O modelo da propaganda revisitado

por Edward S. Herman [*]

Os filtros dos media 'de referência' Em A fabricação do consentimento: A economia política dos media (Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media) (Pantheon, 1988) Noam Chomsky e eu avançámos um "modelo de propaganda" como quadro para a análise e o entendimento de como os media de referência dos EUA trabalham e porque actuam como o fazem. Estávamos há muito impressionado pela regularidade com que os media operam dentro de suposições restritas, dependendo fortemente e acriticamente de fontes de informação da elite e participando em campanhas de propaganda que ajudam os interesses da elite. Ao tentam explicar porque eles assim o fazem procurámos factores estruturais como as únicas raízes possíveis deste comportamento sistemático e padrões de desempenho.

O modelo de propaganda estava e está em contraste nítido com as explicações prevalecentes do comportamento e desempenho dos media de referência (mainstream) – tanto a liberal como a conservadora. Estas abordagens subestimam factores estruturais, pressupondo geralmente sua pouca importância ou impacto positivo devido à multiplicidade de agentes e, portanto, competição e diversidade. Os analistas liberais e conservadores enfatizam a conduta jornalística, a opinião pública e as fontes de notícias como as principais variáveis determinantes. Contudo, os analistas são inconsistentes a este respeito. Quando discutem sistemas de media em estados comunistas ou autoritários, a ideia de que jornalistas ou opinião pública podem suprimir a força daqueles que possuem e controlam os media é afastada como absurda e considerada mesmo uma apologia da tirania.

Também há uma diferença característica entre as implicações políticas do modelo de propaganda e a sabedoria convencional. Se factores estruturais modelam o contorno vasto do desempenho dos media e se esse desempenho é incompatível com uma cultura política verdadeiramente democrática, então é necessária uma mudança básica na propriedade, organização e propósito dos media para alcançar uma democracia genuína. Nas análises convencionais uma tal perspectiva é politicamente inaceitável e argumentos em seu apoio raramente são sujeitos a debate.

Neste artigo descreverei o modelo de propaganda, tratarei de algumas das críticas que foram apontadas contra ele e discutirei como o modelo se mantém aproximadamente uma década após a sua publicação. [1] Também apresentarei alguns exemplos de como o modelo de propaganda pode ajudar a explicar a natureza da cobertura pelos media de tópicos políticos importantes na década de 1990.

O modelo de propaganda

O que é o modelo de propaganda e como funciona? Os factores estruturais cruciais decorrem do facto de que os media dominantes estão firmemente inseridos no sistema de mercado. Eles são negócios à procura de lucro, possuídos por pessoas muito ricas (ou outras companhias); são financiados em grande medida por anunciantes que são também entidades em busca do lucro e que querem que os seus anúncios apareçam num ambiente propício às vendas. Os media também estão dependentes do governo e de grandes firmas de negócios como fontes de informação, e tanto a eficiência como considerações políticas, e frequentemente interesses sobrepostos, fazem com que um certo grau de solidariedade prevaleça entre o governo, grandes media e outros negócios corporativos. O governo e grandes negócios nao-media também estão melhor posicionados (e são suficientemente ricos) para serem capazes de pressionar os media com ameaças de retirada de publicidade ou licenças de TV, processos por difamação e outros modos de ataque directo e indirecto. Os media também estão constrangidos pela ideologia dominante caracterizada por forte anti-comunismo antes e durante a era da Guerra Fria e foi mobilizada muitas vezes para evitar que os media de criticassem ataques a pequenos estados rotulados como comunistas.

