O socialismo não cai do céu
por Michael A. Lebowitz
1) Pode mudar-se a sociedade sem o controlo do Estado?
2) Seres humanos e socialismo
3) O processo de construção socialista
4) A prática revolucionária
5) Construindo o socialismo do século XXI
1) Pode mudar-se a sociedade sem o controlo do Estado?
Algumas pessoas pensam que é possível mudar o mundo sem tomar o
poder. Segundo elas, nem sequer se devia pensar em utilizar o Estado, porque,
como disse John Holloway: "lutar através do Estado é
envolver-se num processo activo de autodestruição". Segundo
essas pessoas o Estado, por definição, não pode desafiar o
capitalismo, dado que é parte fundamental do capital e, portanto, deve
fazer todo o possível para favorecer a rentabilidade do capital.
Este tipo de pensamento não é novo. Ressurgiu em certos lugares
(particularmente na América Latina) porque reflecte uma época de
desilusão e desesperança. Desilusão e desesperança
de cumprir com a promessa de criar um novo mundo, provocadas pelo fracasso da
sociedade dominada pelo Estado na União Soviética e seus aliados;
desilusão e desesperança por causa da tragédia da
socialdemocracia que, ao render-se à lógica do capital, apenas
pode oferecer a barbárie com rosto humano.
No entanto, a insistência de Holloway em que temos de "rejeitar a
ideia de que uma sociedade possa ser mudada adquirindo o controlo do
Estado" foi desmentida de duas maneiras muito claras. Foi categoricamente
desmentida e de modo muito dramático e emocionante na prática da
Revolução Bolivariana na Venezuela. Será possível
imaginar as mudanças neste país
sem
o poder do Estado?
E, por outro lado, foi refutada teoricamente pelo pensamento de Marx e a sua
forma de compreender os sistemas económicos em geral e, particularmente,
as condições para o desenvolvimento do socialismo. Para ele, era
evidente que os trabalhadores necessitavam do poder do Estado para poderem
criar as condições para que uma sociedade pudesse acabar com a
sociedade capitalista. Por isso, coerentemente, recusou-se a escrever modelos
detalhados ou "receitas" da sociedade do futuro "imagens
fantásticas e planos para uma nova sociedade" que os opositores
utópicos do capitalismo, esses sim, ofereciam.
Há uma explicação para isto: o socialismo não cai
do céu.
Nenhum novo sistema económico cai do céu ou emerge, de forma
perfeita e completa, de concepções de intelectuais. As novas
forças produtivas e relações sociais de
produção nascem dentro e em oposição à
sociedade já estabelecida. Nenhuma sociedade se encontra plenamente
formada nas suas origens.
Uma nova sociedade nasce, necessariamente, de forma defeituosa. Inicialmente
estrutura-se na base de elementos da antiga sociedade. Marx enfatizou que a
sociedade socialista que nasce do capitalismo está marcada
indefectivelmente, tanto "económica como moral e intelectualmente
pela velha sociedade".
No fundo da concepção dialéctica de Marx encontra-se o
reconhecimento de que uma nova sociedade, necessariamente, nasce de forma
defeituosa e que justamente desenvolve-se para transformar os seus antecedentes
históricos, para transcender os seus defeitos. Só quando a nova
sociedade consegue assentar sobre as suas próprias bases, só
quando se constrói a partir das premissas que ela mesma constrói,
é que podemos apreciar o potencial que nela está presente desde o
princípio. Marx entendia este processo como aquele em que lutamos para
nos libertarmos a nós próprios da ganga da antiga sociedade.
Qual foi, exactamente, o defeito que Marx identificou no socialismo, tal como
ele aparece no seu início? Este não tinha a ver que as
forças produtivas estivessem pouco desenvolvidas. O defeito particular
de que falou referia-se à natureza dos seres humanos, originada na
antiga sociedade, e às antigas ideias: uma sociedade na qual todos se
acham com direito a recuperar aquilo com que contribuem, e que está
marcada por uma grande quantidade de operações de troca; uma
sociedade na qual todos fazem cálculos em função do seu
próprio interesse e se sentem enganados se não recebem o seu
equivalente. Isto Marx foi muito claro é uma
herança da velha sociedade, uma atitude que demonstra claramente que
ainda não estamos a pensar nas necessidades dos outros, que não
concebemos a nova sociedade como uma família humana, na qual a
libertação de todos é a condição para a
libertação de cada um de nós.
