O roubo do século
por Chan Akia
Escrevi anteriormente
[1]
sobre a iminente insolvência dos tomadores de hipotecas nos Estados
Unidos, cujo fracasso ao pagar afetará não apenas a economia
norte-americana, quando muitos deles se declararem falidos, mas também
os mercados mundiais, pois os riscos tem sido largamente espalhados aos outros
continentes, com a maior parte das perdas indo para a Ásia.
AGÊNCIAS AVALIADORAS, SECURITIZAÇÃO EM SÍNTESE
Os bancos emprestam dinheiro para um certo número de companhias mas,
mais importante, para milhões de indivíduos. Como os bancos
emprestam para si mesmos de outros investidores na forma de depósitos e
títulos, eles teriam que vender alguns ativos. Entretanto, qualquer um
comprando estes ativos dos bancos estaria naturalmente preocupado com a
qualidade dos ativos, e então, considera o banco para fazer duas coisas:
primeiro, suportar adequadamente os riscos (o que é chamado "
skin
" no jogo) e, segundo, empregar uma agência de
avaliação independente para esses títulos.
Quando um número de recebíveis similares são empacotados
num título, o que acontece é que qualquer um comprando este
título é dependente da qualidade do crédito a pessoas que
ele nunca conheceu. Por esta razão, o mercado depende de agências
seguradoras tais como Standard and Poor´s ou Moody`s, duas das grandes
companhias que fazem tais serviços e, coincidentemente, ambas são
americanas. A terceira maior agência , Fitch, é européia.
Em larga extensão os investidores dependem desses avaliadores para
determinar seus apetites para o investimento. Então, se você vai
até o Banco Central Asiático e pergunta qual o seu
critério para comprar um ativo, ele poderia responder que mantêm
títulos avaliados acima de certo nível, digamos AA (o mais alto
é AAA, o mais baixo é D, "
default
")
[2]
Entretanto, há dois problemas imediatos com isto. Primeiro, as
avaliações são pagas por pessoas que emitem os
títulos acima mencionados e não as pessoas que os compram.
Então há uma razão comercial lógica para manter a
avaliação em seu nível mais elevado, embora os
títulos sejam estritamente garantidos por "princípios
fundamentais". Isto é chamado de conflito de interesses.
O segundo problema é que as avaliações são
meramente opiniões. É um pouco como um crítico de cinema
dizendo que o último filme de Bruce Willis é fantástico,
enquanto o mesmo pode bem mostrar-se como péssimo para muitas pessoas.
A diferença, naturalmente, é que a recomendação de
um mau filme pode lhe custar US$10 (menos se você comprar um CD pirata),
mas uma má avaliação pode significar para você
milhões. As agências, embora refinadas, não conhecem o
futuro mais do que o típico astrólogo. Elas apenas usam massas de
dados para justificar suas opiniões, se bem que usem análises de
informações históricas.
Não é a primeira vez que as agências de
avaliação têm entendido mal os mercados. Se foi uma
avaliação errada a respeito dos mercados emergentes nos anos 90,
ou das companhias
telecom
no começo de nossa década, e agora da
securitização, as agências têm sido desastrosamente
erradas em todo os novos mercados. Imóveis, investidores e reguladores
confiam nelas em seus julgamentos, porque que não há alternativas.
Os mercados, do princípio ao fim, sempre olham para a frente. Em outras
palavras, se um investidor espera receber menos juros num título em
particular, seu preço irá cair bem antes que a taxa de juros
realmente caia. Assim é que os mercados estão dispostos a
sobre-reagir às informações, enquanto as
avaliações lentamente tentam chegar lá.
Há, entretanto, um número de investidores por exemplo,
bancos centrais e fundos de pensão que se baseiam apenas em
agências de avaliação para suas informações.
Então eles falham ao agir quando o mercado começa a mover-se e
são forçados a agir quando as agencias de avaliação
admitem que a qualidade do título é menor do que a previamente
pensada. Estes investidores são chamados "porcos" no mercado
eles são engordados e então sacrificados.
O DIFERENCIAL PAGO
Naturalmente, é importante notar uma perversa estrutura de incentivos
que existe em tudo isto. Empregados dos bancos de investimentos estão
entre os mais bem pagos no mundo, com especialistas em áreas de
rápido desenvolvimento tais como derivativos, recebendo salários
anuais de sete a oito dígitos (dólares dos Estado Unidos). Em
contraste, as pessoas que compram o risco deles, tais como os empregados dos
bancos centrais asiáticos, dificilmente recebem mais de US$20 mil a US$50
mil, com os melhores recebendo mais de US$100 mil. Somente os empregados do
governo de Singapura recebem mais do que seus contra-partes em Wall Street.
Este é um assunto ao qual vou voltar em artigo posterior.
Quando existe uma tal estrutura é natural que muitas práticas
corruptoras aconteçam, incluindo práticas leves tais como o
pagamento pelos bancos de almoços perdulários e abrangendo
práticas mais desprezíveis tais como agencias bancárias
ajudando a pagar a instrução dos filhos dos altos
funcionários governamentais, em nome do "marketing".
Enquanto isso, é importante notar que não há
"crime" sendo cometido por aqueles que compram tais títulos
dos bancos de investimento, uma vez que eles necessitam investir as reservas de
seu país em títulos como definido em políticas
pré-estabelecidas. Então, nenhum deles toma a responsabilidade
por perdas em suas contas de investimentos, especialmente em muitos
países asiáticos, onde as reservas externas de um país
são matéria de segurança nacional e vazamentos sobre
carteiras, lucros e perdas são punidos por longas prisões ou pior
ainda
[3]
.
