Os crimes do capitalismo

por Guennadi Ziuganov [*]

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Sobre o mundo actual recai a ameaça de instauração de uma ditadura global de uns quantos estados imperialistas, com o EUA à cabeça. O seu objectivo é o domínio dos "mil milhões dourados" (o Primeiro Mundo") [1] sobre a periferia explorada, eternamente condenada à degradação económica e social. É por isso que hoje em dia não há tarefa mais importante para a Humanidade do que a luta contra o imperialismo e a sua mais recente variante, a globalização. Esta luta só será coroada de êxito se houver condições para uma unidade planetária dos esforços da classe operária, do campesinato trabalhador, da intelectualidade democrática e dos combatentes pela libertação nacional.

Esta luta prossegue e fortalece-se, apesar do refluxo temporal do socialismo no continente europeu. A influência das forças de esquerda cresce de novo por todo o mundo. Os comunistas sempre estiveram e estão na vanguarda da luta contra o imperialismo. Daí, não ser casual que, nos últimos tempos, se tenham tornado mais frequentes as provocações anticomunistas. Um escandaloso exemplo disto foi a resolução da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (APCE), na sessão de Janeiro deste ano.

Naturalmente, nenhuma resolução poderá apagar o movimento comunista da história ou desvalorizar a sua contribuição para o desenvolvimento da civilização mundial. Não obstante, isto não nos desobriga de dar uma resposta contundente aos provocadores. Além disso, a resolução da APCE não é apenas uma manifestação de falta de memória histórica e da mais infame ingratidão para com a União Soviética e o seu papel na salvação da Europa da escravidão fascista. Não, tudo isto vai na linha de uma vingança fascista, de um "renascimento" fascista.

O mundo vive um momento decisivo. Ou a Humanidade diz um rotundo "não" à restauração fascista, ou estará condenada a novos sofrimentos por muitos anos. Por isso, o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR) considera ser sua obrigação social e internacional intervir com uma iniciativa de elaboração de uma estratégia e uma táctica para uma luta activa da Humanidade contra a ameaça global.

Esta tarefa exige uma valoração internacional das múltiplas facetas e uma condenação dos crimes do imperialismo e da globalização. Não pretendemos aqui apresentar uma lista exaustiva desses crimes. O presente memorando, que se apresenta à atenção da opinião pública mundial, está aberto à discussão, melhoria e introdução de concretizações. Pensamos que, para este trabalho, é necessária a criação de uma comissão internacional com autoridade e prestígio.

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Os autores do relatório do parlamentar sueco Lindbad [2] , de forma presunçosa e sem base científica, tocaram uma questão teórica e prática muito importante – acerca do papel da violência na história.

Se abordarmos a história mundial com mesquinhos critérios pequeno-burgueses, então havia que recusá-la em bloco, logo desde o momento em que, debaixo das árvores, o homem primitivo começou a viver em sociedade. A história universal é, em muitos aspectos, a história de guerras intermináveis, saques e violências. Como avaliam os comunistas este doloroso, mas indiscutível facto?

O marxismo nunca exagerou o papel da violência na história. Pelo contrário, os seus fundadores sempre zombaram dos "pensadores" do tipo de Duhring [3] , que consideravam a violência como a principal fonte de desenvolvimento social. E isto é compreensível: a apologia da violência é uma característica da ideologia das classes exploradoras e reaccionárias.

Mas o marxismo também não desvalorizou o papel da violência, entendendo que, perante a violência dos exploradores, os oprimidos têm direito e devem responder com a violência da autodefesa. E houve, e há, motivos para se defenderem. O capitalismo surgiu no processo da chamada acumulação inicial (do capital), cujo objectivo era, através da força, segregar os trabalhadores dos meios de produção. Os horrores da acumulação inicial permanecerão, para sempre, escritos a sangue no livro da história.