Estes factores estão todos ligados, reflectindo a capacidade em múltiplos níveis de poderosas entidades de negócios, governamentais e colectivas (ex.: Business Roundtable; U.S. Chamber of Commerce; lobbies industriais e grupos de frente) para exercer poder sobre o fluxo de informação. Notámos que os cinco factores envolvidos – propriedade, publicidade, fontes, crítica e ideologia anti-comunista – actuam como "filtros" através dos quais a informação deve passar e que individualmente e muitas vezes de modo cumulativo eles ajudar a moldar as escolhas dos media. Enfatizámos que os filtros actuam principalmente através da acção independente de muitos indivíduos e organizações; estas frequentemente, mas nem sempre, partilham uma visão comum de questões e interesses semelhantes. Em suma, o modelo de propaganda descreve sistema de controle e processamento via mercado descentralizado e não-conspiratório, embora por vezes o governo ou um ou mais actores privados possam tomar iniciativas e mobilizar a manipulação coordenada da elite de uma questão.

Campanhas de propaganda podem ocorrer só quando em consonância com os interesses daqueles que controlam e administram os filtros. Exemplo: todos estes administradores aceitam a visão de que a medida de força do governo polaco sobre o sindicato Solidariedade em 1980-81 era extremamente valiosa em termos de notícia e merecia severa coordenação; enquanto os mesmos interesses não acharam que a igualmente brutal medida de força do governo militar turco contra os sindicatos na Turquia, cerca da mesma época, fosse valiosa em termos de noticiário ou repreensível. Neste último caso, o governo dos EUA e a comunidade de negócios gostava da posição anti-comunista do governo militar e da abertura de portas em política económica; e a medida de força contra os sindicatos turcos tinha o mérito de enfraquecer a esquerda e manter salários baixos. No caso polaco, pontos de propaganda podiam ser marcados contra um governo apoiado pelos soviéticos e podia ser exprimida preocupação por trabalhadores cujos salários não eram pagos pelos patrões do Mundo Livre!

A adaptação desta dicotomia a interesses corporativos e à ideologia anti-comunista é óbvio.

Utilizámos os conceitos de vítimas "valiosas" e "não valiosas" para descrever esta dicotomização, com um traço de ironia, pois o tratamento diferencial era claramente relacionado com vantagens políticas e económicas ao invés de qualquer coisa como valor real. De facto, os sindicalistas polacos rapidamente deixaram de ser valiosos quando o comunismo foi derrubado e os trabalhadores estavam a lutar contra um regime neoliberal orientado pelo ocidente. Agora, o trabalho de operários polacos, tal como aquele de operários turcos, já não passa através dos filtros do modelo de propaganda. Ambos são vítimas sem valor nesta altura.

Nunca afirmámos que o modelo de propaganda explica tudo ou que mostra a omnipotência dos media e eficácia completa na manufacturação do consentimento. É um modelo de comportamento e desempenho dos media, não dos seus efeitos. Apontámos explicitamente para os media alternativos, para fontes de informação das bases e para o cepticismo público acerca da veracidade dos media como limites importantes quanto à eficácia dos media no serviço de propaganda – e instámos ao apoio e utilização mais eficaz destas alternativas. Frequentemente apontámos para o desacordo do público geral para com os media e a elite quanto à moralidade da Guerra do Vietname e a desejabilidade do assalto à Nicarágua na década de 1980 (dentre outros assuntos). O poder do sistema de propaganda dos EUA repousa na sua capacidade para mobilizar um consenso da elite, dar a aparência de consentimento democrático e criar bastante confusão, incompreensão e apatia na população geral a fim de permitir que os programas da elite sigam em frente. Também enfatizámos o facto de que muitas vezes há diferenças dentro da elite, o que abre espaço para algum debate e mesmo ataques ocasionais (mas muito raros) sobre as intenções, bem como os meios tácticos de a elite alcançar os seus fins.

