Uma reportagem que desvenda a guerra no Donbass

– Prefácio de A guerra a Leste: 8 meses no Donbass, de Bruno Amaral de Carvalho

Carlos Branco [*]

Capa de 'Guerra a leste'.

Bruno Amaral de Carvalho conta-nos neste livro as suas experiências de repórter de guerra no Donbass, onde, durante oito meses distribuídos por três «comissões», acompanhou o conflito ucraniano. Esteve praticamente em todos os lugares problemáticos e seguiu os acontecimentos marcantes desses períodos, em particular a batalha de Mariupol. Teve o privilégio de estar no epicentro do maior acontecimento geopolítico do pós-Guerra Fria, determinante na definição dos termos da nova Ordem mundial que aí vem.

Conta-nos o que viu e sentiu num dos lados da guerra, que os media ocidentais pouco seguem e preferem não ver. Foi, em vários momentos, o único repórter a trabalhar para órgãos da comunicação social ocidental nos territórios controlados pelas forças russas. Este facto, por si só, diz quase tudo. Bruno teve a coragem de estar nos sítios certos correndo o perigo associado, ao contrário de muitos outros repórteres que acompanham a situação do quarto ou do átrio do hotel. Visitou prisões, acompanhou os referendos e esteve na central nuclear de Energodar, onde verificou in loco quem de facto a atacava.

Descreve com subtileza e sem alaridos as peripécias e os dilemas humanos de quem foi agrilhoado pela guerra. Partilhou as vicissitudes e as amarguras dos civis. Conta-nos o que é correr riscos, os truques da sobrevivência, a permanente ameaça das minas e dos bombardeamentos, o que é viver no limbo.

Escrever este livro e partilhar a sua vivência é também um ato de coragem, de quem não se amedrontou com os que o tentaram silenciar, e que diariamente jorram verborreia democrática nos canais televisivos. Questiona nas linhas que escreve muitas crenças propaladas pelo mainstream ocidental domesticado e obediente, pouco avesso a interpretações heréticas que perturbem verdades inquestionáveis, que as massas devem disciplinarmente abraçar. As intempéries ajudaram-no a caldear e a fortalecer o espírito.

Este documento proporciona-nos versões dos acontecimentos que escapam à triagem da censura, dá-nos acesso a informação que não dispomos e que não está normalmente ao nosso alcance. Fornece ao leitor dados importantes para poder em liberdade formar o seu juízo. Ficamos mais apetrechados para formularmos as nossas opiniões. É, por isso, extremamente bem-vindo.

Ao contrário do que insistentemente se pretende fazer crer, a guerra não começou em 24 de fevereiro. Bruno constatou isso durante a sua primeira visita ao Donbass em 2018. A guerra civil ucraniana iniciou-se com o golpe de Estado em 2014, patrocinado por potências estrangeiras, que derrubou um presidente democraticamente eleito, e que colocou no poder grupos ultranacionalistas e neonazis, que perseguiram deliberadamente as populações russófonas do Leste e Sul da Ucrânia, proibindo-as de falar a sua língua, professar a sua religião, obrigando-as a negar a sua cultura. O livro dá boa nota desses acontecimentos. O governo provisório entretanto instalado em Kiev após o golpe tinha a «originalidade» de incluir membros pertencentes a grupos assumidamente neonazis, algo inédito na Europa no pós-Segunda Guerra Mundial, sem que isso tivesse suscitado indignação no ocidente.

Nos oito anos que se seguiram aos fatídicos acontecimentos de 2014 não foi possível encontrar uma solução política. Pelo contrário, esse período foi utilizado por Kiev para se preparar para uma confrontação militar, enquanto acossavam a população do Donbass.

Outro aspeto marcante deste livro é o relato da constante morte de civis causada pelos bombardeamentos ucranianos, logo em 2014, e que prosseguiu até à publicação deste livro. A cidade de Donetsk terá sido a mais martirizada, com mortes diárias, perante o silêncio generalizado dos media, como se a vida de uns valesse mais do que a de outros. No ocidente falava-se cinicamente de ataques a civis no oblast de Donetsk, ou seja, na região controlada por Kiev, omitindo sistematicamente os horrores a que população russófona da cidade de Donetsk era sujeita diariamente pelos bombardeamentos ucranianos.

Falamos de ataques deliberados a civis, a locais onde não existiam instalações militares, que os pudessem legitimar. Mercados, hospitais e zonas residenciais eram os alvos prediletos da artilharia ucraniana. A população russófona podia ser morta sem restrições sem que isso merecesse revolta ou condenação. Era descartável! O autor testemunhou muitos destes casos. A morte e o sofrimento de civis no Donbass não eram propaganda.

Apesar de durante oito anos, desde 2014 até fevereiro de 2022, terem perecido 15 mil almas no Donbass, entre civis e militares, os jornais, rádios e televisões ocidentais ignoraram a guerra na Ucrânia, mesmo encontrando-se no território uma missão de monitorização da OSCE.

Ao mostrar «outras versões» dos acontecimentos, Bruno Carvalho desconstrói a narrativa dos «bons» contra os «maus» e deixa a descoberto o novelo de contradições em que está enredada. Isso é muito óbvio no que respeita à vontade genuína das populações russófonas do Donbass lutarem pela independência. Pura e simplesmente não tinham alternativas.

