O que está por trás da generosidade de Chávez?

por Arleen Rodriguez Derivet

. A Petrocaribe parece ter enchido de dúvidas os "tanques pensantes" [1] de Washington. Com o preço a que já está o petróleo (à volta de 60 dólares o barril) e os que poderá alcançar este ano (cerca de 100 dólares/barril), a decisão de Chávez de partilhar as enormes riquezas da Venezuela com os seus vizinhos de menores recursos, intriga-os e desconcerta-os.

O género Petrocaribe – que compensa as assimetrias económicas a favor do mais débil – não se relaciona com alianças anteriores. Talvez por isso, um analista da BBC Mundo teve que remeter-se às declarações de Alí Rodriguez Araque:

"Não partimos de possibilidades, mas temos a realidade como ponto de referência: Esse feliz intercâmbio", disse o chanceler venezuelano, em clara alusão ao acordo entre os dois países que deu origem à Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), como o único antecedente válido para compreender o novo projecto integrador.

O analista da BBC aceita a referência, mas não foge aos preconceitos ao tentar explicá-la. Segundo o autor, "a estreita relação entre Chávez e Havana tem a sua origem no que parece ser o afecto pessoal que há entre Chávez e Fidel Castro".

O inconveniente é que esse argumento é insuficiente para explicar as dimensões regionais da ALBA, nem sequer explica as da Petrocaribe. Então, o autor apela a um "tanque" pensante do Conselho de Assuntos Hemisféricos, com sede em Washington. Para Hampden Macbeth tudo é uma questão de "mútua necessidade": Chávez necessita da experiência cubana em saúde e educação para as suas missões [2] e Cuba necessita de petróleo para desenvolver a sua economia".

Mas esta outra teoria, tão simples como a dos afectos pessoais, também não consegue explicar que a colaboração se estende ao Caribe ou que, em perspectiva, ela esteja concebida para as Américas (e não só a Nossa, como esclareceu Chávez pessoalmente, durante a conferência magistral sobre a ALBA em Abril passado em Havana).

Diálogo Interamericano, também com sede em Washington, vai mais longe. Segundo um dos seus directores citado pela BBC, "Cuba e Venezuela abriram uma frente alternativa na América Latina na opinião pública em alguns países, talvez maioritariamente, que tanto o neoliberalismo económico, como a democracia representativa, não tiveram como resultado uma melhoria para a maioria dos Latino-americanos".

É muito cuidadosa com as palavras a perita de Diálogo: É só a "opinião pública em alguns países", ou é uma crítica e dolorosa verdade de que são precisamente o sistema político e o jogo económico, impostos a partir de Washington e quase sempre garantidos por essas mesmas instituições, as forças que colocaram as esmagadoras maiorias latino-americanas perante incertezas abismais?

Ninguém espera, naturalmente, que estes peritos vão "ao cerne da questão" no tema das assimetrias e das crises actuais ou futuras da América Latina e do Caribe, mas não é demais advertir que, quando se trata de Cuba e, adicionalmente, da Venezuela, as suas tarefas parecem reduzir-se a retorcer, a desqualificar, envenenar, logo a partir do posto de vigilância do "perito".

Por isso, as meias tintas que sobram na avaliação do panorama sócio-económico regional, tornam-se afirmações categóricas, quando a vice-presidente de Diálogo disse de Chávez que "a sua estratégia de manter o poder não seria a que é sem a assistência do aparelho político cubano".

Eis aqui outra grosseira simplificação dos factos, que silencia, interessadamente, as razões porque a Chávez, supostamente lhe interessa manter o poder. O que lhe impede reconhecer que, só nos últimos seis anos e pela primeira vez na história da Venezuela, o poder não foi um fim sem um meio, e não foi usado para enriquecer uma casta, mas para levar os benefícios dos abundantes rendimentos petrolíferos até às maioria famintas, que nunca antes tiveram acesso a eles?

Se é verdade que se citam as "missões", não se explicam o que são, não se diz que permitiram já a alfabetização de 1.400.000 pessoas e cobriram de assistência de médicos, estomatologistas, técnicos de saúde, e atenção de primeira classe os superpovoados morros de Caracas e outros confins de miséria, onde se abrigaram, durante mais de 50 anos os deserdados da sorte desse país tão rico com um povo tão pobre, que foi a Venezuela de "copeyanos" e "adecos" [3] alternando-se no poder.

Se querem chegar até à raiz do novo projecto integrador, nenhum analista sério ignoraria o conteúdo das missões, nem as mudanças profundas que elas criaram na sociedade venezuelana. Mas o pragmatismo encurta a vista e os prejuízos limitam a capacidade de observação. Caso contrário, notariam que a generosidade sempre foi incompatível com a mesquinha ambição de poder.