No entanto, esta orientação egoísta não seria o
único
defeito com o surgimento da nova sociedade. A nova sociedade está
intelectual, económica e socialmente infectada. Tradições
históricas como o patriarcado, o racismo, a discriminação
e as significativas desigualdades na educação, na saúde e
qualidade de vida, são alguns elementos que a nova sociedade pode
herdar. E por isso, em vez de aceitar estas barreiras que impedem o
desenvolvimento humano, estas deveriam ser confrontadas através de um
processo que as reconheça como defeitos.
Se se reconhece que o socialismo é um processo, ninguém pode
entender que a solução para a existência de defeitos
como a
orientação individualista, o racismo e o patriarcado
não
pode consistir na criação de instituições que
incorporem esses defeitos. Uma das mais destacadas características da
maioria das tentativas de criar o socialismo no século XX foi considerar
que, dada a orientação egoísta das pessoas, o mais
importante era proporcionar-lhes os incentivos económicos
necessários para as estimular a trabalhar. A isso se deve que se tenha
dado tanta importância aos incentivos, à divisão de lucros,
às variadas formas de incentivos económicos. A lógica
subjacente a estas medidas era a de que o desenvolvimento das forças
produtivas teria um efeito de "gotejamento" e assim, gradualmente,
iriam
surgindo novos seres humanos.
O resultado, no entanto, foi o oposto. Quando se tenta formar uma nova
sociedade criando-a a partir dos defeitos herdados da velha sociedade,
reforçam-se os elementos da velha sociedade, tornando-os presentes na
nova sociedade na sua versão inicial. Quando se fomenta o
egoísmo e se reforça a tendência das pessoas para se
comportarem de acordo com os seus interesses pessoais, sem considerar os
interesses dos outros, quando se reforça e aprofunda a divisão
entre os indivíduos, grupos, regiões e nações, a
desigualdade passa a ser vista como uma coisa normal. Quando se legitima a
ideia de que obter mais para si mesmo corresponde ao interesse de todos,
criam-se condições propícias ao retorno à velha
sociedade.
Como construir uma nova sociedade
solidária
baseada no princípio do interesse pessoal? Como produzir, a partir do
interesse egoísta, pessoas que se unam reconhecendo as suas
diferenças? Obviamente, não podemos ignorar a natureza das
pessoas da velha sociedade. Precisamente por Marx entender que os sujeitos de
cada processo são seres humanos específicos, colocou que
não se devia conceder "a cada um de acordo com as suas
necessidades". Colocar os velhos sujeitos nessa nova estrutura
provocaria, inevitavelmente, um desastre. Marx compreendeu que não
podemos ir directamente ao sistema de justiça e equidade que caracteriza
uma sociedade verdadeiramente humana, a família humana. No entanto
Marx, definitivamente, não argumentava que o caminho para a
criação de uma nova sociedade fosse o de construí-la sobre
os defeitos que, inevitavelmente, contém no seu início, quando
surge.
Mais ainda, o processo socialista é um processo tanto de
destruição, como de construção: um processo de
destruição dos elementos da velha sociedade que, todavia,
permanecem (incluindo a base de sustentação para a lógica
do capital) e um processo de construção dos novos seres humanos
socialistas.
2) Seres humanos e socialismo
No século XX ninguém melhor que Che Guevara explicou a
importância de desenvolver novos seres socialistas. Ele compreendeu que
construir o socialismo com as melífluas armas que nos legou o
capitalismo (a mercadoria como célula económica, a rentabilidade,
o interesse material do indivíduo como alavanca, e outros) podia
levar-nos a um beco sem saída, o seu efeito podia minar o
desenvolvimento da consciência. Che enfatizou que para construir o
socialismo, simultaneamente com a construção da sua base material
há que construir o homem novo.