Embora o modelo de propaganda fosse geralmente bem recebido na esquerda, alguns queixaram-se de um impulso alegadamente pessimista e da implicação de que não havia esperança de ultrapassar as disparidades. Uma objecção estreitamente relacionada era a sua inaplicabilidade a conflitos locais onde a possibilidade de resistência efectiva era maior. Mas o modelo de propaganda não sugere que vitórias locais e mesmo maiores sejam impossíveis, especialmente onde as elites estão divididas ou têm interesse limitado numa questão. Exemplo: a cobertura de questões como controle de armas, oração nas escolas e direito ao aborto pode muito bem receber um tratamento mais variado do que, digamos, comércio global, tributação e política económica. Além disso, campanhas bem organizadas em favor do trabalho, direitos humanos ou organizações ambientais a combaterem contra negócios locais abusivos podem por vezes obter cobertura positiva dos media. De facto, gostaríamos de pensar que o modelo de propaganda sugere mesmo onde e como activistas podem melhor empregar seus esforços para influenciar a cobertura dos media de referência de certas questões.

O modelo sugere que os media de referência, como instituições da elite, habitualmente estruturam as notícias e permitem o debate só dentro dos parâmetros dos interesses da elite; e que quando a elite está realmente preocupada e unificada e/ou quando cidadãos comuns não estão conscientes do seu próprio interesse numa questão ou estão imobilizados pela propaganda eficaz, os media servirão interesses da elite de forma intransigente.

Críticas dos liberais e académicos "de esquerda"

Muitos liberais e um certo número de analistas académicos à esquerda não gostaram do modelo de propaganda. Alguns deles consideraram repugnante uma condenação generalizada de um sistema no qual desempenham um papel respeitado. Para eles, trata-se de um sistema basicamente são, suas desigualdades de acessos são lamentáveis mas toleráveis, seu pluralismo e competição respondem efectivamente a exigências do consumidor. No modo pós-modernista, as análises globais e soluções globais são rejeitadas e ridicularizadas; lutas individuais e pequenas vitórias são enfatizadas, mesmo por pensadores nominalmente de esquerda.

Muitas das críticas efectuadas mal escondem a ira. E na maior parte o modelo de propaganda foi descartado com uns poucos clichés superficiais (conspiratório, simplista, etc) sem a mínima apresentação do modelo ou sujeição do mesmo a um teste de evidência. Deixem-me discutir brevemente algumas das críticas principais.

Teoria da conspiração. Explicámos em Manufacturing Consent que análises críticas como a nossa inevitavelmente provocariam gritos de teoria da conspiração e, num esforço fútil para impedir isto, dedicámos várias páginas do prefácio a mostrar que o modelo de propaganda é melhor descrito como um "sistema guiado pelo mercado" e explicitamente rejeitámos a conspiração. Os críticos convencionais (mainstream) não podiam abandonar a acusação, parcialmente porque sabiam que acusar falsamente uma crítica radical de teoria da conspiração não lhes custaria nada e parcialmente por causa da sua suposição superficial de que uma vez que os media abrangem milhares de jornalistas e companhias "independentes" qualquer consideração de que eles seguem uma "linha do partido" ao serviço do estado deve repousar sobre uma conspiração assumida. (De facto ela pode resultar de uma crédula aceitação generalizada de notas oficiais para a imprensa, crenças comuns internalizadas, temor de represália por análises críticas, etc) O modelo de propaganda explica o comportamento e desempenho dos media em termos estruturais e concentra-se num incomensurável desvio de atenções (red herring). Todos nós sabemos que os media e os jornalistas enganam-se em conjunto – alguns sem dúvida internalizam uma linha de propaganda como verdade, alguns podem saber que é falsa, mas o caso é inescrutável e irrelevante.

