como resultado desse trabalho, publicou, em 1897, seu
Breve curso de ciência econômica,
em que explica de modo simples e compreensível os principais conceitos
da economia política. Sua didática era conhecida e foi ironizada,
a ponto de a expressão "explicou como Bogdánov", em tom
de elogio ou de crítica, entrar para o léxico russo daquele tempo.
Do POSDR, Bogdánov participou desde a fundação; foi
vice-líder da fração bolchevique, construindo e dirigindo
o partido, de cujo Comitê Central fez parte, ao lado de Lênin.
Durante a Revolução de 1905, foi o dirigente bolchevique junto ao
Soviete de São Petersburgo. Apenas em 1909 romperia com o partido e com
Lênin, que criticava seu "idealismo filosófico". As
divergências, todavia, teriam se iniciado ainda em 1906, quando
Bogdánov publicara sua obra filosófica fundamental
Empiriomonismo,
duramente criticada por Lênin e Plekhánov sob a
acusação de revisionismo e idealismo subjetivo ainda que a
razão central da ruptura tenha sido quanto à estratégia e
às táticas revolucionárias. Dois anos mais tarde, em 1908,
durante uma visita a Maksim Górki em Capri, Lênin e
Bogdánov se encontraram: entre partidas de xadrez e conversas amenas, em
contraste com o clima amigável registrado pela máquina
fotográfica de Iúri Jeliábujski
[7]
, travaram-se debates que contribuíram para o rompimento entre os dois.
Nessa época, Bogdánov encontrava-se em exílio havia
sido expulso da Rússia por atividades subversivas , retornando
apenas em 1914, beneficiado pela anistia do tsar, que visava reunir combatentes
para a Primeira Guerra Mundial. Nesse momento, ele atuou no
front,
como médico. Qualquer semelhança com o dr. Werner, amigo,
psiquiatra e confidente de Leonid, como poderá conferir o leitor,
não é, evidentemente, mera coincidência.
De volta ao país natal, Bogdánov pôde assistir aos
acontecimentos de 1917, os quais, pedimos licença para adiantar,
também previu em seu romance. Depois da vitória bolchevique, foi
um dos idealizadores e ideólogos do movimento literário
Proletkult, que se baseava na definição de "cultura
proletária" ("
proletárskaia kultura
", em russo, expressão da qual deriva o acrônimo) formulada
por Anatóli Lunatchárski, velho conhecido dos tempos de POSDR e
futuro Comissário do Povo da Educação da
Federação Russa. Os dois se tornaram amigos ainda em 1899, quando
nosso autor mantinha em Kaluga um círculo de exilados políticos.
Entre 1918 e 1921, lecionou economia política na Universidade de Moscou
e foi membro da direção da Academia Comunista. Em 1923, foi preso
sob a acusação de participar do grupo em torno do
Rabótchaia Pravda
[Verdade Trabalhista]
naquele momento a ala esquerda do partido, que inclusive promovia
greves , mas logo foi solto. Anos mais tarde, organizou e presidiu o
primeiro instituto de transfusão de sangue do mundo, em 1926: uma
experiência que objetivava prolongar a vida por meio da transfusão
do sangue de indivíduos mais jovens. Esta era a principal
obsessão do escritor, e foi uma autotransfusão de sangue
malsucedida a causa de sua morte.
Assim como na realidade, também na ficção, como é
comum aos escritores, Bogdánov usava a si mesmo como objeto de seus
experimentos científicos. O leitor poderá encontrar diversos
episódios marcantes de sua biografia nas páginas de sua obra.
Talvez o mais exemplar seja o encontro, no limiar dos séculos, com o
filósofo político e religioso Nikolai Berdiáev, que se
tornaria famoso e cuja narração em
Autoconhecimento: ensaio de uma autobiografia filosófica
coincide de maneira quase literal com a descrição das
relações entre Leonid, recém-chegado de Marte, e o dr.
Werner, já na parte final do romance.