Há que ter o objectivo claro. Se não sabes onde queres ir,
naturalmente que nenhum caminho te levara lá. O mundo que os
socialistas sempre quiseram construir é aquele em que cada pessoa se
relaciona com os outros como membros de uma grande família, uma
sociedade em que sejamos capazes de reconhecer que o bem-estar dos outros nos
beneficia a todos, um mundo de amor e solidariedade humana onde, em vez de
classes e antagonismos de classe, tenhamos "uma associação,
na qual o livre desenvolvimento de cada um seja a condição para o
livre desenvolvimento de todos".
O mundo que queremos construir é uma comunidade de produtores
associados, onde cada indivíduo possa desenvolver plenamente as suas
potencialidades: um mundo que, do ponto de vista de Marx, permita "o
desenvolvimento absoluto do potencial criativo", o "total
desenvolvimento do conteúdo humano", o "desenvolvimento de
todos as capacidades humanas como um fim em si mesmo". Os seres humanos
fragmentados e divididos que o capitalismo produz seriam substituídos
por seres humanos completamente desenvolvidos, "o indivíduo
completamente desenvolvido para o qual as distintas funções
sociais não são senão diferentes modos de actividade de
que se ocupará sucessivamente".
Mas essas pessoas não caiem do céu. Há um só
caminho para as formar, e este é através da sua própria
actividade. Só exercitando as capacidades mentais e físicas,
respeitantes a todos os aspectos da vida, as pessoas desenvolverão as
ditas capacidades, produzirão dentro delas capacidades
específicas que lhes permitirão levar a cabo novas actividades.
A mudança simultânea das circunstâncias e de si mesmo (o que
Marx chamou "a prática revolucionária") é a
forma em que construímos a nova sociedade e os novos seres humanos.
Obviamente, a natureza das nossas instituições e
relações deve fornecer-nos o espaço para o referido
autodesenvolvimento. Sem democracia na produção, por exemplo,
não podemos construir nem uma nova sociedade, nem novas pessoas. Quando
os trabalhadores se comprometem com a autogestão, combinam a
concepção do trabalho com a sua execução.
Então, não só podem desenvolver as suas potencialidades
intelectuais de
todos
os produtores associados, como a "sabedoria tácita" que
possuem os trabalhadores, sobre as melhores formas de trabalhar e produzir
também pode converter-se em sabedoria social, com a qual todos podemos
ser beneficiados. A produção democrática, participativa e
protagonizada permite ambas as coisas: aproveitar os nossos recursos humanos
ocultos e desenvolver as nossas capacidades. Mas, sem esta
combinação do manual e do intelectual, as pessoas continuam a ser
os seres humanos fragmentados e parcelados produzidos pelo capitalismo: a
divisão entre os que pensam e os que fazem mantém-se como o
modelo capitalista que Marx descreveu, no qual "o desenvolvimento das
capacidades humanas de uns, está baseado na restrição da
capacidade de desenvolvimento dos outros". Pelo contrário, a
democracia na produção é uma condição para o
desenvolvimento de todos.
Mas o que é a produção? Não é algo que
apenas acontece na fábrica ou no que tradicionalmente identificamos como
o local de trabalho. Toda a actividade que tenha por objectivo proporcionar
bens entregues para o desenvolvimento dos seres humanos (especialmente aquela
que nutre directamente o desenvolvimento humano) tem que ser reconhecida como
produção. Mais, as concepções que dirigem a
produção devem ser em si mesmas produzidas.
