Processo de Assange constitui ataque à liberdade de imprensa
Os media corporativos fazem silenciamento deliberado do caso Assange
Mas muitas organizações de jornalistas omitem-se
Na audiência de quarta-feira, em Westminster, em Londres, foi
estabelecido o cronograma do caso de extradição
[NR]
de Julian Assange para os EUA. As equipes jurídicas de Assange nos EUA
solicitaram que a audiência da extradição fosse dividida.
Seu advogado de defesa, Edward Fitzgerald, enfatizou ao tribunal que não
estarão prontos para apresentar o corpo principal das suas
evidências até depois da primeira semana da audiência, a
qual está marcada para começar no final de Fevereiro.
Prevê-se agora que a audiência de extradição de
Assange prossiga em duas partes: a partir do início de 25 de Fevereiro,
durante uma a duas semanas e depois continuará em 18 de Maio durante
mais três semanas.
Assange foi indiciado por 17 acusações de espionagem pela
publicação de documentos relativos às guerras dos EUA no
Iraque e Afeganistão e de torturas na prisão da Baía de
Guantánamo. Durante sua audiência anterior na segunda-feira, 13 de
Janeiro, seu advogado, Gareth Peirce, levantou preocupação de que
a falta de acesso de Assange a conselhos legais havia dificultado a
preparação adequada da sua defesa, quando enfrenta
sentenças de prisão de até prisão 175 anos.
Recentemente
surgiram
novas evidências mostrando que a CIA contratou a empresa de
segurança espanhola US Global para espionar Assange dentro da embaixada
do Equador em Londres, quando Assange ali vivia sob asilo político. Os
alvos desta vigilância incluíram seus advogados, médicos e
visitantes. Agora, três ex-funcionários da empresa
apresentaram-se
como testemunhas confirmando que o seu então chefe, David Morales, em
Dezembro de 2017ordenou que trabalhadores instalassem novas câmaras de
vídeo na embaixada com capacidade de registo áudio.
Fora do tribunal, após a audiência, o editor-chefe da
WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson,
disse
: "Agora, com as submissões e depoimentos apresentados
pelos EUA, ficamos a saber... que eles não consideram que os de
nacionalidade estrangeira
tenham protecção da Primeira Emenda". Ele reiterou que isto
é uma perseguição política a um jornalista e um
grave ataque à liberdade de imprensa em escala mundial.
John Reed, representante de "Don't Extradite Assange", a campanha
britânica criada pela WikiLeaks, também
falou
à imprensa:
"Se Assange for extraditado, será imediatamente colocado sob
"Medidas Administrativas Especiais"
. Isto significa que não poderá falar à imprensa ou ao
público, e nem tão pouco a sua equipe jurídica... Ele
será colocado num buraco negro...".
A seguir, alertou o público: "Isto é guerra ao jornalismo.
Nenhum jornalismo pode ser seguro nesta presente perseguição. Se
o julgamento de Julian Assange fosse autorizado a ir em frente, isso
aconteceria. "
Advertências quanto à liberdade de imprensa
A equipe jurídica de Assange
tem advertido
para o alcance da ameaça à liberdade de imprensa por parte do
governo dos EUA ao processar um jornalista estrangeiro pois trata-se de uma
faca de dois gumes que em simultâneo nega a protecção da
Primeira Emenda e aplica a Lei de Espionagem.
Aos media estabelecidos soou a mesma advertência quando as
acusações contra Assange foram reveladas no final de 2018.
O
New York Times
escreveu que "acusações centradas na
publicação de informações de interesse
público ...criariam um precedente com implicações
profundas nas liberdades de imprensa".
The Atlantic
publicou um comentário que dizia
: "Se o governo dos EUA puder processar o editor da WikiLeaks por publicar
material classificado, então todos os meios de comunicação
estarão em risco".
Agora, o "precedente Assange" parece estar a estender o seu alcance.
Na terça-feira, Glenn Greenwald, jornalista de
The Intercept,
foi acusado de
crimes cibernéticos no Brasil. Grupos de liberdade de imprensa
rapidamente vieram em sua defesa, condenando o acto de
criminalização do jornalismo por parte do governo brasileiro.
James Jaffer, director do "Instituto Knight da Primeira Emenda", da
Universidade de Columbia,
destacou
as semelhanças notáveis entre o caso de Greenwald e o de Assange:
"Terrível de ver isto. A teoria de que jornalistas podem ser
processados por publicarem informações que outros obtiveram
ilegalmente (que eu assumo ser a teoria aqui, apesar de volteios da
acusação) é também, obviamente, a base para a
acusação de Assange nos EUA".
À medida que o ataque à Primeira Emenda aumenta em todo o mundo,
Assange, um prisioneiro desta guerra, permanece em completo isolamento na
prisão de Belmarsh, em Londres. Desde 22 de Setembro de 2019, ele foi
detido unicamente para atender à solicitação de
extradição dos EUA.
O relator especial da ONU sobre tortura, Nils Melzer,
levantou
preocupações e recordou que Assange, cuja saúde entrou
numa "espiral descendente" dentro da prisão, é uma
vítima de tortura psicológica.
Este é o mais importante caso de liberdade de imprensa do século
XXI. O público deve empenhar-se a fim de acabar com esta guerra ao
jornalismo.
27/Janeiro/2020
[NR] A palavra "extradição" parece inadequada para o
caso Assange pois ele não é cidadão dos EUA nem nunca
esteve sob uma jurisdição dos EUA. Assim, se Assange vier
a ser enviado para os Estados Unidos isto não será uma
decisão de justiça e sim o culminar de uma
operação de sequestro
de um jornalista estrangeiro. A referida operação
foi decidida e preparada há vários anos pelo
Departamento de "Justiça" dos EUA, com a conivência
activa dos governos e autoridades judiciais da Grã-Bretanha e
Suécia.
Ver também:
Julian Assange: o que sabemos
Detentos de Belmarsh demonstram mais ética do que todo o Império Ocidental
Dois anos atrás...
[*]
Ensaísta e autora de
WikiLeaks, the Global Fourth Estate : History Is Happening
.
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@nozomimagine
O original encontra-se em
consortiumnews.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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