Os bitcoins não são uma salvaguarda contra o risco de cauda

por Nouriel Roubini [*]

Risco de cauda. Elon Musk pode estar a comprá-los, mas isso não quer dizer que todos devam imitá-lo.

A afirmação de que os bitcoins são o novo "ouro digital" está a alimentar uma nova bolha de bitcoins e de outras criptomoedas. A última bolha em 2017-2018 viu os bitcoins a passar de 1000 dólares para 20 000 dólares e depois a caírem para 3000 dólares no final de 2018.

Como o valor fundamental do bitcoin é zero e seria negativo se fosse aplicado uma adequada taxa de carbono à sua produção altamente poluidora e de uso intensivo de energia, prevejo que a bolha atual acabará por rebentar.

Referirmo-nos aos bitcoins ou a outras criptomoedas como "divisas" é um erro. Não são uma unidade de conta: na prática nada tem preços em criptomoedas. Não são uma forma de pagamento escalável; com bitcoins só podemos fazer cinco transações por segundo enquanto que a rede Visa faz 24 000. Os bitcoins pouco são usados por empresas legais, para pagamento de bens e serviços, embora a Tesla tenha dito que planeava começar a aceitá-los.

As criptomoedas não são um depósito estável de valor: até algumas conferências cripto se recusam a aceitá-las como pagamento pelas taxas de participação. As alterações voláteis de preço podem eliminar qualquer margem de lucro de um comerciante no prazo de horas. Nem sequer são denominadas de forma consistente que permita aos utilizadores comparar preços relativos de bens. Esta dependência de diversos tokens é na verdade um regresso às trocas. Os Flintstones tinham um sistema monetário mais sofisticado baseado num padrão de referência: os homens das cavernas da banda desenhada usavam as conchas. Referirmo-nos às criptomoedas como um ativo também é um erro. A maioria dos ativos tem um fluxo de rendimentos (ações, títulos, imóveis comerciais) ou uma utilização (habitação) ou qualquer outra utilidade (uma moeda fiável oferece liquidez e pode ser usada para pagamentos). O ouro não gera receitas, mas tem utilização industrial. Também tem utilidade como armazenamento de valor e é uma salvaguarda contra a inflação, a desvalorização da divisa e os riscos de cauda (tail risk).

As criptomoedas não geram receitas, não têm utilidade, nem em pagamentos nem noutros serviços. Nem sequer são anónimas porque a tecnologia subjacente ao blockchain torna fácil rastrear os pagamentos. É apenas um jogo numa bolha de ativos especulativos, pior do que a paranoia das tulipas porque as flores tinham e ainda têm a sua utilidade. Ainda está por provar o seu valor de armazenagem de valor contra riscos de cauda. Pior ainda; algumas criptomoedas, apelidadas de "shitcoins", são sobretudo lixo financeiro ou são desvalorizadas diariamente pelo seu patrocinador. O preço dos bitcoins é extremamente volátil e são muitas as queixas de comportamentos delituosos, incluindo o "pump and dump" [1] , a falsificação, a lavagem e a obtenção ilegal de informações através das trocas.

As divisas estáveis afirmam que são superiores. Mas as autoridades de Nova Iorque já estão a investigar se uma delas, a tether [2] , está a ser usada para manipular o preço do bitcoin.

Vitalik Buterin, um cofundador da criptomoeda ethereum , argumenta que nenhuma criptomoeda pode ser simultaneamente escalável, segura e descentralizada. Os sistemas financeiros tradicionais são escaláveis e mais seguros: se o nosso cartão de crédito ou conta bancária for pirateada ou roubada, estamos feitos. Mas estão centralizados porque os participantes e os ativos são verificados por instituições fiáveis. Neste momento, as criptomoedas não são escaláveis nem seguras. Se a nossa chave privada for roubada ou a perdermos, os ativos desaparecem para sempre.

Nem sequer são descentralizadas. Os mineiros oligopolistas controlam a maior parte da mineração de bitcoins. Muitos estão fora do cumprimento da lei ocidental, em locais como a China, a Rússia e a Bielorrússia, criando um pesadelo para a segurança nacional. Cerca de 99% do comércio de bitcoins ocorre em bolsas centralizadas, que podem ser pirateadas. Além disso, os programadores originais mantêm um grande controlo sobre as suas criações. Nalguns casos, atuam como polícia, promotores e juízes, e anulam transações que supostamente deviam ser imutáveis. As criptomoedas também não são imparciais: um pequeno número de "tubarões" controla grande parte do valor dos bitcoins. Isso invalida a afirmação de que as criptomoedas vão descentralizar a finança, proporcionar serviços bancários a quem não tem conta bancária, ou tornar ricos os pobres. O blockchain afirma possibilitar a transferência barata de dinheiro para os refugiados, mas é muito mais provável que as criptomoedas proporcionem cobertura para os golpistas, os burlões, os que fogem ao fisco, os criminosos, os terroristas e os traficantes humanos.

O nosso mundo está cheio de crises financeiras, riscos geopolíticos e uma política monetária muito frouxa. Há uma procura crescente por ativos seguros que sejam uma salvaguarda contra a inflação, a depreciação monetária, a desvalorização e os riscos de cauda. O ouro, os títulos indexados à inflação, as matérias-primas, os imóveis e até os títulos são todos eles candidatos razoáveis.

Os bitcoins arriscados e voláteis não fazem parte das carteiras dos investidores institucionais sérios. Muitos dos seus financiadores de retalho são otários manipulados por um exército de infiltrados e vendedores da banha da cobra. Elon Musk da Tesla e Michael Saylor da MicroStrategy podem apostar a casa nos bitcoins. Isso não significa que devamos fazer o mesmo.

12/fevereiro/2021

[1] Pump and dump: forma de fraude de valores mobiliários que envolve inflacionar artificialmente o preço de uma ação própria por meio de declarações positivas falsas e enganosas, a fim de vender as ações compradas a baixo custo por um preço mais alto.
[2] tether: criptomoeda com tokens emitidos pela Tether Limited. Anteriormente, alegou falsamente que cada token era garantido por um dólar dos Estados Unidos, mas em 14 de março de 2019 mudou o apoio para incluir empréstimos a empresas afiliadas.


[*] Professor de Economia na Stern School of Business, da Universidade de Nova York e anfitrião de NourielToday.com

Ver também:
  • Criptomoedas: do fetichismo do ouro ao hayekgold

    O original encontra-se em nourielroubini.com/... . Tradução de Margarida Ferreira.


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • 06/Mar/21