Falha em considerar o profissionalismo e objectividade dos media. O professor de comunicações Daniel C. Hallin argumentou que falhámos em considerar a maturidade do jornalista profissional, o qual, afirmou ele, é "central para o entendimento de como operam os media". Hallin também declarou que na protecção e reabilitação da esfera pública "o profissionalismo é certamente parte da resposta". [2]

Mas o profissionalismo e as regras da objectividade são difusas, flexíveis, e manifestações superficiais de um poder mais profundo e de controle de relacionamentos. O profissionalismo ascendeu no jornalismo naqueles anos em que o negócio dos jornais estava a tornar-se menos competitivo e mais dependente da publicidade. O profissionalismo não era um movimento antagonista dos trabalhadores contra os proprietários da imprensa, mas era activamente encorajado por muitos destes últimos. Ele deu uma insígnia de legitimidade ao jornalismo, assegurando ostensivamente aos leitores que as notícias não seriam influenciadas pelos preconceitos dos proprietários, anunciantes ou dos próprios jornalistas. Em certas circunstâncias proporcionou um grau de autonomia, mas o profissionalismo também internalizou alguns dos valores comerciais mais queridos dos proprietários dos media, com confiar em fontes oficiais baratas como fonte de notícias críveis. Como observou Ben Bagdikian, o profissionalismo tornou os jornalistas inconscientes quanto aos compromissos com a autoridade que estão constantemente a fazer. Mesmo Hallin reconhece que o jornalismo profissional pode permitir algo próximo do controle governamental total via dominação das fontes.

Apesar de Hallin afirmar que o modelo de propaganda não pode explicar o caso da cobertura dos media das guerras na América Central na década de 1980, onde houve considerável hostilidade interna às políticas de Reagan, de facto o modelo da propaganda funcionou ali extremamente bem, ao passo que o foco de Hallin sobre o "profissionalismo" fracassou abissalmente. Hallin reconheceu que "a administração foi capaz mais frequentemente do que não de prevalecer na batalha para determinar o molde dominante da cobertura televisiva", "os padrões vastos de moldagem da narrativa podem ser quase inteiramente responsabilizados pela evolução da política e do debate da elite em Washington" e "declarações coerentes de visões alternativas da ordem mundial e da política dos EUA raramente apareceram nos noticiários". [3] Isto é exactamente o que o modelo da propaganda prognosticaria. E se, como sustentou Hallin, uma maioria do público se opusesse à visão da elite, que espécie de "profissionalismo" permite uma virtualmente completa supressão das questões tal como a maioria o percebe?

Hallin menciona uma "perspectiva alternativa emergente" na reportagem sobre El Salvador – um enquadramento nos "direitos humanos" – que "nunca avançou". O modelo da propaganda pode explicar porque nunca avançou; Hallin não. Com 700 jornalistas presentes nas eleições salvadorenhas de 1982, alegadamente "muitas vezes cépticos" quanto à integridade eleitoral, porque é que isto resultou numa "vitória de relações públicas" para a administração e uma grande falsificação da realidade (como descrito no Manufacturing Consent )? [4] Hallin não explicou isto. Ele nunca mencionou o Gabinete de Diplomacia Pública ou o despedimento do repórter Raymond Bonner e o trabalho das máquinas de blindagem (flak). Ele nunca explicou o fracasso dos media em informar mesmo uma minúscula fracção dos crimes dos contras na Nicarágua e os esquadrões da morte de El Salvador e da Guatemala, em contraste com a sua inflação de malfeitorias sandinistas e duplos padrões na reportagem sobre a eleição da Nicarágua de 1984. Dadas as divisões da elite e a hostilidade pública à política de Reagan, a subserviência dos media foi fenomenal e comprovadamente excedeu aquilo que o modelo da propaganda podia ter antecipado. [5]

Fracasso em explicar a oposição e resistência continuadas. Tanto Hallin como o historiador Walter LaFeber (numa revista no New York Times ) apontaram a continuada oposição à política de Reagan na América Central como de certo modo incompatível com o modelo. Estes críticos deixaram de compreender que o modelo de propaganda é acerca de como os media funcionam, não quão eficazes são. Pela lógica desta forma de crítica, se muitos soviéticos não engolissem os escritos do Pravda isto demonstraria que este não estava ao serviço da propaganda do estado.

