Como se trama a uberização total
Primeiro ato
O mundo principiou este trágico ano de 2020 de modo muito diferente.
Não bastasse a recessão econômica global e em curso
acentuado no Brasil, já visualizávamos no radar sinais de
expressivo aumento dos índices de informalidade,
precarização e desemprego, quer pela proliferação
de uma miríade de trabalhos intermitentes, ocasionais, flexíveis
etc., quer pelas formas abertas e ocultas de subocupação,
subutilização e desemprego, todos contribuindo para a
ampliação dos níveis já abissais de desigualdade e
miserabilidade social.
Paralelamente a esse quadro social crítico, o léxico empresarial
que se expandia no universo maquínico-informacional-digital estampava
muita pomposidade:
platform economy, crowd sourcing, gig-economy, home office, home work, sharing
economy, on-demand economy,
entre tantas outras denominações, sem esquecer que os altos
gestores (outrora presidentes e diretores das grandes
corporações) foram renomeados como
chief executive officer (CEO).
Até o
coaching
foi inventado, afinal seria preciso alguém que ganhasse um bom
cacau
para realizar algum afago espiritual.
E esse novo palavrório, propalado pela gramática do capital,
somou-se àquele já consolidado e que adulterava os reais
significados etimológicos das palavras, que todos conhecemos: manter
sempre a
resiliência,
atuar com muita
sinergia,
converter-se em autêntico
colaborador
e em verdadeiro
parceiro,
vangloriar-se da nova condição de
empreendedor,
exercitar o
trabalho voluntário
(em verdade uma "sutil" imposição, visto que o
voluntariado se tornou condição
sine qua non
para obtenção de emprego), entre tantos outros vitupérios
à linguagem, que lhe imputam novas
"significações".
Mas o inesperado fez essa fumegante nomenclatura, que parecia tão bela,
virar pura balela. A pandemia do capital tratou de demonstrar sua impostura:
"colaboradores" estão sendo demitidos aos milhares,
"parceiros" estão podendo optar entre reduzir os
salários ou conhecer o desemprego e os pequenos empreendedores
não encontram consumidores e veem sua renda se esvanecer.
É bom recordar, porém, que mesmo antes da explosão da
pandemia a realidade cotidiana do labor já vinha expressando um
inteiramente outro: pejotização, trabalho intermitente,
subocupação, subutilização, infoproletariado,
cibertariado, escravidão digital, professor delivery, frila fixo,
precári@s inflexíveis etc., terminologia essa que, com tom
irônico e crítico, se originou da própria lavra do
trabalho. É por isso que
uberização
tem hoje o mesmo traço pejorativo que a
walmartização
ostentou quando se falava das condições de trabalho nos
hipermercados.
Se esse ainda era o cenário no Natal de 2019, com Trump, Bolsonaro,
Orban e outras aberrações assemelhadas, tudo começou a se
agravar com o advento da pandemia. Com a propagação global do
coronavírus, o que era desanimador se tornou desolador. E a crise
econômica que atingia duramente o Brasil passou a ser amplificada pelas
crises do governo Bolsonaro-Guedes, uma simbiose nada esdrúxula entre
concepções ditatoriais e fascistas e uma variante de
neoliberalismo primitivo, devastando ainda mais nosso chão social
já bastante desertificado.
Alguns dados estampam essa crueza. Na mensuração referente ao
primeiro trimestre de 2020, o IBGE apresentou uma intensificação
das condições desumanas da classe trabalhadora: atingimos o
contingente de 12,9 milhões de desempregados, e a informalidade (flagelo
que se tornou
leitmotiv
da ação do capital) superou a casa de 40%, com cerca de 40
milhões de trabalhadores e trabalhadoras à margem da
legislação social protetora do trabalho.
Vale ressaltar que esses dados não refletem o que vem se passando no
presente (segundo trimestre), dada a expansão exponencial da pandemia no
Brasil, mas tão somente o pouco que era visível até os
primeiros dias de março, visto que o desemprego (tanto aberto quanto
aquele por desalento) está em grande medida invisibilizado pela
paralisação de amplos setores da economia, permitindo tão
somente uma aproximação sintomática da realidade. Se a
esses dados incluirmos os subocupados (que trabalham menos de 40 horas) e os
subutilizados (que segundo o IBGE englobam tanto os subocupados como os
desocupados e a força de trabalho potencial),
[1]
teremos uma ideia mais precisa do tamanho da tragédia social que
não para de se amplificar no país que em fins de maio se encontra
no epicentro da pandemia.
Segundo ato
Foi nessa situação verdadeiramente catastrófica, em que a
simultaneidade da crise econômica, social e política se verificou,
que a nova pandemia aterrissou em nossos aeroportos. Muito distante de um
vírus cuja responsabilização se devesse a algum desmando
da natureza, tão ao gosto da apologética da ignorância que
hoje se esparrama aqui e alhures, o que estamos presenciando, em escala global,
é resultante da expansão e generalização do sistema
de metabolismo antissocial do capital.
