O mundo em realidade paralela
A elite governante mundial, em aliança com o aparelho comunicacional
global que trata da sua propaganda, querem forçar-nos a viver numa
realidade paralela, aquela em que a versão ficcional e oficial dos
factos se transforma em verdade única, indiscutível, sendo a
discordância anatemizada como fake news.
Para ter a noção da envergadura da burla basta-nos pegar em
alguns factos que fazem a actualidade, segundo a agenda ditada pelo aparelho de
propaganda, e aprofundá-los um pouco. Não será
necessário cavar muito fundo, porque a mistificação fica
exposta a partir das primeiras incisões: não pode dizer-se que
haja especial cuidado em preparar algumas das farsas.
No topo da actualidade está a guerra contra o Irão: haverá
ou não haverá? Quando haverá? Como haverá? O
problema resume-se a estas dúvidas.
Presume-se, pois, que existam razões justas, mecanismos legais para que
a guerra se faça, talvez resoluções das
Nações Unidas ou coisas do género.
Não, resoluções não há; tão pouco o
Congresso dos Estados Unidos deu o consentimento constitucional ao presidente
para atacar o Irão. E, já agora, alguém sabe dizer o que
fez o Irão para que mereça ser alvejado? Parece que uns
petroleiros danificados no Golfo de Omã sem que haja provas de quem
cometeu o crime; e o derrube de um drone norte-americano que invadiu o
espaço aéreo iraniano, facto de que existem sobejas provas embora
sejam censuradas pela comunicação global.
Digamos, porém, que estas circunstâncias poderão ser
pretextos circunstanciais, os casus belli, a ignição do conflito
armado.
Porque a pergunta que conta é esta: por que razão está o
Irão a ser vítima de uma guerra através de
sanções económicas arbitrárias que pode estender-se
à componente militar? Procurem a resposta no mainstream:
encontrá-la é tão difícil como acertar no
euromilhões. Isto é, parte-se do princípio de que o
Irão tem de ser punido porque sim ou por alguma coisa que já se
manipulou e dissolveu algures entre notícias empolgadas,
comentários e análises de uma guerra, afinal,
imprescindível é isso que interessa.
De vez em quando cita-se o presidente dos Estados Unidos dizendo que, coitado,
ele não quer a guerra, Teerão é que a força; por
ele, preferia negociar
Negociar o quê? Ao que parece que o Irão se comprometa a
não ter armas nucleares. Mas isso já ficou estabelecido num
acordo aprovado em 2015 entre Teerão, os cinco membros do Conselho de
Segurança da ONU e a Alemanha. Um acordo que está a funcionar,
como comprova a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA)
nos relatórios das suas inspecções trimestrais.
Acontece que os Estados Unidos deram o dito por não dito e retiraram-se
há tempos do texto que assinaram. O que não inviabiliza o acordo
nem significa que o Irão o viola. Então a guerra de que se fala
é uma acção unilateral dos Estados Unidos em que
quer arrastar o mundo inteiro para supostamente negociar o que
está negociado. Sendo que, por ironia da história, o único
projecto nuclear militar que o Irão alguma vez teve foi criado pelos
Estados Unidos quando sustentavam a ditadura criminosa do Xá Reza
Pahlevi.
O mainstream, porém, não trata disto: dá muito trabalho
às pessoas, ocupa-lhes a cabeça, faz pensar. Coisa que
normalmente não é boa para as guerras.
E as guerras são para fazer.
Onde entra a NATO
E quando se fala em guerra surge a NATO; como se sabe, sempre com a mais
louvável e indiscutível postura " ;defensiva" ;
não é assim que assegura a comunicação/propaganda?
A NATO é sempre notícia, e mais ainda quando, como agora, se
reuniram os ministros dos Estados membros.
Sempre no seu estilo contido, disseram os ministros, em redor do seu
secretário-geral renomeado de fresco, que ou a Rússia suspende a
produção de um determinado míssil de médio alcance
com capacidades nucleares ou a NATO procederá em conformidade.
Ficou dado o recado, bem distribuído pela comunicação
social. E basta! O resto é dispensável, toda a gente sabe muito
bem quem são os russos.
Vamos então aprofundar um pouco a matéria.
Os russos dizem que o míssil em questão não viola o
tratado de mísseis de médio alcance (INF), mas isso nada vale
é dito pelos russos. Poder-se-iam confrontar as duas
versões, mas o que a NATO diz está dito, é um dogma.
Além disso, as várias formas de rearmamento visando a
Rússia que a NATO tem adoptado, em terra e no mar, viola esse tratado
porque transforma objectivos supostamente defensivos em vantagens ofensivas e
com capacidades nucleares.
Bom, mas isto é dito igualmente pelos russos e também por pessoas
informadas mas cujas opiniões e factos apresentados não cabem na
versão oficial.
No entanto, seria importante sublinhar que o recado é enviado pela NATO
aos russos precisamente na mesma altura em que a Junta de chefes do
Estado-maior das forças armadas norte-americanas isto é,
da NATO aprovou uma nova doutrina. E esse normativo prevê o
recurso a armas nucleares como meios " ;decisivos" ; para resolver
situações em que não haja " ;vitórias
convincentes" ; das forças do bem, as que asseguram " ;o nosso
civilizado modo de vida" ;. Isto é, situações como as
do Afeganistão, do Iraque, da Líbia, da Síria,
quiçá do Irão, da Crimeia e o mais que ao bem aprouver.
