Ao camarada Lenine, no seu 150º aniversário

por Vijay Prashad [*]

Lenine em 1895. Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924) era conhecido por seu pseudônimo – Lenin. Ele era, assim como seus irmãos, um revolucionário, o que no contexto da Rússia tsarista significou, para ele, passar muitos anos na prisão e no exílio. Lenin ajudou a construir o Partido Operário Social-Democrata russo (POSDR) com seu trabalho intelectual e organizativo. Os escritos de Lenin não estão presentes apenas em suas palavras, mas também na somatória da atividade e do pensamento dos milhares de militantes cujos caminhos cruzaram com o dele. Foi notável a habilidade de Lenin para desenvolver as experiências de militantes no reino teórico. Não por acaso, o marxista húngaro György Lukács considerou Lenin "o único teórico à altura de Marx até agora já produzido no interior da luta de libertação proletária". [2]

Construindo uma revolução

Em 1896, quando greves espontâneas irromperam nas fábricas de São Petersburgo, os socialistas-revolucionários foram apanhados de surpresa. Eles não sabiam o que fazer; estavam desorientados. Cinco anos depois, V. I. Lenin escreveu: os "revolucionários atrasaram-se em relação a esse movimento ascencional tanto nas suas 'teorias' quanto na sua atividade, não conseguiram criar uma organização permanente que funcionasse continuamente, capaz de dirigir todo o movimento". [3] Lenin sentiu que esse atraso deveria ser corrigido.

A maior parte dos principais escritos de Lenin seguiram essa ideia. Ele explorou as contradições do capitalismo na Rússia (O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, 1896), [4] que lhe permitiu compreender como o campesinato no vasto império tsarista possuía um caráter proletário. Foi baseado nisso que Lenin defendeu a aliança operário-camponesa contra o tsarismo e os capitalistas. Quando a Revolução Russa de 1905 estourou, Lenin foi ao Novaya Zhizn [5] (12 de novembro de 1905) para argumentar que "resquícios da servidão" impunham "um fardo cruel a toda massa do campesinato"; os "proletários sob sua bandeira vermelha", ele escreveu, "declararam guerra contra este fardo". Não foi suficiente, segundo Lenin, os trabalhadores da cidade lutarem pelas demandas camponesas, e não foi suficiente as demandas independentes do campesinato por terra serem atendidas; o que era necessário era aprofundar a unidade entre os trabalhadores do campo e da cidade na luta "contra o domínio do capital" e pelo socialismo. Não havia sentido em ser ingênuo com relação ao fato de que havia relações de classe no interior do "campesinato", e que os pequenos proprietários tinham seus interesses de classe inerentes a suas pequenas empresas privadas. O estudo de Lenin enfatizou a diferenciação do campesinato para entender que os pequenos proprietários tinham uma lealdade de classe mais próxima aos senhores de terra em termos de defesa da propriedade privada e do direito de explorar os trabalhadores rurais sem terra. Lenin viu com uma claridade cristalina que o desenvolvimento da unidade operário-camponesa tinha de compreender as complexidades do campo, caso contrário o movimento pelo socialismo se desviaria para uma direção pequeno-burguesa.

Outros adversários do tsarismo, além dos bolcheviques (como os social-democratas, os narodiniks , os socialistas-revolucionários [eseristas] e os mencheviques), não avançaram até o projeto socialista. Lenin entendeu, a partir do seu compromisso com a luta de massas e com suas leituras teóricas, que os social-democratas – como a fração mais liberal da burguesia e dos aristocratas – não eram capazes de dirigir uma revolução burguesa, quem diria um movimento que levaria à emancipação do campesinato e dos operários. Sua contribuição teórica foi elaborada em Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (1905). [6] As Duas táticas... talvez seja o primeiro grande tratado marxista que demonstra a necessidade de uma revolução socialista, mesmo em um país "atrasado", onde os trabalhadores e os camponeses precisariam se unir para derrubar as instituições da servidão e levar a sociedade ao socialismo.

Estes dois textos, o de 1896 e o de 1905, mostram Lenin evitando a visão de que a Revolução Russa poderia saltar sobre o desenvolvimento capitalista (como os populistas – narodiniks – sugeriam) ou que ela deveria passar pelo capitalismo (como os democratas-liberais – os kadetes, por exemplo – defendiam). Nenhuma das duas vias era possível ou necessária. O capitalismo já havia se introduzido na Rússia, um fato que os populistas não reconheciam; e podia ser superado por uma revolução operário-camponesa, um fato do qual os democratas-liberais discordavam. A revolução de 1917 e a experiência soviética demonstraram a correção do argumento de Lenin.

