Marxismo e questão nacional
O exemplo da Venezuela bolivariana
Marx no seu conhecido
prefácio à Contribuição à crítica da
economia política,
tomando como referência
os países centrais do capitalismo,
objecto da sua análise, postulava (11 anos depois da derrota das
insurreições de 1848) que nenhuma formação social
desaparece antes que, no seu seio, se tenham desenvolvido todas as
forças produtivas que ela pode conter. Marx, como sabemos, não
viveu o suficiente para analisar o fenómeno do imperialismo nem a
realidade por este criada no mundo periférico. Uma realidade que, em
todas as suas dimensões, é muito diversa daquela dos
países centrais.
Lenine (e os diversos pensadores que continuaram e alargaram a perspectiva da
sua obra ao longo do século XX) demonstrou que a partir do último
quarto do século XlX, um certo grau de concentração de
capitais gerando a formação de monopólios nos
países centrais permitira ao sistema reunir as condições
para o salto qualitativo de que necessitava, ou seja, passar à etapa
imperialista. Os mecanismos essenciais desta nova etapa expansionista
consistiam na exportação de capitais para as vastas periferias
coloniais, semi-coloniais ou formalmente independentes no plano político
(numa época de declínio da rentabilidade dos anteriores processos
espoliativos coloniais) e o posterior repatriamento dos lucros. A
exportação de capitais industriais (
inicialmente,
em geral, na área dos caminhos de ferro e dos têxteis) iria
beneficiar da mão-de-obra barata e dos amplos recursos naturais
disponíveis em grande parte nas periferias possibilitando a
realização de enormes lucros.
A passagem a essa nova etapa expansionista tornara-se uma necessidade para as
burguesias centrais, confrontadas a partir de um certo momento com a
retracção dos campos de investimento rentável (segundo a
lógica capitalista), com os limites dos seus mercados internos e
regionais, e, consequentemente, com a tendência à
estagnação do sistema. Era fundamental para as potências
centrais abrir novos campos de investimento de capitais, praticamente sem
concorrência, em regiões sob a sua influência ou controlo.
Ao longo das décadas este processo geraria um sistema comercial baseado
na troca desigual entre centros e periferias. A concentração
monopolística nos países centrais (nomeadamente a Inglaterra,
França, Holanda, Bélgica e posteriormente a Alemanha e os Estados
Unidos) criou as condições materiais e humanas, viabilizadoras da
nova etapa expansionista. Uma expansão que, ao longo de um
século, gerando confrontos e guerras inter-imperialistas pela disputa do
controlo dessas regiões, passando por revoluções
populares, crises e transformações tecnológicas, viria
desembocar, a partir dos anos 80, na chamada globalização
neo-liberal que não é outra coisa senão uma fuga para a
frente (face ao adensar das contradições sistémicas) e uma
nova etapa do imperialismo.
A realidade actual mostra-nos que mais de dois terços da humanidade vive
entre a pobreza e a completa miséria e que, em nenhuma outra fase da
história humana assistiu-se a uma concentração tão
brutal da riqueza em tão poucos sectores. No entanto, após uma
certa euforia criada pelos grandes "media" a propósito das
"imensas virtudes" da globalização, o sistema como um
todo entrou em estagnação prolongada. O défice brutal da
balança comercial norte-americana, a situação periclitante
do dólar como moeda de reserva e de meio de pagamento internacional
(reflectindo o declínio parasitário da economia da maior
potência do sistema), a debilidade das reservas energéticas das
potências centrais do sistema, conduziram a uma crise larvar e a um
impasse para o qual o imperialismo busca como saída uma economia de
guerra permanente voltada para capturar as reservas estratégicas do
planeta.
Mas a realidade vem mostrando os limites desta estratégia celerada que
se defronta cada vez mais com a resistência determinada dos povos
agredidos, provocando um desgaste que,
à la limite,
torna-se insuportável para o imperialismo dominante, o dos EUA. Em
amplas regiões do mundo periférico a intensificação
da exploração e da pilhagem financeira provocadas pela
globalização vai criando situações-limite e gerando
uma nova resistência, assimétrica e multifacetada, dos povos
após um período de recuo. Samir Amin observou, com muita
pertinência, que a situação actual do sistema mundial
imperialista se assemelhava, em certos aspectos, à do império
romano na sua fase de declínio. Efectivamente, em Roma, a
polarização dos tributos, tornados cada vez mais
insuportáveis, sobre todas as regiões sob o seu domínio,
conduziria, inevitavelmente, às revoltas e às rupturas
periféricas, até a desagregação do império.
Hoje, a extorsão continuada e a centralização brutal do
excedente produzido pelo mundo periférico nos países
imperialistas (através dos mecanismos financeiros e da
acção das transnacionais) gera o caos
sócio-económico nas periferias e cria as condições
objectivas para um processo de rupturas e de desconexões
nacionais/regionais em larga escala, através da iniciativa multifacetada
dos povos.
[1]
Numa outra perspectiva, a expansão imperialista criou as bases materiais
para uma modificação nas condições sociais dos
proletariados dos países centrais. As lutas e pressões dos
sindicatos e dos partidos sociais-democratas para a sua
legalização (no último quarto do século XlX) acabam
por resultar e, desta forma, um certo número de conquistas sociais
compensatórias são progressivamente obtidas. A
participação eleitoral e parlamentar dos partidos
sociais-democratas e trabalhistas (2ª Internacional) criava também
uma esperança de mais reformas e de um futuro melhor no seio das massas
operárias europeias ocidentais. Tal contexto criaria a base material e
cultural para a hegemonia das tendências reformistas no seio dos
movimentos operários desses países, ao contrário do que
ocorria na época de Marx.