O capitalismo veio ao mundo coberto, da cabeça aos pés, de sangue e imundície. A sua história dá inumeráveis motivos para o arrependimento. Para que pudesse implantar-se na sua pátria de origem (Inglaterra), foi necessário arruinar e liquidar o campesinato livre, anterior proprietário da terra, os "orgulhosos yeoman " [4] de Shakespeare. Além disso, adoptou contra os "vagabundos" expulsos das suas terras, leis terroristas que castigavam com a pena de morte o menor atentado contra o "sagrado direito" à propriedade privada. Utilizou largamente o trabalho escravo desses mesmos vagabundos, encarcerados em presídios chamados "casas de trabalho" [5] . Ao longo de dois séculos e meio, a prolongada revolução burguesa na Alemanha devastou o país, literalmente e por diversas vezes, reduzindo a população a menos da metade. A grande Revolução Francesa recorreu, sem vacilações, a medidas de terror maciço contra os inimigos do povo. Os Estados Unidos da América levantaram o edifício da sua civilização sobre os ossos de milhões de indígenas e escravos negros. A saciada Europa de hoje deve o seu empanturramento à feroz exploração das suas antigas colónias e das actuais semi-colónias.

As cruéis guerras da época da formação do capitalismo deixaram uma mancha inapagável na história europeia. Entre elas, a Guerra dos 30 Anos (1618-1648), no século XVII, no decurso da qual foi exterminada quase um terço da população da Alemanha, na qual teve um papel decisivo o regime monárquico de Gustavo Adolfo da Suécia. A Guerra do Norte (1700-1721), desencadeada pelo rei sueco Carlos XII. A Guerra da Sucessão espanhola (1700-1714), entre a França, Espanha e Áustria. A Guerra dos 7 Anos (1756-1763), iniciada pelo rei prussiano Frederico II. As Guerras Napoleónicas (1880-1815), que afundaram toda a Europa no caos e foram a causa da morte em massa da população civil, de assassinatos e execuções de milhões de pessoas, destruição de monumentos nacionais, etc..

Como deveríamos referir-nos a essa cadeia de crueldades chamada História Universal?

O clássico humanismo burguês conforma-se com a ideia de que o caminho do bem passa pela violência e procura a reconciliação com essas contradições, aceitando que o mal aparece como força motora do progresso. Essa posição foi expressa, com toda a plenitude e franqueza, pelos pais espirituais da civilização burguesa, o economista Ricardo e o filósofo Hegel.

Nós, comunistas, não somos mesquinhos chorões pequeno-burgueses e conhecemos o preço do progresso social. Por tudo há que pagar. Mas enquanto a Humanidade sofre a "pré-história" (Marx), vê-se obrigada a pagar o progresso com sangue. A doutrina comunista não pretende negar a realidade, nem embelezá-la. Vê toda a dureza da vida e não renuncia aos frutos do progresso, conquistados por um preço terrível. Mas recusa aceitar este estado de coisas como uma norma eterna e procura outros caminhos para formas mais humanas de desenvolvimento, para uma história propriamente dita da Humanidade, diferente da sua "pré-história". O comunismo científico é a única doutrina social na história que indica uma saída para este beco sem saída política, económica e moral.

Sim, o socialismo, como todas as formas sociais que o precederam, surge a partir de sacrifícios e violência. "Os longos sofrimentos de gerações" de que nos falavam Marx e Lenine, não são uma metáfora vazia. Mas, simultaneamente, este é o primeiro sistema da história que, objectivamente, leva dentro de si a negação do sangrento caminho "normal" do progresso. E põe ao alcance da consciência das massas quão inadequado é este caminho.

É necessário distinguir entre o sangue dos revolucionários, vertido para alcançar o progresso social, do sangue dos reaccionários, vertido na luta contra o progresso, com o objectivo de o impedir ou de voltar atrás. Existe a justa violência revolucionária, dirigida à consecução da liberdade e a independência. E existe a violência reaccionária, dirigida contra a liberdade e o progresso, em defesa dos interesses egoístas das reaccionárias classes exploradoras.