Tendo estabelecido que as elites liberais não seriam capazes de dirigir uma revolução operário-camponesa, ou sequer uma revolução burguesa, Lenin voltou sua atenção à situação internacional. Em seu exílio na Suíça, Lenin assistiu como os social-democratas capitularam ao belicismo em 1914 e levaram a classe trabalhadora para a guerra. Rosa Luxemburgo, igualmente desapontada, escreveu: "trabalhadores do mundo unem-se em tempos de paz; em tempos de guerra cortam as gargantas uns dos outros". [7] Frustrado pela traição dos social-democratas, Lenin escreveu um importante texto – Imperialismo: estágio superior do capitalismo (1916) [8] – que desenvolve uma compreensão lúcida do crescimento do capital financeiro e de empresas monopolistas, assim como os conflitos intercapitalistas e interimperialista. Foi neste texto que Lenin explorou as limitações dos movimentos socialistas no Ocidente, com a aristocracia operária fornecendo uma barreira à militância socialista; e o potencial da revolução no Oriente, onde o "elo mais débil" na corrente imperialista poderia ser encontrado. Os cadernos de Lenin mostram que ele leu 148 livros e 213 artigos em inglês, francês, alemão e russo para esclarecer o seu pensamento sobre o imperialismo contemporâneo. Uma compreensão lúcida do imperialismo deste tipo garantiu que Lenin desenvolvesse uma posição marcada sobre o direito das nações à autodeterminação, tanto fazia se estas nações estivessem dentro do império tsarista ou em qualquer outro império europeu. O núcleo do anticolonialismo da URSS – desenvolvido na Internacional Comunista (Komintern) – situa-se aí. [9]

O termo "imperialismo", tão central para a expansão da tradição marxista por parte de Lenin, se refere ao desenvolvimento desigual do capitalismo em uma escala global e ao uso da força para manter essa desigualdade. Determinadas partes do planeta – principalmente aquelas que tiveram um passado colonial – permanecem em uma posição de subordinação, com sua habilidade para construir uma agenda de desenvolvimento nacional independente restringida pelos tentáculos do poder político, econômico, social e cultural internacional. Em nossos dias, surgiram novas teorias que sugerem que as novas condições não podem mais ser compreendidas pela teoria do imperialismo leninista. Antonio Negri e Michael Hardt, por exemplo, argumentam que não há mais rivalidade geopolítica restante, que há apenas uma extensão da soberania da constituição dos EUA em escala mundial. Isso é o que eles chamam de Império. O que o povo – a multidão – deve fazer, eles sugerem, é contestar sobre os termos desta constituição, mas não o fato de sua aspiração global. Outros argumentam que o mundo se achatou, então já não há mais um Norte global que oprime um Sul global, e que as elites de ambas as regiões são partes da ordem capitalista global. Esse é o tipo de teoria que Karl Kautsky desenvolveu sob o nome de "ultraimperialismo". Lenin respondeu certeiramente a Kautsky e a esta teoria do "ultraimperialismo" dizendo que este notou que "a dominação do capital financeiro atenua a desigualdade e as contradições da economia mundial, quando, na realidade, as acirra". [10] Elementos do texto de Lenin são, é claro, datados – foi escrito há 100 anos – e precisariam ser cuidadosamente retrabalhados. Mas a essência da teoria é válida:   a insistência na tendência das empresas capitalistas em se tornarem monopólios, a crueldade com que o capital financeiro drena a riqueza do Sul global e o uso da força para conter as ambições dos países do Sul em planejar sua própria agenda de desenvolvimento.

Por fim, entre 1893 e 1917, Lenin estudou cuidadosamente as limitações do partido de velho tipo – o partido social-democrata. Se você dedicar algum tempo às Obras escolhidas [11] de Lenin durante as décadas antes da Revolução Russa de 1917, você encontrará milhares de artigos e relatórios sobre como fortalecer o trabalho de massa e a construção do partido. Em "Nosso programa" [12] – texto de Lenin de 1899 –, ele enfatiza que o partido deve estar envolvido em atividade contínua e não depender de explosões espontâneas ou iniciais. Essa atividade contínua traria o partido para um contato íntimo e orgânico com a classe trabalhadora e o campesinato, bem como ajudaria a germinar os protestos que então poderiam assumir um caráter de massas. Foi esta consideração que levou Lenin a desenvolver sua compreensão do partido revolucionário em Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento (1902). [13] Lenin desenvolveu ideias fundamentais para a construção de um partido operário-camponês, incluindo o papel dos operários com consciência de classe como a vanguarda do partido e a importância da agitação política entre os trabalhadores para desenvolver uma consciência política genuinamente poderosa contra toda tirania e toda opressão. Os trabalhadores precisam sentir a intensidade da brutalidade do sistema e a importância da solidariedade.