A realidade no mundo periférico
Nas periferias mundiais (e em particular na América Latina, saída
há algumas décadas dos processos de independência
política no século XlX) este novo processo, desencadeado
inicialmente por capitais ingleses, iria criar ao longo do tempo sociedades
dependentes e deformadas cujo "desenvolvimento" exógeno se
assemelharia a um grande mosaico onde, ao lado de pólos industriais
beneficiando de mão de obra barata, controlados pelo capital
estrangeiro, permaneciam vastas regiões rurais e semi-rurais
caracterizadas pelo subdesenvolvimento e extrema pobreza. Periodicamente,
movidas pelo desespero, massas humanas de camponeses pobres e sem terra
deslocavam-se para as cidades num êxodo rural em busca ilusória de
melhores condições de vida. Após laborarem durante um
certo tempo, principalmente na construção de edifícios e
obras públicas, uma vez terminado aquele ciclo de trabalho,
transformar-se-iam em massas de excluídos vivendo de expedientes em
guetos nas periferias das cidades.
Através desse tipo de processos se foi configurando ao longo das
décadas a realidade sócio-económica e política
desses países. Em alguns deles como o Brasil, a Argentina e o
México, sectores das burguesias nacionais intentaram modificar a
situação num dado período histórico de maior margem
de manobra internacional (anos 30 a 50) criando grandes empresas
públicas destinadas a favorecer a reorganização da
economia. Após algumas realizações assinaláveis mas
estruturalmente contraditórias, os governos nacionais-burgueses acabaram
abatidos por golpes de Estado impulsionados pelo capital norte-americano,
já então dominante. Progressivamente, os sectores nacionalistas
das burguesias desestruturar-se-iam e acabariam por integrar-se no capital
imperialista dominante, como burguesias intermediárias. Com a
globalização neo-liberal imperialista, a partir dos anos 80, a
dependência, a desarticulação política/cultural das
nações e a devastação social acentuaram-se, tendo o
desemprego estrutural gerado imensas massas de "excluídos" a
povoarem as megalópoles, autênticas selvas de cimento.
A expansão imperialista criou nas periferias um proletariado complexo,
heterogéneo, precário e em certos aspectos caótico,
diferente dos proletariados centrais. Isto se deve justamente ao facto de que a
industrialização dependente se foi fazendo a partir dos impulsos
dos capitais dos países centrais, segundo seus interesses e não
segundo um processo auto-centrado de desenvolvimento endógeno, ainda que
capitalista. Daí o seu carácter não articulado, a
nível nacional, e a permanência de vastas regiões de
subdesenvolvimento rural, semi-rural e urbano-periféricas.
O imperialismo não produziu (nem poderia produzir) um desenvolvimento
generalizado e homogéneo no chamado "terceiro mundo"
(aproximando-o à realidade dos países centrais) justamente porque
a expansão do sistema capitalista, a partir dos seus centros, tem um
carácter polarizante e não homogeneizante. Não visa (nem
poderia visar) o desenvolvimento voltado para as realidades nacionais mas a
promoção de investimentos selectivos, voltados para a
produção de sobre-lucros para o exterior, desprovidos de uma
visão nacional e, por isso mesmo, desestruturantes das
nações.
Naturalmente, este processo de desenvolvimento deformado iria também
influenciar as características sociais, económicas e mentais dos
proletariados periféricos. Ao lado de sectores radicalizados
(proletariado mineiro, assalariados rurais, etc), de sectores
disponíveis para a contestação social e para a
interacção com as massas camponesas e populações
marginalizadas, constatamos a existência de um operariado de algumas
empresas estrangeiras pontuais, tecnologicamente mais avançadas, cuja
tendência socio-política é para um certo elitismo,
colaboração de classe e distanciamento das
reivindicações populares.
As condições da transformação revolucionária
nas periferias do sistema-mundo
O processo imperialista, actuando ao longo de mais de um século, criou
no mundo periférico (especialmente na América Latina e na
Ásia) uma situação em que um desenvolvimento real e
endógeno (mesmo capitalista) não é possível, pois
está capturado na teia imperialista e bloqueado pela própria
natureza polarizante das relações imperialistas. Aqui não
cobra pois sentido o postulado de Marx, no século XlX, tendo como
referência os países centrais (alguns anos após a derrota
das revoluções de 1848, como já referimos), segundo o qual
apenas depois de desenvolvidas todas as forças produtivas que
potencialmente conteriam no seu seio, seria possível a emergência
de formações sociais qualitativamente superiores.
Nas vastas periferias podemos dizer que vivemos uma situação em
que as condições objectivas da mudança estrutural
estão reunidas, de uma forma geral, uma vez que, apesar das
potencialidades reais, sob o imperialismo, não haverá
desenvolvimento superior ao existente e a perspectiva no horizonte é (ao
contrário) a regressão e a
"re-compradorização" das sociedades sob a
pressão da crise estrutural do capitalismo globalizado. Isto significa
que, estando latentes as condições objectivas (cujo grau de
amadurecimento oscila obviamente de um país para outro), os processos em
direcção à mudança estrutural emancipatória
dependerão das condições
político/ideológicas, do factor subjectivo, isto é, da
organização das massas populares, da emergência de
direcções políticas capazes de conduzir processos de
contestação reivindicativa e de ruptura.