Os revolucionários não se arrependeram, nem se arrependerão da justa violência dos oprimidos contra os opressores. Consideram que a renúncia a distinguir entre matar um opressor e matar para espoliar, é farisaísmo. As grandes revoluções socialistas do século XX na Rússia e China fizeram compreender essa verdade simples, inclusive a tão ardorosos defensores do capitalismo como Franklin D Roosevelt, Winston Churchill e Charles De Gaulle. Mais, viram-se obrigados a participar, em união com a Rússia Socialista, na luta contra o fascismo. Mas a velha amizade esquece-se. Em substituição dos aliados dos anos 40 chegaram novos amnésicos históricos.

É por isso que recomendamos aos estados do Ocidente que olhem criticamente o seu passado, que o julguem honestamente e que acabem com as duas medidas para avaliar. Os crimes devem ser reprovados, diferenciando o que se alcançou de positivo e imperecível.

Há um critério preciso para diferenciar o que são crimes do que é a necessária violência revolucionária. "A burguesia – diz-se no "Manifesto Comunista" – jogou na história um extraordinário papel revolucionário". E os comunistas não devem desvalorizar e silenciar esse papel. Mas os tempos da burguesia revolucionária há muito que passaram. O capitalismo entrou no estádio do imperialismo e da globalização. As suas metas separaram-se completamente das tarefas do progresso social. Os comunistas consideram um crime histórico toda a violência destinada a atrasar o progresso social. E o imperialismo há muito tempo que está manchado com crimes desse tipo.

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O imperialismo existe em duas variantes: liberal e totalitário-fascista. Distinguem-se pela forma de organização política, mas a base económica das duas é a mesma: a manutenção do bem-estar próprio, à custa da exploração de outros países e povos.
Como testemunha a história, o liberalismo degenera com facilidade no fascismo do tipo alemão ou italiano, ou na sua variante, o maccarthismo norte-americano. Os regimes fascistas, frequentemente, dão-se bem com a economia liberal e beneficiam de apoios de todo o género dos liberais, como se pode exemplificar com o fascismo de Pinochet no Chile.

Os crimes do nazismo e do fascismo foram condenados e castigados pela comunidade internacional. Os crimes dos chamados regimes liberais, até ao dia de hoje, não receberam a devida valorização e a comunidade mundial, amiúde, está mal informada sobre as malfeitorias cometidas por eles.

Os crimes do imperialismo são diferentes em função do país e do período histórico. Incluem assassinatos e execuções maciças, criação de campos de extermínio, fome, deportações, torturas, trabalhos forçados, bem como outras formas de terror. A sua responsabilidade é enorme, também na destruição das bases da existência de muitos estados e nações. Pela violação de princípios fundamentais da moral social, tradições nacionais e valores culturais. Pela criação de crises sócio-políticas e espirituais no mundo.

1. Crimes contra os trabalhadores, contra a classe operária, o campesinato e a intelectualidade democrática.

O capitalismo esforçou-se sempre, com extrema crueldade, por esmagar as rebeliões do povo trabalhador e explorado. Bastará recordar a sangrenta repressão da Comuna de Paris (1871), a dispersão a tiro da manifestação do 1º de Maio de 1886 em Chicago ou os horrores da guerra civil na Rússia.

Mas os principais instrumentos da luta contra o povo trabalhador foram a escravatura, directa ou indirecta, a fome e as torturas. Particularmente, a utilização de trabalho forçado de escravos nos regimes "democráticos" da Grã-Bretanha, França, Holanda, Espanha, EUA no período de expansão colonial e neocolonial.

