Sentei-me ontem no 4º Tribunal da Royal Courts of Justice
em Londres com Stella Moris, parceira de Julian Assange. Conheço a
Stella há tanto tempo quanto conheço o Julian. Ela também
é uma voz livre, vinda de uma família que combateu o fascismo do
apartheid. Hoje, o seu nome foi pronunciado no tribunal por um advogado e um
juiz, pessoas esquecíveis se não fosse pelo poder privilegiado
concedidos pelos seus cargos.
A advogada, Clair Dobbin, está ao serviço do regime de
Washington, primeiro de Trump e depois de Biden. Ela é a arma contratada
pela América. O seu alvo é Julian Assange, que não cometeu
qualquer crime e efectuou um serviço público histórico ao
revelar as acções criminosas e os segredos sobre os quais
governos, especialmente aqueles que afirmam ser democracias, baseiam a sua
autoridade
Para aqueles que possam ter esquecido, a
WikiLeaks
, da qual Assange é fundador e editor, revelou segredos e mentiras que
levaram à invasão do Iraque, Síria e Iémen, o papel
assassino do Pentágono em dúzias de países, o projecto
para a catástrofe de 20 anos no Afeganistão, as tentativas de
Washington para derrubar governos eleitos, como o da Venezuela, o conluio entre
opositores políticos nominais (Bush e Obama) para abafar uma
investigação de tortura e a campanha do
Vault7
da CIA que transformou o seu telemóvel, e até o seu aparelho de
televisão, num espião.
O WikiLeaks divulgou quase um milhão de documentos da Rússia, o
que permitiu a cidadãos russos lutarem pelos seus direitos. Revelou que
o governo australiano havia conspirado com os EUA contra o seu próprio
cidadão Assange. Nomeou aqueles políticos australianos que
actuaram como "informantes" dos EUA. Estabeleceu a
ligação entre a Fundação Clinton e a
ascensão do jihadismo nos estados do Golfo armados pelos americanos.
Há mais: O WikiLeaks divulgou a campanha dos EUA para rebaixar
salários em países com empresas infames como o Haiti, a campanha
de tortura da Índia em Caxemira, o acordo secreto do governo
britânico para proteger os "interesses dos EUA" no seu
inquérito oficial sobre o Iraque e o plano do Ministério dos
Negócios Estrangeiros britânico para criar uma falsa "zona de
protecção marinha" no Oceano Índico a fim de
trapacear os ilhéus de Chagos quanto ao seu direito de regresso.
Por outras palavras, o WikiLeaks deu-nos notícias reais acerca daqueles
que nos governam e nos levam à guerra, e não a
rotação predeterminada e repetitiva que enche os jornais e
ecrãs de televisão. Isto é jornalismo real; e pelo crime
de jornalismo real Assange passou a maior parte da última década
numa ou noutra forma de encarceramento, incluindo a prisão de Belmarsh,
um lugar horrível.
Diagnosticado com a
síndrome de Asperger
, ele é um visionário gentil e intelectual movido pela sua
crença de que uma democracia não é uma democracia a menos
que seja transparente, e responsável.
Ontem, os Estados Unidos procuraram a aprovação do Tribunal
Superior Britânico no sentido de estender os termos do seu recurso contra
uma decisão de uma juíza distrital, Vanessa Baraitser, em
Janeiro, de proibir a extradição de Assange. Baraitser aceitou as
provas profundamente perturbadoras de numerosos peritos de que Assange ficaria
em grande risco se fosse encarcerado no infame sistema prisional dos EUA.
O Professor Michael Kopelman, uma autoridade mundial em neuropsiquiatria, havia
dito que Assange encontraria uma forma de tirar a sua própria vida
o resultado directo do que o Professor Nils Melzer, o Relator das
Nações Unidas sobre a Tortura, descreveu como a covarde
perseguição a Assange por parte de governos e os seus
media que os reflectem.
Aqueles de nós que estiveram no Old Bailey em Setembro último a
ouvir as provas de Kopelman ficaram chocados e comovidos. Eu sentei-me com o
pai de Julian, John Shipton, que punha as mãos na cabeça. O
tribunal também foi informado da descoberta de uma lâmina de
barbear na cela Belmarsh de Julian e de que ele havia feito chamadas
desesperadas aos
Samaritans
e escrito notas e muitas outras coisas que nos enchiam de tristeza.
