Crítica da crítica acrítica (I)
por Daniel Vaz de Carvalho
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Antes que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também
agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão, de confusão,
já que não seja de emenda.
Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes
O diabo é menino, tem mil modos de enganar os homens; e o que é
pior, todos sabemos que nos engana e deixamo-nos ir (
) certo que
já estive cuidando que cobiça deve ser o nome do mais feio diabo
do Inferno e do mais néscio, inda eu digo mal: que néscios
são os que ele engana.
Diogo do Couto, O Soldado Prático.
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1 Não há neoliberais
Já diziam os antigos que a esperteza do diabo era convencer as gentes
que não existia. Assim está o neoliberalismo. Exceptuando
trogloditas políticos e palonços, ninguém se assume como
neoliberal.
São sociais liberais, social-democratas, socialistas,
democratas-cristãos, praticam o neoliberalismo, mas recusam ser
considerados neoliberais. O neoliberalismo transformou-se numa espécie
de sociedade secreta que todos negam, embora defendam devotamente os seus
dogmas.
Adotam as regras da OMC, do FMI, dos tratados ditos de "comércio
livre" e os desta inconcebível UE, enfim, defendem a "economia
de mercado" que afinal é tudo isto. Curiosamente, ilibam-se
mutuamente. Passos Coelho considera Francisco Assis de "esquerda",
Francisco Assis acha que Passos Coelho não é um neoliberal.
Juncker (CE) e Draghi (BCE) são constantemente branqueados,
especulando-se sobre miríficas boas intenções e sintomas
de "mudança" nas suas declarações e iniciativas.
É fácil descrever em que consiste o neoliberalismo, é
difícil encontrar um "neoliberal assumido"! Já pelo
contrário se é fácil encontrar sociais-democratas,
é difícil dizer em que consiste a social-democracia, já
que tanto traiu os seus próprios princípios. Contudo, se
quisermos aprofundar a questão procurar no "Manifesto" o que e
Marx e Engels disseram sobre ao assunto. Resumindo, para a social-democracia,
"os burgueses são burgueses no interesse da classe
operária" (Manifesto).
O neoliberalismo é o mais violento meio de promoção das
desigualdades depois do fascismo. O neoliberalismo é afinal um
neofascismo que tem tido como objetivo colocar os países à
mercê dos interesses de "uma elite financeira criminosa" (Cris
Hedges). Uma "elite" e seus sicários que sem argumentos
chantageiam os povos, subvertem Constituições democráticas
e culpabilizam trabalhadores pelos seus direitos.
Um simulacro de democracia é mantido por eleitos que logo abandonam
programas e promessas. Para porem em prática o seu programa não
lhes resta senão mentir sobre as intenções e tergiversar
sobre as consequências. O que está em causa é o poder
democrático ou o de tratados feitos à revelia dos povos; um poder
que verdadeiramente represente as aspirações populares e
interesses nacionais ou o poder das burocracias da UE e do FMI
O neoliberalismo não foi uma reação á
social-democracia, pois a social-democracia continha todos os germes da sua
degradação reacionária. Na fase do capitalismo monopolista
de Estado, colocavam-se duas vias: uma forma de transição para o
socialismo, ou o domínio do capitalismo monopolista transnacional.
[1]
A social-democracia escolheu esta última hipótese, camuflada com
quiméricas virtudes da sua "economia de mercado". Dizendo-se
de esquerda adotou o neoliberalismo, defendendo-o como "modernidade"
e procedendo como se no social a modernidade se revisse no século XIX.
Também os fascismos se assumiram como "modernidade".
O neoliberalismo exprime não a força do capitalismo e a sua
eficiência, mas a sua decadência, já só travada pela
chantagem, a manipulação, a violência.
2 - Dizem não, mas recusam a negação
Os críticos acríticos, criticam, mas não negam o sistema.
Criticam as consequências, mas aceitam as causas. Ilibam o sistema que as
produz. As dívidas são sagradas, mesmo ilegítimas, ilegais
ou odiosas.
[2]
Os juros são de acordo com o que as agências de rating definem, a
política cambial está à mercê dos interesses que o
BCE e o FMI defendem; a fiscalidade aos oligarcas e os paraísos fiscais
são intocáveis, a taxa Tobin só entrou na sua agenda de
propostas, como forma de manipulação sobre o combate à
especulação e a "regulação financeira".
Tobin propunha 0,5% sobre as transações financeiras, na UE o
objetivo era 0,1% para ações e obrigações 0,01%
para produtos derivados, em 2014 foi recusada porque "seria desequilibrado
para a nossa (?!) praça europeia".
Os "críticos" ignoram tudo isto. Discutem longamente sobre o
que existe, sem considerar a hipótese de um sistema diferente. É
um fixismo escolástico em que as críticas se resumem à
intensidade com que são aplicadas as mesmas medidas.
