A trágica disfuncionalidade de um sistema que tem de ser
substituído: o capitalismo (2)
por Daniel Vaz de Carvalho
|
|
Muss es sein? (Grave) Es muss sein! Es muss sein! (Allegro)
(Tem de ser? Tem de ser! Tem de ser!)
Beethoven, frase final do quarteto opus 135
|
3 - A UE não existe
Na realidade, o que existe é uma burocracia ao serviço do
país dominante (a Alemanha) e da finança. Uma burocracia que se
sobrepõe ao poder de governos e parlamentos democráticos para
determinar as orientações políticas e sociais,
designadamente através dos orçamentos de Estado, vigiando o
cumprimento das regras neoliberais adotadas, podendo propor a
aplicação de sanções aos "não
cumpridores".
A vontade popular é tanto quanto possível ignorada; os povos
voltam-lhe as costas num conformismo desencantado, mantido pelo receio de
represálias e abstêm-se massivamente nas eleições.
A deriva federalista, sem qualquer correspondência nem em
orçamento, nem num parlamento com reais poderes, nem numa
constituição referendada, serve apenas para maior
centralização burocrática, favorecer a
concentração monopolista e financeira, retirar soberania aos
Estados, sobrepor-se à vontade democrática dos cidadãos.
O "europeísmo" encobre o interesse das burguesias dos
países mais frágeis em obterem proteção, que a UE
garante, contra eventuais políticas progressistas. Desempenham papel
análogo às dos países da América Latina em
relação aos EUA. Tudo isto é mascarado com os
"valores" da UE, alimentando ilusões que representam um
refinado processo de alienação.
A solidariedade europeia é uma fábula, válida para a
finança, desmascarada com as intervenções da troika na
Grécia e em Portugal, a ameaça de sanções a
Portugal em 2015. Com ou sem troika os processos em Espanha, Itália,
França sobretudo com Macron não foram distintos
dos de Portugal e Grécia.
Para além das tragédias pessoais, o Covid-19, veio mostrar a
incapacidade de a UE ser solidária e ter algo para dar aos povos para
além de fórmulas vazias de conteúdo, medidas paliativas
que mantêm as distorções e desigualdades existentes e cuja
preocupação prioritária é apoiar a finança,
criando dívida para os povos, que não se sabe como vai ser paga.
Os Estados mais endividados vão ser tratados como vencidos.
Haverá muito barulho, protestos patrióticos, os
"comentadores" vão fingir que se indignam, desdizer-se,
contradizer-se, conforme as circunstancias. No final, tratarão de
justificar, as verbas que a CE e o BCE irão dar à banca
dívida dos Estados como "muito positivas". Quanto
às insuficientes "ajudas" ou
"subvenções" são apenas o "queijo na
ratoeira" para serem mantidas as "regras" neoliberais e a
burocracia federalista.
Mesmo face ao desastre atual, a UE persiste nos erros preexistentes, enredada
em contradições insanáveis: exige rigor nas contas
públicas, mas mantêm a infame "competitividade fiscal"
dos paraísos fiscais, livre transferência de rendimentos, e o BCE
entrega liquidez à banca em vez de diretamente aos Estados obrigando-os
a submeterem-se aos "mercados". A detenção da
emissão de moeda pela BCE e os procedimentos dos tratados, permitem
exercer um controlo praticamente absoluto sobre o funcionamento das sociedades.
Afinal que "ciência económica" justifica estes atentados
ao desenvolvimento e bem-estar dos povos?
Mantêm-se o euro, concebido para favorecer a Alemanha e parceiros mais
próximos como a Holanda e a Áustria. Os propagandistas que
repetiam que com o euro deixaria de haver problemas de liquidez, foram os
primeiros a dizer em 2009-2010 que o país estava falido, sem uma palavra
de crítica ou indignação pelo facto dos
"mercados" aplicarem taxas de juro de 7% e 10%. A liquidez do euro
afinal era e é só para a finança
Com a crise de 2009 a prioridade da troika foi salvar a finança,
principalmente a alemã e francesa, à custa da
fragilização do Estado (privatizações) e da pobreza
(a austeridade
). A destruição do sector público e as
privatizações eram prioridades, defendidas pelos mesmos que agora
exigem apoios do Estado, subsídios, SNS operacional e sem falhas.
[1]
A Alemanha necessita de uma finança forte, pois as
exportações dependem não só de qualidade
técnica, mas também de favoráveis condições
financeiras. Por isso é ilusório sonhar com "eurobonds"
que iriam nivelar a Alemanha por baixo. Claro que o euro e outras
"regras" da UE servem também para retirar capacidade
competitiva aos outros Estados, designadamente financeira.
Reconheça-se que a Alemanha lidera graças às
condições dadas à sua economia, designadamente pagamento
de dívidas após a 2ª Guerra Mundial e quando absorveu a RDA.