As metas que dirigem a produção têm características
distintas nas diferentes sociedades. Em capitalismo, as metas que dirigem
são as do lucro individual dos capitalistas. Numa sociedade de
produtores associados, as metas específicas estão relacionados
com o autodesenvolvimento das pessoas que vivem na dita sociedade. Só
através de um processo em que as pessoas se envolvam, a todos os
níveis, na tomada de decisões que as afectam (isto é, a
sua vizinhança, comunidade e a sociedade como um todo), as metas que
dirigem a produção podem ser as mesmas do povo. Através
da sua participação nestas tomadas de decisões
democráticas, o indivíduo transforma, tanto as suas
circunstâncias, como produz a sua auto transformação: auto
produz-se como sujeito da nova sociedade. A referida combinação
do desenvolvimento democrático das metas e de execução
democrática das mesmas é essencial porque, através dela,
os indivíduos podem entender as conexões entre as suas
actividades e entre eles próprios. A transparência é a
regra na sociedade de produtores associados: deve ficar sempre claro quem
decidiu o que se devia fazer e como se devia fazer. Com a transparência
fortalece-se a base da solidariedade.
A compreensão da nossa interdependência facilita a
visualização dos interesses comuns, uma unidade baseada no
reconhecimento das nossas diferentes necessidades e capacidades. Vemos que a
nossa produtividade é o resultado da combinação das nossas
diferentes capacidades e que a nossa união, e o controlo
comunitário dos meios de produção convertem-nos, a todos,
em beneficiários dos esforços comuns.
Essas são as condições nas quais todos os frutos da
cooperação se dão de forma abundante e que permitem
concentrar-nos no que é realmente importante: a criação de
condições nas quais o desenvolvimento de todos os poderes humanos
seja um fim em si mesmo.
No mundo que queremos construir todas estas características e
relações coexistem simultaneamente e apoiam-se entre si. A
tomada de decisões democráticas no local de trabalho (em vez da
direcção e supervisão capitalistas); a
direcção democrática das metas de actividade por parte da
comunidade (em vez da direcção capitalista); a
produção com o propósito de satisfazer as necessidades (em
vez da procura do lucro privado); a propriedade comum dos meios de
produção (em vez da propriedade privada ou de um grupo); uma
forma de governo democrática e participativa e protagonizada (em vez de
um Estado todo poderoso e acima da sociedade); a solidariedade baseada no
reconhecimento da nossa comum humanidade (em vez da orientação
para o interesse pessoal); a concentração no desenvolvimento
humano (em vez da produção de bens), todas fazem parte de um novo
sistema orgânico: a verdadeira sociedade humana.
Mas como se constrói este mundo?
3) O processo de construção socialista
O socialismo não cai do céu. Deve alicerçar-se,
necessariamente, nas características particulares de cada país.
Por isso, equivocamo-nos se dependemos de modelos universais. Pensem em
quantas críticas de esquerda à Revolução
Bolivariana têm as suas raízes no facto desta ser diferente da
União Soviética. Cada sociedade tem características
únicas: a sua história, as suas tradições
(incluindo as religiosas e indígenas), os seus mitos, os seus
heróis, aqueles que lutaram por um mundo melhor e as capacidades
individuais desenvolvidas pelas pessoas no processo de luta.
Já que estamos a falar de um processo de desenvolvimento humano e
não de receitas abstractas, pensamos que se actua de forma mais segura
quando se escolhe o caminho próprio, o que o povo reconhece como seu, em
vez da débil imitação de um caminho seguido por outro.
Por isso mesmo, começa-se o processo de construção
socialista nos diferentes lugares respeitando o nível de desenvolvimento
económico, e isso determina, claramente, que quantidade da nossa
actividade inicial (se dependemos dos nossos próprios recursos)
deverá ser consagrada ao futuro.
Por isso mesmo, quão diferentes são as sociedades, em
função da força das suas classes capitalistas e
oligárquicas, do grau de dominação por parte das
forças do capitalismo global e da sua capacidade de aproveitar o apoio
de outras sociedades que já se encontram no caminho do socialismo.
Além disso, em cada caso, os personagens históricos que nos
iniciam no caminho podem ser muito diferentes. Aqui, uma classe
operária na sua maioria altamente organizada (como a dos livros de
receitas dos séculos anteriores), ali, um exército camponês
ou um partido de vanguarda ou uma frente de libertação nacional
(eleitoral ou armada) ou militares rebeldes, ou uma aliança contra a
pobreza. Existem infinitas e variadas realidades e ainda podem surgir mais.