No quadro extremamente complexo, heterogéneo e em permanente
desagregação sectorial das classes e estratos sociais explorados
e oprimidos que compõem as massas populares dessas regiões, a
estratégia político/organizativa adequada não pode de
forma alguma passar por uma perspectiva estreitamente "obreirista",
esquemática e isolacionista, de "classe contra classe",
visão estéril que, se levada à prática, conduziria
a uma "guetização" da classe trabalhadora. Na
realidade, trata-se nesse caso de um equívoco flagrante, de
posições pseudo-revolucionárias que se enquadram naquilo
que Lenine diagnosticou como "a doença infantil do
comunismo
"
A estratégia progressista e revolucionária deve tender, na nossa
perspectiva, para a configuração de um bloco de classes,
fracções de classe e segmentos sociais subalternos, explorados,
oprimidos ou discriminados, opostos (de diversas formas) ao
status quo,
isto é, ao bloco dominante burguês/imperialista. Este bloco
popular e seus aliados será composto, na América Latina, pelo
proletariado mineiro e industrial, pelos camponeses pobres e trabalhadores
rurais sem terra, pela massa de excluídos ("sobras" da
globalização liberal, nova "plebe" urbana), por povos
indígenas e minorias nacionais oprimidas, por amplos sectores da pequena
burguesia assalariada constantemente laminada pelo sistema (intelectuais,
funcionários, médios oficiais militares, etc.) e finalmente por
pequenos e médios empresários em crise, limitados ao mercado
interno de consumo popular.
Na perspectiva da luta pelo poder, convém notar a importância dos
sectores progressistas e patrióticos da pequena burguesia
periférica, camada social que, podendo adquirir posições
profissionais e culturais influentes (e até estratégicas, no caso
dos militares) na sociedade, constituem aliados preciosos.
Articular adequadamente este grande bloco progressista e revolucionário,
evitando que as diferenças no seu seio se transformem em rupturas, e
canalizando-o depois para os objectivos emancipatórios é a tarefa
fundamental das direcções político/revolucionárias,
dos movimentos sociais e partidos da esquerda coerente. A sua amplitude e a sua
diversidade organizacional não retiram coerência política a
este bloco popular que estará separado ideologicamente do bloco
oligárquico/imperialista
por uma clara linha demarcatória
de rejeição das lógicas do capitalismo globalizado que
hoje assume o rosto do neo-liberalismo. Oposto radicalmente ao bloco popular
situa-se portanto o bloco no poder formado pelo grande capital financeiro e
industrial associado ao imperialismo, pelos latifundiários, pelas
transnacionais, pelos grandes exportadores e em última análise
pelas instituições financeiras internacionais do imperialismo. A
heterogeneidade e complexidade do bloco popular, as suas origens diversas, a
fragmentação, no capitalismo actual, das grandes unidades de
produção e portanto das grandes concentrações
operárias, colocam a questão da impossibilidade de ele ser
estruturado e dirigido por um só partido, incapaz de captar toda a
diversidade. Esta tarefa necessita sim de uma aliança convergente de
partidos e movimentos representativos dos diversos sectores, portadores dos
problemas próprios e das estruturas mentais específicas de cada
um deles, capaz de estruturar a unidade na diversidade. Parece-nos
também artificial, nas periferias, a pretensão de estabelecer
à priori
qual o sector do bloco popular que terá a direcção do
processo ou que deverá ter a influência principal. Esta é
uma questão cuja resposta só poderá emergir das
próprias lutas emancipatórias concretas.
No plano histórico/ideológico constitui uma característica
frequente dos processos nacional-populares-socializantes a referência a
grandes figuras do passado que, na sua época, protagonizaram importantes
e decisivos combates contra as potências coloniais e neo-coloniais (como
Bolívar e Marti), tornando-se personagens cujo exemplo e ideário
ficou de certa forma sedimentado na consciência popular há
várias gerações, encarnando a pátria e o povo.
Não existe qualquer contradição em resgatar o seu
património político e humano numa nova época em que a luta
pelo socialismo já está no horizonte, pois o seu exemplo e a sua
mensagem podem ser actualizados dialecticamente. Na realidade podemos
constatar, a um certo nível, uma transversalidade histórica dos
grandes valores progressistas da humanidade, encarnados por certas figuras,
independentemente dos objectivos concretos susceptíveis de ser
equacionados em cada época histórica objectivamente delimitada.
O projecto alternativo
Nos países centrais do capitalismo a esquerda marxista colocou sempre,
ideologicamente,
a questão da emancipação do proletariado em termos de
ruptura e passagem ao sistema socialista. O que era natural pois nesses
países não existe uma questão de dominação
imperialista (muito pelo contrário) e portanto não se coloca o
problema da libertação nacional. Colocam-se porém outros
problemas como o domínio da alienação ideologica
democrático-burguesa, reformista e eurocêntrica no seio das
classes trabalhadoras e até, em certos sectores, a
aceitação do imperialismo do centro como um fenómeno
natural.
