O capital financeiro mascara-se de verde
Ridiculamente, o governo português acaba de criar um
"Ministério do Ambiente e da Ação
Climática". A pretensão de que um político pode
mandar no clima ou alterá-lo é um dos aspectos mais caricatos do
novo governo de António Costa.
por F. William Engdahl
[*]
Quem haveria de dizer. As próprias mega-corporações e
mega-bilionários por trás da globalização da
economia mundial nas últimas décadas, cuja busca de valor para o
accionista e redução de custos infligiu tantos danos ao meio
ambiente tanto no mundo industrializado quanto nas economias
subdesenvolvidas da África, Ásia e América Latina
são os principais apoiantes do movimento de base da
"descarbonização" com origem na Suécia,
Alemanha, EUA e outros lados.
Será um repente de consciência culpada, ou poderia haver uma
agenda mais profunda da financiarização do próprio ar que
respiramos e muito mais?
O actual movimento em torno das questões climáticas pode ser
observado sob muitos ângulos. Mas um que não pode ser ignorado
é o que regista o facto de, por trás das suas expressões
mais mediáticas, estarem gigantes da finança capitalista global e
entidades cujo currículo é não a defesa do planeta mas uma
acção danosa global sobre o ambiente e as sociedades humanas.
Mesmo que se acredite nos perigos do CO2 e nos riscos do aquecimento global
criador de uma catástrofe global com o aumento da temperatura
média de 1,5 a 2 graus Celsius nos próximos 12 anos, vale a pena
observar
quem está a promover a actual inundação de propaganda e de
activismo climático.
Finança verde
Vários anos antes de Al Gore e outros decidirem utilizar uma jovem
escolar sueca para ser cabeça de cartaz quanto à urgência
da acção climática, ou de surgir nos EUA o apelo de
Alexandria Ocasio-Cortez a uma completa reorganização da economia
em torno de um Green New Deal, os gigantes da finança começaram a
elaborar esquemas a fim de direccionar centenas de milhares de milhões
de fundos futuros para investimentos em empresas "climáticas"
em muitos casos sem valor.
Em 2013, após anos de cuidadosa preparação, uma empresa
imobiliária sueca, a Vasakronan, emitiu o primeiro "Título
Verde"
("Green Bond")
corporativo. Foram seguidas por outras, incluindo Apple, SNCF e o grande banco
francês Credit Agricole. Em Novembro de 2013 a muito esburacada Tesla
Energy de Elon Musk emitiu o primeiro título lastreado na energia solar.
Hoje, de acordo com a chamada Climate Bonds Initiative, mais de US$500 mil
milhões de tais Títulos Verdes estão pendentes. Os
criadores da ideia dos títulos declaram que o seu objectivo é
conquistar uma grande fatia dos US$45 milhões de milhões
(trillion)
em activos sob gestão global que assumiram o compromisso nominal de
investir em
projectos "amistosos com o clima
.
O gentil príncipe Charles, futuro monarca do Reino Unido, juntamente com
a finança do Banco da Inglaterra e da City de Londres, promoveram
"instrumentos financeiros verdes", liderados pelos Green Bonds, a fim
de redireccionar planos de pensão e fundos mutualistas para projectos
verdes. Um interveniente chave na ligação das
instituições financeiras mundiais com a Agenda Verde é o
governador em vias de saída do Banco da Inglaterra, Mark Carney. Em
Dezembro de 2015, o Financial Stability Board (FSB) do Banco de Pagamentos
Internacionais, presidido na altura por Carney, criou a Força-Tarefa
sobre Divulgação Financeira Relacionada com o Clima (Task Force
on Climate-related Financial Disclosure,
TCFD
), para aconselhar
"investidores, credores e seguros sobre riscos relacionados com o
clima". Isso certamente era um foco bizarro para os banqueiros centrais
do mundo.
Em 2016, a TCFD, juntamente com a City of London Corporation e o governo do
Reino Unido, iniciaram a Iniciativa de Financiamento Verde, com o objectivo de
canalizar milhões de milhões de dólares para investimentos
"verdes". Os banqueiros centrais do FSB nomearam 31 pessoas para
constituir o TCFD. Presidido pelo bilionário Michael Bloomberg, do
sector financeiro, inclui pessoas-chave do JP MorganChase; do BlackRock
um dos maiores gestores de activos do mundo, com quase US$7 milhões de
milhões; o Banco Barclays; HSBC, o banco Londres-Hong Kong repetidamente
multado por lavagem de fundos da droga e outras origens obscuras; a Swiss Re, a
segunda maior resseguradora do mundo; o Banco ICBC da China; a Tata Steel, a
petroleira ENI, a Dow Chemical; o gigante mineiro BHP Billington e David Blood
da Generation Investment LLC de Al Gore. De facto, parece que são as
raposas que estão a escrever as regras para o novo Galinheiro Verde.