Consequências catastróficas da política de globalização imperialista. Os custos ecológicos e sociais da chamada política liberal de mercado dos países ocidentais sentem-se em todo o mundo, o que provoca um incremento brutal dos padecimentos de dezenas de milhões de habitantes do nosso planeta. Agrava-se a escandalosa injustiça nas relações internacionais, antes de mais na divisão do trabalho, imposta pelo diktat das potências ocidentais. Isto levou a que, nos últimos dez anos se agudizasse, de um modo sem precedentes, o problema da fome. Os indicadores da mortalidade infantil por causa da fome alcançaram, segundo dados da ONU, um nível nunca antes visto: 17 mil mortos por dia. No total, 25 mil pessoas morrem de fome diariamente. Hoje em dia, 777 milhões de pessoas, em países dependentes de regimes liberais, e 38 milhões em países onde se instauraram à imagem das democracias ocidentais, sofrem de fome. Mesmo nos "livres e democráticos" EUA morrem por ano, não menos de 1.800 norte-americanos, pelo simples facto de não terem seguro médico.

Os dados do Relatório da ONU de 2005 sobre o desenvolvimento humano soam como uma sentença ao imperialismo. Os rendimentos conjuntos das 500 pessoas mais ricas do planeta, superam os rendimentos da parte mais pobre da população do planeta, que é cerca de 416 milhões de pessoas. Entre estes dois pólos encontram-se 2.500 milhões de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia. Estes representam 40% da população da Terra, mas a sua porcentagem sobre o total de receitas mundiais representa apenas 5%. Os 10% mais ricos da população mundial, por sua vez, recebem 54% dos rendimentos mundiais. A política dos regimes ocidentais leva a que mais de 1.000 milhões de pessoas vivam em condições de miséria. Todos os anos, 10,7 milhões de crianças morrem antes dos 5 anos de idade. E isto quando, segundo cálculos de peritos da ONU, gastando apenas 4.000 milhões de dólares, seria possível reduzir a mortalidade infantil em quase 2/3 nos 75 países mais pobres. De 2.500 milhões de escravos, segundo dados da ONU e da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação Europeia), cerca de 500 mil vivem na Europa Ocidental, e até 200 mil em estados em "transição" para a economia liberal.

A implementação da "democracia" e dos modelos liberais na Rússia, sob pressão dos EUA e das instituições internacionais por eles controladas, resultou na perda de 10 milhões de pessoas no território da Federação Russa. Desse número, 9 milhões são de nacionalidade russa. O genocídio russo e de outros povos da Rússia, como consequência de tal política, foi determinado nos materiais da comissão para a destituição do presidente B. N. Yeltsin e recebeu o apoio da maioria dos deputados da Duma Estatal (Parlamento da Rússia) da Federação Russa em 1999.

2. Crimes contra a liberdade e a independência dos povos

É enorme a culpa do capitalismo pela crueldade da época colonial. A população da Índia, Argélia e Camboja, Indonésia e Etiópia também sofreram o extermínio das "liberais" Grã Bretanha, França, Holanda, Bélgica e Itália, respectivamente. Como também aconteceu aos povos da Coreia, Vietname, Jugoslávia, Afeganistão e Iraque no tempo das agressões dos EUA.

O capitalismo praticou e pratica extensamente a destruição das bases da vida e o extermínio das populações indígenas, com matanças e execuções em massa:

Os nativos americanos na América do Norte pelo regime dos EUA;

Os ucranianos na Áustria-Hungria nos princípio do século XX;

Os chineses no decurso das "Guerras do Ópio", levadas a cabo pelos os EUA, Grã Bretanha, Alemanha e outros estados, como o Japão;

Os povos dos países de África, Ásia e América Latina, pelos estados da actual União Europeia e pelos Estados Unidos nos séculos XIX-XX;

Os povos bielorusso e ucraniano durante a política de "pacificação" na Polónia, no período que mediou entre a primeira e a segunda guerra mundiais.

O genocídio dos povos russo, ucraniano, bielorusso, judeu e outros, no período de ocupação da URSS pelas tropas da Alemanha, Itália, Hungria, Roménia, Eslováquia, Croácia e Eslovénia, bem como por destacamentos das SS, formados por letões, estónios, lituanos e nacionalistas e "kulaks" (camponeses ricos contra-revolucionários) de Galitzia (Ucrânia Ocidental).