Curiosas eram minhas relações com A. Bogdánov. [ ] Bogdánov era uma pessoa muito boa, muito sincera e fielmente devota à ideia. Naquela época, eu já era considerado um "idealista", imbuído de buscas metafísicas. Para A. Bogdánov, isso era um fenômeno completamente anormal. Originalmente, ele se especializou em psiquiatria. No início, costumava me visitar. Percebi que me fazia sistematicamente perguntas estranhas: como havia me sentido pela manhã, como estava o sono, qual seria minha reação a isso ou aquilo e coisas do gênero. Acontece que ele considerava a propensão ao idealismo e à metafísica um sinal de um transtorno mental inicial e queria determinar o quão longe isso teria ido no meu caso. [8]
Berdiáev e Bogdánov representavam, respectivamente, duas
correntes filosófico-político-religiosas que marcaram a vida
intelectual russa no limiar dos séculos:
bogoiskátelsto
(a busca de Deus) e
bogostroítelstvo
(a construção de Deus). Inicialmente muito próximas, ambas
tratavam de questões existenciais semelhantes àquelas levantadas
pela literatura russa clássica, principalmente nas obras de Lev
Tolstói e Fiódor Dostoiévski. Entre os problemas
discutidos, destacava-se a possibilidade de aproximar o marxismo e a
religião. A primeira corrente se afastava cada vez mais do marxismo em
direção à religião, enquanto a segunda, da qual
faziam parte, entre outros, Bogdánov, Lunatchárski e
Górki, buscava o divino no esforço coletivo, uma espécie
de religião sem Deus. Evidentemente, o elemento religioso, que na falta
de Deus ameaça sacralizar o próprio homem, foi duramente
criticado por marxistas menos ecléticos como Plekhánov e
Lênin; do mesmo modo, não é à toa que Górki
tenha se tornado ideólogo do realismo socialista instituído por
Ióssif Stálin, em uma era na qual, por meio de uma série
de deturpações, a deificação do líder
político ganhou forma e encarnou na realidade.
A abordagem de temas em
Estrela vermelha
é tão ampla e multifacetada quanto a formação e a
atuação de seu autor. Dele, pode-se dizer que não foi
propriamente um escritor de literatura. Foi, antes, um publicista, à
moda de Tchernychévski. Seu fazer literário não primava
pelo elemento estético-artístico, mas privilegiava o procedimento
segundo o qual o autor, valendo-se dos recursos característicos da prosa
de ficção, especialmente o romance, gênero popularizado no
século XIX, visa propagar um ideal político-ideológico.
A multiplicidade feérica de interesses e ocupações de
Bogdánov impressiona: como vimos, foi revolucionário e um dos
fundadores do POSDR, além de político, cientista, pesquisador,
psiquiatra, filósofo, médico de combate áreas e
experiências tomadas de empréstimo a serviço da obra pelo
escritor. É como se o engenheiro da trama, dono da
imaginação de um inventor, submetesse a pena do escritor de
ficção e a tribuna do político ao rigor
metodológico do cientista. Afirmar, dessa maneira, que Aleksandr
Bogdánov "não foi propriamente um escritor de
literatura" não significa que ele tenha sido um "escritor
menor". Com efeito, pretendemos jogar luz, por um lado, na
tradição a que se filiava nosso surpreendente autor, e, por
outro, na maneira por meio da qual ele mobiliza, na tessitura do romance e na
composição das personagens, o arsenal das ferramentas que sua
formação polivalente e a riqueza de sua atuação, em
especial como intelectual revolucionário, permitiu-lhe reunir.
São muitas as passagens em que emerge o filósofo, outras tantas
em que sobressai o psiquiatra e o cientista social. Como um investigador da
vida humana em sentido amplo, o autor empresta a própria psique, a
interioridade (ou, se quisermos, a alma, o espírito), além da
experiência e do conhecimento acumulados, às suas personagens, a
fim de investigá-las, dissecá-las, encontrar os elementos que
engendram, naquilo que temos de mais primordial e comum, cada uma das
humanidades representadas já não mais a da Terra e a de
Marte, mas os seres humanos vivendo nos distintos sistemas: o capitalista e o
socialista. Nesse ponto, parece exemplar um trecho sobre a transfusão de
sangue na medicina tal como praticada em Marte, a qual, em última
instância, representa uma transfusão interestelar,
interplanetária, entre as humanidades.
[...]. A transfusão de sangue praticada na medicina de vocês agora, muito raramente possui um certo caráter filantrópico: aquele que tem muito dá a outro que tem uma necessidade aguda, em decorrência de, por exemplo, o sangramento grande de uma ferida. Isso também acontece aqui, é claro; mas sempre praticamos algo diferente, aquilo que corresponde a toda nossa organização: uma troca de vida camarada não só na existência ideológica, mas também fisiológica [9]
A todo momento o narrador deste inusitado romance (até agora,
inédito em língua portuguesa) nos faz imaginar outro mundo
possível. Seus conhecimentos de física e matemática, bem
como das áreas de astronomia, geologia, biologia e geografia são
ferramentas fundamentais para a construção e a
manutenção da verossimilhança na obra. Há uma
explicação científica para cada coisa: por que os
marcianos têm olhos enormes; por que as plantas em Marte são
vermelhas e na Terra elas são verdes; por que e como as
eteronaves
podem voar pelo espaço infinito. No romance, vemos descritos com rigor
não apenas os achados da época, como o da matéria
radioativa por Marie Curie, mas outras tantas invenções com as
quais a ciência, quando muito, ainda sonhava, como viagens espaciais,
motores à reação, uso da energia nuclear,
televisões estereoscópicas, computadores,
automatização da produção, tecidos
sintéticos e transfusões de sangue.