Estes textos – de 1896 a 1916 – prepararam o terreno para que os bolcheviques e Lenin compreendessem como funcionar durante as lutas em 1917. É como uma medida da confiança de Lenin nas massas e em sua própria teoria que ele escreveu sua audaciosa brochura "Os bolcheviques devem conservar o poder de Estado?" [14] poucas semanas antes da tomada do poder. E, conforme os acontecimentos se desenrolaram em 1917, Lenin constantemente tentou teorizar a dinâmica da transformação. A Revolução de Fevereiro de 1917 derrocara o tsar e levara ao poder os liberais. Lenin identificou dois desenvolvimentos de igual importância: primeiro, que os liberais – sob Kerensky – estavam se preparando para trair os objetivos revolucionários e levar a Rússia novamente para a guerra, e, consequentemente, manter todo o sistema tsarista; segundo, que o proletariado revolucionário – e seus principais partidos – permaneceram alertas e ativos, e haviam fortalecido sua forma política por meio dos sovietes. Os sovietes, controlados por operários e camponeses, se tornaram um centro do "poder dual" contra a Duma (parlamento) controlada pelos liberais. Isso significou para Lenin – como ele escreveu em diversos textos neste período — que os sovietes tinham de defender os objetivos revolucionários e tomar o poder. Em setembro de 1917, Lenin escreveu que, para o marxismo, a "insurreição é uma arte"; Lenin e os bolcheviques organizaram suas forças; em outubro de 1917 eles atacaram e levaram a cabo a Revolução Russa de 1917.

Construindo um Estado

Nenhuma revolução está "completa" apenas tomando o poder. Havia muito trabalho a ser feito imediatamente depois de Lenin e seus camaradas assumirem o controle do Estado tsarista derrocado. Uma leitura detida de O Estado e a revolução (1918), [15] de Lenin, antecipa os problemas enfrentados pelos sovietes em sua nova tarefa – eles podiam herdar a estrutura de Estado, mas tinham de "demolir o Estado", construir um novo conjunto de instituições e uma nova cultura institucional, criar uma nova atividade dos funcionários com relação ao Estado e à sociedade.

O texto mais importante aqui é As tarefas imediatas do poder soviético (abril de 1918), [16] que desenha a agenda da URSS em seus primeiros anos. Os outros textos mostram a atitude geral de Lenin com relação à construção do Estado e os desafios enfrentados pela URSS – cercados pelos poderes hostis – neste período. O "Melhor pouco, porém bom" (1923), [17] de Lenin, escrito já no fim de sua vida, é um dos mais honestos e sensatos textos sobre os problemas enfrentados pelo novo governo e pela sociedade. Em sua última aparição pública – no soviete de Moscou em 20 de novembro de 1922 – é possível ver a personalidade de Lenin por inteiro. Há a confiança de Lenin e sua humanidade; há a honestidade de Lenin e sua ambição:

Ainda temos a antiga máquina, e nossa tarefa agora é remodelá-la com novos contornos. Não podemos fazê-lo de uma vez, mas devemos fazê-lo de modo que os comunistas que temos estejam bem distribuídos. O que nós necessitamos é que eles, os comunistas, controlem a máquina para a qual foram designados, e não, como costuma acontecer conosco, que a máquina os controle. Não devemos guardar segredo em relação a isso e devemos falar disso francamente. Tais são as tarefas e as dificuldades diante de nós – e isso em um momento quando tivermos iniciado nosso caminho prático, quando não devemos abordar o socialismo como se ele fosse um ícone pintado em cores festivas. Devemos tomar a direção correta, devemos assegurar que tudo está verificado, que as massas – toda a população – vejam o caminho que nós seguimos e digam: 'Sim, isso é melhor que o antigo sistema'. Essa é a tarefa que nos colocamos. Nosso partido, um pequeno grupo de pessoas em comparação com a população total do campo, assumiu essa tarefa. Esse pequeno núcleo se colocou a tarefa de refazer tudo, e o fará. Nós provamos que isso não é uma utopia, mas uma causa pela qual o povo vive. Todos vimos isso. Isso já está sendo feito. Devemos refazer as coisas de tal modo que a maior parte das massas, os camponeses e os operários dirão: 'Não são vocês que se elogiam, somos nós. Nós dizemos que vocês alcançaram resultados esplêndidos, após o que nenhuma pessoa inteligente jamais sonhará em voltar para o antigo'. Nós ainda não chegamos a esse ponto [...] o socialismo já não é mais algo de um futuro distante, ou uma pintura abstrata, ou um ícone. Nossa opinião com relação a ícones é a mesma – bastante negativa. Nós trouxemos o socialismo para a vida cotidiana e devemos ver aqui como as questões se mantêm. Essa é a tarefa de hoje, a tarefa de nossa época. [18]