Desde meados do século XIX, os EUA, guiados pela "doutrina Monroe", fazem intermináveis intervenções armadas contra os países latino-americanos. Prisões sem julgamento e execuções de revolucionários, como Ernesto Che Guevara, há muito tempo que se tornaram uma característica integrante da "democracia" americana (sic) e do "estado de direito". O golpe militar no Chile, inspirado pela CIA, o assassinato do presidente Allende, entraram na história como um dos crimes mais cínicos do imperialismo. Hoje prossegue o bloqueio a Cuba e as provocações sem descanso à Venezuela, porque ambos os povos escolheram uma via de desenvolvimento socialista.

Com o pretexto da implantação da democracia leva-se a cabo uma guerra desapiedada contra o povo do Iraque, cuja única "culpa" é o desejo de viver segundo as suas próprias leis e decidir, ele próprio, o seu destino. Sob a capa do hipócrita argumento de defesa da liberdade, preparam-se agressões contra o Irão e a Síria, apoia-se a política de ocupação de Israel, preparam-se represálias contra todo aquele que contrarie as pretensões dos EUA, e seus aliados, de hegemonia no mundo moderno.

Na Europa, na Letónia e Estónia, perante o silêncio cúmplice da União Europeia, ressuscita-se o sistema de "apartheid", que priva dos seus direitos políticos quase metade da população, pelas suas características étnicas.

3. Crimes contra a paz e a vida na Terra

O imperialismo é responsável por ter desencadeado as duas guerras mundiais, que custaram a vida a cerca de 100 milhões de pessoas. O lançamento pelos EUA da bomba atómica sobre Hiroshima e Nagasaki representa o maior crime de guerra na história da humanidade.

Não menos mortífera foi a utilização de armas de destruição maciça, dirigidas contra qualquer organismo vivo. Por exemplo, o espargimento – pela aviação norte-americana – de agentes desfolhantes sobre a Indochina.

As guerras foram acompanhadas de deportações, torturas e extermínio de pessoas nos campos de concentração. Extermínio de russos nos campos de concentração ingleses da ilha Mudyug, durante a intervenção da Entente. Até 20 mil russos, ucranianos, bielorussos e representantes de outros povos, membros de Exército Vermelho, foram mortos nos campos de concentração polacos, no início dos anos 20.

Defensores do ideal comunista, dissidentes, lutadores pela reunificação dos povos ucraniano e bielorrusso, ucranianos, bielorrussos e judeus foram empilhados e exterminados no campo de concentração polaco.

Vinte milhões de civis da URSS caíram vítimas dos trabalhos forçados, da fome, das penúrias provocadas pela guerra, das execuções em massa. Russos, ucranianos, bielorussos, judeus e ciganos foram exterminados durante a ocupação do território da União Soviética pelas tropas da Alemanha, Itália, Hungria, Roménia, Eslováquia, bem como pelas legiões das SS, incluindo algumas originárias da Finlândia, Noruega, Letónia, Estónia e Lituânia.

O bloqueio a que se viu submetida a população civil de Leninegrado, que provocou a morte a mais de meio milhão dos seus habitantes, representa um dos mais terríveis crimes contra a humanidade.

As guerras imperialistas são fruto de cínicas provocações:

O incêndio do Reichstag, o bombardeamento de blocos habitacionais em Moscovo, o 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque. Não é nenhum segredo a activa cooperação dos serviços secretos ocidentais com os terroristas internacionais, a sua preparação e equipamento, a selecção de objectivos.