Seria pedante e pouco inteligente se insistíssemos em que há um
só caminho para começar a revolução social.
No entanto, para construir realmente uma sociedade socialista, é
necessário dar um passo essencial: qualquer que seja o caminho
escolhido, este passo é o controlo e a transformação do
Estado. Sem a eliminação do controlo capitalista do poder
estatal, toda a ameaça real ao capital será aniquilada. O Estado
capitalista é um suporte essencial para a reprodução das
relações sociais capitalistas. E o exército, a
polícia, o sistema jurídico e os recursos económicos do
Estado serão mobilizados para sufocar qualquer incursão que
ameace a sua expansão. Perante uma ameaça, o capital utiliza
sempre o poder do Estado.
Ao contrário, um Estado que pretende servir de parteiro da nova
sociedade, tanto pode restringir as condições para a
reprodução capitalista, como abrir as portas aos elementos da
nova sociedade.
Ganhar "a batalha da democracia" e usar "a supremacia
política para arrebatar, gradualmente, todo o capital à
burguesia, continua a ser tão fundamental hoje como o era quando Marx e
Engels escreveram o
Manifesto Comunista.
O Estado dos trabalhadores representa uma arma essencial na luta contra o
capital, tanto para garantir que os meios de produção fiquem sob
o controlo dos produtores associados e sejam, cada vez mais, governados de
acordo com a sua lógica, como para utilizar os mecanismos estatais para
canalizar os recursos de uma maneira diferente da velha tendência e
encaminhá-los para a nova tendência.
No entanto, como Marx bem sabia, este processo requer uma classe especial de
Estado e não a forma herdada, aquele Estado todo poderoso, acima da
sociedade, que outra coisa não é do que a "força
pública organizada para a escravidão social". O
próprio Estado tem que ser transformado num instrumento que esteja
subordinado à sociedade, no "autogoverno dos produtores".
Se não se cria um poder a partir de baixo, mais que o autodesenvolvimento
que é a essência da sociedade dos produtores associados
a tendência será o aparecimento de uma classe acima de
todos nós: uma classe que identifique o progresso com a capacidade de
controlar e dirigir a partir de cima.
Marx insistiu que a classe operária não podia usar "a
máquina do Estado, tal como está, para os seus próprios
fins". Ele sabia-o porque o aprendeu na história.
Particularmente, aprendeu que os trabalhadores que tinham participado na Comuna
de Paris tinham descoberto, espontaneamente, a forma necessária do
Estado dos trabalhadores um Estado democrático e descentralizado
que fosse dirigido a partir de baixo.
"Toda a França comentava Marx deveria ser organizada
em comunas auto-administradas e autogovernadas". E respondeu às
dúvidas de Bakunin sobre o Estado operário dizendo: sim, todos
os membros da sociedade seriam realmente membros do governo "porque a
coisa começa com a auto administração de cada
distrito". Marx foi capaz de reconhecer imediatamente a
contribuição dos operários de Paris, porque a
"prática revolucionária" estava no centro da sua
concepção.
4) A prática revolucionária
Para muitos socialistas do século XIX, o caminho para a
realização da nova sociedade era tirar os seres humanos do
capitalismo e demonstrar que uma alternativa não capitalista lhe era
superior social e economicamente. Muitos dos que assim argumentavam esperavam
que o Estado ou os filantropos providenciassem os fundos necessários
para os novos projectos. Para Marx, estas propostas reflectiam uma
época em que os horrores do capitalismo eram claros, mas não eram
suficientes para transcender o capital.
Marx não negou a bondade das metas dos utópicos. Antes colocava
que "havia que usar meios diferentes para alcançá-las e as
condições reais do movimento já não eram ocultadas
debaixo de contos utópicos". Mas, em que outros meios pensava
Marx? Sem qualquer dúvida na "organização militante
da classe operária".
Observem o que os trabalhadores estão a fazer, dizia Marx.