Nos países periféricos (onde vive mais de 2/3 do proletariado
mundial), com um largo historial de colonialismo e submetidos há mais de
um século à dominação multifacetada do
imperialismo, a questão da passagem ao socialismo não pode ser
colocada directamente. Na realidade ela apenas pode emergir no horizonte
através da mediação da revolução
nacional-popular anti-imperialista. Ou seja, através de um processo de
transição específico ligado às suas
condições objectivas. As próprias lutas de classe, nos
mais diversos níveis, tendem a articular-se ideologicamente com a
questão da libertação nacional.
Efectivamente, nestes países, estão ainda por cumprir as tarefas
de libertação nacional do domínio
económico/financeiro/político/mediático do imperialismo,
as tarefas do desenvolvimento racional voltado para o mercado interno e
centrado nos interesses gerais das populações. O processo de
espoliação imperialista, o modelo de "desenvolvimento"
exógeno e deformante que foi sendo implantado, teve também como
efeito a desarticulação parcial das nações, o
surgimento de tensões internas tendo como pano de fundo a
emergência progressiva (ao sabor dos interesses externos) de grandes
desfasamentos regionais, a nível económico e cultural. No plano
político, a presença constante e as imposições das
instituições financeiras imperialistas, aliadas ao controle
exercido sobre os grandes "media", apostados na
imposição de modelos culturais exógenos, fazem emergir um
sentimento de humilhação nacional, nomeadamente entre os sectores
mais conscientes e preocupados com o declínio da nação.
Entre estes há que referir a intelectualidade, sectores militares,
camadas médias e, em geral, movimentos populares organizados.
Por isso mesmo, o processo nacional-popular, pelas suas características
abrangentes, é aquele que é capaz de agregar à sua volta
uma adesão social progressista mais ampla e mais diversificada. A
posição dos oficiais militares é particularmente
contraditória pois são formados ideologicamente à volta do
ideário do patriotismo e da defesa da nação mas na
prática vão constatando a submissão desta mesma
nação aos interesses imperialistas. Tal paradoxo faz emergir
constantemente um certo número de oficiais intermédios
(nomeadamente aqueles oriundos de camadas médias) em
posições de crítica e descontentamento, por vezes velado,
face à dominação imperialista e à postura servil
das elites políticas nacionais. Na realidade, tal
contradição ideológica no seio das
instituições militares tem sido atenuada pelas classes dominante
através dos privilégios e dos altos salários dos oficiais
superiores, mas estes representam uma ínfima minoria. Trata-se de uma
contradição para a qual não existe solução
definitiva e que se agrava à medida da dependência, da
estagnação económica e da profunda crise de valores do
sistema. Gramsci, na sua concepção extremamente ampla e complexa
dos intelectuais orgânicos, vinculados a uma das classes fundamentais da
sociedade e exercendo importantes funções a seu serviço
(elaboradores ideológicos, técnicos, organizadores, divulgadores,
etc.) refere os oficiais do exército como uma camada intelectual
exercendo funções organizativas e de defesa do aparelho de estado
burguês no seu todo. Por outro lado, refere que, no seu movimento
ascencional, uma classe subalterna deve esforçar-se por captar e
assimilar os intelectuais dissidentes das classes dominantes (em
declínio e crise de valores) para que passem a desempenhar
funções convergentes com o seu projecto e sua visão da
sociedade.
A problemática nacional-popular é pois uma questão latente
nos países periféricos. É, de certa forma, a
ideologia natural
dos povos nacionalmente oprimidos e tem um conteúdo eminentemente
progressista. Lenine no seu tempo já demonstrara, contrariando as
visões esquemáticas, que o nacionalismo dos oprimidos tem uma
dinâmica progressista e agregadora dos povos, enquanto o nacionalismo dos
opressores é intrinsecamente reaccionário.
No entanto, a emancipação dos proletariados periféricos e
seus aliados não se resolveria com uma revolução
nacional-popular que deixasse intacto o sistema capitalista e se propusesse
apenas o desenvolvimento de um capitalismo nacional. Tal não seria
tão pouco possível, pois na actual fase do sistema mundial
capitalista as burguesias nacionais, em todos os seus sectores, estão
firmemente ancoradas ao imperialismo, como classes intermediárias ou
parasitárias, como "elites capatazes"
[2]
, sendo
historicamente incapazes de desenvolver um capitalismo nacional. Quanto aos
pequenos e médios empresários, enfraquecidos pela crise e pela
ausência de créditos, não teriam obviamente dimensão
económica e implantação política para
lançar-se em tal empreendimento.
As revoluções nacional-populares têm pois que se desdobrar
em projecto socialista, as direcções nacional-populares,aliadas
ao proletariado, têm que articular dialecticamente, no espaço e no
tempo, (não como etapas rigidamente separadas) as tarefas da
revolução nacional-popular com as tarefas específicas da
transição socialista. Nesta perspectiva, a alavanca fundamental e
insubstituível é o aparelho de Estado. É absolutamente
essencial reorganizar o Estado como instituição central
reestruturadora da nação, recuperando empresas que foram
privatizadas, conferindo-lhe funções socioeconómicas e
culturais de carácter popular, dotando-o de coerência
política, de meios para defender os interesses nacionais, resgatando
assim o seu prestígio delapidado pela corrupção ao
serviço de interesses espúrios. As tarefas da
transformação nacional-popular consistiriam fundamentalmente na
realização de uma reforma agrária coerente, dando lugar a
cooperativas democraticamente geridas pelos camponeses, em medidas de
redistribuição de rendimentos e de elevação dos
salários, em projectos de desenvolvimento auto-centrados, voltados para
o mercado interno, na concessão de créditos aos pequenos e
médios empresários, em medidas de democratização do
acesso à saúde, à cultura e à
educação. Os partidos coerentes da esquerda, movimentos sociais,
sindicatos, comissões de trabalhadores, etc., teriam obviamente um
importante papel de participação na gestão social.