No essencial, não vão além do que o fascismo salazarista
dizia na promoção da caridade: "que os ricos sejam um pouco
menos ricos para que os pobres sejam um pouco menos pobres". Nas teses
vigentes: "que os ricos sejam mais ricos para que os pobres sejam menos
pobres". A isto se resumem as dissertações sobre a
"confiança" e a "credibilidade" junto dos
"mercados".
Para conseguir a "credibilidade" reduzem-se impostos sobre o (grande
capital), suprime-se a legislação laboral, apelidada de
"rigidez", fazem-se privatizações e apetitosas PPP,
impõe-se austeridade para "satisfazer os nossos compromissos"
pois o Estado tem de se comportar como uma pessoa de bem, mas apenas para os
credores. A confiança e credibilidade perante os cidadãos pouco
conta.
Nos media proliferam "comentadores". A designação
é consequente. De facto, na escolástica medieval não havia
investigadores, apenas "comentadores" dos textos dos mestres,
assimilados como dogmas. Fazem análises, emitem prognósticos,
defendem as "medidas" autorizadas pela UE e se tudo se passa ao
contrário do que dizem, a culpa é de não se terem feito
"reformas estruturais", da "rigidez laboral" e da
"integração europeia" não ter avançado.
As suas gongóricas elucubrações desenrolam-se à
volta das "regras da UE" e da conformidade e submissão
à dogmática vigente As causas que originam e agravam as crises
não são averiguadas. O que sai fora do
nihil obstat
neoliberal é dado como blasfemo e herético. São a
clerezia do neoliberalismo e suas instituições, FMI, BCE, CE, a
troika dos interesses oligárquicos.
Os "críticos acríticos" têm uma
estratégia: fazer boa figura nos debates, mentir o que for
necessário perante a opinião pública, jogando com a sua
perda de memória e a desinformação vigente. A
falácia dos argumentos, o recurso à intriga e à
calúnia substitui-se à verdade dos factos, para tornar
legítimos interesses que socialmente não o são e que os
negócios privados passem por interesse geral. Parafraseando Marx:
"alcançam a sua expressão adequada senão quando
(tanto o que defendem como o que atacam) se transforma em simples figura
retórica".
As regras europeias permitem a corrupção financeira, a
especulação e a usura exercerem-se sem entraves de maior. Mas os
"críticos" o mais que fazem é encenar uma
patética inquietação e desencanto "por esta
Europa". Desejariam o "sonho europeu" inicial, isto
é
um outro neoliberalismo! Porque é isto que está
contido desde a formação da CEE/UE.
[3]
Fantasiam a "responsabilidade empresarial", como medida de
ética social, mostrando total ignorância ou meros preconceitos de
classe quanto ao essencial de funcionamento do sistema capitalista: maximizar o
lucro.
Parecendo interessados em mudar alguma coisa para tudo ficar na
mão dos mesmos expressam uma idílica
"cooperação entre Estados", talvez de raiz keynesiana
por exemplo vertida na carta de Havana (1948) que nem nos tempos
heroicos do keynesianismo foi posta em prática, pois Washington
impôs que fosse deitada para o lixo apesar de assinada por 53
países.
[4]
Os críticos acríticos não vão além de preces
ao capitalismo "regulado" por entidades ditas independentes apenas
motivadas por questões técnicas, como empresas de auditoria,
agências de rating e burocracias de âmbito transnacional.
Porém tanto as suas técnicas como os critérios da sua
independência, só têm validade em conformidade com o modo de
produção e os interesses que defendem.
3 - O confronto com o marxismo
Não é possível compreender o que se passa no mundo sem
recorrer ao marxismo. Mas sem essa compreensão, como acontece aos
críticos acríticos, não é possível encontrar
as soluções necessárias.
Recusam a luta de classes, que o marxismo teria inventado, substituindo-a uma
hipotética colaboração entre capital e trabalho, sob a
égide do grande capital, fazendo seus, talvez sem darem por isso, um
desiderato do fascismo.
O valor-trabalho é negado para que o capitalista seja apresentado como o
"agente principal da produção" e a "economia de
mercado" seja dominante, como se a sua lei da oferta e da procura
não estivesse totalmente subvertida pelos oligopólios e pela
especulação.
Na sua obsessão financeira "dinheiro cria dinheiro", ignoram o
que seja capital fictício. Assim, bolhas financeiras, crises,
imparidades, dívidas, são tratadas como falhas de
regulação.
Para os "críticos acríticos" as questões
sociais, "o crescimento e o emprego", reduzem-se a questões da
falta de "rigor orçamental" e "estímulos aos
investidores" pelo que é necessário dar-lhes
"confiança" e ter "credibilidade".
Quanto ao juro é sempre legítimo e ditado pelas regras (?) dos
"mercados", ignorando que o juro, como Marx afirmou, é sempre
extração de mais-valia aos povos ou repartição da
mesma entre capitalistas.