Através das suas próprias lutas, para dar resposta às suas
necessidades, eles revelam que a batalha por uma nova sociedade trava-se
lutando dentro do capitalismo, em vez de procurar uma solução
fora dele. Nessas lutas, os trabalhadores os seus interesses comuns, chegam a
compreender a necessidade de se unirem contra o capital. Não é,
no entanto, simplesmente a formação de um bloco oposto ao capital
o que emerge dessas lutas. Marx assinalava insistentemente que o
próprio processo de luta produzia uma transformação nas
pessoas: lutando pelas suas necessidades [as pessoas] "adquirem uma nova
necessidade a necessidade da sociedade e, o que aparece como um
meio transforma-se num fim." As pessoas, através da sua
prática, transformam-se a si mesmas em sujeitos capazes de transformar o
seu mundo.
Foi isto que Marx identificou como uma prática revolucionária:
"a coincidência da mudança de circunstâncias e a
transformação da actividade humana ou auto
transformação". A mensagem de Marx aos trabalhadores num
determinado momento foi que deveriam passar anos de luta, "não
só para alcançar uma mudança na sociedade, mas
também para a sua auto transformação". Mais de vinte
anos depois escreveu novamente que os trabalhadores sabiam que deveriam passar
por longas lutas e uma série de processos históricos,
transformando as circunstâncias e os homens. Em resumo, os meios para
alcançar essa nova sociedade são
[concebidos por Marx como]
inseparáveis do processo de luta para a atingir: só actuando
as pessoas poderiam sacudir "todo o esterco do passado".
Por este motivo, Marx sustentava que o socialismo nunca podia ser atingido a
partir de cima, antes devia ser fruto do próprio trabalho da classe
trabalhadora.
Por isso, Marx deu tanta importância à Comuna de Paris. Uma vez
compreendido que as pessoas se realizam através das suas próprias
actividades, compreendemos que só onde o Estado se transforma de Estado
mediador para os trabalhadores e acima deles, em autogoverno dos produtores,
poderá dar-se um processo contínuo, pelo qual os trabalhadores
podem mudar tanto as circunstâncias como a eles próprios.
Através de uma revolução democrática, a
prática revolucionária pode promover o autodesenvolvimento do
povo em todas as esferas da vida e assegurar as condições para o
crescimento das suas capacidades.
O progresso, no caminho da construção socialista, deve ser
julgado pelo incremento da capacidade de autogestão dos trabalhadores, a
capacidade das pessoas para se autogovernarem de forma democrática,
participativa e protagonizada nas suas comunidades e na sociedade na sua
totalidade, devido ao desenvolvimento da verdadeira solidariedade entre as
pessoas.
Quando compreendemos que o objectivo deste processo é conseguir a sua
conformidade com uma sociedade que permita o pleno desenvolvimento humano,
há uma pergunta simples que pode ser colocada (não importando as
suas diferentes histórias e situações), a saber:
Estão criadas as novas relações de produção?
O melhor indicativo que temos para saber se vamos para onde queremos ir
é se os passos que estamos a dar favorecem ou prejudicam a nova
relação que deve surgir, quer dizer, a relação de
produtores associados.
A base fundamental para alcançar a nova sociedade está no
desenvolvimento da autoconfiança e a unidade dentro da classe
operária, no seu autodesenvolvimento. Sem isso estaremos a construir
castelos no ar.
5) Construindo o socialismo do século XXI
Da mesma maneira que Marx esteva disposto a mudar as suas opiniões
à luz da Comuna de Paris, nós temos que pensar no socialismo de
hoje, à luz das experiências do século XX.
Precisamos de compreender que o socialismo do século XXI não pode
ser uma sociedade estática, onde as decisões se impõem a
partir de cima e onde toda a iniciativa seja potestade dos funcionários
do governo ou dos quadros de vanguarda que se auto reproduzem.
Precisamente porque o socialismo se centra no desenvolvimento humano, requer
uma sociedade democrática, participativa e protagonizada. Uma sociedade
dominada por um Estado todo poderoso não gera seres humanos aptos para
instaurar o socialismo.