Modelo de propaganda demasiado mecânico, funcionalista, ignora a existência de espaço, contestação e interacção. Este conjunto de críticas está no cerne das reacções negativas dos analistas sérios à esquerda do centro, tais como Philip Schlesinger, James Curran, Peter Golding, Graham Murdoch e John Eldridge, bem como de Hallin. Destes críticos, só Schlensinger tanto resume os elementos do nosso modelo como discute a nossa prova. Ele reconhecer que os estudos de caso apresentam casos impressionantes, mas acaba no fim por considerar "uma visão altamente determinista de como os media operam complementado por uma concepção funcionalista directa da ideologia". [6] Especificamente, deixámos de explicar os pesos a serem dados aos nossos cinco filtros; não permitimos influências externas, não apresentámos uma "análise completa dos modos pelos quais opera-se a dinâmica económica para estruturar tanto a amplitude como a forma das apresentações da imprensa" (citando Graham Murdoch); e apesar de avançar "um modelo de efeitos poderosos" admitimos que o sistema não é todo-poderoso, o que põe em questão nosso determinismo.

A crítica do modelo de propaganda por ser determinista ignora várias considerações importantes. Qualquer modelo envolve elementos deterministas, de modo que isto é um espantalho a menos que os críticos também mostrem que o sistema não é logicamente consistente, opera sobre premissas falsas ou que o poder previsional das variáveis determinantes é fraco. Os críticos muitas vezes reconhecem que os estudos de caso que apresentámos são poderosos, mas não mostram onde o alegado determinismo conduz ao erro nem tão pouco apresentam ou apontam modelos alternativos que cumprissem melhor essa tarefa. [7]

O modelo de propaganda trata de conjuntos de eventos extraordinariamente complexos e pretende só oferecer um quadro de análise vasto que exige modificação conforme os muitos locais e factores especiais – e pode ser inteiramente não aplicável em alguns casos. Mas eles oferece uma percepção em numerosos casos importantes que têm efeitos vastos e força ideológica cumulativa, é defensável a menos que um melhor modelo seja proporcionado. Habitualmente os críticos sabiamente apegam-se a generalidades e não apresentam qualquer pormenor crítico e modelo alternativo; quando apresentam alternativas, os resultados não são impressionantes. [8]

A crítica do modelo de propaganda por funcionalismo também é dúbia e os críticos por vezes parecem apelar a mais funcionalismo. O modelo descreve um sistema no qual os media servem a elite, mas por processos complexos incorporados dentro do modelo como meios pelos quais os poderosos protegem os seus interesses naturalmente e sem conspiração aberta. Isto pareceria um dos méritos do modelo de propaganda; ele mostra uma dinâmica e um sistema auto-protector em operação. A mesma comunidade corporativa que influencia os media através do seu poder como proprietário, financiador dominante (publicidade) e uma fonte importante de notícias subscreve também o Accuracy in Media e o American Enterprise Institute para influenciar os media através da importunação e do fornecimento de peritos "saudáveis". Críticos do funcionalismo do modelo de propaganda, como Eldridge e Schlensinger, contraditoriamente apontam para o mérito de análise que focam sobre "como fontes organizam estratégias dos media" para atingirem seus fins. Aparentemente é admirável analisar estratégias micro-corporativas para influenciar os media, mas focar sobre esforços corporativos globais para influenciar os media – juntamente com os efeitos complementares de milhares de estratégias locais – é funcionalismo ilegítimo!

Também não é verdade que o modelo de propaganda não implique constrangimentos sobre proprietários/administradores dos media. Nós explicámos claramente as condições que os afectam quando os media são relativamente abertos ou fechados – principalmente desacordos entre a elite e a medida em que outros grupos na sociedade estão interessados em, informados acerca e organizados para combater acerca de tais questões. Mas o modelo de propaganda não parte da premissa de que uma economia política crítica formulará cabalmente a análise do locus do controle dos media e os mecanismos pelos quais os poderosos são capazes de dominar o fluxo de mensagens e limitar o espaço de partes contestantes. Os limites do seu poder certamente são importantes, mas porque deveriam eles vir em primeiro lugar, excepto como um meio de minimizar o poder dos interesses dominantes, inflacionar os elementos de contestação e pretender que os marginalizados têm mais poder do que realmente possuem?