Seria ilusório porém imaginar que em consequência das
disfuncionalidades que atingem os outros países não seria
também afetada.
A UE tem pés de barro e oscila de crise em crise. A UE é
militarmente débil, economicamente frágil e em
estagnação
[2]
, política e socialmente instável se não disfuncional,
pelas contradições entre os seus membros.
O euro é um sucedâneo do dólar, o BCE uma sucursal do FMI,
a sua posição no mundo totalmente desacreditada como vassalo dos
EUA o "atlantismo" via NATO.
Mesmo contra os seus mais evidentes interesses, os países europeus
submetem-se às orientações de Washington, caso da
aplicação de sanções e participação
em guerras de agressão que desacreditam todos os seus
"valores". Recordemos a Jugoslávia, o Iraque, o
Afeganistão, a Líbia, a Síria, o Iémen, o apoio aos
fascistas de Kiev, o silenciamento perante as ditaduras da América
Latina, as intervenções em África. No Leste, países
já se encaminharam para formas fascizantes e estão mais
preocupados em agradar a Washington que a Bruxelas.
Socialmente assistiu-se a um descontentamento generalizado, tentando ser
apaziguado com episódicos recuos. Os conflitos sociais estão
apenas latentes. Protestos como os dos "coletes amarelos" em
França, mostram como os objetivos neoliberais das cúpulas da UE
são insustentáveis, apesar da vigarice política de certa
dita esquerda.
Alterar as regras existentes, seria alterar a estrutura de poder, desligando-se
do imperialismo, recusando as dívidas ilegítimas,
insustentáveis ou ilegais, iniciando transformações
progressistas, que não podem ser confundidas com somente retomar alguns
rendimentos e direitos que estavam a ser retirados.
A UE em vez de paz nas suas fronteiras e cooperação mutuamente
vantajosa com todos os povos do mundo, prefere ser um mero agente da oligarquia
transnacional. Esta UE tem de ser substituída, retomando a soberania
plena dos Estados, estabelecendo formas de democracia com ampla
participação popular.
Claro que são necessárias relações de
cooperação mutuamente vantajosas entre Estados independentes,
através de tratados bi e multilaterais, mas a UE que existe é um
subproduto do imperialismo em decadência.
4 - Que fazer?
Perante as dificuldades que as forças progressistas enfrentam, vem a
propósito o título do livro de Lenine, uma reflexão sobre
as respostas do proletariado ao sistema capitalista.
Portanto, que fazer, perante um sistema que domina pela propaganda e
intimidação.
Um sistema que conta no seu currículo mortes pela fome (milhões
cada ano),
miséria, obscenas desigualdades, conflitos éticos e racismo. Que
se serve do que mais negativo pode existir nos seres humanos (tortura,
terrorismo, fanatismo religioso, ódios étnicos, raciais e
políticos), sofrimentos inauditos em guerras de agressão, para se
impor como "sem alternativa".
Um sistema orientado pela ganância sem limites da oligarquia, apoiada
numa teoria económica, a regressão neoliberal, que não vai
além de uma espécie de "ciência dos
negócios", principalmente financeiros e transnacionais.
Perante uma crise, mesmo as que as suas contradições dão
origem, apressa-se a recorrer ao Estado "despesista", antes alvo de
ataques que visavam privatizar o máximo de recursos do Estado e as
funções sociais. Porém, os problemas quer
económicos quer sociais, sejam o desemprego, a
depressão psicológica, ditaduras, crime organizado, nunca
são atribuídos ao capitalismo, nem é considerado um
"regime".
O Estado só é despesista para o que é social, nunca para
resgatar bancos falidos, para a despesa fiscal dos benefícios ao capital
monopolista e transferências para paraísos fiscais. Os que
pretendiam em 2015 cortar 600 milhões de euros nas despesas do Estado,
agora exigem subsídios e criticam as insuficiências do SNS que
queriam privatizar, etc.
Os media tornaram-se o principal organizador, ou melhor, desorganizador do
proletariado e da sua consciência de classe. Já que, para o
sistema se manter são necessários cidadãos passivos, sem
memória política, isto é, sem perspetiva do passado, que
não compreendam o presente e não antecipem a realidade futura,
como se tivessem perdido a cidadania, que a abstenção eleitoral
comprova, simplesmente "público" de uma propagandeada
sociedade de consumo apenas para alguns.
Qualquer mentira, falsa notícia, acusação absurda, desde
que tenha origem nas centrais de informação do império ou
entidades ao seu serviço como certas ONG passa por verdade
absoluta, sem provas, sem investigação, sem contraditório,
é promovida a caso mediático, A deontologia jornalística
é posta em "quarentena" nestes casos. Quanto maior a mentira
mais gente acredita nela, dizia Goebbels. A calúnia transforma-se,
quando muito, em "polémica", conferindo-lhe credibilidade.
É uma espécie de terrorismo informativo.