Carregando uma lógica essencialmente destrutiva, esse metabolismo
só pode viver e se reproduzir por meio da destruição, seja
da natureza, que jamais esteve em situação tão
deplorável, seja da força de trabalho, cuja
derrelição, corrosão e dilapidação se
tornaram absolutamente insustentáveis. Sendo expansionista e
incontrolável, desconsiderando a totalidade dos limites humanos,
societários e ambientais, o sistema de metabolismo antissocial do
capital alterna-se entre produção, destruição e
letalidade. Senão, o que significa a enorme pressão de amplas
parcelas do empresariado predador que exige junto ao
governo-de-tipo-lúmpen
[2]
a imediata volta ao trabalho e à produção, em meio
à explosão de mortes que não param de crescer por conta da
pandemia? Será para preservar os empregos, como dizem?
A resposta é de singela clareza e está estampada não
só no país, mas em todos os rincões do mundo. Da China
à Suécia, da Alemanha à África do Sul, da
Índia aos Estados Unidos, da França ao México, do
Japão à Rússia, com a eclosão da pandemia do
capital, a criação de riqueza e de lucro se estancou, dada a
paralisação da produção, com exceção
das chamadas atividades essenciais (aliás, ao ampliar ou restringir essa
definição, cada governo estampa seu nível de maior
sujeição e servilismo ao capital).
Como as corporações globais sabem melhor do que ninguém
que a força de trabalho é uma mercadoria especial, uma vez que
é a única capaz de desencadear e impulsionar o complexo produtivo
presente nas cadeias produtivas globais que hoje comandam o processo de
criação de valor e de riqueza social, os capitais aprenderam bem,
ao longo destes quase três séculos de dominação, a
lidar com (e contra) o trabalho.
Sabedores de que, se efetivassem a completa eliminação do labor,
eles se veriam na incômoda posição de extinguir seu
próprio ganha-pão, sua alquimia diária, cotidiana e
ininterrupta está voltada indelevelmente para reduzir ao máximo o
trabalho humano necessário à produção. E assim se
faz por meio da introdução compensadora do arsenal
maquínico-informacional-digital disponível, ou seja, pelo uso das
tecnologias de informação e comunicação (TIC),
"internet das coisas", impressão 3D,
big data,
inteligência artificial, tudo isso enfeixado, em nossos dias, na mais
do que emblemática proposta da indústria 4.0.
Que esse complexo tecnológico-digital-informacional não tenha
como finalidade central os valores humano-sociais, isso é mais do que
uma obviedade. Ou será que alguém acredita que a guerra entre a
norte-americana Apple e a chinesa Huawei tenha como principal objetivo melhorar
substantiva e igualitariamente as condições de vida e trabalho
dos bilhões de homens e mulheres, brancos, negros, indígenas,
imigrantes, que perambulam entre o desemprego, subemprego, informalidade e
intermitência? Alguém pode imaginar que o objetivo das grandes
corporações globais seja dar-lhes trabalho digno, salários
justos, vida dotada de sentido, atendimento pleno de suas necessidades
materiais e simbólicas?
Um breve olhar para as condições de trabalho da terceirizada
global Foxconn, em suas unidades na China onde produz a marca Apple, nos
revelou dezessete tentativas de suicídio em 2010, das quais treze
lamentavelmente se concretizaram. Podemos lembrar também as
rebeliões contra o famigerado "sistema 9-9-6", praticado pela
Huawei (e tantas outras empresas chinesas do ramo digital, como a Alibaba), que
significa trabalhar das 9 às 21 horas (9 horas), seis dias por semana.
Fácil, não?
Mas, se assim caminhava o admirável mundo do trabalho antes da
explosão do coronavírus, o que está sendo gestado no
presente, em plena pandemia do capital? Quais experimentações do
trabalho estão sendo maquinadas nos laboratórios do capital,
enquanto uma parte expressiva da classe trabalhadora preenche os túmulos
que, a céu aberto, estão acolhendo seus corpos?
Terceiro ato
Se nossa análise está na direção certa, se estamos
apreendendo o cheiro da coisa, a principal forma experimental do labor
pós-pandêmico se encontra no trabalho uberizado. Utilizando-se
ilimitadamente da informalidade, flexibilidade, precarização e
desregulamentação, traços marcantes do capitalismo no Sul
global (e que se expandem intensamente também no Norte), coube às
grandes plataformas digitais e aplicativos, como Amazon (e
Amazon Mechanical Turk
), Uber (e Uber Eats), Google, Facebook, Airbnb, Cabify, 99, Lyft, iFood,
Glovo, Deliveroo, Rappi etc, dar um grande salto pela adição das
tecnologias informacionais.
E aqui os algoritmos se destacam, visto que são programas cuidadosamente
preparados para processar imenso volume de informações (tempo,
lugar, qualidade), capazes de conduzir a força de trabalho segundo as
demandas requeridas, dando-lhes a aparência de neutralidade.
[3]
Juntamente com a inteligência artificial e todo o arsenal digital
canalizado para fins estritamente lucrativos, isso vem possibilitando a
criação de um novo monstrengo que adultera a concretude e
efetividade das relações contratuais vigentes. Os trabalhos
assalariados transfiguram-se em "prestação de
serviços", o que resulta em sua exclusão da
legislação social protetora do trabalho. Impulsionados pelo
ideário da empulhação, que os fazia sonhar com um
"trabalho sem patrão", converteram-se no que, em
O privilégio da servidão,
denominei escravidão digital.