Relevância reforçada do modelo de propaganda

As mudanças dramáticas na economia, indústrias e políticas de comunicação durante a última década tenderam a reforçar a aplicabilidade do modelo de propaganda. Os primeiros dois filtros – propriedade e publicidade – tornaram-se ainda mais importantes. O declínio da rádio-televisão pública, o aumento do poder corporativo e do seu alcance global, e as fusões e centralização dos media tornaram as considerações básicas mais dominantes. A competição para atender anunciantes tornou-se mais intensa. As redacções foram incorporadas mais a fundo nos impérios corporativos transnacionais, com recursos reduzidos e ainda menos entusiasmo das administrações pelo jornalismo de investigação que desafiaria a estrutura do poder. Em suma, a autonomia profissional dos jornalistas foi reduzida.

Alguns argumentam que a Internet e as novas tecnologias de comunicação estão a romper a camisa de força sobre o jornalismo e abrem uma era sem precedentes de media democrática interactiva. Não há evidência a suportar esta visão quanto ao jornalismo e à comunicação de massa. De facto, alguém poderia argumentar que as novas tecnologias estão a exacerbar o problema. Elas permitem às empresas de media contrair as equipes enquanto atingem maiores produções e tornam possíveis sistemas de distribuição global, reduzindo portanto o número de entidades de media. Embora as novas tecnologias tenham grande potencial para a comunicação democrática, deixadas ao mercado há pouca razão para esperar que a Internet sirva finalidades democráticas.

O terceiro e quarto filtros – as fontes e a blindagem (flak) – também foram fortalecidas como mecanismo de influência da elite. Uma redução nos recursos dedicados ao jornalismo significa que aqueles que subsidiam os media através do fornecimento de fontes para copiar ganham maior alavancagem. Além disso, trabalhos de pessoas como Alex Carey, John Stauber e Sheldon Rampton ajudaram-nos a ver como a indústria das relações públicas tem sido capaz de manipular a cobertura de imprensa de questões em favor da América corporativa. A indústria de RP entende como utilizar convenções jornalísticas a fim de atender os seus próprios fins. Estudos de novas fontes revelam que uma proporção significativa das notícias tem origem na indústria das RP. Há hoje, numa contagem conservadora, mais de 20 mil agentes de RP a trabalharem para adulterar as notícias do que jornalistas a escrevê-las.

O quinto filtro – ideologia anti-comunista – estará possivelmente enfraquecido pelo colapso da União Soviética e do socialismo global, mas isto é facilmente compensado pela maior força ideológica da crença no "milagre do mercado" (Reagan). Agora há uma fé quase religiosa no mercado, pelo menos entre a elite, de modo que sem considerar as evidências, mercados são assumidos como benévolos e mecanismos de não-mercado são suspeitos. Quando a economia soviética estagnou na década de 1980, isto foi atribuído à ausência de mercados; quando a Rússia capitalista desintegrou-se na década de 1990 isto verificou-se porque políticos e trabalhadores não estavam a permitir que os mercados operassem a sua mágica. O jornalismo internalizou esta ideologia. Acrescente-se a isto o quinto filtro, num mundo onde o poder global das instituições de mercado faz com que quaisquer outras opções além do mercado pareçam utópicas, dá-nos um pacote ideológico com imensa força.