Trata-se, diz a Junta, de garantir a " ;estabilidade
estratégica" ;, ao que parece uma situação que apenas
é alcançável com vitórias plenas e domínio
absoluto dos Estados Unidos e da NATO, nem que seja, a partir de agora, com
bombas nucleares.
O mainstream deveria ter dito alguma coisa sobre isto, pelo menos para os
cidadãos ficarem a saber que as bombas nucleares poderão passar a
decidir conflitos convencionais. Dizer para quê? Isso só iria
agitar consciências tão postas em sossego com a
informação fast food que lhes é servida.
O humanitário Guaidó
Estando o Irão no topo da agenda parece ter amainado, por ora, a sanha
contra a Venezuela e as escolhas democráticas dos venezuelanos;
até a RTP reduziu a intensidade dos esforços para transformar em
grandes e legítimos democratas os fascistas enviados por Trump, Bolton &
Cia.
Isto não significa que a guerra travada em várias frentes,
designadamente as sanções contra o povo e o roubo de bens do
Estado não prossigam. O assunto é que transitou das manchetes
para páginas interiores e posições intermédias dos
alinhamentos.
Por isso o grande público não foi informado do episódio
mais actual da " ;operação liberdade" ;, aquela tentativa
de golpe em Fevereiro passado montada em torno do pretexto da entrada de
" ;ajuda humanitária" ; na Venezuela, com o conquistador Juan
Guaidó na frente.
Pois os bens angariadas por organizações tuteladas pela CIA e os
milhões alcançados no concerto Live Aid ficaram na Colômbia
e, segundo informações que são agora do conhecimento
público, filtradas por agentes dos próprios serviços
secretos colombianos, foram direitinhos para os bolsos e as contas pessoais das
hostes de Guaidó, o presidente interino nomeado por Washington.
Até o secretário-geral da Organização dos Estados
Americanos, Luís Almagro, um dos mentores de toda a
" ;operação liberdade" ;, surge agora a pedir um
inquérito às circunstâncias, uma vez que, por outro lado,
parte da " ;ajuda" ; alimentar ficou a apodrecer em armazéns em
Cúcuta, comunidade colombiana a que poderia ser útil pois
está muito carente de tudo o que não lhe chega de Bogotá.
Portanto, este desfecho da tão empolgante " ;operação
liberdade" ; que iria " ;libertar" ; os venezuelanos do
" ;jugo" ; do democraticamente eleito Maduro ficou por contar pela
comunicação/propaganda. E trata-se, afinal, de um final feliz
e rentável para aqueles que, embora não
" ;libertassem" ; a Venezuela se viram livres de hipotéticas
dificuldades financeiras pessoais.
Epílogo ecológico
Viria a talhe de foice destas situações recordar palavras
recentes do secretário-geral da ONU, Eng. António Guterres, que
tiveram apropriadas tonalidades autocríticas embora, mais uma vez,
passassem ao lado do essencial a mentira, o desprezo e o desrespeito em
que vive mergulhada a esmagadora maioria dos seres humanos do planeta, perante
a complacência das Nações Unidas.
Disse o Eng. Guterres que a geração dos dirigentes actuais
não tem estado à altura das necessidades mas fê-lo
no contexto da degradação ambiental e das
alterações climáticas.
Ora há muitas situações trágicas a montante e das
quais a contaminação ambiental e os problemas climáticos
são óbvias consequências. Há a guerra, as
desigualdades cada vez mais profundas entre Estados e povos, as armadilhas
financeiras, o desprezo ostensivo pelos direitos humanos, as antigas e mais
recentes formas de colonialismo militar e económico, a desenfreada
corrida às matérias-primas, o destruidor expansionismo
agrícola transnacional, a impunidade da exploração de
matérias-primas por métodos destruidores da água e dos
solos, o comércio injusto dito " ;livre" ;, o descarado
desrespeito do capitalismo transacional por normas que poderiam preservar o
ambiente mas, no seu entender, provocam restrições à
ganância intrínseca.
O meio ambiente e a ecologia não existem por si, como bolhas que possam
ser tratadas isoladamente sem mudar o mundo.
Imagine-se que agora até o mainstream é ecológico, fala
contra as alterações climáticas, descobriu que o
plástico é nocivo para o ambiente. Falta-lhe apurar e explicar,
porém, como é que o desastre ambiental afecta drasticamente a
esmagadora maioria dos pobres e poupa os ricos, os que o provocam,
construindo-se assim mais um sistema de apartheid.
A comunicação global e o Eng. Guterres estão, afinal, no
mesmo comprimento de onda, cumprindo-se a ordem natural das coisas. Uma, porque
a sua missão neste mundo é impor a realidade paralela; o outro
porque contribui para fabricá-la, embora pudesse não o fazer, ao
menos para respeitar os direitos humanos.
26/Junho/2019
[*] Jornalista.
O original encontra-se em
https://www.oladooculto.com/noticias.php?id=424
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|