Realizando jornadas de trabalho frequentemente superiores a 8, 10, 12 ou mais
horas por dia, muitas vezes sem folga semanal; percebendo salários
baixos e que estão sendo subtraídos durante a pandemia, sem
explicação por parte das plataformas digitais; padecendo das
demissões sem nenhuma justificativa; tendo de arcar com os custos de
manutenção de veículos, motos, celulares e equipamentos
etc., começamos a desvendar, nos laboratórios do capital, os
múltiplos experimentos que pretendem implantar depois da pandemia, que
se pode assim resumir: exploração e espoliação
acentuadas e nenhum direito do trabalho.
Se a desmedida empresarial continuar ditando o tom, teremos mais
informalização com informatização,
"justificada" pela necessidade de recuperação da
economia pós-Covid-19. E sabemos que a existência de uma
monumental força sobrante de trabalho favorece sobremaneira essa
tendência destrutiva do capital pós-pandêmico.
Há ainda outros exemplos ilustrativos das experimentações
do capital em curso. A simbiose entre trabalho informal e mundo digital vem
permitindo que os gestores possam sonhar com trabalhos ainda mais
individualizados e invisibilizados. Ao perceberem que o isolamento social
realizado durante a pandemia vem fragmentando a classe trabalhadora e assim
dificultando as ações coletivas e a resistência sindical,
eles procuram avançar na ampliação do home office e do
teletrabalho. Desse modo, além da redução de custos, abrem
novas portas para uma maior corrosão dos direitos do trabalho,
acentuando a desigual divisão sociossexual e racial do trabalho e
embaralhando de vez o tempo de trabalho e de vida da classe trabalhadora.
[4]
Os bancos, que exercitam uma pragmática de enorme enxugamento há
décadas, uma vez que têm se utilizado intensamente do arsenal
digital, já devem estar fazendo os cálculos de quanto vão
lucrar com a introdução do home office e do teletrabalho.
Vale, por fim, destacar outro exemplo que tem sido emblemático: o EAD
(ensino a distância). Essa prática, que vem se intensificando
durante a pandemia, tanto no ensino privado como no público e
especialmente nas faculdades privadas, além de objetivar a
redução dos custos e aumentar os lucros, visa fortalecer grandes
conglomerados privados "educacionais". Recentemente, como noticiou
amplamente a imprensa, a Laureate, que congrega várias faculdades
privadas, além de utilizar robôs na correção de
trabalhos sem conhecimento dos alunos, demitiu mais de uma centena de
professores.
Assim, por meio desses e de outros mecanismos, novas modalidades de
corrosão do trabalho vêm ganhando forte impulsão durante a
pandemia e se ampliando nas mais diversas atividades econômicas,
invadindo também o espaço público e as empresas estatais.
Poucas semanas atrás,
o CEO da Petrobras
somou-se ao coro ao dizer que a estatal pode "trabalhar com 50% das
pessoas em casa" e assim "liberar vários prédios que
custam muito".
[5]
Vale recordar que, logo antes da eclosão do
coronavírus, houve uma importante greve nacional dos petroleiros.
Em meio a tanta maquinação, imaginar que o apoio de R$ 600
[~120] (por três meses) para os que se encontram na informalidade
seja suficiente para reduzir o flagelo e o vilipêndio a que estão
submetidos só é possível para um governo que pratica a
necropolítica e a necroeconomia, o que o levou a "descobrir"
que existem mais 40 milhões de trabalhadores/as
invisíveis,
dura constatação do principal resultado de sua política
genocida.
10/Junho/2020
[1] Ver Ricardo Antunes, Coronavírus: o trabalho sob fogo cruzado (e-book),
Boitempo, São Paulo, 2020.
[2] Conforme Ricardo Antunes, Politica della caverna, Castelvecchi, Roma, 2019.
[3] Conforme Vitor Filgueiras e Ricardo Antunes, “Plataformas digitais,
uberização do trabalho e regulação no capitalismo contemporâneo”, Contracampo,
Niterói, 2020.
[4] Sobre home office, teletrabalho e seus usos e abusos, ver Ricardo Antunes,
Coronavírus…, op. cit.
[5] Juliana Estigarribia, " ‘Podemos trabalhar com 50% dos funcionários em
casa’, diz CEO da Petrobras ", Exame, 15 maio 2020.
Ver também:
A novilíngua neoliberal no seu esplendor
A sabedoria convencional continua
Linguagem e domínio ideológico da burguesia
Entregadores antifascistas: "Não quero gado. Quero formar entregadores pensadores"
[*]
Sociólogo. Coordenador do livro
Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (IV) Trabalho digital,
autogestão e expropriação da vida,
publicado pela
Boitempo
.
O original encontra-se em
Le Monde Diplomatique Brasil
e em
outraspalavras.net/outrasmidias/como-se-trama-a-uberizacao-total/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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