4. Crimes contra a cultura

Pensamos que os crimes do imperialismo contra a cultura nacional e de toda a humanidade merecem uma investigação independente e rigorosa. Todas as atrocidades que temos vindo a enumerar são o resultado directo da "missão civilizadora" do imperialismo, da instauração pela força da "democracia", da concepção da "prescindibilidade" das culturas nacionais e das civilizações oriundas dos povos da Ásia, África, América e, inclusivamente, de parte da Europa. Partindo destes pressupostos ideológicos cimentou-se a necessidade de "eliminação" de pessoas concretas que, assegurava-se, representavam um obstáculo à construção da sociedade "livre", sendo catalogados como sub-humanos, não aptos, face à ideologia e à política liberal-democrática. Julgamos necessário que a comunidade internacional se pronuncie e condene as teorias que animam o ódio entre humanos, tais como o maltusianismo, o social-darwinismo, a doutrina de Nietzsche, o racismo, o mundialismo, etc..

Além disso, pensamos que as múltiplas guerras que o imperialismo tem provocado nos Balcãs, ao longo de século e meio, não perseguem unicamente interesses económicos. Estão dirigidas à destruição da Grécia como berço da civilização europeia e da Sérvia como foco originário do cristianismo ortodoxo na Europa.

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Os círculos governantes e os partidos políticos dos países ocidentais, em muitos casos, não se desligaram dos crimes cometidos no passado e dos que se cometem na actualidade.

Na Europa, partidários de regimes ditatoriais amiúde se camuflam, disfarçando-se de democratas: em Espanha e na Itália, nazis na Áustria, partidários de Pilsudski (ditador de 1926 a 1935) na Polónia, de Stepan Bandera (cabecilha dos colaboracionistas nazis na Ucrânia dos anos 40) na Ucrânia, fascistóides nas repúblicas bálticas.

A valoração política e moral das acções passadas e presentes dos imperialistas é imprescindível que se faça agora, quando os países fiéis a essa ideologia e às suas directrizes tentam apresentar-nos a sua actividade como padrão a seguir por toda a humanidade.

O dever da comunidade internacional passa por emitir um juízo sobre o "contributo" destes regimes para a história mundial, e advertir as pessoas dos seus perigos, para evitar que se possam repetir os crimes cometidos pelos liberais.

Uma avaliação objectiva da história do imperialismo é extraordinariamente importante para a educação das jovens gerações, para a criação de uma base, sobre a qual se devem edificar relações autênticas de cooperação entre os estados e povos com uma história diferente e pertencentes a diferentes civilizações.

Consideramos que as vítimas dos crimes dos regimes imperialistas, as suas famílias e descendentes merecem uma compensação material pelos seus sofrimentos. Propomos a criação de um Dia internacional em memória das vítimas dos crimes do imperialismo. Poderia ser o dia 3 de Setembro, aniversário do começo da segunda guerra mundial.

Mas não podemos limitar-nos à condenação. É imprescindível oferecer à humanidade uma alternativa real.

O imperialismo e a globalização são formas reaccionárias e deformadas da integração mundial.
A integração propriamente dita torna-se inevitável. A humanidade, objectiva e inexoravelmente, encaminha-se para uma unidade muito mais intensa, sob todos os pontos de vista. Este é um facto positivo e indiscutível. Qualquer tentativa de reverter esta tendência, de voltar ao passado, de ressuscitar o isolacionismo, é reaccionária. No entanto, para os destinos da humanidade, para os destinos do Homo sapiens não podem ser absolutamente indiferentes o caminho e o modo de alcançar essa unidade.

Continuaremos a avançar pelo caminho da submissão do trabalho ao capital, ou pelo da libertação do trabalho face ao capital, para a conversão do trabalho numa necessidade vital e natural?

Encaminhamo-nos para uma unidade do multiforme, para associação em que "o livre desenvolvimento de todos é condição para o desenvolvimento de cada um", ou para a unidade da uniformidade, para o cartel mundial, para onde o poder do capital está empurrando a humanidade?

Vamos para a instauração no mundo do poder oligárquico de um reduzido círculo de pessoas, ou para a interacção democrática e a cooperação de países soberanos e dos seus povos?

Unicamente o socialismo pode oferecer uma alternativa real, não reaccionária nem utópica, à globalização e à "nova ordem mundial". A posição de partida dos comunistas russos consiste na unidade da luta de classes dos trabalhadores pela libertação social e a luta dos povos pela sua independência, por um desenvolvimento livre, democrático e autóctone.