Ao observar o advogado principal a actuar para Washington, John Lewis um
homem com antecedentes militares que aplica uma fórmula abjectamente
teatral, "aha!", às testemunhas de defesa que reduziu
estes factos a testemunhos de "fingimento"
("malingering")
e difamação, especialmente Kopelman, ficámos animados com
a resposta reveladora de Kopelman de que o abuso de Lewis era "um tanto
estranho" pois o próprio Lewis procurara contratar Kopelman como
perito num outro caso.
O ajudante de Lewis é Clair Dobbin, e ontem foi o dia dela. A
conclusão da difamação do Professor Kopelman ficou a
dever-se a ela. Um americano com alguma autoridade sentou-se por trás
dela no tribunal.
Dobbin disse que Kopelman havia "enganado" a juíza Baraister
em Setembro porque não revelara que Julian Assange e Stella Moris eram
parceiros, e os seus dois filhos pequenos, Gabriel e Max, foram concebidos
durante o período em que Assange se refugiava na embaixada do Equador em
Londres.
A implicação era de que isto de alguma forma diminuía o
diagnóstico médico de Kopelman: que Julian, encarcerado em
solitário na prisão de Belmarsh e enfrentando a
extradição para os EUA sob acusações falsas de
"espionagem", havia sofrido uma depressão psicótica
grave e planeado, se já não tivesse tentado, tirar a sua
própria vida.
Pela sua parte, a juíza Baraitser não viu qualquer
contradição. A natureza plena da relação entre
Stella e Julian fora-lhe explicada em Março de 2020 e o Professor
Kopelman havia feito referência completa à mesma no seu
relatório de Agosto de 2020. Assim, o juiz e o tribunal sabiam tudo
antes da audiência principal de extradição de Setembro
último. No seu julgamento em Janeiro, Baraitser disse o seguinte:
[O Professor Kopelman] avaliou o Sr. Assange durante o período de Maio a
Dezembro de 2019 e estava em melhor posição para considerar em
primeira mão os seus sintomas. Ele teve o maior cuidado em fornecer um
relato informado dos antecedentes e da história psiquiátrica do
Sr. Assange. Deu muita atenção às notas médicas da
prisão e forneceu um resumo pormenorizado anexado ao seu
relatório de Dezembro. É um clínico experiente e estava
bem ciente da possibilidade de exagero e fingimento. Não havia
razão para duvidar da sua opinião clínica.
Ela acrescentou que "não havia sido enganada" pela
exclusão do relacionamento Stella-Julian no primeiro relatório de
Kopelman e que entendia que Kopelman estava a proteger a privacidade de Stella
e suas duas crianças.
De facto, como sei bem, a segurança da família estava sob
constante ameaça, ao ponto de um guarda de segurança da embaixada
confessar que fora instruído para roubar uma das fraldas usadas do
bebé a fim de que uma empresa contratada pela CIA pudesse analisar o seu
ADN. Tem havido um fluxo de ameaças não divulgadas contra Stella
e os seus filhos.
Para os EUA e os seus mercenários legais em Londres, prejudicar a
credibilidade de um perito de renome sugerindo que ocultou esta
informação era um meio, sem dúvida, de salvar o seu caso
desmoronado contra Assange. Em Junho, o jornal islandês
Stundin
noticiou que uma testemunha chave da acusação contra Assange
admitiu ter falsificado as suas provas
. A única acusação
de "hacking" que os americanos esperavam apresentar contra Assange se
conseguissem deitar-lhe as mãos dependia desta fonte e desta testemunha,
Sigurdur Thordarson, um informante do FBI.
Thordarson trabalhou como voluntário para o WikiLeaks na Islândia
entre 2010 e 2011. Em 2011, como várias acusações
criminais foram apresentadas contra ele, contactou o FBI e ofereceu-se para se
tornar um informante em troca de imunidade a todas as acusações.
Verificou-se que era um vigarista condenado, que desviou 55.000 dólares
do WikiLeaks e que cumpriu dois anos de prisão. Em 2015, foi condenado a
três anos de prisão por delitos sexuais contra rapazes
adolescentes. O
Washington Post
descreveu a credibilidade de Thordarson como o "núcleo" do
processo contra Assange.