É interessante notar que, na narrativa, esses elementos cumprem a
função de nexo entre os fatos representados, por mais
fantásticos ou imaginativos que possam parecer, e asseguram a harmonia
geral, a coerência interna da obra.
Estrela vermelha
é, assim, além de uma utopia, um romance de ficção
científica. Ocorre que, nesta obra, o autor projeta o futuro por meio de
um método científico, ou seja, do materialismo dialético
baseado na destruição das antigas relações humanas
para a construção de uma nova, já não de maneira
idealizada, mas com base em fatores concretos, apontando não só
para uma sociedade possível, mas precisamente para aquela pela qual
lutam os comunistas, conforme preconizado por Karl Marx e Friedrich Engels.
O aspecto didático e de fácil compreensão com que o autor
expõe os temas científicos aparece também na
representação do socialismo em Marte, em sua
organização econômica e social, na
distribuição da força de trabalho, na divisão da
produção, além de em como se dão os relacionamentos
erótico-amorosos e de amizade, pautados no sentimento de camaradagem
naquela humanidade a qual, pela mesma razão que para Leonid, nos
é tão estranha quanto próxima e nesta Terra
capitalista, em dois momentos distintos: no da escrita do romance, ou seja,
apenas três anos após os eventos de 1905, e num futuro
próximo, em que na Rússia triunfaria a revolução
socialista.
É interessante também o fato de que
Estrela vermelha,
um romance de ficção científica utópico e uma
peça de publicística de cunho político-ideológico,
como ora observamos, contenha duas cartas que servem de prólogo e
epílogo a um informe político , gênero textual
não literário e de circulação interna nos partidos.
É a marca do militante na própria estrutura do romance, que
é ainda um panfleto comunista, um manifesto e um guia.
O modo de representação do real escolhido por Bogdánov
configura um rompimento com a utopia tradicional: se, nesta última, o
recurso mais amplamente utilizado é o método descritivo e as
sociedades são representadas de maneira estática, muitas vezes
isoladas no tempo-espaço, em
Estrela vermelha,
tanto o planeta Marte de Lenny quanto a Terra de Leonid são
representados de maneira dinâmica, com bastantes trechos descritivos, mas
também com narração e diálogos, solilóquios
e até mesmo fluxos de consciência à personagens de
Dostoiévski doentios, febris e, no limite, reveladores das
contradições humanas, mas capazes de apontar um caminho para sua
superação, já não religioso, como o daquele autor,
mas por meio da autoconsciência de sua condição.
Há outra inovação promovida por Aleksandr Bogdánov
no que se refere a exploração e renovação do
gênero da utopia, que, tradicionalmente, possui um caráter
filosófico, quase desprovido de ação. Em vez disso, o
autor insere traços romanescos, como peripécias, aventuras,
reviravoltas, entrechos amorosos etc., característicos do realismo e do
naturalismo do século anterior, enquanto se apropria das descobertas de
outro gênero, o da ficção científica, incremento
trazido pelos avanços tecnológicos e pela
industrialização. O surgimento da distopia como gênero
também data do mesmo período e igualmente promove uma
apropriação da ficção científica e do
método realista de narração. A diferença
está nos mundos para os quais cada gênero aponta: enquanto utopias
como
Estrela vermelha
propõem uma saída positiva e otimista para a humanidade
Marte é o espelho de uma possível sociedade terrena futura no
momento em que a Terra realiza sua revolução social , as
distopias projetam saídas céticas e pessimistas, seja do futuro
terreno, seja do contato com seres interplanetários, como se só
pudéssemos conceber um terrível fim, pela via da
autodestruição, e o capitalismo fosse a única forma de nos
organizarmos.
Nascido no início do século XX, o gênero da distopia se
desenvolveu tendo como pano de fundo duas guerras mundiais e diversas
revoluções; ganhou fama nos anos 1990, quando também
vinham à baila ideias que anunciavam o fim da história e das
utopias, e popularizou-se de vez em nossa época. Também o mundo
no alvorecer do século passado parecia colapsar, os acontecimentos
testavam o otimismo dos mais convictos e o momento disruptivo produzia
pessimismos absolutos. Tanto então quanto agora, o presente se ergue
feito monstro, disposto a condenar o otimista do futuro ao mais inócuo
nirvana civil. Bogdánov foge dessa lógica ao apontar uma
saída positiva, fazendo de sua utopia uma antidistopia.