E Cuba, o que é que procura?

Ambos os peritos coincidem em tentar explicar os motivos cubanos à sombra da velha teoria da dependência. Segundo eles, dependemos agora do petróleo venezuelano, como antes dependíamos do petróleo soviético. Só que essa análise apaga toda a década (até 1999) de resistência e recuperação, pela qual Cuba passou, solitariamente, antes da chegada de Chávez ao poder.

Decididamente, no Conselho de Assuntos Hemisféricos e Diálogo Interamericano são incapazes de avaliar a transcendência do fenómeno que faz tremer a região, esse mesmo que deslumbrou José Saramago na sua recente viagem pela América Latina e o fez referir, com assombro, que "algo se está a passar" nesta parte do mundo, observação que posta em frente dos "tanques" pensantes de Washington, marca a exacta distância entre o olhar sensível e a análise enxameada de preconceitos.

Naturalmente que nenhuma avaliação saída dos círculos intelectuais fiéis a Washington reconhecerá generosidade, ou sentido de responsabilidade, por trás dos dinâmicos processos integradores que Chávez promove.

Não só porque não os partilham, mas porque não os compreendem. Tal como os generais romanos – formados na "ética do império", que fez da conquista e da submissão de outros povos um direito natural – desprezaram, perseguiram e condenaram os primeiros cristãos que, generosos e humildes, praticavam a ética inversa.

O paradoxo está em que, depois da chamada conversão de Constantino, a ética cristã impôs-se no Ocidente, ou pelo menos é isso que dizem todos os que vão à missa dominical para fazer professão de fé em valores universais, como a justiça e a generosidade daqueles que mais têm com os que têm menos ou nada têm nada.

Então, em que momento da história (ou da pré-história) humana, a generosidade se converteu num acto suspeito para a cristandade do Ocidente? Ou o problema é esta generosidade em concreto, esta da Venezuela, que como a que Cuba praticou durante 46 anos, provoca dúvidas porque se trata de um acto soberano de Estado e não a esmola presumida de um capitalista empanturrado de dinheiro?

À primeira pergunta teriam que responder os historiadores que tão bem sabem das traições que sofreu a original ética cristã, desde a crucificação até aos nossos dias.

À segunda atrevo-me a responder humildemente. Sim, esta generosidade dos que tendo pouco decidem partilhar o pouco ou o muito que a natureza ou os esforços próprios lhes deram, é muito incómoda para os que se apoderaram até do que não lhes pertence e, apesar disso, pedem mais, como se possessão alguma os saciasse.

Por outro lado, a generosidade de Chávez é, efectivamente, um acto inédito na história mais recente. Mas não foi assim no passado. Não deram mais, não deram as suas próprias vidas os que com Bolívar cavalgaram por toda a América atrás do ideal de independência e formação de uma grande nação que quase dois séculos depois é ainda um sonho?

Não foram, no último meio século, centenas de milhares de cubanos até mundos desconhecidos, para salvar da morte, da insalubridade, da ignorância outros povos, tão ou mais pobres, e dividir com eles um capital humano que é, definitivamente, a nossa única riqueza?

Deve aborrecer muito aqueles que, assentes num injusto poder económico conseguido à custa do petróleo venezuelano ou do talento e dos recursos roubados aos nossos povos, nem sequer cumprem o seu compromisso de doar uns míseros 0,7% dos seus multimilionários PIB para a pobreza de outros povos.

Petrocaribe como Petrosur, Telesur e ALBA, definitivamente, não são mais do que provas de quanto um gesto generoso pode mudar o mundo.

Mas são também denúncias contra a ética contrária: a da especulação financeira que inflaciona os preços só pagáveis pelos poderosos e a dos imperadores peritos em auto-atentados e mentiras, que desencadeiam guerras para se apoderarem de recursos energéticos alheios.

Concedamos à medíocre filosofia dos que não acreditam na generosidade porque sim, porque a humanidade lhes faz tanta falta como a justiça, que há qualquer coisa por trás da generosidade de Chávez. Há qualquer coisa sim: há um mundo novo a nascer. E há também uma montanha de perigos que o espreita, como já se pode adivinhar na maledicência dos peritos.

Notas do tradutor:
[1] Tradução algo irónica da expressão "think-thank".
[2] Refere-se, entre outras, à missión Robinson e à operación sonrisa, cujas finalidades são, respectivamente, acabar com o analfabetismo na Venezuela e proporcionar tratamento dentário a todos os venezuelanos pobres.
[3] Refere-se a dois partidos da oligarquia venezuelana.


O original encontra-se em Resumen Latinoamericano , Nº 605, 05/Julho/2005.
Tradução de José Paulo Gascão.


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13/Jul/05