O assédio dos grupos ultranacionalistas de extrema-direita, fortalecidos pelo golpe de Maidan, tornou-se um perigo existencial concreto para as populações russófonas. Por aquelas terras andaram grupos armados de extrema-direita a amedrontar e a aterrorizar as pessoas, como os batalhões Aidar e Azov. Apesar de convenientemente varrido para debaixo do tapete, o neonazismo na Ucrânia não é uma figura de ficção, nem uma criação fantasmagórica do Kremlin.

As críticas do Parlamento Europeu ao florescimento da extrema-direita ucraniana esvaíram-se no dia 24 de fevereiro de 2024. Do dia para a noite, as instituições europeias passaram a apresentar a Ucrânia como uma democracia liberal saudável, contrariando tudo o que tinham dito, ignorando o facto de se tratar de uma autocracia comandada por uma elite imensamente corrupta.

Mais no capítulo pessoal, o livro é bem ilustrativo de como a guerra proporciona encontros e desencontros inesperados, onde se forjam amizades para sempre, se reforça a interajuda e o espírito de corpo; e onde também se vê partir amigos. Mostra como os seres humanos se adaptam e recorrem a métodos expeditos para sobreviver. Como diz o autor, mesmo sem bombas e minas, sobreviver é um milagre.

O detalhe e a minúcia das descrições transportam-nos para a ação. Alimentam o nosso imaginário. Emocionamo-nos com as histórias e com o sofrimento humano que nos é contado.

Um caso flagrante, são os dramáticos acontecimentos de Odessa, na casa dos sindicatos, em maio de 2014, contados por uma protagonista, onde pereceram meia centena de pessoas, algumas queimadas vivas, no rescaldo de Maidan. Mais uma vez, os paladinos dos Direitos Humanos optaram pelo silêncio e por deturpar os acontecimentos, procurando justificar o injustificável. O mesmo raciocínio aplica-se às valas comuns em Mariupol, comprovadas por «convincentes» imagens aéreas. Já era tempo de haver alguma contrição. Algumas descrições trazem-me à memória situações semelhantes às que vivi na Krajina. Uma delas prende-se com a trivialidade da destruição e da morte pela sua presença permanente diante dos nossos olhos.

Apesar da capacidade de o ser humano se adaptar às circunstâncias, algumas deixam marcas. É difícil esquecer os olhos e a expressão de quem nos implora para informar os familiares de que estão bem. «Diga-lhe que estou vivo», não sabendo se quando transmitirmos a notícia ela ainda é verdadeira.

Discretamente, o livro levanta algumas questões inultrapassáveis, como quando nos alerta para a forma expedita como a população se organizou com kalashnikovs e [sandálias] havaianas na linha da frente para lutar por sua própria iniciativa pela independência, o que levou a que fossem batizados de batalhão Somália.

Bruno Carvalho sugere-nos implicitamente duas leituras. Uma relacionada com o cordão umbilical que liga os habitantes do Donbass à Mãe Pátria russa, em que inequivocamente se reveem e buscam abrigo e proteção. O pulsar natural da atração à Rússia. A outra prende-se com o reconhecimento «tardio» das repúblicas independentista por Moscovo, apenas em fevereiro de 2022, tão ambicionado pelas populações do Donbass, cuja demora tantas críticas suscitou. Sentiam-se abandonadas. Desesperavam para que a Rússia entrasse na guerra e lhes estendesse uma mão salvadora.

Ao contrário da Abcázia e da Ossétia do Sul, cujo reconhecimento foi imediato, o Kremlin demorou oito anos a reconhecer as declarações de independência das duas repúblicas separatistas ucranianas. Só o fez quando se tornou claro que Kiev ia assaltar militarmente o Donbass. Até lá, o Kremlin não estimulou, nem alimentou as ambições separatistas, porque preferia uma solução autonómica para o Donbass dentro da Ucrânia, na esperança dos ucranianos virem mais tarde eleger novamente um presidente que respeitasse as ligações históricas da Ucrânia à Rússia. Isso só seria possível se o Donbass fizesse parte da Ucrânia.

Essa ausência de estímulo explica o reduzido apoio militar do Kremlin ao Donbass e os soldados de havaianas. O que contraria a tese de que uma Rússia imperialista, procurando reconstruir o império soviético, instigou a separação do Donbass. O Kremlin viu-se, em última instância, na contingência de ter de defender os seus irmãos russos que estavam a ser atacados por grupos neonazis.

Em grande medida, os relatos trazidos à colação por Bruno de Carvalho dão a entender, como dizia Saramago, que vivemos numa «democracia sequestrada, condicionada e amputada». Sem o fazer explicitamente, chama-nos à atenção que há um longo caminho ainda a percorrer nas nossas sociedades em matéria de democracia. Apontar o dedo às autocracias sem atentar ao que nos rodeia significa não perceber o mundo em que vivemos. Este livro ajuda a colmatar essa lacuna.

Janeiro/2024

Do mesmo autor:
  • Biden e a perigosa ausência de um plano B,   27/Jun/24
  • [*] Major-General.

    O original encontra-se em A guerra a Leste: 8 meses no Donbass

    Este prefácio encontra-se em resistir.info

    28/Jun/24