Do fim da URSS à atual russofobia
Notas de Dmitri Rogozin, um embaixador russo junto à NATO (1)

por Daniel Vaz de Carvalho

"Sem aprendermos a verdade sobre este período não temos futuro"

1 - Acerca da URSS e do seu fim
2 - Gorbachov, a Perestroika e Yeltsin

. Há 30 anos, desenrolavam-se os acontecimentos que moldam os tempos atuais. A social-democracia exultava, pouco se importando em deixar cair a sua máscara e assumir abertamente em nome do "novo pensamento" ou do "socialismo do século XXI", o neoliberalismo, desdobrando-se em argumentos contra o "totalitarismo". Estendia a passadeira ao neofascismo e às agressões imperialistas

O livro de Dmitri Rogozin (DR) [1] permite-nos dois níveis de análise:   por um lado o cinismo de potências que se qualificam como o poder democrático e pretendem determinar como os povos têm de viver; por outro como e porquê um partido como o PCUS caiu no atoleiro moral e ideológico que DR descreve. Que experiência, que lições há a retirar dos testemunhos de DR em ambos os aspetos? São temas sobre os quais há ainda muito para refletir.

Apenas desde o 11 de setembro de 2001, estimam-se 5 a 7 milhões de mortes [2] em guerras pela "democracia" e os "direitos humanos". A social-democracia pactuou ou colaborou ativamente com todas elas. É deste "abominável mundo novo" de crises, insegurança e guerra que nos fala DR. Vale a pena recordar.


Dmitri Rogozin, frequenta a Faculdade de Jornalismo de Moscovo, Departamento Internacional, é membro do Konsomol onde desempenha funções de alguma relevância em contactos internacionais de juventude. No quarto ano da faculdade é convidado a ingressar no KGB. Confessa o seu entusiasmo pelo convite, sonhando com feitos heroicos pela Mãe-Pátria.(35) Com isto verificamos que o KGB era uma instituição prestigiada na URSS e não a versão de entidade odiosa que envergonharia qualquer jovem honesto de a ela aderir.

No final do curso, é enviado para Cuba, sem contudo lhe atribuírem qualquer tarefa específica. Aproveitou para ler e estudar elaborando duas teses de doutoramento: "A guerra psicológica dos EUA contra Cuba" e "Os paradoxos do Presidente Mitterrand".(36)

Regressa quatro anos depois em 1986 "desejoso de começar a trabalhar para os órgãos de Segurança do Estado". Tal não vai acontecer: é impedido de entrar oficialmente para o KGB devido a um decreto "contra o nepotismo" dado que o seu padrasto era coronel do KGB. "Foi aqui que os meu sonho foi feito em pedaços".(36)

Embora convidado a ingressar no PCUS, a chamada Perestroika desiludia-o: "a atmosfera geral de mentiras à minha volta desencorajaram-me de prosseguir e decidi deixar o Konsomol,(48)

A partir daqui torna-se membro de várias organizações e partidos de cariz nacionalista, "não-comunistas", até ser chamado pelo Presidente Putin para desempenhar várias funções diplomáticas como seu enviado especial e também embaixador junto da NATO.

1 - Acerca da URSS e do seu fim

A URSS tinha especialistas, cientistas, académicos de primeira classe. Tudo o que havia a fazer era ser recetivo a essas pessoas no sentido de modernizar a economia e a ciência militar. Quando Gorbachov foi levado ao poder em 1985 nós tínhamos todas as ferramentas necessárias para transformar e consolidar essas forças se tivesse querido livrar-se dos ladrões e traidores que constituíam o governo.(22)

Muitas vezes me perguntei porquê a URSS se tinha tornado uma super potência sob Estaline e por que tinha começado a perder posição após a sua morte. (...) Muito simples, sob Estaline a ninguém da nomenclatura era permitido roubar o Estado. Este é talvez o maior mérito da sua era e a principal razão da sua imorredoura popularidade atualmente.(55)

A ideologia marxista conduziu milhares de pessoas na fé do "brilhante futuro do Comunismo", levou a nação a grandes projetos como o Plano Goelro, industrialização, rápida reconstrução após as destruições da agressão nazi, ganhou o estatuto de potência nuclear. pesquisa espacial, campanha das terras virgens, o caminho de ferro Baikal-Amur. A minha geração está infinitamente grata aos nossos pais e avós por defenderem a liberdade e a soberania do país e levá-lo ao estatuto de potência mundial.(117)