Estas tarefas da revolução nacional-popular deverão, numa
segunda fase, desembocar em medidas socialistas propriamente ditas. Isto
é, a constituição da propriedade pública dos
principais meios de produção e de financiamento, a
planificação económica, a instituição de
estruturas de controlo e de co-gestão dos trabalhadores nos mais
diversos níveis da sociedade, em particular nas empresas nacionalizadas,
bem como o início de medidas visando atenuar progressivamente a
divisão social do trabalho. Mais ainda, será necessário um
sistema permanente de orientações macro-económicas no
sentido de favorecer o declínio progressivo das relações
baseadas em valores de troca e sua substituição por uma economia
onde predominem os valores de uso.
Quanto às tecnologias a utilizar para a construção
socialista, é preciso notar duas ordens de factores: em primeiro lugar,
um país dependente e subdesenvolvido que, em meio a todo o tipo de
pressões e boicotes, logra a ruptura política com o sistema
imperialista, é necessariamente um país fragilizado
economicamente (apesar de eventuais potencialidades futuras), tendo a maioria
da população em estado de pobreza e carências de toda
ordem. A nova direcção política tem como tarefa
inadiável colocar a economia em funcionamento e lançar projectos
de desenvolvimento. Sabemos que, de um modo geral, as tecnologias industriais
criadas pelo capitalismo não são completamente neutras, remetem
implicitamente para uma certa organização técnica/social
da produção. Mas a nova direcção política
nacional-popular-socializante de um país subdesenvolvido não
possui condições técnicas (nem disporia de tempo
útil face às suas responsabilidades para com a massa populacional
carenciada) para pesquisar novas tecnologias mais adaptadas ao seu projecto.
Terá necessariamente que aproveitar o leque de tecnologias já
existente, procurando seleccionar aquelas que melhor se adequem ao seu projecto
sócio-económico. Mais ainda, e isto é fundamental,
deverá, como referimos anteriormente, criar centros locais de
formação técnica e estruturas de
participação, controle e co-gestão dos trabalhadores nas
empresas, de forma a contrabalançar a divisão funcional do
trabalho necessária às industrias dispondo de um nível
tecnológico relativamente avançado.
Aqui é preciso clarificar uma questão importante: esta
articulação entre as tarefas da transformação
nacional-popular e da transformação socialista não se
fará em duas etapas distintas e separadas dando lugar, numa
hipotética primeira fase, ao poder político de uma classe
burguesa ou médio-burguesa, tal como referimos. Mas tão pouco
haveria uma primeira etapa em que um certo "capitalismo de Estado"
(inevitável, transitoriamente, nas fases iniciais) seria gerido
autoritariamente por uma camada social de técnicos e especialistas sem a
participação dos trabalhadores. Se assim fosse haveria
inevitavelmente a cristalização no poder económico de uma
tecno-burocracia que, na prática, interromperia a passagem a uma
sociedade socialista, impedindo o controlo e a co-gestão dos
trabalhadores (nomeadamente nas grandes empresa públicas), mantendo o
processo ao nível de um capitalismo de Estado burocrático que,
apesar de representar um passo em frente, não teria horizontes futuros,
como a história o demonstrou.
Não haveria portanto duas etapas distintas, com diferentes classes ou
sectores sociais no poder, mas duas fases dialecticamente articuladas, nas
quais a participação no poder sócio-político e o
controlo da gestão pelas classes trabalhadoras e seus aliados, nos mais
diversos níveis, seria progressivamente estabelecido
desde o princípio,
impedindo uma cristalização tecno-burocrática e
garantindo assim melhores possibilidades de transição da fase
nacional-popular para a fase socialista.
A Venezuela bolivariana
A génese da Venezuela bolivariana vem demonstrar, mais uma vez, a
falência das fórmulas esquemáticas e a-históricas de
conquista do poder político pelas massas populares. Nesse país,
um conjunto de pequenos partidos políticos e movimentos sociais
progressistas apoiou a candidatura à presidência de um oficial
patriótico que tinha sido afastado das forças armadas devido a
uma anterior tentativa de rebelião militar contra o
status quo
de corrupção e submissão da nação aos
ditames dos EUA. Contra as expectativas gerais dos observadores, contra a
campanha dos grandes "media", Hugo Chavez é eleito presidente
da república. Esta vaga de fundo vitoriosa mostra que em certas
situações históricas objectivas, onde a pobreza e a
miséria são massivas, onde a ausência de perspectivas mais
elementares é uma realidade que afecta, nesse caso, mais de 70% da
população, onde a riqueza de uma oligarquia ligada ao
imperialismo, a humilhação nacional e a corrupção
do aparelho de Estado são patentes, é possível (desde que
exista um factor subjectivo determinado e mobilizador) atenuar a
influência dos "media" e relativizar o peso da ideologia
dominante, abrindo caminho para o esclarecimento das grandes massas populares.
