Estudo de caso:
A espécie commentatores vulgaris no terreno de política internacional

Daniel Vaz de Carvalho [*]

O 5º cavaleiro do apocalípse.

O terreno da política internacional mostrou-se adverso para os comentadores. Contudo, a espécie conseguiu assegurar a sua sobrevivência através de mutações, contradizendo-se no que foram dizendo.

1 – Os valores ocidentais

Os ditos “valores ocidentais”, nos quais se devem incluir os crimes do colonialismo, apoio a ditaduras, etc., estão a ser flagrantemente desmascarados na dupla moral evidente na guerra na Ucrânia e na de Israel contra os palestinos.

O facto do poder em Kiev estar nas mãos de neonazis pelos vistos não choca os “valores ocidentais”, que a social-democracia proclama ufana, nem deve ser mencionado pelos comentadores. Que Zelensky, eleito com falsas promessas, tenha proibido todos os partidos políticos, exceto o seu e os de extrema-direita também não choca nem impede o estatuto de país candidato à UE.

Pelo contrário, Putin e Xi Ginping devem ser sempre ser referidos como ditadores; os territórios russófonos incorporados na Rússia por referendo, devem ser referidos como invadidos e anexados. No Kosovo, retirado à Sérvia, embora sem referendo, é diferente porque os EUA lá instalaram uma base militar.

Como disse Andre Vitchek:   aos que impedem que as “regras” ditadas de Washington se apliquem “urbi et orbi”, os comentadores devem repetir o que as centrais globais de (des)informação descubram ou inventem. Histórias positivas só podem ser destacadas se ocorrerem no ocidente. Como o sistema luta pela sua sobrevivência e já não pode oferecer otimismo ou motivar com ideais que suscitem entusiasmo, "o melhor que pode fazer" é manchar os oponentes. China, Rússia, RPDC (Coreia do Norte), Síria, Irão, Venezuela, Cuba, enfrentam negatividade, agressões e insultos. Todo êxito é menosprezado e questionado. Líderes são atacados ou ridicularizados.

Dizer o contrário apresenta riscos, Jurgen Helfricht, de 60 anos, correspondente do Bild foi demitido pela sua contribuição no livro publicado em 2018, "Aprendendo a amar a Rússia". Vincenzo Lorusso , jornalista italiano, autor do canal (https://t.me/donbassitalia), foi suprimido do YouTube (pode ser encontrado no dzen e no RuTube), por trazer notícias e entrevistas da linha da frente na Ucrânia e no Donbass.

Apesar da denúncia do jornalista Tucker Carlson de que Gonzalo Lira foi preso e torturado na Ucrânia por criticar Zelensky, os comentadores nada disseram. Apenas Elon Musk exigiu que Zelensky explicasse a prisão de um cidadão americano na Ucrânia depois de “lhe enviarmos mais de 100 mil milhões de dólares”.

Perante a tragédia palestina – um genocídio em curso – nem numa sanção se fala para aplicar a Israel por violar o direito internacional e resoluções da ONU nem sequer a indivíduos que fizeram declarações ao nível do que os SS diziam internamente.

A semelhança entre os comentadores vulgares e papagaios falantes, existe. Repetem exclusivamente o que dizem as fontes ao serviço do império. Na guerra da Síria, por exemplo, o “Observatório Sírio para os Direitos Humanos”, em Londres, entregava as suas histórias às agências globais, seguindo daí para os media. Segundo o ex-oficial da CIA John Stockwell: “um terço da minha equipa eram propagandistas, cujo trabalho era inventar histórias e colocá-las na imprensa. (...) que continuaram durante semanas (...) mas foi tudo ficção.” Fred Bridgland, correspondente de guerra da Reuters: “Baseámos nossos relatórios em comunicações oficiais. Só anos depois soube que um especialista em desinformação da CIA estava sentado na embaixada dos EUA e compunha esses comunicados que não tinham absolutamente nenhuma relação com a verdade. (...) sendo sempre publicados no jornal.” [1] Imagens manipuladas, também fazem parte da “informação”.

Em 1999, a NATO bombardeou a Sérvia, durante 60 dias: alegadamente os sérvios praticavam um "genocídio" contra os albaneses do Kosovo, nos noticiários repetidamente apareciam “valas comuns”. Porém não foi encontrada uma única. Mais tarde, um tribunal das Nações Unidas na Jugoslávia anunciou o total de mortos no Kosovo: 2 788, incluindo sérvios e rons (ciganos) assassinados pelo ELK. Os media nada corrigiram. O fraudulento ataque inseria-se na expansão da NATO, ou seja, dos “valores ocidentais”.