ESTA SEMANA
O que aconteceu esta semana foi um resultado dos preços dos
títulos em hipotecas terem caído abruptamente nas semanas
anteriores. Finalmente na quarta-feira as agências de
avaliação cortaram a classificação de mais de US$12
mil milhões em títulos. Isto forçou os "porcos"
mencionados acima a venderem seus títulos num mercado que já
estava nervoso em relação a outras fraquezas da economia
americana.
O resultado foi, naturalmente, massacrante. Não tendo habilidade para
vender todos os títulos que dispunham, muitos dos investidores tiveram
que vender outros títulos, inclusive títulos de
corporações até aqui não afetadas pelos movimentos
de avaliação.
A questão imediata que surge da ação das empresas de
avaliação se foca no tempo. Porque eles baixaram a
classificação dos títulos esta semana, baseados em
informações disponíveis desde fevereiro? A razão,
naturalmente, é o "conflito de interesses" se as
agencias admitissem que seus critérios de classificação
estavam errados, elas perderiam diversos negócios. Certamente, jornais
financeiros tem apontado durante as semanas passadas que peritos investidores
tais como os
hedge funds
diminuíram bastante o estoque de ações das agência
de avaliação (ou de suas
holdings
) precisamente por esta razão.
Como aduzido acima, podemos ver que este extra-tempo deu aos grandes bancos de
investimento a oportunidade de livrar-se de suas posições
existentes, quase que totalmente para os grandes bancos centrais espalhados
pelo mundo. Iremos saber o quanto estes bancos perderam, especialmente da
Ásia, somente nos próximos anos e não nas próximas
semanas.
PRÓXIMOS PASSOS
O "subprime banana skin"
[4]
tem então reivindicado um número de vítimas, incluindo
bancos centrais asiáticos que são forçados a manter
milhares de milhões de dólares em títulos devido a suas
manipulações com moedas exteriores que forçam a alta das
reservas em dólares. Isto lembra quase uma justiça
poética, porque as manipulações sempre dão
prejuízo ao mesmo público que eles pensam estar ajudando, os
super-consumidores americanos.
Acredito que a liquidação forçada de muitos "
portfolios
" na Ásia criará perdas adicionais, mas os tomadores de
empréstimo americanos emergirão em essência
incólumes desse rol de
proprietários de títulos hipotecários,
que não terão nenhuma pretensão sobre os "ativos
subordinados"
(underlying assets)
[5]
[6]
mas apenas nas companhias intermediárias, que naturalmente
declararão falência, deixando células vazias (dos
tomadores) aos emprestadores, para ir ao encalço. Diferentemente da
crise anterior que envolveu as companhias
telecom
em 2002, muitas das perdas serão absorvidas por bancos centrais
espalhados pelo mundo, ao invés de bancos comerciais e de investimentos,
norte americanos ou europeus.
Esta é uma das maiores roubalheiras de nosso tempo e não
será em essência objeto da mídia. Esforçados
poupadores asiáticos verão seus bancos centrais contabilizarem
milhares de milhões de dólares em perdas na crise das hipotecas
americanas nos próximos anos, e nada pode ser feito sobre isto, dada a
absoluta ausência de contabilidade da Ásia.
Uma estratégia de longo prazo mais defensiva para estes bancos centrais
é cortar suas reservas em dólares e fazer com que suas moedas
flutuem em relação ao dólar, investindo em seus
próprios países, ao invés de em outros países
emprestadores delinqüentes. O que escrevi no argumento do "gato
escaldado"
[7]
permanece válido os asiáticos simplesmente não
têm em seus governos e nos bancos centrais responsáveis pelas
performances. Isto permite toda a classe de excessos na
aplicação das poupanças em nome da política
nacional.
Com mais de US$ 3 milhões de milhões de tais reservas
asiáticas sendo investidas (jogadas no lixo) em títulos de baixo
retorno nos Estados Unidos e na Europa, talvez seja tempo de os cidadãos
asiáticos levantarem a questão com seus bancos centrais: Para
quem estão vocês trabalhado, para seus cidadãos ou para os
americanos proprietários de casas?
14/Julho/2007
Notas
[1]
A escolha de Hobson
, Asia Times Online, 10 de março
[2] Verbete na Wikipedia sobre
ratings
[3] Os exemplos dos mais secretos bancos centrais invariavelmente incluem todos
os maiores bancos da Ásia, exceto Hong Kong que submete sua
contabilidade à inspeção pública.
[4] "Subprime": um emprestador "subprime" empresta para
quem não tem qualificações para emprestar de bancos de
primeira linha. São emprestadores independentes mas ligados aos bancos
de primeira linha e operam com nomes diferentes. Diferenciam-se por seus juros
que são uniformemente mais altos do que os juros cobrados em bancos de
primeira linha. Eles suportam adequadamente os riscos (o que é chamado
"
skin
" no jogo). Banana é banana, nome do negócio! (Nota do
tradutor)
[5] underlying assets: Em um contrato de opção, é o
título ou mercadoria que é entregue quando o contrato é
exercido. Em apólices, é o estoque comum que é a base dos
outros tipos de apólices da companhia. Estoque de ações,
títulos e fundos mútuos são os mais populares ativos
(assets),
mas há outras importantes oportunidades de investimentos, incluindo
opções, futuros e moedas. (Nota do tradutor)
[6] (que estarão sem qualquer valor nota do tradutor),
[7]
Os gatos escaldados da Ásia
, Atol, 7 de julho.
O original encontra-se em
http://atimes.com/atimes/Global_Economy/IG14Dj01.html
.
Tradução de COM.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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