Pico petrolífero – O que faremos agora?

por Robert L. Hirsch [*]

A história do pico da produção petrolífera mundial tem sido verdadeiramente notável. As preocupações dos dias modernos foram redespertadas quando em 1998 Campbell e Laherrere publicaram as suas ideias sobre o peak oil na Scientific American. Não surpreendentemente, elas foram em grande medida ignoradas. Alguns no establishment deram-se ao trabalho de proferir frases de desprezo, mas umas poucas almas independentes decidiram considerar o problema com seriedade.

A ASPO foi constituída logo após e começou a efectuar reuniões anuais, promover a comunicação e a ajudar a criar um aumento do interesse no assunto. Os preocupados com o peak oil começaram a formar uma comunidade e a sua força aumentou. Contra-argumentos sustentando o ponto de vista da não existência do problema vieram da OPEP, do CERA, a EIA, IEA e de algumas das grandes companhias de petróleo. As proclamações de negação cresceram em intensidade, indicando que a consideração séria do pico petrolífero começava a perturbar partes do establishment. Vários novos estudos a apoiar a ameaça do pico petrolífero surgiram de indivíduos e grupos independentes. As previsões para o início do pico petrolífero iam desde mais de 20 anos no futuro até cerca de 15 anos e a seguir menos. O establishment continuava a argumentar que o problema estava tão distante que as pessoas não precisavam de se preocupar.

Houve um número significativo de marcos ao longo do caminho – um de importância especial foi o livro de Matt Simmons, Twilight in the Desert . Com o passar do tempo, a IEA e algumas das grandes companhias de petróleo começaram a aderir à lista daqueles que estavam abertamente preocupados. O ímpeto cresceu, influenciado em grande parte pelo notável aumento nos preços do petróleo.

Em meados de 2008 a crise económica desencadeou-se. Como as economias do mundo arrefeceram, a procura de petróleo declinou. Para a surpresa de quase toda a gente, os preços do petróleo caíram de aproximadamente US$150 por barril para menos de US$40. Com os preços da gasolina nos EUA a retraírem-se para o que geralmente era considerado como níveis toleráveis e a as ameaças económicas avassaladoras, não é de admirar que o pico petrolífero ficasse em banho-maria na consciência pública.

O mundo está agora num período de caos económico monumental. As pessoas estão desorientadas e inseguras acerca do que fazer para restaurar as suas economias. Muitos economistas, financeiros e executivos sérios são avessos até a prever quando poderá começar uma recuperação económica. Agora é mais fácil para mim entender como os meus pais e avós se terão sentido na década de 1930.

O 'planalto' da produção. Mas o problema do pico petrolífero não desapareceu. A produção mundial de combustíveis líquidos atingiu um planalto (plateau) em meados de 2004 e tem flutuado dentro de uma amplitude relativamente estreita apesar dos poderosos esforços para aumentar a produção mundial. Em meados de 2008, beneficiando do trabalho de Campbell, Laherrere, Skrebowski, Aleklett, Simmons, Robelius, Gilbert, Bentley, Al Husseini, Deffeyes, Koppelaar, Birol e outros, cheguei a acreditar que a produção mundial de líquidos podia permanecer no planalto existente durante os 2 a 5 anos seguintes e então entrar num declínio de 3 a 5 por cento ao ano.

Recentemente a OPEP reduziu a produção de petróleo numa tentativa de impedir o declínio do preço. Como podem as suas reduções atrasar o início do declínio mundial da produção de combustíveis líquidos? Assumindo o modelo planalto e cinco anos para o início do declínio, cada milhão de barris por dia de produção de petróleo retida "compra" aproximadamente três semanas de prazo, de modo que uma redução firme e contínua de digamos quatro milhões de barris por dia ao longo de cinco anos por resultar num adiamento do início do declínio da produção mundial de petróleo de talvez uns três meses. Não é demasiado.

Estamos agora num período de grande desorientação humana, mas a geologia não se torna desorientada numa escala de tempo humana. O iminente problema do pico petrolífero agora pode estar ausente da generalidade dos media e da consciência pública, mas não desapareceu. Faríamos bem em continuar estudos significativos do pico petrolífero e da sua amenização durante este período de acalmia. Mais estudos de opções práticas, físicas e administrativas, são necessários. Refazer totalmente nossas cidades e sistemas de transportes são objectivos admiráveis, mas exigirão um tempo extremamente longo. Nesse meio tempo, temos relativamente pouco pensamento em profundidade acerca do que podemos fazer quando a vontade de actuar subitamente aparecer. Precisamos melhores análises sobre opções tais como racionamento (como fazê-lo), partilha de carros (como forçá-lo e policiá-lo), telecomutação (como fazer com que isto aconteça), implementar rapidamente EOR, CTL, óleo de xisto, etc (a rotina habitual não funcionará), etc. Entre este momento e a activação, podemos desenvolver cuidadosamente opções de amenização planeada para quando as pessoas estiverem prontas a começar seriamente a amenizar o problema do pico petrolífero. Trabalhar sobre soluções práticas representa um objectivo ambicioso.

16/Fevereiro/2009

Do mesmo autor:
  • A necessidade do planeamento a fim de amenizar as consequências da produção máxima mundial de petróleo
  • A mãe de todas as crises de energia
  • O pico da produção mundial de petróleo: impactos, amenização & gestão de riscos

    [*] Conselheiro Senior de Energia no MISI. Anteriormente foi administrador assistente da ERDA, EPRI VP, ARCO VP dos EUA, e presidente da Secção de Sistemas de Energéticos e Ambientais na Academia Nacional dos EUA. Foi o autor principal de Peaking of World Oil Production: Impacts, Mitigation, And Risk Management (2005), escrito para o National Energy Technology Laboratory.


    O original encontra-se em Peak Oil Review, Vol. 4, Nº 6, editado pela ASPO-USA .

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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