O mundo de
Estrela vermelha
não é um simples esforço imaginativo de como nossa
sociedade poderia ser outra, diferente, mais justa e igualitária,
distinta desta que sacrifica milhares de vidas humanas em nome do lucro de
poucos seres viventes. Não há no livro uma
idealização romântica do comunismo, um mundo sonhado,
estável, imutável e, portanto, impossível. A utopia
marciana, por mais irônico que possa parecer, demonstra que a
superação do modo de produção capitalista
será possível apenas se não nos guiarmos por fantasias. A
representação do planeta vermelho empreendida no romance se
dá por meio da análise científica de sua gênese, ou
seja, quando e como se deu o desenvolvimento do capitalismo em Marte, bem como
sua superação por meio da revolução social (a
questão de ser socialista ou comunista essa sociedade, em nossa
opinião, não está colocada e nem poderia, já que se
trata de debate posterior). Já na comparação com a Terra,
as diferenças nos estágios de desenvolvimento em que se encontram
as humanidades, apesar de enormes, não representam muros (ou
fronteiras), mas germes da criação de uma nova sociedade, com
condições reais de ocorrer, sem perder de vista as
contradições, as tendências e as particularidades do modo
de produção terráqueo. Parece que o romance de
Bogdánov não sucumbiu àquilo que Friedrich Engels havia
identificado nos fundadores do socialismo, a saber: neste livro, o
exercício imaginativo, tão necessário às narrativas
de ficção, resistiu a "degenerar em pura fantasia", por
mais que se trate de uma obra utópica de ficção
científica. Poderia esse fato ser efeito de suas relações
com Lênin, com o qual, todavia, estava prestes a romper? Isso não
se pode afirmar; já a influência de Marx e Engels é
evidente.
O ponto de vista materialista prevalece na visão de mundo geral que
emana do romance monológico, de modo que autor e narrador
coincidem , aparecendo nas falas das personagens e nas
descrições do mundo estranho, alheio, organizado de maneira
racional e igualitária, com seus inevitáveis impactos na vida
cotidiana e nos modos de vida de sua humanidade, que a Lenny parecem tão
superiores e inacessíveis, a ponto de sufocar e causar vertigem. Talvez,
porém, o mais interessante da escrita de Bogdánov seja e
aqui estamos falando do autor do romance e não do autor do informe,
criação engenhosa do primeiro o uso do método
dialético no que poderíamos chamar de tessitura dos fios
narrativos. O autor de
Estrela vermelha
, na realidade, nos leva a Marte sem nunca nos deixar abandonar a Terra.
Construída por meio da comparação entre dois mundos, a
narrativa representa a síntese de um mundo possível.
A análise materialista das condições econômicas,
políticas e sociais da vida terráquea permite ao autor apontar em
dois sentidos. Em Marte, temos a utopia socialista, cuja
representação é capaz de responder às perguntas de
toda e qualquer pessoa que ouse imaginar dos principiantes aos mais
experimentados como seria essa sociedade. Como será que se
organiza a divisão do trabalho? Como seria a educação das
crianças? Como seriam as moradias? Como se dariam as
relações erótico-amorosas? Como seria o processo
revolucionário mundial e o que aconteceria se ele, por um desvio
burocrático, ficasse restrito a um único país? Algumas
perguntas são instintivas, outras são de cunho
empírico-teórico, algumas são incômodas e outras
até parecem um sinal de alerta.
Talvez por isso os editores (ou censores?) soviéticos tiveram de mutilar
o romance, cortando partes importantes, as quais, ainda que
a priori
, apresentavam ideias que contrariavam a linha oficial assumida pela URSS
após 1930, a saber: o amor livre, a fruição sexual e de
gênero sem as amarras de padrões previamente impostos, a
questão das nacionalidades, o período de transição,
entre outras como o leitor poderá conferir nas notas de
rodapé incluídas nesta tradução. Além dos
cortes, é válido notar que, a partir da ascensão de
Stálin, quando, ademais, as interferências diretas em obras de
arte tornaram-se método,
Estrela vermelha
foi muito pouco publicado. Entre 1908 e 1929, recebeu diferentes
reedições para depois cair no esquecimento e voltar a ser
publicado só nos anos 1970, como parte de antologias de
ficção científica. É que nem a utopia nem a
distopia combinavam com o realismo socialista, que afirmava a
construção do ideal do "aqui e agora".
O balanço que Lenny faz de sua tarefa no fim do informe, ao qual
recomendamos especial atenção por parte do leitor, é
sóbrio, tocante e rico de lições. De modo geral, a
sinceridade de suas palavras revela questões muito básicas,
esquecidas até mesmo em detrimento de sua obviedade: assumir os erros do
passado é fundamental para não os repetir, mas ter errado
não é razão para que não se tente outra vez.
É preciso sonhar, como disse Lênin em
O que fazer?
com a ressalva de que, como sugerido no próprio título
desta obra, de nada valerá sonhar se, ao fazê-lo, não nos
orientarmos à ação.