Não nos olvidemos porém de uma outra realidade histórica:
o Estado e suas instituições, nas vastas periferias, não
possui a mesma solidez político/institucional nem está
profundamente sedimentado na consciência das populações
como ocorre nos países centrais e pioneiros do capitalismo. O Estado na
periferia não é historicamente uma instituição
endógena, enraizada, mas uma instituição que surgiu
artificialmente, através do colonialismo e sua extensão
neocolonial e imperialista, isto é, como instrumento de opressão
e discriminação das maiorias. Não possui no subconsciente
colectivo a mesma legitimidade que adquiriu nos países centrais e o seu
enraizamento é superficial. Esta é uma das razões
estruturais que tornou possível, e de certa forma natural, que a maioria
da população elegesse para presidente um homem que tinha estado
em prisão por tentativa de derrube das instituições
oficiais. Tal situação jamais ocorreria num país central.
A partir dessa vitória, sabemos o caminho efectuado pelo povo
venezuelano e seus dirigentes, percorrendo a fase transitória
nacional-popular e já lançando sobre a mesa as tarefas da
construção socialista, a começar pelo programa de
nacionalizações das empresas estratégicas. Naturalmente,
os espíritos mecanicistas que tendem a ver no marxismo um
receituário e não uma concepção e um método
dialéctico/revolucionário sempre em devir, não
compreenderão esta forma de conquista do poder, sem um partido
revolucionário estruturado e tendo como principal dirigente um
ex-oficial das forças armadas burguesas. Já dizia, porém,
António Gramsci, criticando as concepções
escolásticas, que "a realidade é rica de
combinações as mais bizarras e é o teórico
revolucionário que deve encontrar nessa bizarria a prova da sua teoria,
traduzir em linguagem teórica os elementos da vida da história.
Não é a realidade que deve apresentar-se segundo o esquema
abstracto".
[3]
Desde a fase da revolução nacional-popular até iniciar a
caminhada para o socialismo, a direcção bolivariana foi
lançando os marcos da democracia popular participativa e
co-gestionária que deverá assegurar a implantação
da nova sociedade, apesar das grandes dificuldades que encontrou e que ainda
encontrará no seu caminho. A constituição bolivariana, no
seu artigo 70, trata do planeamento democrático e da
orçamentação participativa a todos os níveis da
sociedade e refere a co-gestão, a auto-gestão e as cooperativas
diversas como exemplos de formas de associação guiadas pelos
valores da cooperação mútua e da solidariedade. Aí
estão as sementes da economia solidária, do socialismo.
Os conselhos comunitários (baseados nos bairros urbanos e em
áreas rurais) são estruturas fundamentais na perspectiva da
democracia popular. Estas instituições trabalham no sentido de
diagnosticar e gerir as prioridades das Comunidades, instituições
formadas a partir de critérios territoriais cujo número, segundo
cálculos aproximativos, poderá atingir 52 mil na Venezuela.
Recursos económicos municipais e estatais estão a ser
transferidos para as Comunidades, que também recebem apoio financeiro
aos seus projectos por parte dos novos bancos. As grandes decisões
são tomadas por uma assembleia geral dos órgãos
comunitários. Os conselhos comunitários elaboram uma base para a
actividade produtiva baseada nas necessidades comunitárias e nos seus
objectivos futuros. Criam assim o espaço e as condições
para o desenvolvimento dos sujeitos revolucionários que, coordenados a
nível regional e nacional, irão ajudar a moldar todo o processo
de exercício do poder territorial.
[4]
Estão a ser progressivamente implantadas, nas empresas do sector
público, as organizações de trabalhadores com
funções de controlo social e co-gestão, constituindo-se em
futuras garantias contra os riscos de desvios, abusos e
corrupção. Deverão ser coordenadas a nível de toda
a vida económica nacional, de forma a que as classes trabalhadoras
assumam níveis cada vez mais elevados de exercício do poder.
Por outro lado, as forças armadas têm sido reestruturadas e
depuradas dos oficiais ligados directa ou indirectamente ao golpe
oligárquico (violência e contra-violência dentro do
processo) e à submissão ao imperialismo norte-americano. Da mesma
forma, elas têm recebido uma nova formação
ideológica e exercido funções práticas, vinculadas
aos interesses populares, de forma a tornarem-se um instrumento coerente do
processo revolucionário.
E,
last but not least,
a formação em curso de um grande partido de massas, o Partido
Socialista Unido da Venezuela (que obviamente não será um
processo linear) é um passo fundamental na consolidação da
via revolucionária.
No geral, trata-se de um caminho ainda longo por percorrer, mas a vontade
política existe, desde a direcção revolucionária
até as massas trabalhadoras do campo e da cidade. Um longo aprendizado,
com avanços e recuos, tem ainda que ser percorrido pelo povo de um
país que, após séculos de colonialismo, foi submetido
à hemorragia de recursos materiais e humanos por cerca de 100 anos de
imperialismo norte-americano.