Ontem, o Senhor Presidente do Supremo Tribunal, Holroyde, não fez
qualquer menção a esta testemunha. A sua
preocupação é que era "discutível" que a
Juíza Baraitser tivesse atribuído demasiado peso às provas
do Professor Kopelman, um homem respeitado no seu campo. Ele disse que era
"muito invulgar" que um tribunal de recurso tivesse de reconsiderar
provas de um perito aceite por um tribunal inferior, mas concordou com a Sra.
Dobbin que era "enganoso", apesar de ter aceite a
"compreensível resposta humana" de Kopelman para proteger a
privacidade de Stella e das crianças.
Se conseguir desvendar a lógica insondável disto tem uma
perspicácia melhor do que a minha, que acompanhei este caso desde o
início. É evidente que Kopelman não enganou
ninguém. A juíza Baraitser cuja hostilidade pessoal para
com Assange era visível no seu tribunal disse que
não
fora enganada; que não era um problema; que não importava.
Então, porque é que o Lorde Presidente do Supremo Tribunal
Holroyde fez girar a linguagem com a sua evasão legalista e mandou
Julian de volta à sua cela e seus pesadelos? Lá, ele aguarda
agora pela decisão final do Supremo Tribunal em Outubro para
Julian Assange, uma decisão de vida ou morte.
E porque é que Holroyde despachou Stella do tribunal a tremer de
angústia? Por que
é
que este caso é "invulgar"? Por que é que ele
lançou o bando de procuradores-sequazes ao Departamento de
Justiça em Washington que tiveram a sua grande oportunidade sob
Trump, tendo sido rejeitados por Obama como um bote salva-vidas quando o
seu processo corrupto e apodrecido contra um jornalista com princípios
afundava tão seguramente quanto Titanic?
Isto não significa necessariamente que em Outubro o tribunal superior
ordenará a extradição de Julian. Nos altos escalões
da maçonaria que é a magistratura britânica ainda existem,
segundo sei, aqueles que acreditam no direito real e na justiça real,
dos quais a expressão "Justiça Britânica" extrai
a sua reputação santificada na terra da Carta Magna. Agora
repousa sobre os seus ombros cobertos de arminho que tal história
continue a existir ou que morra.
Sentei-me com Stella no átrio do tribunal enquanto ela esboçava
palavras para dizer à multidão dos media e de simpatizantes que
estavam lá fora ao sol. Uma Clair Dobbin saltitante, toda enfeitada, com
rabo-de-cavalo a balouçar, trazendo a sua caixa de processos: uma figura
cheia de certezas: foi ela que disse que Julian Assange "não estava
tão doente" que considerasse o suicídio. Como é que
ela sabe?
Será que a Sra. Dobbin trabalhou no labirinto medieval em Belmarsh a
sentar-se com Julian, como fizeram os Professores Koppelman e Melzer, e Stella
e eu fizemos? Nunca na vida. Os americanos "prometeram" agora
não o colocar num buraco infernal, tal como "prometeram"
não torturar Chelsea Manning, tal como prometem...
E terá ela lido a fuga de um documento do Pentágono divulgado
pelo WikiLeaks, datado de 15 de Março de 2009? Este predisse a guerra
actual contra o jornalismo. Os serviços secretos norte-americanos, dizia
ele, pretendiam destruir o "centro de gravidade" do WikiLeaks e
Julian Assange com ameaças e "processos criminais". Leia todas
as 32 páginas e não ficam dúvidas de que o objectivo era
silenciar e criminalizar o jornalismo independente, difamando o método.
Tentei captar o olhar da Sra. Dobbin, mas ela seguia o seu caminho: tarefa
cumprida.
Lá fora, Stella lutava para conter a sua emoção. Esta
é uma mulher corajosa, pois de facto o seu homem é um exemplo de
coragem. "O que não foi discutido hoje", disse Stella,
"é porque temia pela minha segurança e pela segurança
dos nossos filhos e pela vida de Julian. As constantes ameaças e
intimidações que sofremos durante anos, que nos tem aterrorizado
e aterrorizam Julian há 10 anos. Temos o direito de viver, temos o
direito de existir e temos o direito de que este pesadelo chegue ao fim de uma
vez por todas".
15/Agosto/2021
[*]
Jornalista e director de cinema. Seu sítio web é
johnpilger.com/
O original encontra-se em
https://countercurrents.org/2021/08/a-day-in-the-death-of-british-justice/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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