Estamos convictos que o movimento anti-imperialista e anti-globalização adquirirá um auge ainda maior e reforçará a sua unidade de acção, partindo dos seguintes objectivos, na sua luta conjunta:

Pela libertação do trabalho da exploração e pela justiça social.

Pelo internacionalismo e o patriotismo como valores fundamentais da convivência humana e internacional. Contra o chauvinismo e o cosmopolitismo [6] .

Pela independência nacional e estatal.

Pelos direitos humanos. Não só os civis e políticos, mas também os sociais e económicos: direito ao trabalho, ao descanso, à educação, à assistência médica, à defesa social.

Pela liberdade de expressão e informação. Contra o totalitarismo informativo e cultural do imperialismo.

Pela defesa do meio ambiente, face ao efeito destrutivo da "carreira consumista" e à actual divisão internacional do trabalho.

Pelo direito do povo ao levantamento, à autodefesa perante a agressão, à luta armada contra os opressores e ocupantes.

Contra o terrorismo internacional. Por uma clara diferenciação entre o terrorismo e a luta de libertação nacional.

Contra toda a forma de discriminação racial ou nacional, contra todas as formas de apartheid.

Contra o jugo da dívida externa.

Pela supressão do controlo dos blocos político-militares agressivos.

A plataforma proposta de uma nova Internacional anti-imperialista e anti-globalização não exclui ninguém, nem prejudica as formas concretas de construção social que, no futuro, a humanidade escolha.

Mas a realização destes lemas é imprescindível. Inevitavelmente, serão factos reais, graças aos esforços conjuntos da humanidade progressista, se é que esta não quer, apenas, sobreviver, mas avançar pelo caminho do progresso, da paz, da igualdade de direitos e da justiça.

Há que olhar o futuro e não ajustar contas com o passado.

Há que avançar com valentia e decisão.

Notas
[1] O conceito de "1.000 milhões dourados", expressão muito usada no mundo de língua russa, mas pouco habitual no "Ocidente", faz referência ao número aproximado de habitantes do que chamaríamos os "países capitalistas desenvolvidos" (vulgarmente "Primeiro Mundo"), isto é, EUA, Canadá, Japão, países da União Europeia e alguns outros (Austrália, Nova Zelândia, Israel...).
[2] Goran Lindblad, parlamentar sueco conservador, membro do PPE que redigiu e defendeu a resolução anticomunista na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa.
[3] Karl Eugen Duhring, filósofo alemão do século XIX.
[4] Os "Yeoman" eram uma classe média de agricultores na Inglaterra da Baixa Idade Média e primeiros séculos da Idade Moderna. Eram pequenos proprietários acomodados, e eles próprios também trabalhavam as suas terras (se bem que alguns pudessem ter assalariados ao seu serviço).
[5] Workhouses em inglês. Eram uma espécie mista de centros de internamento e oficinas para os pobres, na Inglaterra dos séculos XVII-XIX. Aí, as condições de vida eram terríveis, como Dickens reflectiu nas suas novelas.
[6] Teoria burguesa que exorta à renúncia dos sentimentos patrióticos, da cultura e das tradições nacionais em nome da "unidade do género humano". O cosmopolitismo, tal como o propugnam os ideólogos burgueses contemporâneos, expressa a tendência do imperialismo ao domínio mundial. A propaganda cosmopolitismo (da ideia de criar um governo para todo o mundo) debilita a luta dos povos pela sua independência nacional, pela sua soberania como Estado. O cosmopolitismo é incompatível com o internacionalismo proletário que harmoniza a comunidade de interesses fundamentais dos trabalhadores de todo o mundo com o seu amor à pátria, com o espírito do patriotismo popular. In Dicionário Soviético de Filosofia.


O original encontra-se no Pravda .  A versão em castelhano em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=27082 .
Tradução de José Paulo Gascão.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
24/Fev/06