O mesmo se tinha já passado no incidente do Golfo de Tonkin para bombardear o Vietname do Norte, nas “armas de destruição maciça” do Iraque, no “uso de armas químicas por Assad”, etc. As prostitutas mediáticas tomam como certo que os estúpidos aceitarão tudo até à última mentira. (Paul Craig Roberts)

2 – Um regime de terror

Israel elevou o nível de repressão que pratica desde que foi formado, para o que é qualificado como genocídio. Para justificar os atos atuais foi logo posto a correr que o Hamas havia decapitado bebés. Apesar da mentira já ter sido usada contra o Iraque, comentadores assumiram-no como pura verdade, achando que os “animais humanos” que tal faziam (incluindo mulheres e crianças) estavam à margem das leis humanas. Os nazis consideraram o mesmo relativamente aos soviéticos.

A acusação era falsa, antes se aplica a Israel pelos bombardeamentos a hospitais e bebés deixados morrer em incubadoras desligadas, mas os comentadores limitaram-se ao silêncio ou a piedosos votos para que Israel cumpra o direito internacional, forma de dar luz verde ao que afirma Finniam Cunningham sobre o terror instituído pelo regime israelense e a cumplicidade dos media. Incapaz de derrotar a resistência palestina, Israel intensifica o terror matando e torturando crianças. Todos os palestinos libertados em trocas de reféns pelo regime israelense são mulheres e crianças, podendo as famílias ser punidas se expressarem emoções ao recebê-los – uma suja tática de terror. Mulheres e crianças! Por que estavam detidos? Que tipo de regime despótico faz isso? Os media são tão cúmplices deste genocídio doentio quanto os governos dos EUA e da UE/NATO.

Israel tem mais de 7 000 palestinos reféns, muitos deles mulheres e crianças, não se sabendo quando serão libertados. Os palestinos estão agora a ser encarcerados a um ritmo maior do que nunca. Por que são detidos? Como são tratados? O vazio de informação desumaniza as vítimas e branqueia os agressores. Na Cisjordânia uma onda de violência das FDI e grupos de colonos matou mais de 240 palestinos, incluindo quase 60 crianças. As últimas vítimas foram dois meninos, de 9 e 15 anos, mortos a tiros em Jenin. Em Gaza, quase metade dos mortos são crianças. Como disse o primeiro-ministro palestino acerca do criminoso bloqueio a Gaza, Israel, sendo "potência ocupante", é responsável por fornecer eletricidade, água, alimentos e suprimentos médicos. (https://t.me/s/geopolitics_live, Telegram, 10/12)

Tudo isto mostra a barbárie do regime de ocupação sionista que os EUA apoiam com armas, cobertura diplomática e mediática. Mas apesar do terror, o regime israelense não derrotou os combatentes do Hamas e outros grupos de resistência. O facto de serem libertados quase 100 civis israelenses ilesos após semanas de bombardeios devastadores mostra que Israel, os EUA e aliados falharam perante o mundo inteiro em apresentar o Hamas como uma organização terrorista – os media escamotearam este aspeto.

A situação humanitária em Gaza é terrível, além de muitas crianças órfãs, sofrem de ferimentos graves, queimaduras, perda de membros, disse a Dra. Amjad Loubani, do Hospital Al-Shifa de Gaza. As condições são “catastróficas, nas crianças regista-se uma duplicação das taxas de deficiência e transtornos mentais, muitas estão desnutridas. A falta dos medicamentos necessários resultou na propagação de vírus, doenças e infeções nos campos de refugiados. (https://t.me/s/geopolitics_live, Telegram, 05/12)

Porém, independentemente do que Israel faça, a vice-presidente Kamala Harris afirmou afirmou que “não vão ser consideradas quaisquer condições para o apoio que damos para Israel se defender”. (?) Esta frase, duma inqualificável hipocrisia, tem expressão nos votos negativos no CS da ONU visando a paragem da guerra e do bloqueio.

Israel caminha para uma grave crise económica: o custo da guerra excede as previsões; o turismo grande fonte de receita cessou; os Houtis do Iémen obrigam os navios para Israel a irem pelo rota do Cabo; a mobilização retirou centenas de milhar de israelenses da economia, etc. É mais uma guerra que os EUA têm para financiar.

3 – A Ucrânia à venda: quem compra?