A forma habitual de denegrir o marxismo é deturpá-lo. Marx nunca
disse que a luta de classes levaria ao socialismo e à supressão
das classes, aliás como se tudo isto fosse hediondo e não um
estado superior do desenvolvimento social e civilizacional.
O que Marx disse foi que a luta de classes era o motor da História.
Quanto ao socialismo tal só seria possível pela
Revolução, entendida como um processo democrático e
popular tendo em vista a superação das contradições
do capitalismo. Um processo cujas fases de transição não
obedecem a modelos, mas sim aos critérios do materialismo
dialético, desenvolvidos com as contribuições no
âmbito do marxismo-leninismo.
No socialismo, permanecem diferentes classes sociais num processo de
desenvolvimento anti-monopolista, anti-latifundiário e
anti-imperialista. Eis o que os "críticos" não podem
nem aceitar nem contestar, por isso deturpam, caluniam. Aliás Marx e
Engels sempre distinguiram entre o pequeno proprietário e a oligarquia
(a burguesia em termos marxistas).
Combatem a luta de classes como uma tenebrosa invenção do
marxismo, fazendo por ignorar que é ela imposta ao proletariado contra a
exploração capitalista, para lhe garantir não só a
sua subsistência, mas a sua dignidade.
Totalmente escamoteada das arengas dos "críticos" é a
guerra de classe não apenas luta movida pelas oligarquias
apoiadas pelo imperialismo contra a democracia e as
transformações progressistas em muitos países, como
ocorreu em Portugal após o 25 de ABRIL, o Plano Condor na América
Latina, golpes na Indonésia e em África, ou mais recentemente no
Paraguai, nas Honduras, na Venezuela, etc.
[5]
Sem vislumbre de coerência ou sensibilidade humana e social os
críticos acríticos acusam de totalitarismo governos
democráticos e progressistas na defesa da sua soberania, sendo os seus
líderes caluniados como ditadores.
Na defesa dos interesses anti-sociais da austeridade, a prosápia dos
"críticos" "atinge a expressão adequada quando se
converte em simples figura de retórica" (Manifesto) reconhecendo
que "o reino da liberdade só começa com o fim do reino da
necessidade". (Engels)
Só por ignorância ou má-fé, pode dizer-se que os
marxistas rejeitam a evolução social por via parlamentar. O que o
marxismo sempre combateu foram as ilusões que a social-democracia
difunde aos trabalhadores com uma "visão idílica da
democracia burguesa" abandonando a luta de classes e a
superação do capitalismo pela via revolucionária.
As soluções que os "críticos" justificam ou
apresentam estão totalmente ao invés das necessidades sociais,
incapazes em absoluto de alterar as causas das crises. Não passam de
meras ilusões e de voluntarismos que consistem na
intensificação das mesmas politicas, mostrando a sua incapacidade
e demissão na abordagem das causas materiais dos problemas.
A defesa de uma economia disfuncional drogada pela especulação
está esgotada. Não é possível qualquer
transformação da sociedade sem mudar a estrutura material, o modo
de produção e os modos de sobrevivência das pessoas. A
questão da propriedade monopolista e dos oligopólios, a
questão do planeamento económico democrático não
pode ser escamoteada.
"Críticos", mesmo os "radicais", alinharam
arrogantemente nas teses em que defender o marxismo era ir para o "caixote
do lixo da História". Porém, caiu-lhes em cima o lixo de
insuperáveis crises capitalistas e a desagregação da sua
UE.
Perante isto aparecem agora a retomar críticas que pela análise
marxista o PCP formulara há muito. Um mínimo de honestidade
intelectual obrigá-los-ia a referir quem primeiro as tinha produzido e
defendido apesar de ignorado e caluniado pelos mesmos que agora as procuram
repetir. Não nos enganemos, são coerentes: trata-se apenas de
fingir que são sensíveis ao descontentamento com o sistema; mais
uma vez, consciente ou inconscientemente, manipulação.
Em qualquer sistema científico, só estudando as causas dos
problemas se encontram os métodos e fórmulas da sua
resolução. Na vida social a dialética consiste em procurar
a contradição na raiz das causas. (Lenine)
É nisto que a crítica marxista se distingue da crítica
"acrítica", prosseguido o processo dialético da
negação da negação: a superação das
contradições do capitalismo tendo em vista um nível
superior dos conceitos de propriedade "baseada na cooperação
e na posse coletiva" (Marx, O Capital, Livro I, tomo II). A propriedade
coletiva, entendida como uma forma superior da propriedade individual um
dos fundamentos da democracia socialista.
[1]
Acerca do capitalismo monopolista transnacional
[2]
Le chiffres de la dette 2015
, p.16, ,
[3] Leia-se Álvaro Cunhal, Passado e futuro da
revolução portuguesa, Ed. Avante
[4]
Préambule à la Charte de La Havane
, Jacques Nikonoff,
[5]
Venezuela: os pontos chave da guerra não convencional contra a Venezuela
, Gustavo Borges Revilla, Diego Sequera,
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