Finalmente, haveria que dizer que a Venezuela bolivariana encontrou uma
resposta criativa para o dilema histórico: construção do
socialismo num só país ou aposta prioritária na
revolução de outros povos por forma a sair do isolamento. A
revolução bolivariana responde conjugando os esforços para
a construção do socialismo no seu país, onde já foi
possível a conquista do poder, com um solidário apoio e
estímulo regional aos povos vizinhos e aos governos progressistas que
estejam abertos a alianças e à integração regional
construtiva e independente do imperialismo norte-americano. Trata-se aqui de
estimular uma transformação nacional-popular anti-imperialista,
ao nível regional, em todo o continente. Ao mesmo tempo, procura
neutralizar diplomaticamente os governos que continuam, no essencial, alinhados
por orientações neo-liberais.
Por outro lado, a direcção bolivariana procura tecer laços
de colaboração estratégica com países de outros
continentes, que procurem defender suas riquezas energéticas e seguir
uma linha de independência em relação aos interesses
imperialistas. Isto porque, no quadro do capitalismo globalizado em que
vivemos, a formação de frentes
politico-económico-culturais anti-imperialistas é um caminho
indispensável para alterar a correlação de forças
à escala geo-estratégica, criando melhores
condições para a emergência de processos de
emancipação dos povos. Nestas frentes anti-imperialistas
estarão incluídos governos (como o do Irão actual) cuja
configuração política poderíamos qualificar como de
"bonapartismos nacionalistas".Trata-se de direcções
políticas constituídas por personalidades que, em momentos
particularmente críticos da história dos seus países,
conseguem ascender ao poder mantendo uma relativa autonomia em
relação à classe burguesa, (dominante no plano
económico mas debilitada politicamente), e às demais classes e
segmentos sociais, imprimindo à política estatal uma
orientação anti-imperialista, voltada para a defesa das riquezas
nacionais e para o desenvolvimento económico, nomeadamente
através de sectores estatizados.
No que respeita ainda à Venezuela bolivariana, podemos seguramente dizer
que a extraordinária riqueza energética que jaz no seu subsolo, a
fertilidade das suas terras e a criatividade do seu povo são trunfos
seguros que pavimentam a sua via em direcção ao socialismo.
Conclusão
De certa forma, no que se refere ao rumo das lutas emancipatórias dos
povos, iniciamos o novo século de maneira semelhante àquela com
que havíamos iniciado o século XX. Ou seja, num mundo configurado
e dominado pelo imperialismo central, é nas vastas regiões
periféricas deste sistema-mundo, onde o enraizamento das
instituições da "democracia burguesa" é
superficial e onde a situação social das massas populares
é frequentemente dramática, que tendem a emergir formas de
contestação radicalizadas levando no bojo a potencialidade de
rupturas anti-sistémicas. Tal não se produz obviamente de forma
constante e linear, mas passando por períodos prolongados onde a
sensibilidade das massas oscila entre a passividade e a radicalidade
incoerente. Toda a questão reside na emergência do factor
subjectivo/organizativo impulsionado por lideranças adequadas a cada
momento histórico. O desenvolvimento e generalização das
lutas periféricas criará uma situação que
obrigará os países imperialistas a intensificar, mais ainda, a
espoliação das suas massas trabalhadoras. Isto irá gerar,
através de processos complexos, condições para a
superação do reformismo e da ideologia eurocêntrica no seio
das massas trabalhadoras dos países centrais, abrindo caminhos de
criatividade renovada e para processos de luta anti-sistémicos.
Durante a década de 80 e até fins da década de 90 do
século XX, as teorias do "fim da história" colhiam
alguma verosimilhança nos espíritos mais impressionáveis.
A globalização neo-liberal assemelhava-se a um rolo compressor
triunfante e o potencial militar do imperialismo norte-americano parecia
invencível e capaz de bloquear qualquer tentativa séria de
resistência. No entanto, aqui e ali, foram emergindo focos de
contestação que, no virar do século, se alargaram. A crise
económico-financeira de 1997/98, que varreu os "4 tigres
asiáticos" (apresentados como exemplos de sucesso do seguidismo
à outrance
das receitas neo-liberais) começava já a toldar seriamente o
horizonte. Entretanto, como referimos, vários focos de luta surgiram e
outros intensificaram-se, desde as lutas de Chiapas, no México e do
Movimento Sem Terra, no Brasil, até à greve geral dos
ferroviários franceses em defesa do serviço público,
conduzida pelos sindicatos e apoiada por partidos da esquerda coerente. Antes
do fim do século, Chavez chega ao poder na Venezuela; os movimentos
sociais agrupam-se e desencadeiam uma série de importantes
manifestações anti-globalização e fóruns
sociais. O novo século começou já sob o signo de
resistências multifacetadas. A estagnação económica
permanente do sistema, o desemprego massivo, a especulação
financeira autofágica e o tremendo défice da balança
comercial norte-americana são realidades incontornáveis.
Hoje encontramo-nos numa situação em que se vai esgotando
progressivamente a mensagem euforicamente optimista dos grandes
"media" a propósito das "imensas oportunidades"
criadas pela globalização neo-liberal e vai se instalando, ainda
confusamente, na consciência de amplas massas, inclusive no seio dos
trabalhadores dos países centrais, a ideia do fracasso da
globalização capitalista como paradigma capaz de trazer
perspectivas favoráveis às suas vidas. Ao invés disso, o
que transparece cada vez mais é a percepção de que a
globalização liberal veio trazer muito mais constrangimentos e
uma vida muito mais precária e insegura do que os benefícios
anunciados. Por outro lado, a sucessão de guerras de hegemonia e de
pilhagem energética, desencadeadas com pretextos cada vez mais
insustentáveis, pelo Estado norte-americano, veio colocar os povos
diante da realidade de que vivemos num mundo muito mais perigoso do que aquele
que existia durante a chamada "guerra fria".