A Ucrânia tornou-se um “estudo de caso” sobre o que acontece a países que se deixam seduzir pelo imperialismo, mas também como a manipulação mediática é auto-destrutiva. O triunfalismo da sra. Nuland em 2014, as bravatas de recuperar territórios que não aceitaram o golpe nazifascista de Kiev, resultou em jogos de guerra em que os estrategas de Washington já se viam de novo a dar ordens a Moscovo, com Putin em fuga ou morto.

O resultado é um país com as infraestruturas destruídas ou em estado precário, centenas de milhares de mortes numa guerra inventada em Washington e cuja população sob o controlo de Kiev é agora menos de 20 milhões (50 milhões quando soviética).

Que fazer da Ucrânia? Nos EUA as opiniões dividem-se em acesa dissidência: continuar a financiar a guerra ou entrega-la à UE/NATO. A questão é quem paga uma ou outra. Quem vai financiar um Estado falido (quando deixou de ser soviética a dívida externa era zero), sem economia, com a mão-de.obra mais capaz emigrada, ferida ou morta. Os EUA/UE/NATO tornaram a Ucrânia um poço sem fundo, de dezenas de milhares de milhões de euros apenas para manter o país minimamente funcional, além de fornecimentos militares insistentemente pedidos.

A Ucrânia pode oferecer as suas ricas terras agrícolas, mas a BlackRock já tomou em grande parte conta disso e os agricultores desmobilizados irão perceber que o invasor não era a Rússia, mas o “amigo americano”. A Soros Jr. foram concedidos 400 quilómetros quadrados de terras férteis, para a eliminação de resíduos perigosos, das indústrias química, farmacêutica e petrolífera. (https://t.me/s/geopolitics_live, Telegram, 02/12)

A Ucrânia, sacrificada para enfraquecer a Rússia, é a verdadeira vítima, atolada num ciclo interminável de desespero. Um exemplo do aventureirismo dos neocons da NATO. A Rússia não apenas resistiu como emergiu economicamente mais forte.

Na sua pesporrência os comentadores falavam na unidade da UE e da NATO como uma derrota da Rússia. Mas já se calaram. Já ninguém diz “todos somos ucranianos”, como se ir de Kiev a Moscovo fosse um passeio. Na Polónia mais de 2 500 caminhões ficaram retidos na fronteira com a Ucrânia por uma greve de transportadoras polacas, devido à concorrência de ucranianos isentos de licenças. Na Hungria, os transportadores rodoviários vão realizar protestos na fronteira com a Ucrânia. Nos Bálticos, Suécia, Polónia, as populações contestam os subsídios que os ucranianos recebem. Os agricultores franceses protestam contra a importação de frango ucraniano. Os Países Baixos, Eslováquia, Hungria opõem-se ao dinheiro para a Ucrânia e às sanções anti russas.

A desorientação que reina na UE é escondida da opinião pública tanto quanto possível. Com a mentalidade estagnada no século XIX, queriam isolar a Rússia, do resto do mundo. Mas afinal é a UE que se esforça por não ficar isolada da China e do avanço crescente dos BRICS.

Para disfarçar a impopularidade, a recessão e desindustrialização, o fracassado governo russofóbico do PSD alemão e Verdes, Scholz, não encontrou nada melhor que culpar a Rússia por cortar à UE o gás dos gasodutos, como se os ataques Nord Stream não tivessem existido. O facto é que em consequência das sanções à Rússia, desde fevereiro de 2022, a UE terá gasto mais de 185 mil milhões de euros em gás.

Asseguravam que com as novas armas americanas – “a vitória da Ucrânia é inquestionável”, “unidades russas correm o risco de ficar isoladas e renderem-se”. Não vai longe o tempo em que no seu pedantismo, a mumia Stoltenberg garantia que a "Rússia está a ficar sem armamento". Agora diz que as capacidades da Rússia "não deve ser subestimadas" (!) e que a sua indústria produz mais armas que o ocidente – e melhores também... Será que ele, a Leyen, o Borrel, sabem exatamente o que têm andado a dizer e a fazer?

4 – Os EUA no labirinto do poder virtual

A arrogância imperial ficou expressa nas declarações atribuídas a Karl Rove conselheiro de George W. Bush: "Somos um império e quando agimos criamos nossa própria realidade. E enquanto estiverem estudando essa realidade, nós vamos agir novamente, criando outras novas realidades. E é assim que as coisas vão funcionar e vocês só terão que estudar o que fazemos”.