Carney, do Banco da Inglaterra, também foi um actor-chave nos
esforços para transformar a City de Londres no centro financeiro da
Finança Verde global. O Chanceler do Tesouro do Reino Unido que
está de saída, Philip Hammond, divulgou em Julho de 2019 um Livro
Branco, "Estratégia Financeira Verde: Transformando a
Finança para um Futuro Mais Verde". O documento afirma: "Uma
das iniciativas mais influentes a emergir é o Conselho de Estabilidade
Financeira, Força-Tarefa do Sector Privado sobre
Divulgações Financeiras Relacionadas com o Clima (TCFD), apoiada
por Mark Carney e presidida por Michael Bloomberg. Isto foi endossado por
instituições que representam
US$118 milhões de milhões de activos em todo o mundo
. "Parece haver aqui um plano. O
plano é a financiarização de toda a economia mundial
usando o medo de um cenário de fim do mundo para alcançar
objectivos arbitrários, tais como "zero emissões
líquidas de gases de efeito de estufa".
Goldman Sachs actor principal
O omnipresente banco da Wall Street, Goldman Sachs, que desovou, entre outros,
o presidente cessante do BCE, Mario Draghi, e o presidente do Banco da
Inglaterra, Carney, acaba de revelar o primeiro índice global das
acções ambientais mais cotadas, realizado em conjunto com o CDP
de Londres, anteriormente o Projecto de Divulgação de Carbono. O
CDP, significativamente, é financiado por investidores como HSBC,
JPMorgan Chase, Bank of America, Merrill Lynch, Goldman Sachs, American
International Group e State Street Corp.
O novo índice, chamado CDP Environment EW e CDP Eurozone EW, visa atrair
fundos de investimento, sistemas de pensões estatais como o CalPERS
(Sistema de Aposentadoria de Funcionários Públicos da
Califórnia) e CalSTRS (Sistema de Aposentadoria de Professores do Estado
da Califórnia) com um total combinado de mais de US$600 mil
milhões em activos, para investir nos seus alvos cuidadosamente
escolhidos. As empresas mais bem cotadas no índice incluem a Alphabet,
proprietária do Google, Microsoft, ING Group, Diageo, Philips, Danone e,
convenientemente,
Goldman Sachs
.
Entram Greta, AOC & companhia
Neste ponto, os acontecimentos assumem uma feição cínica
quando somos confrontados com muito populares e muito promovidos activistas
climáticos, como Greta Thunberg da Suécia, ou Alexandria
Ocasio-Cortez, 29 anos, de Nova York, e o Green New Deal. Por muito sinceros
que tais activistas possam ser, existe uma bem oleada máquina financeira
por detrás da sua promoção em busca do ganho.
Greta Thunberg faz parte de uma rede bem conectada, ligada à
organização de Al Gore, que está a ser cinica e
profissionalmente comercializada e usada por agências como a ONU, a
Comissão da UE e os interesses financeiros por detrás da actual
agenda climática. Como o investigador e activista climático
canadiano Cory Morningstar documenta numa excelente série de posts, o
que está em jogo é uma rede bem urdida que está ligada ao
investidor climático e enormemente rico aproveitador do clima nos EUA,
Al Gore, presidente do grupo Generation Investment.
O parceiro de Gore, David Blood, ex-funcionário do Goldman Sachs, como
mencionado anteriormente, é membro do TCFD criado pelo BIS. Greta
Thunberg, juntamente com sua amiga climática norte-americana de 17 anos,
Jamie Margolin, foram listadas como "conselheira e encarregada especial
para a juventude" da ONG sueca Não Temos Tempo
(We Don't Have Time),
fundada pelo seu CEO Ingmar Rentzhog. Rentzhog é membro dos
Líderes de Organização da Realidade Climática de Al
Gore e integra a Força-Tarefa de Política Climática
Europeia. Foi treinado em Março de 2017 por Al Gore em Denver e
novamente em Junho de 2018 em Berlim. O Projecto de Realidade Climática
de Al Gore é um parceiro de We Don't Have Time.
A mão de Soros
A congressista Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), que causou um grande
alvoroço nos seus primeiros dias no Congresso dos EUA por apresentar um
"Green New Deal" para reorganizar completamente a economia dos EUA a
um custo de talvez US$100 milhões de milhões, também
não está sem orientação especializada. AOC admitiu
abertamente que concorreu ao Congresso por insistência de um grupo
chamado Justice Democrats. Disse a um entrevistador: "Eu não
estaria a concorrer se não fosse o apoio dos Justice Democrats e do
Brand New Congress. Na verdade foram essas organizações, tanto a
JD como o Brand New Congress, que me pediram em primeiro lugar para concorrer.