Pela mesma razão, o socialismo não é populismo. Um Estado
que provê os recursos e as soluções de todos os problemas
das pessoas não fomenta o desenvolvimento das capacidades humanas, pelo
contrário, estimula as pessoas a adoptar uma atitude passiva, a esperar
que o Estado e os líderes dêem resposta a todos seus problemas.
Além disso, o socialismo também não é
totalitarismo. Precisamente por os seres humanos serem diferentes e terem
diferentes necessidade e capacidades, o seu desenvolvimento, por
definição, requer o reconhecimento e o respeito pelas
diferenças. As pressões do Estado, ou as da comunidade, para
homogeneizar as actividades produtivas, as alternativas de consumo ou os
estilos de vida, não podem ser a base para que surja o que Marx
reconhecia como a unidade baseada no reconhecimento das diferenças.
Também há que reconhecer que o socialismo não pode ser o
culto pela tecnologia. Esta foi uma enfermidade que representou um flagelo
para o marxismo, que se manifestou na União Soviética em imensas
minas, fábricas e granjas colectivas que, supostamente,
alcançavam os benefícios da economia de escala.
Temos que reconhecer que as empresas pequenas permitem mais controlo
democrático a partir de baixo, desenvolvendo assim as capacidades dos
produtores e conseguindo uma preservação mais adequada do
ambiente, atendendo às necessidades do povo.
Podemos aprender com as instrutivas experiências do século XX.
Agora sabemos que o desejo de desenvolver um sociedade para servir o povo
não é suficiente há que estar disposto a romper com
a lógica do capital, para construir um mundo melhor. E sabemos que
não se pode construir o socialismo a partir de cima, através dos
esforços e ensinamentos de uma vanguarda que toma todas as iniciativas e
desconfia do autodesenvolvimento das massas. Sabiamente, Rosa Luxemburgo
enfatizou que "a classe operária exige o direito de cometer os seus
próprios erros e aprender com a dialéctica da
história". Se partimos da meta duma sociedade que possa
desencadear todo o potencial dos seres humanos e que reconheça o
autodesenvolvimento das pessoas, podemos construir uma sociedade
verdadeiramente humana.
Penso que muitas das lições do século XX foram aprendidas
e estão incorporadas na
Constituição da República Bolivariana da Venezuela.
Na ênfase que põe no Artigo 299º em "assegurar um
completo desenvolvimento humano", na declaração do Artigo
20º, ao afirmar que "todos e todas têm o direito ao livre
desenvolvimento da sua personalidade", e no Artigo 102º, sobre a
necessidade de "desenvolver o potencial criativo de cada ser humano e o
exercício pleno da sua personalidade numa sociedade
democrática".
Esta Constituição é muito explicita quanto à forma
como acontece este desenvolvimento: ocorre através da
participação. Tal como sublinhou Marx: "a actividade
humana é a via através da qual as pessoas se transformam, tanto
às circunstâncias como a elas próprias". A
Constituição Bolivariana, no seu artigo 62º, declara que a
participação do povo é "a forma necessária
para alcançar a participação e assegurar o seu completo
desenvolvimento, tanto individual como colectivo".
O desenvolvimento humano, em poucas palavras, não cai do céu,
é o resultado de um processo, de muitos processos nos quais o povo se
transforma. É o produto de uma sociedade "democrática,
participativa e protagonizada".
Através de formas sociais, como assinala o artigo 70º, como por
exemplo "a autogestão, cooperativas de todas as formas,
através da planificação democrática,
orçamentos participados a todos os níveis da sociedade, o povo
desenvolve as suas capacidades e habilidades" e nas garantias do artigo
135º que diz que "a virtude da solidariedade e responsabilidade
social e assistência humanitária, correspondam aos particulares,
segundo a sua capacidade", os elementos do socialismo do século XXI
estão plasmados na sua forma ideal. Agora, o desafio é
torná-los realidade.
Tradução de José Paulo Gascão.
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