Este poder que os EUA receberam da coligação anticomunista, ultrapassou as suas capacidades, tendo que sustentar militar e financeiramente várias guerras: na Ucrânia, a de Israel, a preparação contra a China. Mas há outra: a da economia que se afunda estagnação e inflação, numa dívida federal de 33,8 milhões de milhões de dólares, com juros, em 2023, de 1 milhão de milhões de dólares. Os milhões de milhões em Títulos de dívida que necessita – enquanto a China se desfaz deles – superam a procura tendo como consequência uma subida das taxas de juro dos Títulos.

A "estratégia" na Ucrânia, baseada na ilusão do mundo unipolar, falhou totalmente depois de uns 200 mil milhões de dólares perdidos pelos EUA/UE/NATO. Os EUA não sabem como sair deste labirinto com as dissidências no clã de Kiev; baixos estoques de armamento e munições na NATO, alem da impossibilidade prática de prosseguir a mobilização ucraniana e elevar o moral do exército, com unidades a renderem-se quando conseguem não ser baleadas pelas costas.

Outro labirinto financeiro onde os EUA se meteram é o do apoio a Israel. A guerra custa a Israel cerca de 270 milhões de dólares por dia, com os EUA obrigados a cobrir cerca de um terço, além do agravamento dos problemas económicos e financeiros.

O Pentágono alerta que os EUA estão com grandes dificuldades na produção, mas também no desenvolvimento de novos tipos de armamento, considerando que são incapazes de construir armas com a rapidez e qualidade suficiente, "apresentando um risco estratégico crescente". Washington tem de apoiar operações de combate ativas "ao mesmo tempo que dissuade a ameaça maior e tecnicamente mais avançada no Indo-Pacífico". A China tornou-se um centro industrial global "agora excedendo a capacidade não só dos Estados Unidos, mas também a produção combinada dos nossos principais aliados europeus e asiáticos." (https://t.me/s/geopolitics_live, Telegram, 04/12)

A ineficiência do sistema liberal-oligárquico é evidente no facto de os EUA representarem cerca de 40% dos gastos militares globais em 2022, superando várias vezes a China. Por exemplo, os novos submarinos e sonares da China desafiam a supremacia das frotas dos EUA, ameaçando a estratégia de cercar a China e a supremacia naval dos EUA.

Na UE os “atlantistas” obedecem à voz do xerife e querem que se continue a dar dinheiro ao clã de Kiev (a Olena Zelinskaya, agradece…) para os defender da “agressão russa”. A Rússia que imaginavam há meses, isolada, a vir humildemente pedir para ser ouvida e eles com a Leyen e o Borrel à frente a dizerem: não, não, não falamos com vocês enquanto lá estiver o Putin.

Afinal, Putin vai ao Médio Oriente, é recebido pelos EAU, Arábia Saudita e Irão, destacando o papel da Rússia como líder geopolítico e mediador da paz. Os povos do Sul global verificam que apesar dos EUA e aliados se unirem económica e militarmente contra a Rússia, falharam. Em janeiro, o FMI previa que a economia russa cairia 2,3%. Na realidade, o crescimento vai ser de 3,5%. Trata-se de mais uma humilhação para os EUA, que face a desastres naturais, exibe perante o mundo o estado “terceiro mundista” das suas infraestruturas.

Perante o colapso da ordem unipolar, é espantoso que a confirmação da derrota venha de propagandistas da NATO, desenhando estratégias com unidades e recursos que não existem. Verificando que com Putin a Rússia não está, nem vai estar, vencida, acham que é preciso não desistir: se a União Soviética foi vencida e desmembrada, o mesmo pode ser feito com o passar do tempo à Rússia. [2] Entretanto, querem preparar nova contraofensiva na primavera e atacar a Rússia a partir de países da NATO. As consequências não são avaliadas nem explicitadas, bastando garantir que morrem 1 000 russos por dia na Ucrânia (?) e que a economia russa é inferior à de vários países da UE (!).

O sr. general, pensa como se estivesse no verão de 1941 ou na primavera de 1992. Mas… o que aconteceu depois? Será que não o entende? Claro que a vontade dos povos não conta para esta gente. Tudo se deve subordinar aos desígnios de domínio global: para quem não se submeta é a guerra.

E será isto o que é urgente os povos da UE/NATO compreenderem – o resto do mundo já o percebeu: a única coisa que os estrategas do ocidente conseguem perspetivar para o futuro é um permanente estado de guerra, crises económicas e sociais.

18/Dezembro/2023

[1] https://resistir.info/varios/multiplicadores_1.html
[2] Dezembro de 1991, fim da União Soviética – início do século XXI e Dezembro de 1991, fim da União Soviética – Porquê?

Este artigo encontra-se em resistir.info

20/Dez/23