Foram quem me pediu para concorrer há um ano e meio
" Agora,
como congressista, os conselheiros de AOC incluem o co-fundador do Justice
Democrats, Zack Exley. Exley era bolseiro da Open Society e obteve fundos de,
entre outras, a Fundação Open Society e da Ford Foundation para
criar um antecessor do Justice Democrats a fim de recrutar candidatos
seleccionados para os cargos.
A verdadeira agenda é económica
As ligações entre os maiores grupos financeiros do mundo, bancos
centrais e corporações globais à actual
promoção de uma estratégia climática radical para
abandonar a economia dos combustíveis fósseis em favor de uma
vaga e inexplicada economia verde, parece que tem pouco a ver com a
preocupação genuína em fazer no nosso planeta um ambiente
limpo e saudável para viver. É antes uma agenda, intimamente
ligada à Agenda 2030 da ONU para uma economia
"sustentável" e para gerar literalmente milhões de
milhões de dólares em nova riqueza para os bancos globais e os
gigantes financeiros que constituem os poderes reais existentes.
Em Fevereiro de 2019, na sequência de um discurso de Greta Thunberg na
Comissão da UE em Bruxelas, o então presidente da Comissão
da UE Jean-Claude Juncker, depois de beijar galantemente a mão de Greta,
parecia ter sido impelido a uma acção efectiva. Disse a Greta e
à imprensa que a UE deveria gastar centenas de milhares de
milhões de euros durante os próximos 10 anos no combate às
alterações climáticas. Juncker propôs que entre 2021
e 2027, "um em cada quatro euros gastos no orçamento da UE
vá para uma acção para mitigar a alteração
climática". O que o astuto Juncker não disse foi que a
decisão não tinha nada a ver com o apelo da jovem activista
sueca. Fora tomada em conjunto com o Banco Mundial um ano antes, em 26 de
Setembro de 2018, na One Planet Summit, juntamente com o Banco Mundial, as
Fundações Bloomberg, o Fórum Económico Mundial e
outros. Juncker usou espertamente a atenção mediática
dedicada à jovem sueca para promover a sua agenda climática.
Em 17 de Outubro de 2018, dias após o acordo da UE na Cimeira One
Planet, a UE de Juncker assinou um Memorando de Entendimento com a Breakthrough
Energy-Europe, no qual as empresas membros da Breakthrough Energy-Europe
terão acesso preferencial
a qualquer financiamento
.
Os
membros
da Breakthrough Energy incluem Richard Branson, da Virgin Air, Bill Gates,
Jack Ma do Alibaba, Mark Zuckerberg do Facebook, Príncipe Al-Waleed bin
Talal da HRH, Ray Dalio da Bridgewater Associates; Julian Robertson do gigante
de hedge funds Tiger Management; David Rubenstein, fundador do Carlyle Group;
George Soros, Presidente do Soros Fund Management LLC; Masayoshi Son, fundador
do Softbank, Japão.
Não se engane. Quando as mais influentes corporações
multinacionais, os maiores investidores institucionais do mundo, incluindo
BlackRock e Goldman Sachs, a ONU, o Banco Mundial, o Banco da Inglaterra e
outros bancos centrais do BIS se alinham por trás do financiamento da
chamada Agenda Verde, chamem-lhe Green New Deal ou outra coisa, é hora
de olhar para além da superfície das campanhas activistas do
clima, para a agenda real. A imagem que surge é a tentativa de
reorganização financeira da economia mundial usando o pretexto do
clima algo em que o Sol e sua energia têm ordens de grandeza mais
próximas daquilo que a humanidade jamais conseguiu a fim de
tentar convencer as pessoas comuns a fazerem sacrifícios
incalculáveis para "salvar o nosso planeta".
Remontando a 2010, o chefe do Grupo de Trabalho 3 do Painel Intergovernamental
das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC),
dr. Otmar Edenhofer, disse a um entrevistador: "
é preciso
dizer claramente que nós de facto redistribuímos a riqueza
mundial através da política climática. É preciso
libertarmo-nos da ilusão de que a política climática
internacional é política ambiental. Isto não tem quase
nada a ver com política ambiental, com problemas tais como
desflorestação
ou o buraco do ozono
". Desde então, a estratégia de política
económica tornou-se muito mais desenvolvida.
18/Outubro/2019
[*]
Obras do autor
.
Do mesmo autor:
Are We Blocking Out the Sun?
Ver também:
Acerca da impostura global
Acerca do chamado "aquecimento global"
(perguntas e respostas)
O original encontra-se em
journal-neo.org/2019/09/25/climate-and-the-money-trail/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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