Na URSS as pessoas tinham confiança no futuro, podiam encarar expectativas para si e para o seu país. Tudo isto foi ridicularizado em grande escala por jornalistas e cómicos na TV durante a Perestroika. (196)

De qualquer forma, durante os anos 70 o mito do comunismo vindouro foi desperdiçado e o povo soviético verificou que a liderança do PCUS regredia, afundando-se numa teia de mentiras e privilégios. (117)

A URSS evoluiu para um poder global devido à industrialização em larga escala, não devido ao elevado volume de petróleo e gás que exportava. Nos anos 70 crescemos viciados em exportações e como todos os vícios deixamos de trabalhar duro e olhar para nós próprios adequadamente.(141)

O meu país podia ter sido poupado ao trágico destino que sofreu. Não foram causas materiais nem fatores económicos a principal causa do declínio e morte da superpotência. A URSS não morreu por lojas vazias ou patetices como agentes 007, nem pelas questões sem sentido de dissidentes desejosos de se tornarem emigrantes famosos no Ocidente, nem mesmo pelos tons dececionantes da propaganda soviética. Mesmo a despeito de todos os problemas nas estruturas defensivas, as Forças Armadas eram perfeitamente capazes de responder a qualquer agressor externo que quisesse atingir a soberania do Estado soviético.(20)

Medidas decisivas introduzidas por um forte líder nacional teriam sido apoiadas pelos povos da URSS, que desejavam preservar as boas realizações da estrutura soviética. No referendo realizado em março de 1991, apesar da fórmula rebuscada arranjada por Gorbachov, a grande maioria da população votou a favor da manutenção da URSS.(25)

A URSS foi perdida por vigaristas políticos e demagogos. A nação foi traída pelos líderes que erigiram o comunismo como partido privado, desprezando o povo. Muitos destes governantes conduziram movimentos separatistas e participaram nas calamidades do final dos anos a 80 e início dos anos 90, levando à desintegração do Estado.(20)

2 - Gorbachov, a Perestroika e Yeltsin

Gorbachov é popular no Ocidente pelas mesmas razões que é criticado ou mesmo odiado por muitos no seu país.(21) Tivéssemos outro líder que não Gorbachov e teria detetado os sintomas de gangrena que afetavam os círculos internos do Partido. Mas a liderança do Partido era constituída quer por fracos do tipo Gorbachov quer de traidores de direita e camaleões ou separatistas nacionalistas que resolveram destruir as estruturas locais do Estado e arrebanhar o poder. (23) Fraco e ambivalente o carácter de Gorbachov apenas acelerou as forças centrífugas.(24)

Yeltsin pelo contrário era de um tipo completamente diferente. Este obstinado e carismático déspota sabia o que estava a fazer. Ele traiu e vendeu a Rússia.(26)

Note-se porém que Gorbachov colaborou em tudo isto, fosse de forma ativa fosse silenciando o que equivaleu a consentimento ou concordância quando podia e devia falar. DR atribui à sua fraqueza, digamos à sua falta de carácter. Não é por acaso que assumiu funções com profissões de fé leninistas para depois confessar no ocidente que tinha sido a forma de impor a "mudança", isto é, destruir o socialismo e a URSS.

Os hipócritas pais da Perestroika implantaram um tom de "conversa fiada" e sentimental nas relações internacionais, seduzidos pelos habilidosos psicologistas do Ocidente que inventaram histórias como "o novo pensamento" e "valores humanos universais" para quebrar as fracas e demagógicas defesas dos políticos soviéticos.(40)

No início dos anos 90, Yeltsin despediu cerca de 900 quadros diplomáticos altamente qualificados enfraquecendo a posição da Rússia na arena da política global. O mesmo aconteceu no Ministério da Defesa e no KGB em que os derradeiros profissionais foram postos na rua. O Soviete Supremo da Federação Russa era o último obstáculo no caminho deste gang que dividiu a URSS, mas o Soviete Supremo tinha apenas mais dois anos de vida.(67)

Tanques do nosso país dispararam sobre o Parlamento Russo que não tinha nem armas nem defensores. Centenas foram mortos ou esmagados pelos tanques.(133) Nesse mesmo dia foram realizados disparos do telhado da embaixada dos EUA sobre manifestantes. O exército estava proibido de intervir.(135)

Recordemos que tudo isto foi considerado no Ocidente (leia-se NATO e aliados) como uma vitória da justiça e da democracia, erigindo Yeltsin como um grande democrata.