De uma maneira geral, os media assumiram o papel de difusores da
alienação. Mas há ainda os subprodutos do jornalismo,
difundido gratuitamente pela televisão ou em jornal, a ideologia da
direita e extrema-direita, em locais públicos como cafés, nos
mais recônditos lugares.
Tudo o que o proletariado obteve no passado foi apenas quando, sobretudo
motivado pelo marxismo, a relação de forças sociais lhe
foi favorável. Porém, sob a ação das crises
processam-se invariavelmente retrocessos civilizacionais e reversão do
que foi anteriormente obtido.
As crises com seu cortejo de falências e desemprego têm servido para
proceder a privatizações, transferir custos (dívida
)
para o Estado, retirar direitos laborais, atacar sindicatos, potenciar a
concentração mono e oligopolista.
Passada a pandemia, ou a sua fase mais crítica, a oligarquia vai tentar
aproveitar ao máximo os seus efeitos, para levar a cabo o seu programa
de aumento da exploração e retirada de direitos. As
cúpulas da UE vão querer por a "Europa" novamente na
"ordem" estabelecida nos tratados e desígnios que considera
"justos", independentemente das aspirações populares.
Mesmo agora, grandes oligopólios despedem trabalhadores (o Estado que
trate deles), enquanto distribuem centenas de milhões de euros aos
acionistas. A sua "ciência económica" justifica tudo
isto.
A vida mostra a que ponto a ortodoxia vigente é absolutamente incapaz de
resolver quaisquer crises, mesmo as provocadas pela sua prática.
Como se sabe, a melhor maneira de prever comportamentos futuros é
compreender os do passado. Assim, coloca-se a questão: será
possível um outro capitalismo?
A social-democracia acredita que sim, por isso torna-se o recurso
transitório para salvar o sistema capitalista sempre que a
correlação de forças sociais lhe é
desfavorável. Nos casos limite, o grande capital não hesita em
avançar para fórmulas fascistas, mais ou menos disfarçadas
de democracias formais.
A social-democracia
nas suas variantes sempre se caracterizou por recusar o marxismo. Podem falar
em desigualdade, mas não refletem sobre isso ser um resultado da luta de
classes, nem sobre as sua próprias cedências, nem sobre as
contradições antagónicas do capitalismo.
Inicialmente, a social-democracia considerava que o socialismo podia ser
alcançado por meio de reformas. Na realidade, tratou-se sempre de salvar
o capitalismo, não superando o seu modelo de sociedade, com a agravante
que para a social-democracia contemporânea as "reformas"
perderam o cariz ético inicial, para se tornarem abertamente
reacionárias.
O oportunismo da social-democracia
toca as raias do abandalhamento ideológico, como se viu com o Syriza na
Grécia, o PSOE em Espanha, o PS em França, o PSD e grande parte
do PS em Portugal. Não esquecendo as ilusões à volta de
Bernie Sanders nos EUA.
Alguma social-democracia
dita de esquerda, não apoia o mercado livre, mas também é
contra a planificação (estatal e democrática), mas a
cadeira onde se quer sentar não existe. A adoção de
"causas" serve para disfarçar as confusas bases
ideológicas e indefinir prioridades. A esta corrupção
ideológica não ficaram imunes partidos com passado de
heroísmo e programas com uma visão marxista da sociedade.
As dificuldades das forças progressistas são muitas e não
podem ser iludidas. É necessário substituir a
orientação capitalista para a maximização do lucro
monopolista e da especulação bolsista, por uma economia baseada
na máxima satisfação das necessidades sociais. Uma
economia estruturada na planificação democrática, o que
implica a detenção pelo Estado dos principais sectores
básicos e estratégicos da economia.
Substituir a submissão ao imperialismo, pela plena soberania nacional
baseada na democracia participativa e
relações mutuamente vantajosas com todos os povos. Substituir a
subordinação à burocracia da UE e aos ditames de
potências dominantes, pela cooperação entre os povos
europeus em pé de igualdade.
Tarefa imensa nas condições atuais, que começa, quanto a
nós, pelo esclarecimento militante. O marxismo, permanece o verdadeiro
guia do proletariado, sendo por isso omitido, deturpado ou caluniado.
O que as oligarquias
mais temem é que a sua "democracia liberal" seja
substituída por formas de democracia participativa. Daí que o
esclarecimento militante, seja necessário nesta conjuntura
dramática a vários títulos, opondo-se à
trágica disfuncionalidade de um sistema que terá de ser
substituído: o capitalismo. Tem de ser? Tem de ser! Tem de ser!"
[1] Representantes do império em inspeção a uma
província: "IMF Country Report 12/77",
http://www.odiario.info/?p=2458
[2] Entre 2001 e 2019 o crescimento médio anual da UE foi de 1,5%: na
Zona Euro 1,3%, na Alemanha 1,3%, França 1,28%, Espanha 1,6%,
Itália 0%, Grécia 0%, Portugal 0,6%. (
Dados
AMECO
)
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
.
|