Pela primeira vez
Estatísticas fiáveis sobre a distribuição da
riqueza no mundo
Estudo do World Institute for Development Economics Research (WIDER)
por Michael R. Krätke
[*]
Os pobres e os muito ricos
Foi há mais de mais de 250 anos que a Academia de Dijon (1754)
lançou uma pergunta e ofereceu um prémio a quem conseguisse
respondê-la: Qual é a origem da desigualdade entre os homens?
Será porventura a consequência de uma lei natural? Jean Jacques
Rousseau interessou-se pela pergunta, e em resposta escreveu a sua obra
Sobre a origem da desigualdade entre os homens.
Como apontou Rousseau, a desigualdade social e política não
é natural, não deriva da vontade divina, nem sequer é uma
consequência da desigualdade natural entre os homens. Pelo
contrário, a sua origem é o resultado da propriedade privada, da
apropriação privada da riqueza do mundo inteiro, e dos
benefícios privados derivados dessa apropriação. Desde
esse momento, tentar explicar a origem da desigualdade social tornou-se uma
questão central para as ciências sociais, e também desde
essa altura, que a crítica à sociedade burguesa aponta tanto para
mostrar a estrutura da desigualdade social, como a da falta de liberdade
intimamente ligada à desigualdade de uma imensa maioria das
pessoas por todo o mundo.
É já bem conhecido que actualmente milhares de milhões das
pessoas estão condenados a subsistir com menos de um dólar por
dia, e que a metade da população mundial vive com apenas 2
dólares diários. Também sabemos que a desigualdade mundial
aumenta rapidamente, e que a desigualdade entre "pobres" e
"ricos" dentro dos países está a aumentar. Nos tempos
de Rousseau de acordo com os dados conhecidos a desigualdade
económica entre as diferentes regiões do mundo era menor. Desde
1800 a situação mudou radicalmente. Aproximadamente a partir do
ano 1900 alargou-se o fosso entre o nível de rendimento médio nos
países ricos do "norte", e o dos países pobres do
"sul", até chegar a uma proporção de 1 para 4.
Um século depois, na era da globalização, a
proporção é de 1 para 30.
O ferro em brasa
Por conseguinte, está a aumentar o fosso entre ricos e pobres, ainda que
ultimamente pareça ter diminuido o número de pobres em termos
absolutos. Isto deve-se principalmente à ascensão dos
"países emergentes" como a China, Índia, Brasil, Sul
Coreia e Turquia. Porém, agora, tal como antes, existem 2,8 mil
milhões de pobres no mundo inteiro, e 1,3 mil milhões vivem na
miséria. Na Alemanha, um dos países mais ricos, o número
de pobres cresceu até chegar a 13,5% da população, como
entretanto ficou explícito em dois relatórios do governo sobre a
pobreza. Uma boa prova disso está na incapacidade dos sete anos do
governo vermelho-verde.
Os estudos científicos sobre a distribuição da riqueza e
da pobreza são escassos. Os relatórios mais actuais sobre a
evolução dos rendimentos datam de 1998. A medição
da desigualdade social mundial nunca foi um assunto prioritário para o
Banco Mundial ou para o FMI. Apenas o foi para as Nações Unidas.
O relatório sobre o Desenvolvimento Social Mundial de 2005 considera que
a crescente desigualdade económica entre as diferentes regiões do
mundo e dentro dos próprios países é a causa decisiva da
violência e do perigo de guerra (civil), e duvida que seja
possível aproximar-se e, menos ainda, alcançar a meta para o
milénio fixada pela Conferência Mundial de Copenhague de 1995:
reduzir a pobreza mundial à metade.
Pouco antes do fim do ano, o Instituto Mundial para a
Investigação do Desenvolvimento Económico World
Institute for Development Economics Research (WIDER) da Universidade das
Nações Unidas em Helsínquia, publicou um novo estudo, no
qual pela primeira vez se investiga de modo detalhado a
distribuição do rendimento, da riqueza e da sua
evolução até ao ano 2000, englobando cerca de 94% da
população mundial. Com este estudo, inicia-se a
eliminação de uma grande lacuna na investigação, de
que se queixara o governo federal alemão no seu relatório de 2006
sobre a pobreza. É do conhecimento geral que qualquer
investigação que incida sobre a riqueza dos ricos e super-ricos
de todo o mundo assim como sobre as fortunas privadas ou sobre o
capital, bases do poder mundial actual será sempre um ferro em
brasa do qual a ciência social oficial tem sistematicamente afastado os
dedos.