O modelo de propaganda aplica-se extremamente bem ao tratamento dos media do North American Free Trade Agreement (NAFTA), à subsequente crise mexicana e ao colapso de 1994-95. Mais uma vez houve uma divisão aguda entre as preferências dos cidadãos comuns e a elite e comunidade de negócios, com pesquisas de opinião a mostrarem firmemente maiorias substanciais a oporem-se ao NAFTA – e ao salvamento (bailout) de investidores em títulos mexicanos – mas a elite estava a favor. A cobertura dos noticiários dos media, a selecção de "peritos" e as colunas de opinião foram distorcidas consequentemente; o seu julgamento era que os benefícios do NAFTA eram óbvios, acordados por todas as autoridades qualificadas em que só demagogos e "interesses especiais" a ele se opunham. Meg Greenfield, editorialista do Washington Post, explicou o enorme desequilíbrio na sua coluna: "Na rara ocasião em que colunistas da esquerda, direita e centro estão todos de acordo... não acredito que seja correcto criar um equilíbrio artificial onde não existe nenhum". [9] Mas com a maioria do público a opor-se ao NAFTA, a unidade pró NAFTA entre os sabichões simplesmente realçou o enorme viés de tais sabichões. Pode ser valioso observar que as corporações de media transnacionais têm um auto-interesse diferente nos acordos comerciais globais, pois elas estão entre as sua primeiras beneficiárias.

O viés pró corporativo e anti-trabalho dos media de referência também foi evidente nas denúncias editoriais (tanto no New York Times como no Washington Post) de tentativas do movimento trabalhista no sentido de influenciar votações sobre o NAFTA, sem qualquer crítica comparável do lobbying e RP corporativo ou governamental (estado-unidense e mexicano). Depois de ter louvado o modesto movimento trabalhista e os acordos de protecção ambiental tardiamente acrescentados ao NAFTA, os media então deixaram de acompanhar sua aplicação e, de facto, quando o trabalho tentou utilizar suas disposições para impedir ataques à organização sindical no México, a imprensa ignorou o caso ou ridicularizou-o como "agressão" trabalhista. [10] Com o colapso mexicano iniciado em Dezembro de 1994, os media deixaram claro que o NAFTA não devia ser culpado e, num virtual fileira cerrada, apoiaram o salvamento (bailout) mexicano (dos investidores), apesar dos inquéritos de opinião quanto à maciça e generalizada oposição pública. Peritos e media reiteradamente explicaram que o mérito do NAFTA era o de ter "trancado o México dentro [do NAFTA] de modo a que não pudesse recorrer a controles para proteger-se da severa deflação. Eles abstraíram-se da natureza profundamente anti-democrática desta tranca. [11]

Tal como é sugerido pelo tratamento do NAFTA e do direito do trabalho a participar nos seus debates, o modelo de propaganda aplica-se tanto a questões internas como estrangeiras. O trabalho tem estado acossado nos Estados Unidos durante os últimos quinze anos, mas dificilmente se saberia isto a partir dos media de referência. A anulação de certificações de sindicatos, a utilização de trabalhadores de substituição e as longas e debilitantes greves como aquela que envolveu a Caterpillar foram tratadas de um modo muito contido. E numa notável ilustração da aplicabilidade do modelo de propaganda, à longa greve dos mineiros de Pittston foi concedida muito menos atenção do que à greve de mineiros na União Soviética. [12] Durante anos os media dispuseram da evidência de que a maioria dos cidadãos comuns estavam a sair-se mal na Nova Ordem Económica Mundial mas consideraram ser isso de interesse marginal; eles "descobriram" esta questão só sob o ímpeto dos clamores populistas de Pat Buchanan, da extrema-direita.

A cobertura das "guerras da droga" é bem explicada pelo modelo de propaganda. [13] Na controvérsia de 1992-93 do seguro de saúde, os media recusaram-se a tomar a sério a opção do pagador único (single-payer), apesar do aparente apoio público generalizado e da eficácia do sistema no Canadá, o que servia muito bem os interesses do complexo de seguros e serviços médicos. A informação e comentários acríticos dos media sobre a alegada urgência de contenção fiscal e de um orçamento equilibrado nos anos 1992-96 ajustava-se bem ao desejo da comunidade de negócios de reduzir o orçamento social e enfraquecer a regulamentação, culminando no Contract with America. [14] A aplicabilidade do modelo de propaganda neste e em outros casos parece clara.