Em 1921, a saúde de Lenin havia se deteriorado de forma dramática. Em maio de 1922, ele sofreu seu primeiro infarto. Ele morreu em 21 de janeiro de 1924 aos 53 anos. Mais de um milhão de pessoas vieram homenagear Lenin por três dias frios em janeiro, antes dele ser posto em um mausoléu na Praça Vermelha, onde seu corpo permanece.

Tudo o que Lenin escreveu há 100 anos não deve ser tomado como um evangelho. É um guia. As circunstâncias mudam, os desenvolvimentos devem ser estudados cuidadosamente. Foi Lenin quem nos ensinou que "o fundamental, a alma viva do marxismo [é] a análise concreta de uma situação concreta". [19] O que aprendemos com Lenin é o seu método e sua disciplina, sua aguda consciência de classe em termos de sua compreensão da política. As revoluções não se repetem em todas as suas particularidades, nem os processos revolucionários. Diferentes conjunturas históricas e situações concretas necessitam diferentes dinâmicas revolucionárias históricas. Temos Lenin sobre nossos ombros; ele é nossa inspiração e modelo.

2 G. Lukács. Lenin. Um estudo sobre a unidade de seu pensamento. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 33.
3 V. I. Lenin. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. São Paulo: Expressão Popular, 2015, p. 105-10.
4 V. I. Lenin. Desenvolvimento do capitalismo na Rússia. São Paulo: abril cultural, 1982.
5 Nova Vida , jornal editado pelos bolcheviques durante novembro e dezembro de 1905. Foi o primeiro jornal legal do Partido Social-Democrata Russo, seu editor foi Maxim Litvinov. Posteriormente, em 1917-1918 uma publicação com o mesmo nome voltou a ser editado, primeiro em Petrogrado e depois em Moscou pelos mencheviques.
6 Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1905/taticas/index.htm
7 Rosa Luxemburgo. Rebuilding the International [A reconstrução da internacional], 1915.
8 V. I. Lenin. Imperialismo, estágio superior do capitalismo . São Paulo: Expressão Popular, 2012
9 Riddell, John; Prashad, Vijay and Mollah, Nazeef (eds.). Liberate the Colonies. Communism and Colonial Freedom, 1917-1924 (Libertar as colônias. Comunismo e Liberdade colonial). New Delhi: LeftWord Books, 2019.
10 V. I. Lenin. Imperialismo, estágio superior do capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2012, p. 131. Ver também Karl Kautsky, 'Ultraimperialismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/kautsky/1914/09/11-1.htm .
11 As Obras escolhidas em português foram editadas, em Portugal, pela editora Avante!, e no Brasil pela editora Alfa-Omega. Alguns dos textos desta seleção, conforme a edição portuguesa, estão disponíveis em www.marxists.org/portugues/lenin/escolhidas/index.htm
12 Disponível em: www.marxists.org/portugues/lenin/1899/09/programa.htm
13 V. I. Lenin. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
14 Disponível em: www.marxists.org/portugues/lenin/1917/10/14.htm
15 V. I. Lenin. O estado e a revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
16 Cf. em V. I. Lenin. Lenin e a revolução de outubro. Textos no calor da hora (1917-1923). São Paulo: Expressão Popular, 2017, p. 307-355. Também disponível em: www.marxists.org/portugues/lenin/1918/04/26.htm
17 Cf. em Ibid., p. 571-589
18 V. I. Lenin, "Discurso no Plenário do Soviete de Moscou". Em: V. I. Lenin. Obras escolhidas, vol. 3.
19 V. I. Lenin "Kommunismus", periódico da Internacional Comunista. Junho de 1920.


[*] Historiador, indiano, director do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social e editor chefe da LeftWord Books (Delhi).   É editor de Lenin: Selected Writings (Lenin: obras escolhidas). New Delhi: LeftWord Books, 2018.   V. en.wikipedia.org/wiki/Vijay_Prashad

O original está incluído no livro Lenin 150, publicado no Brasil pela editora Expressão Popular.   A obra pode ser descarregada aqui .

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24/Abr/20