Há muito que sabemos através dos estudos nos diferentes
países que em geral a distribuição da riqueza
é ainda mais desigual do que a dos rendimentos. Para ter uma imagem mais
exacta da real desigualdade económica é necessário
analisar ambos os parâmetros, isto é, riqueza e rendimento. Os
investigadores do estudo do WIDER fizeram-no pela primeira vez. Graças
ao seu trabalho pioneiro, contamos finalmente com dados medianamente
fiáveis sobre a relação entre ricos e pobres, e sobre a
riqueza no mundo de hoje. Investigou-se a distribuição global da
riqueza na população adulta em função do rendimento
familiar (liquido, após deduções). O estudo chega
até ao ano 2000; dados mais recentes não estão
disponíveis à escala planetária. O WIDER só
pôde contar com estatísticas completas para um número
relativamente pequeno de 18 países. Para um conjunto bem maior de outros
teve de se contentar com dados obtidos de inquéritos, os quais, como
é obvio, têm um tremendo inconveniente: as dívidas e o
património financeiro (particularmente o imobiliário) em geral
não são apanhados na sua totalidade, mas sim num nível
muito inferior. Isso está reflectido nas estimativas dos autores, que se
viram obrigados a extrapolar para os 150 países, os dados obtidos das
estatísticas do conjunto de 38 países.
Na primeira divisão dos ricos
Do material recolhido conclui-se o seguinte: cerca de 90% da riqueza mundial
(rendimento familiar líquido) está concentrado na América
do Norte, na Europa e na região pacífico-asiática
(Japão e Austrália). Só ao norte do continente americano,
com 6% da população adulta mundial, corresponde um terço
do rendimento mundial; à Índia, com mais de 15% da
população adulta mundial, pelo contrário, corresponde
apenas um escasso 1%. Porém, também entre os países ricos
do norte o nível de riqueza varia de um modo significativo. Dos 1% dos
rendimentos familiares privados mais elevados em termos mundiais, à
Irlanda corresponde 10,4%; à Suíça, não menos que
34,8%; e aos EUA (devido à notória incompletude dos dados acerca
dos muito ricos), "só" uns 33%. A isto há que
acrescentar que aos grupos situados no topo dos 10% dos rendimentos mais
elevados nos EUA corresponde quase 70% do rendimento familiar privado de todo o
país; na China, os 10% do topo detêm exactamente 40% do rendimento
familiar privado.
Quem quiser pertencer à primeira divisão dos ricos deste mundo,
deverá ter uma fortuna superior a 500.000 dólares. Este grupo de
topo compreende um total de cerca de 37 milhões de adultos. No entanto,
desde o ano 2000, a soma mínima para aceder a este grupo aumentou,
segundo se estima, uns 32%.
Daqui se conclui que uns bons 85% da riqueza mundial pertencem ao decil mais
elevado. Para estar nesse grupo de 10% de eleitos, é necessário
possuir, em média, quarenta vezes mais que o cidadão médio
do mundo. Na metade de baixo dessa pirâmide, no entanto, a metade da
população mundial adulta tem de se conformar com 1% da riqueza
mundial.
Tomemos a famosa tarte, o prato predilecto de senhoras e cavalheiros
conservadores que se querem convencer, e convencer-nos, de que qualquer
redistribuição não tem sentido, na medida em que, como
é óbvio, não se pode distribuir mais do que se produz.
Transportemos a estrutura da distribuição mundial da riqueza para
um grupo de dez pessoas que repartem a tarte tradicional. Temos então de
imaginar um cavalheiro que reclama para si 99% da tarte, enquanto os restantes
nove têm de dividir entre si o sobrante, ou seja, 1%. Se a tarte fosse
redistribuída, o cavalheiro não morreria, e os outros nove
ficariam muito melhor.
Onde estão os ricos e os muito ricos da Terra? A América do
Norte, a Europa, o Japão e a Austrália já foram
mencionados. Nos EUA, por exemplo, vivem 37% dos muito ricos; a seguir vem o
Japão com 27%. Ao Brasil, Índia, Rússia, Turquia e
Argentina, corresponde-lhes, a cada um, um escasso 1% do grupo de topo global;
a China já tem uns 4,1% dos cidadãos mais ricos no mundo. De
acordo com o estudo WIDER, no ano 2000 já havia 13,5 milhões de
pessoas que detinham mais de um milhão de dólares (notoriamente
mais do que indicam os estudos dos administradores de fortunas Merrill-lincham
e Forbes), e exactamente 499 fortunas de mais de mil milhões de
dólares. Agora serão bastante mais.
12/Janeiro/2007
[*]
Analista político especializado em problemas sociais e económicos,
colaborador do semanário alemão
Freitag.
A versão em castelhano encontra-se em
http://www.sinpermiso.info/
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Tradução de MJS.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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