Yeltsin e o seu governo liberal de poder absoluto quis eliminar o Soviete Supremo porque detinha poderes executivos. Podia opor-se aos planos de usurpação dos ativos do Estado e à sua livre distribuição por oligarcas. Tinha o Poder de demitir qualquer ministro e instaurar um processo contra ele.(135)

Yeltsin tudo fez para que sob o seu poder não pudesse haver nem Constituição, nem lei, nem honra, nem moral na Rússia. (134) Encorajou as Republicas nacionais a "tomarem tanta soberania quanto pudessem absorver". (145) Entregou os interesses russos, terra, propriedades, capital, populações, aos apetites dos novos Estados independentes através da escalada de agressões fascistas.(83)

"Esqueceu-se" de negociar um corredor de trânsito para 1 milhão de cidadãos de Kalininegrado, deixando-os sujeitos à arbitrariedade das autoridades dos Estados Bálticos, que elaboraram "listas negras" de cidadãos russos que não podiam entrar na "Europa", incluindo desde "mulheres com bom aspeto" a pessoas com insignificantes acidentes de viação. (265)

Yeltsin criou um Estado gangster imerso no roubo e na caça ao poder. A gente de Yeltsin não se importava com o destino das diferentes nações dentro da Federação Russa, desprezavam a memória histórica. Além disto tinham interesse em criar na Chechénia um enclave criminoso, uma espécie de buraco negro através do qual pudessem transferir os lucros do petróleo roubado, tráfico de armas, imprimir e distribuir dinheiro falso. A ganância criminosa do governo de Yeltsin e o geral declínio da moralidade foram os ingredientes da tragédia da Chechénia.(144)

Yeltsin traiu os interesses russos de novo, quando assinou uma concessão de 20 anos pela base naval de Sebastopol, que nunca fora entregue à Ucrânia, nem em 1948, nem em 1954, nem em 1991. Sebastopol sempre foi parte integrante da esquadra do Mar Negro.(97)

Não se consegue entender como foi possível os líderes soviéticos sancionarem a reunificação da Alemanha sem receberem significativos dividendos políticos e materiais (excluindo os pessoais) mas pelo contrário tornando o país endividado ao Ocidente. Como foi possível acreditar nas palavras dos americanos que fizeram promessas a Gorbachov de que a Alemanha reunificada nunca se juntaria à NATO e esta não se expandiria para Leste. Em qualquer outro país falsos negociadores como estes teriam sido linchados, mas na Rússia de então ladrões e traidores esperavam não apenas perdão mas glória e respeito.(44)

Nos Estados Bálticos neonazis e veteranos das Waffen SS marchavam pelas ruas, Gorbachov desviava o olhar perdendo o controlo do governo e do país. Na Geórgia e na Arménia armamento era retirado dos depósitos e distribuído aos esquadrões de rebeldes separatistas com a conivência das entidades partidárias e do governo.(53)

Estes acontecimentos, particularmente os de agosto de 1991 (ataque ao Soviete Supremo), provam plenamente a cobardia de Gorbachov e a natureza manhosa de Yeltsin, a sua prontidão para sacrificar o futuro do país e as vidas do seu povo pela disputa do seu próprio poder.(63)

A Perestroika foi fruto dos burocratas do PCUS para manterem o poder sobre os ativos do Estado num ambiente de caos e desintegração. Para desestabilizar o país, experientes manipuladores dirigiram a onda de chauvinismo étnico contra a URSS, promovendo-se como líderes nacionais. Quisessem os dirigentes do PCUS preservar o grande império e não teria havido lugar para Yeltsin. Simplesmente não teria existido. O seu poder pessoal só existiu devido à criminosa solidariedade para com as suas ações por parte da nomenclatura entrincheirada nos governos locais e no Partido.(64)

Em 1998 a Duma formou um Comité para a destituição de Yeltsin alegando negligência, traição e corrupção que tinham levado à guerra na Chechénia. Tal não se verificou por escassa margem de votos. A Rússia enfrentava então o colapso financeiro sendo formado um novo governo. Em agosto de 1999 o então chefe do FSB (sucessor do KGB) Vladimir Putin torna-se primeiro-ministro. Em dezembro Yeltsin demite-se e Putin torna-se Presidente escassos três meses depois.(10).

Continua

[1] The hawks of peace , Glagoslav Publications, Londres, 2013.   Entre parêntesis os números da páginas a que se referem os textos.   Em itálico algumas notas ou comentários aos textos de DR.
[2} Combien de millions de personnes ont-elles été tuées dans les guerres menées par les États-Unis après le 11 septembre? (Consortium News) Nicolas J.S. Davies, www.legrandsoir.info/...


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04/Set/18