Nota final

Em retrospectiva, talvez devêssemos ter deixado mais claro que o modelo de propaganda era acerca do comportamento e do desempenho dos media, com efeitos incertos e variáveis. Talvez devêssemos ter explicado com mais pormenor as forças concorrentes tanto dentro como fora dos media e as condições sob as quais estas provavelmente são influentes. Mas nós claramente abordámos estes pontos e é bastante possível que nada do que pudéssemos ter feito teria impedido de sermos etiquetados como teóricos da conspiração, deterministas rígidos e negadores da possibilidade de que o povo possa resistir (mesmo quando apelávamos à resistência).

O modelo de propaganda ainda parece um quadro muito viável para analisar e entender os media de referência – talvez ainda mais do que em 1988. Como observado anteriormente na referência à América Central, ele frequentemente ultrapassa as expectativas da subserviência dos media à propaganda governamental. E ainda estamos à espera de que os nossos críticos apresentem um modelo melhor.

1. Noam Chomsky analisa algumas destas críticas no seu Necessary Illusions (Boston: South End, 1989), appendix l.
2. Daniel C. Hallin, We Keep America on Top of the World: Television Journalism and the Public Sphere (London: Routledge, 1994), 13, 4.
3. Hallin, We Keep America on Top of the World , 64, 74, 77.
4. Hallin, We Keep America on Top of the World , 72.
5. Para documentação irrefutável sobre esta subserviência extraordinária, ver Chomsky, Necessary Illusions , 197–261.
6. Philip Schlesinger, "From Production to Propaganda?" Media, Culture and Society 11, no. 3 (1989): 283–306.
7. Deveria ser observado que os estudos de caso em Manufacturing Consent são apenas uma pequena porção daqueles que Chomsky e eu fizemos, os quais suportam a análise do modelo de propaganda. Uma menção especial deveria feita àqueles que cobrem o Médio Oriente, a América Central e o terrorismo. Ver especialmente Necessary Illusions, The Fateful Triangle (London: Pluto, 1983) e Pirates & Emperors (Montreal: Black Rose, 1987) de Chomsky, bem como o meu The Real Terror Network (Boston: South End, 1982) e (with Gerry O'Sullivan) The Terrorism Industry (New York: Pantheon, 1989).
8. De facto, a única tentativa de apresentar um modelo alternativo foi a de Nicholas Lemann no New Republic . Para uma análise deste esforço, ver Necessary Illusions ,145-48, de Chomsky.
9. Howard Kurtz, "The NAFTA Pundit Pack," Washington Post , November 19, 1993.
10. Para uma discussão ver Edward Herman, "Labor Aggression in Mexico," Lies of Our Times (December 1994): 6–7.
11. Para discussões do tratamento pelos media do NAFTA e do colapso mexicano, ver Thea Lee, "False Prophets: The Selling of NAFTA," Economic Policy Institute, 1995; Edward Herman, "Mexican Meltdown: NAFTA and the Propaganda System," Z (September 1995).
12. Jonathan Tasini, " Lost in the Margins: Labor and the Media ," EXTRA! (Summer 1990).
13. Ver Noam Chomsky, Deterring Democracy (London: Verso, 1991), 114–21.
14. "Health Care Reform: Not Journalistically Viable," EXTRA! July–August 1993); John Canham-Clyne, " When 'Both Sides' Aren't enough: The Restricted Debate over Health Care Reform ," EXTRA! January–February 1994).


[*] Economista, falecido em Novembro/2017. Muitas das suas obras estão aqui .

O original encontra-se em monthlyreview.org/2018/01/01/the-propaganda-model-revisited


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
30/Jan/18