Ao contrário do que previam os medíocres papagaios do
Pentágono instalados nos "mass media" de diversos
países, o imperialismo norte-americano e seus aliados estão a
fracassar rotundamente na sua tentativa de superar as suas gravíssimas
dificuldades económicas através do assalto às reservas
energéticas do planeta, situadas, em grande parte, nas regiões do
Médio Oriente e da Ásia Central. A tremenda resistência
às tropas invasoras oposta pelos povos árabes e muçulmanos
no Iraque, na Palestina, no Líbano e em outras regiões, mostra
mais uma vez que, num mundo articulado economicamente pelo imperialismo, toda
resistência de cariz nacional-popular é, objectiva e
tendencialmente, uma luta de classes dirigida contra as burguesias
imperialistas, nesse caso, frustrando o seu projecto de assenhorar-se de grande
parte das reservas energéticas em petróleo e gás natural
do planeta. Por mais que os grandes "media" mundiais procurem
disfarçar a derrota e justificar novas escaladas, a realidade, que vai
se tornando cada vez mais transparente, é o impasse
político/militar e a colossal hemorragia económico/financeira a
que conduziram a série de intervenções imperialistas dos
últimos 6 anos. A um tal ponto que os aliados europeus já
começaram a retirar as suas tropas e seu pessoal de apoio. Sem a
resistência inflexível das massas populares destas regiões
do mundo esta derrota e este impasse geo-estratégico não seriam
possíveis.
Na realidade, a questão de fundo é que a colossal capacidade de
destruição das forças armadas americanas não
implica, nem de perto nem de longe, capacidade de ocupação e de
gestão dos territórios ambicionados para a pilhagem
estratégica. Ora, esta situação não resolve de
forma alguma o problema do imperialismo, que, tal como um lobo faminto,
não tem interesse na destruição total do
"rebanho" (seria suicídio), mas sim em que este seja
controlado e se reproduza, para que possa ir devorando as suas unidades uma a
uma.
Após o desabar da União Soviética, o imperialismo
norte-americano julgou abertas as vias para o controlo do mundo como uma
armação de ferro ao abrigo da qual se implantaria duravelmente a
globalização do capitalismo articulada à volta das 500
maiores corporações transnacionais e dirigida pelas suas
instituições financeiras internacionais.
Mas o projecto é irrealizável. O mundo é demasiado vasto e
demasiado complexo para ser controlado. Os Estados Unidos não possuem os
meios para tal. A ambição de desagregar o sistema de
Estados-nação (preservando apenas o punhado de
Estados-nação imperialistas) revelou-se uma tarefa
impossível. Nas mais diversas regiões do mundo vão se
intensificando resistências nacionalistas de Estados importantes, que
vêm seus interesses ameaçados e não abdicam de os defender,
independentemente do sistema social vigente. Por outro lado, há que
notar que um monopólio imperialista sobre o armamento e sobre as
tecnologias armamentistas é já impossível. Quanto à
pretensão norte-americana de impor oligarquias vassalas e submissas em
todos os países do mundo, a realidade vem demonstrando ser este um
desiderato irrealizável; nem tão pouco as massas populares o
aceitariam duravelmente.
Ao contrário do império romano, que, no seu período
inicial de expansão,
desfrutando de vitalidade económica, podia oferecer aos povos
conquistados uma certa melhoria dos seus padrões de vida e de
segurança em troca da submissão (o que favoreceu a vontade de
romanização), o imperialismo americano, em fase de
declínio e necessitando intensificar a espoliação, nada
mais tem a oferecer aos povos que não seja a sua
globalização do desemprego e da precariedade, da pobreza, do caos
e da humilhação nacional. Este é o verdadeiro e decisivo
quadro de fundo estrutural que balizará o futuro, cujos caminhos
antagónicos se denominam socialismo ou barbárie.
NOTAS
(1) Samir Amin, 'Classe e Nação na História e na Crise
Contemporânea', Moraes, Lisboa, 1981.
(2) Darcy Ribeiro, 'O Processo Civilizatório', Círculo do Livro,
São Paulo, 1978.
(3) António Gramsci, 'Passato e presente'.
(4) Michael Lebowitz, 'Venezuela: o caminho para além da
sobrevivência', tornar a economia social uma alternativa concreta' em
http://www.resistir.info/venezuela/lebowitz_10ago06_p.html
.
[*]
Ensaísta de origem brasileira, residente em Portugal desde 1975.
Mestrado em Sociologia na Universidade de Paris-Nanterre e o doutoramento de
3º ciclo em "Economia e Sociedade" na Universidade de Paris-VIII
(Vincennes). Foi professor na área de História e Ciências
Sociais na Universidade do Minho. Autor de 'A Questão do Estado na
Revolução Portuguesa' (Livros
Horizonte, 1983) e 'Marxismo e Globalização' (Campo das Letras,
2002).
O original encontra-se em
http://www.ocomuneiro.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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